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Ano: 2006  Vol. 10   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Estudo da Relação entre a Oclusão Dentária e a Deglutição no Respirador Oral
Study of the Relationship Between the Dentition and the Swallowing of Mouth Breathers
Author(s):
Catiane Maçaira de Lemos1, Paula Andreya de Souza Junqueira2, Maria Valéria S. Goffi Gomez3, Maria Estela Justamante de Faria4, Silmara de Cássia Basso5
Palavras-chave:
Respiração bucal. Deglutição. Oclusão dentária.
Resumo:

Introdução: A respiração oral pode acarretar alterações estruturais e funcionais do sistema estomatognático. Dentre estas funções, a anormalidade da deglutição está freqüentemente associada à presença de maloclusão dentária, principalmente à mordida aberta anterior. Entretanto, sabe-se que no respirador oral, a postura de boca aberta, a flacidez labial e a postura alterada da língua, são mudanças morfológicas que podem levar à deglutição atípica, independente das condições de oclusão. Objetivo: Verificar a influência da mordida aberta anterior no padrão de deglutição do respirador oral. Método: Foram analisados 72 prontuários de pacientes com idade entre 5 e 12 anos atendidos no Ambulatório de Fonoaudiologia da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Todos os pacientes apresentavam diagnóstico otorrinolaringológico de obstrução nasal por hipertrofia adenoamigdaliana e modo oral de respiração. Resultados: Foi encontrado um número significativamente maior de crianças com padrão alterado de deglutição. Com relação à associação entre a presença de deglutição atípica e mordida aberta anterior, esta se mostrou estatisticamente significante apenas no grupo de crianças com idade entre 5 e 7 anos. Conclusão: Foi encontrada relação entre a respiração oral e a deglutição atípica independente da maloclusão dentária.

INTRODUÇÃO

A respiração oral pode acarretar alterações estruturais e funcionais do sistema estomatognático. Tendo em vista a necessidade de diversos profissionais no tratamento destas alterações, atendimentos e estudos multidisciplinares estão cada vez mais evidenciados.
A respiração adequada deveria ser realizada pelo nariz, já que este é responsável por umidificar, aquecer e lubrificar o ar inspirado, além de proteger as vias aéreas inferiores.
No entanto, muitas vezes encontramos indivíduos que fazem uso do modo oral ou misto de respiração, seja por hábito vicioso ou por alterações orgânicas como hipertrofia de adenóides, problemas alérgicos, desvio de septo e pirâmide nasal, entre outras.
A presença de uma corrente aérea oral leva à alteração de estruturas estomatognáticas tidas como base comum de diversas funções, como a mastigação, a deglutição, a articulação das palavras e do desenvolvimento de estruturas odontoestomatológicas (1). Sendo assim, no respirador oral, a maloclusão dentária, a postura de boca aberta, a hipotonia labial e a postura alterada da língua são mudanças morfológicas que podem levar à anormalidade da deglutição (2).
Sabe-se que o crescimento, o desenvolvimento e a função das estruturas ósseas da cavidade oral estão intimamente ligados ao complexo muscular bucofacial, sendo necessária uma harmonia entre eles para que haja uma boa oclusão, pois os dentes irão irromper em um ambiente dinâmico, em que participam os músculos da face, da mastigação e da língua (3).
A mordida aberta anterior, maloclusão identificada pela presença de um trespasse vertical negativo entre as bordas incisais dos dentes anteriores superiores e inferiores, tem sua etiologia muitas vezes relacionada a uma desarmonia miofuncional orofacial pela ação prolongada de hábitos deletérios. Este tipo de maloclusão está freqüentemente associado à causa da deglutição atípica, visto que a presença deste trespasse facilitaria a projeção anterior da língua entre os dentes durante o ato de deglutir (4).
Algumas pesquisas analisaram a relação existente entre a presença de má oclusão e a deglutição atípica (5-8).
Em relação ao respirador oral, a literatura é concordante quando se refere às alterações de oclusão e do padrão de deglutição encontradas neste grupo de pacientes (9-11), entretanto, não foram encontrados estudos que esclarecem a influência das alterações oclusais no padrão de deglutição do respirador oral.
Diante de tais relações, o presente estudo tem como objetivo verificar a influência da mordida aberta anterior no padrão de deglutição do respirador oral.


CASUÍSTICA E MÉTODO

A Comissão de Ética para Análise de Projetos - CAPPesq da Diretoria Clínica do HC-FMUSP aprovou o Protocolo de Pesquisa 467/00 referente ao presente estudo.
Foi realizada pesquisa retrospectiva dos dados de pacientes submetidos à Avaliação Fonoaudiológica no Ambulatório de Motricidade Oral do HCFMUSP. O procedimento utilizado constou da coleta de dados presentes na ficha de avaliação fonoaudiológica de cada paciente referentes ao padrão respiratório, oclusão dentária e padrão de deglutição.
Todos os indivíduos selecionados apresentavam diagnóstico otorrinolaringológico de obstrução nasal por hipertrofia adenoamigdaliana e modo oral de respiração.
Foram analisadas as fichas de 72 pacientes, de ambos os sexos, na faixa etária de 5 a 13 anos. Estes foram divididos em quatro grupos: G1 - 17 pacientes portadores de mordida aberta anterior com idade entre 5 e 7 anos; G2 - 17 pacientes com oclusão dentária normal, pareados aos pacientes do G1 por sexo e idade; G3 - 19 pacientes portadores de mordida aberta anterior com idade entre 8 e 12 anos e G4 - 19 pacientes com oclusão dentária normal, pareados aos pacientes do G3 por sexo e idade.
A classificação da oclusão dentária dos pacientes foi realizada por um ortodontista através de fotos de cada paciente obtidas no momento da avaliação fonoaudiológica. Foram utilizados os seguintes critérios para a classificação (4,12).
Normoclusão: quando no plano sagital, mediano, eixo ântero - posterior, a cúspide mésio - vestibular do primeiro molar está em oclusão com o sulco mésio - vestibular do primeiro molar inferior; no plano transversal, eixo latero - lateral, quando os dentes superiores se sobressaem aos inferiores e mantém contato com os vizinhos do mesmo arco e com os seus antagonistas e no plano frontal, eixo superior - inferior, quando os dentes superiores cobrem até 1/3 da coroa dos dentes inferiores (12).
Mordida Aberta Anterior: quando no plano frontal, eixo superior - inferior, pode-se observar a existência de espaço entre os dentes anteriores, superiores e inferiores, estando os dentes posteriores em oclusão (4).



O dados referentes à classificação do padrão de deglutição foram retirados da ficha de avaliação fonoaudiológica de cada paciente. Estas avaliações são realizadas por fonoaudiólogas do setor de Motricidade Oral do HCFMUSP e são utilizados os seguintes critérios para a classificação do padrão de deglutição:

Deglutição normal: vedamento labial e posicionamento de ponta de língua na papila (3);
Deglutição Atípica: pressionamento atípico dos lábios, pressionamento da língua contra os dentes anteriores ou entre as arcadas anteriores e movimentos compensatórios de cabeça (13).
Não foram incluídos na amostra deste estudo indivíduos com alterações genéticas ou portadores de malfor¬mações faciais e também não foram incluídos indivíduos que estavam realizando ou já haviam realizado terapia fonoaudiológica e/ou tratamento ortodôntico.


MÉTODO ESTATÍSTICO

Para análise dos dados coletados neste estudo utilizou-se:
Teste de qui-quadrado: usado com a finalidade de comparar o padrão de deglutição com o tipo de oclusão. O p < 0,05 foi considerado estatisticamente significante.
Teste exato de Fisher (14): usado com a finalidade de comparar o padrão de deglutição com o tipo de oclusão entre as faixas etárias de 5 a 7 anos e 8 a 12 anos. O
p < 0,05 foi considerado estatisticamente significante.
Quando os resultados mostraram-se estatisticamente significante, foi utilizado um asterisco (*).


RESULTADOS

A Tabela 1 demonstra o padrão de deglutição dos pacientes com normoclusão - G1 e dos pacientes com mordida aberta anterior - G2. Observou-se diferença estatística entre os grupos 1 e 2 quanto a presença de deglutição atípica.





As Tabelas 2 e 3 demonstram os resultados quanto ao padrão de deglutição em cada faixa etária estudada. Foi observada diferença estatística entre a presença ou não de deglutição atípica apenas na faixa etária de 5 - 7 anos.


DISCUSSÃO

A idade na qual uma criança atinge o padrão maduro de deglutiçãoécontroversa na literatura, variando de 18 meses a 6 anos de idade (15,16). No presente estudo, somente uma pequena parte da casuística poderia encontrar-se em fase transicional, proposta por alguns autores, uma vez queécomposta por crianças de 5 a 12 anos.
No entanto, pesquisas realizadas com intuito de verificar a porcentagem de crianças que mantém um padrão de deglutição imatura após os 4 anos observam deglutição alterada em 3% a 48% das crianças estudadas (8, 18 - 20). Desta forma mesmo considerando que algumas de nossas crianças estejam em fase transicional de deglutição, nosso resultado de 81,9% de crianças com padrão alterado de deglutição, estámuito acima dos resultados encontrados nos estudos citados anteriormente.
Sendo assim, poderíamos dizer que háuma relação entre a respiração oral e a presença de deglutição atípica, uma vez que observamos um número significativamente maior de crianças com padrão alterado de deglutição. Estes dados confirmam os achados de NEIVA & WERTZNER (1996) e JUNQUEIRA et al. (2002) e discordam dos resultados encontrados por MATOS et al. (2002) (8).
Nosso estudo possibilitou a confirmação quantoàrelação entre a respiração oral e a deglutição atípica jálevantada em estudos anteriores, estudos estes que não esclarecem a influência das alterações oclusais no padrão de deglutição do respirador oral, uma vez que, hátambém uma relação entre a respiração oral e a mordida aberta anterior e desta com a deglutição atípica (15, 6, 7, 9, 21, 11).
De acordo com a literatura pesquisada, pudemos observar que crianças com mordida aberta anterior estão estatisticamente sujeitas a apresentar deglutição atípica, de acordo com os resultados encontrados por MORAES (1994); NEIVA & WERTZNER (1996) E WADSWORTH (1998). Apesar desta concordância, no presente estudo, a porcentagem de deglutição atípica encontrada em crianças com mordida aberta anterior (97,2%) foi maior que os achados da literatura compilada, reforçando, assim, a influência da respiração oral na presença da deglutição atípica.
MATOS et al. (2002), contrariamente ao nosso estudo, não relatam importância estatística na relação entre a mordida aberta anterior e a presença de deglutição atípica.
Devemos lembrar ainda que tal relação ocorreu de forma significante somente nas crianças com idade entre 5 e 7 anos. De acordo com GRANVILLE-GARCIA et al. (2000), poderíamos atribuir este resultado ao fator idade, uma vez que estas crianças teriam menos condições em compensar a presença do espaço intra oral anterior proporcionado pela mordida aberta.
Tendo em vista que não encontramos correlação estatisticamente significante entre deglutição atípica e mordida aberta anterior nos respiradores orais de 8 a 12 anos, poderíamos afirmar que o fato destas crianças deglutirem inadequadamente não depende somente da oclusão dentária, mas sim da postura de boca aberta que estas crianças adquirem para manter o fluxo aéreo e/ou pela presença de uma tonsila palatina hipertrofiada (2, 22-24).
Desta forma podemos dizer que a correlação entre respiração oral e deglutição atípica não estápresente somente devido a maloclusão dentária. Tal resultado pode ser confirmado ao compararmos a porcentagem de crianças com normoclusão e deglutição atípica (66,7%) aos resultados encontrados na literatura (5).


CONCLUSÃO

De acordo com a análise crítica dos resultados obtidos neste estudo, concluiu-se que há uma relação estatisticamente significante entre a respiração oral e a presença de deglutição atípica.
Apesar de o presente estudo confirmar a maior tendência das crianças com mordida aberta anterior a apresentar deglutição atípica, encontramos uma porcentagem muito maior do que a descrita na literatura compilada, concluindo assim, que a correlação entre a respiração oral e a deglutição atípica não está presente somente devido à maloclusão dentária.


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