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Ano: 2001  Vol. 5   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Achados Vestibulares em Portadores de Zumbido.
Author(s):
Carla Aparecida Simões Orfão*, Laís Vieira Bonaldi**, Marisa de Lemos***, Silvia Lavor Floriano****.
Palavras-chave:
zumbido, audição, vertigem
Resumo:

Introdução: O zumbido é um sintoma que acomete grande parte da população, podendo apresentar inúmeras causas, associadas ou não a outras alterações otológicas. Entre as causas, pode-se destacar uma lesão primária vestibular central ou periférica. Objetivo: Este trabalho teve por objetivo a avaliação da função labiríntica em portadores de zumbido sem queixas e/ou sintomas relacionados ao equilíbrio. Material e método: Para isso, foram avaliados 22 pacientes com queixa principal de zumbido e sem queixa de tontura. Após avaliação médica e audiológica de rotina, todos os pacientes foram submetidos a exame otoneurológico. Resultados: Mesmo na ausência de sintomas vestibulares, a prova calórica mostrou-se alterada em 10 (45,4%) dos 22 pacientes, sugerindo a presença de vestibulopatia de origem periférica do tipo irritativa em 8 casos e deficitária em 2 casos. Conclusões: O zumbido pode ser a primeira manifestação de uma doença labiríntica, sendo o exame vestibular um importante instrumento no seu diagnóstico precoce.

Introdução

O zumbido é considerado uma percepção de som sem que haja sua presença no meio ambiente1-5. Consiste de uma sensação definida como ilusória, que pode ser caracterizada como barulho semelhante ao ruído da chuva, do mar, de água corrente, de sinos, insetos, apitos, chiado, campainha, pulsação e outros. Esta sensação pode ser contínua ou intermitente, apresentar diferentes características tonais, ser intensa ou suave, além de ser percebida nos ouvidos ou na cabeça2-4,6.

Considerado um dos piores problemas que podem afetar o ser humano, é um sintoma que acomete grande parte da população, em todas as faixas etárias, interferindo diretamente na qualidade de vida, pois repercute no psiquismo do indivíduo, podendo em casos extremos induzí-lo ao suicídio3-10.

Trata-se de uma alteração funcional, cujas causas são extremamente variáveis e nem sempre aparentes, podendo estar relacionadas a diversas doenças em diferentes locais do organismo. Entre as causas mais comuns destaca-se a exposição súbita ou prolongada a sons intensos e o uso de determinados medicamentos3,4,8,9,11,12.

Aparentemente, a origem do zumbido permanece em discussão, supondo-se que seja gerado pelo aumento da atividade neuronal espontânea ao longo das vias auditivas, muitas vezes associada a lesões da orelha interna e do nervo vestibulococlear. Além disso, pode haver uma interação dinâmica entre várias regiões do sistema nervoso central, incluindo-se as vias auditivas e outras não auditivas, como o sistema límbico e o sistema nervoso autônomo1,3,4,6,10,11,13,14. Supõe-se também que possa haver uma interação entre os núcleos cocleares e a região ponto-cerebelar, importante para o controle de movimentos dos olhos, incluindo-se áreas que participam da integração neural na ponte, cerebelo e núcleos vestibulares15.

Uma somatória de causas simultâneas ou seqüenciais leva à presença do zumbido, tais como trauma acústico, perda auditiva, drogas ototóxicas, problemas vasculares ou metabólicos, tumores, doença de Menière e fístula perilinfática, entre outros1-4,6-9,11,13. Dentre estas, considera-se que 90% das ocorrências sejam originadas por alterações da orelha interna14. Portanto, é necessário investigar as várias possibilidades etiológicas para direcionar o tratamento adequado, sendo importantes uma anamnese detalhada, exames laboratoriais, de imagem1-4 e o exame otoneurológico2-4,8,12,16.

A avaliação da função vestibular e a pesquisa dos potenciais auditivos evocados de tronco encefálico são importantes, pois não só o órgão periférico, mas também o sistema nervoso central (vias auditivas) podem apresentar alterações que influenciem a origem e evolução deste sintoma8,12. Segundo Shulman (1984)16, exames vestibulares realizados em portadores de zumbido sugerem que entre suas causas, pode-se destacar uma lesão primária vestibular. Assim, este exame pode ser útil na detecção de um envolvimento central ou periférico, estabelecendo o sítio da lesão e a correlação do zumbido com o sistema vestibulococlear16.

O presente estudo tem por objetivo a verificação do funcionamento labiríntico e suas possíveis alterações em pacientes portadores de zumbido sem queixas e/ou sintomas relacionados ao equilíbrio.

Material e Método

Foram avaliados 22 pacientes ambulatoriais do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital do Servidor Público Estadual /SP, com queixa principal de zumbido, independente da acuidade auditiva, porém sem queixas relacionadas ao equilíbrio. O tempo de história do zumbido variou de 3 meses a 15 anos. A faixa etária incluiu indivíduos entre 20 a 73 anos de idade, sendo 14 pertencentes ao sexo feminino e 8 ao sexo masculino.

Os pacientes foram previamente submetidos a anamnese e exame otoscópico, não sendo observadas alterações evidentes de orelha média. Em seguida foram realizadas a audiometria tonal, vocal e imitanciometria. A avaliação final constou do exame vestibular, constituído por: calibração, pesquisa de nistagmo espontâneo, nistagmo semi-espontâneo, rastreio pendular, nistagmo optocinético, nistagmo per rotatório e prova calórica.

Resultados

Os resultados foram divididos em três partes, que serão abordadas separadamente: I. Caracterização clínica do zumbido; II. Avaliação audiológica; III. Exame vestibular.

Caracterização do zumbido

O zumbido foi referido como grilo, chiado, borboleta, cigarra, apito, cachoeira, panela de pressão, chuveiro, ondas do mar, rádio sem sintonia, ventania, água no ouvido e ruído explosivo. Apenas 1 paciente apresentou zumbido múltiplo.

Quanto à localização, variou entre unilateral (16 casos), bilateral (3 casos) ou na cabeça, sem localização específica (3 casos). Quando questionados quanto às características de freqüência, 8 pacientes referiram o zumbido como grave, 10 como agudo e apenas em 4 casos não houve definição. Em termos de intensidade, 11 casos o referiram como forte, 8 como moderado e 3 como fraco. Quando questionados sobre a constância do zumbido, 19 pacientes relataram que o zumbido era constante e 3 que era intermitente. Quanto ao período de maior incidência, 18 casos o percebiam por período integral, 1 no período da manhã, 1 à tarde e 2 à noite.

Os sintomas associados foram: cefaléia intensa, alterações na coluna, hipertensão, hipotensão, problemas cardíacos, alteração psíquica, problemas respiratórios, alterações metabólicas e menopausa.

Avaliação audiológica

Dos 22 pacientes, apenas 6 casos (27,2%) encontravam-se com os limiares auditivos normais bilateralmente, enquanto 13 casos apresentavam perda auditiva neurossensorial de grau leve a severo bilateral e 3 unilateral.

Deste total de 29 orelhas com perda auditiva neurossensorial, 26 apresentavam a queixa de zumbido, seja na orelha direita (10), esquerda (10) em ambos ouvidos (2) ou na cabeça sem localização específica (4).

A correlação da perda auditiva (uni ou bilateral) com o zumbido foi positiva em 29 das 44 orelhas estudadas (Tabela 1).

Exame Vestibular

Os pacientes foram submetidos a calibração, pesquisa de nistagmo espontâneo (com olho aberto e fechado), semi-espontâneo (com olho aberto), rastreio pendular, nistagmo optocinético, nistagmo per rotatório (canais laterais, superiores e posteriores) e prova calórica com água quente e fria (44 e 30º C).

Foram observadas alterações apenas na prova calórica em 10 (45,4%) dos 22 pacientes. Destes, 8 apresentavam síndrome vestibular periférica do tipo irritativa (36,3%) e 2 do tipo deficitária (9,1%). Não foram observados achados de comprometimento central em nenhum paciente.

Discussão

A percepção subjetiva do zumbido em nossa amostra denotou grande variabilidade, confirmando dados anteriores2-4,6. A localização predominantemente unilateral também concorda com as referências prévias2-4,6.

Para vários autores, o zumbido acomete todas as faixas etárias 3-5,7-10 e pode estar associado a outros sintomas1-4,6-9,11,13, o que pôde ser confirmado através da extensa faixa etária observada em nosso trabalho (20 a 73 anos) e presença de sintomas associados, destacando-se um caso isolado com referência a suicídio.

A correlação positiva da perda auditiva (uni ou bilateral) com o zumbido pode ser justificada se considerarmos que a perda auditiva é o fator desencadeante do zumbido, uma vez que danos ou degenerações da orelha interna e do nervo vestibulococlear podem ser geradores deste1,3-7,10-14.

Supõe-se que a avaliação da função vestibular pode detectar alterações importantes que justifiquem a origem e evolução do zumbido16. Então, o exame vestibular poderia sugerir a presença de uma lesão vestibular primária responsável pelo zumbido, ou, ainda, se o envolvimento é central ou periférico12. As alterações vestibulares observadas neste estudo restringiram-se à prova calórica, destacando-se achados de síndrome vestibular periférica irritativa. Relacionando-se as alterações do exame vestibular à avaliação audiológica, notou-se prevalência de perda auditiva tanto entre os indivíduos com exame vestibular normal como entre aqueles com exame vestibular alterado. Entretanto, este dado deve ser interpretado com cautela devido à preponderância de perda auditiva em nossa amostra global.

Entre o total de 16 casos que apresentavam perda auditiva, 8 apresentaram exame vestibular alterado e sugestivo de síndrome vestibular periférica do tipo irritativa. Destes, 4 apresentaram zumbido na orelha direita, 1 na orelha esquerda, 2 em ambas orelhas e 1 na cabeça sem localização específica (Tabela 2).

Portanto, foi observada correlação positiva entre achados audiológicos, vestibulares e zumbido (Tabela 3), em especial, entre perdas auditivas e síndromes vestibulares irritativas. Perdas auditivas apresentaram uma relação mais evidente com a presença de zumbido do que alterações vestibulares. Entretanto, achados vestibulares de patologias periféricas também foram associados à presença deste, mesmo na ausência de sintomas.

O zumbido pode ser a primeira manifestação de um processo patológico labiríntico, estando presente antes da provável instalação de sintomas vestibulares e/ou auditivos. Uma vez que o prognóstico depende de um diagnóstico preciso e tratamento adequado, o exame vestibular é relevante, pois auxilia no diagnóstico precoce de alterações vestibulares, podendo influenciar diretamente na melhora do zumbido.

Conclusões

Pacientes com zumbido, porém assintomáticos em relação ao equilíbrio, apresentaram alterações ao exame otoneurológico em 45,4% dos casos, havendo predomínio de alterações sugestivas de síndrome vestibular periférica irritativa.

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16. SHULMAN, A. Vestibular test battery correlates and tinnitus in proceedings of the II International Tinnitus Seminar. J Laryngol Otol, 9: 181-83, 1984.

TABELA 1. Relação entre os achados audiológicos e a presença do zumbido na orelha direita (OD), esquerda (OE) ou na cabeça.

Zumbido Perda auditiva Audição normal
OD OE OD + OE
OD 1 0 10 7
OE 0 1 10 3
OD + OE 0 1 2 3
Cabeça 0 0 4 2
Total 1 2 26 15


TABELA 2. Relação entre os achados vestibulares e a presença do zumbido na orelha direita (OD)m, esquerda (OE) ou na cabeça.

Zumbido Síndrome vestibular Exame vestibular
periférica normal
Deficitária Irritativa
OD 1 4 4
OE 1 1 5
OD + OE 0 2 1
Cabeça 0 1 2
Total 2 8 12


TABELA 3. Achados vestibulares e audiológicos em portadores de zumbido
Síndrome vestibular Exame vestibular Total
periférica normal
Deficitária Irritativa
Perda 1 7 8 16
auditiva
Audição 1 1 4 6
normal
Total 2 8 12 22


* Fonoaudióloga, Mestranda em Ciências Otorrinolaringológicas - UNIFESP/EPM.
** Fonoaudióloga, Doutoranda em Morfologia - UNIFESP/EPM.
*** Fonoaudióloga, Doutoranda em Ciências Otorrinolaringológicas - UNIFESP/EPM.
**** Otorrinolaringologista, Encarregada do Setor de Otoneurologia do HSPE-SP.
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