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Ano: 1998  Vol. 2   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Onde a Otorrinolaringologia Poderia ter Influenciado nos Destinos do Mundo
Author(s):
Ricardo Ferreira Bento
Palavras-chave:
Corria o ano de 1887. O imperador alemão Guilherme I estava com 90 anos, e quem efetivamente dirigia o império alemão era Bismarck, o Reichkanzler (chanceler), controlado pela Prússia. O príncipe real Frederico, filho de Guilherme, com 55 anos, era casado com a Princesa Vitória ("Viki"), filha mais velha da Rainha Vitória, da Inglaterra. Frederico e Viki tinham um filho, Guilherme, de 30 anos de idade, que tinha o membro superior esquerdo paralisado, devido à uma lesão perinatal não diagnosticada. Guilherme era o neto favorito da toda poderosa Rainha Vitória da Inglaterra.

O Príncipe Frederico era democrático, opositor da guerra. Seus planos incluíam derrubar Bismarck para governar, de modo liberal, os 39 estados alemães, unidos pacificamente. Para a Princesa Viki, a Constituição Inglesa era perfeita e digna de ser adotada pelo mundo da época. Na Alemanha, a princesa era odiada e constante alvo de suspeitas, sendo pejorativamente chamada de "a inglesa".

Em janeiro, o Príncipe Frederico começou a apresentar disfonia, inicialmente atribuída a estado gripal. Inalações e gargarejos não foram eficientes, e seu médico, Dr. Wegner, convocou o Professor Gerhardt, famoso laringologista de Berlim. Ao visualizar um nódulo hiperemiado na corda vocal esquerda, durante laringoscopia indireta, o Professor tentou retirá-lo com um laço de arame, porém não conseguiu. Outra tentativa frustada foi feita com bisturi. Conseguiu finalmente cauterizá-lo com cautério elétrico, porém a ferida aumentava, mesmo após cauterizações semanais. As cordas vocais estavam móveis, o que, na época, era sinal que excluía malignidade da lesão. O Príncipe foi orientado a ter 15 dias de repouso nas montanhas.

A disfonia piorou. Em maio, o Professor Gerhardt resolveu chamar um cirurgião (Prof. von Bergmann) para "fazer o corte". Naquela época, chamava-se um cirurgião, como hoje se chama um "encanador", quando não se resolve o vazamento em casa. A operação foi marcada com o maior sigilo (vejam onde nossos políticos de hoje se inspiraram...). Foi montado um "hospital", no palácio imperial Neue Palis, em Potsdam, que nem banheiro tinha.

Neste meio tempo, o chanceler Bismarck ficou furioso ao descobrir que tudo estava acontecendo sem seu conhecimento e, para melhor se inteirar do assunto, enviou o Professor Tobold e outros médicos do exército para acompanhar o procedimento.

Quando a Rainha Vitória recebeu uma carta da princesa Viki, consultou seu médico particular, Dr. James Reid, que imediatamente indicou o mais que celebrado otorrinolaringologista, Dr. Morrell Mackenzie, de Londres, para a cirurgia. Imediatamente, o Dr. Mackenzie foi despachado para Potsdam, sob os auspícios da Rainha Vitória. O Dr. Mackenzie tinha a fama de ser o otorrinolaringologista mais famoso de Londres, porém seu Hospital da Garganta, ainda hoje existente na Golden Square, era visto com desprezo pelo Royal College of Surgeons da Inglaterra.

Com todo este clima, e dezenas de médicos presentes, o Dr. Mackenzie operou o Príncipe, sob anestesia com clorofórmio, no dia 21 de maio, retirando parte do tumor através de laringoscopia direta. O material foi enviado ao não menos famoso Prof. Virchow (patologista mundialmente conhecido, que descreveu inúmeras células, descobriu a leucemia e, contra todos na época, instalou esgotos em Berlim). Virchow examinou a peça e declarou que não se tratava de câncer. Assim, a programação da retirada total do tumor foi suspensa e o Dr. Mackenzie voltou para a Inglaterra. A Rainha Vitória convocou sua presença a Balmoral e o sagrou cavaleiro.




Em novembro, o Príncipe piorou bastante da disfonia, iniciando quadro de dispnéia. O Dr. Mackenzie foi convocado às pressas. O nódulo havia crescido muito e tomado a outra corda vocal. Perguntado pelo Príncipe sobre a possibilidade de ser câncer, o Dr. Mackenzie solenemente respondeu: "Sinto dizer que parece muito com um câncer, senhor" (em maio, ele havia retirado um fragmento de tecido normal para o Prof. Virchow examinar). A imprensa alemã impiedosamente atacava a princesa Viki por ter confiado o futuro imperador a um médico inglês.

Foi realizada, então, uma mesa redonda para discutir o caso, composta pelo Dr. Mackenzie e pelos Professores von Schrötter (Viena), Krause (Berlim) e Moritz Schmidt (Frankfurt), este último indicado pelo filho Guilherme, que resolveu encarregar-se diretamente de seu pai. Interrogados sobre o tempo de vida do Príncipe, o Dr. Mackenzie afirmou dezoito meses. Sobre o tempo da existência do tumor, o Dr. Krause afirmou 8 meses. Os médicos ofereceram duas soluções: a extirpação total de sua laringe, o que na época era quase assasinato, ou a traqueostomia paliativa, para aliviar a respiração. O próprio Príncipe escolheu a segunda opção.

A imprensa foi mantida afastada, porém a notícia, aos poucos, foi vazando (acredita-se que o próprio príncipe Guilherme o tenha feito para que o povo alemão clamasse pela lei sálica, que proibia a sucessão ao trono pela linhagem feminina, impedindo que a Alemanha fosse governada por uma inglesa e indiretamente, pela Rainha Vitória). Bismarck pressionou o Imperador a autorizar seu neto Guilherme a assinar documentos oficiais, planejando proclamá-lo regente, após a morte de seu avô.

A traqueostomia foi realizada em janeiro de 1888, pelo jovem Dr. Bramann, especialista em traqueostomia de crianças com difteria. Mackenzie emitiu uma declaração à revista médica Lancet de que a doença não era câncer. A imprensa alemã se enfureceu ao saber disso.

Em 9 de março de 1888, o velho imperador Guilherme I morreu e o afônico novo imperador Frederico III tomou o trem para Berlim. Sua situação clínica foi piorando, e o Dr. Mackenzie trocava a cânula de traqueostomia sempre com muita dificuldade até que, em um acesso de tosse, o Imperador expeliu sua própria traquéia pelo orifício, morrendo 93 dias após ter assumido o reinado. Guilherme II, o novo imperador, insistiu para que uma autópsia fosse feita, mesmo depois de sua mãe ter implorado para que o marido fosse poupado dessa desonra.

Mackenzie recebeu 12.000 libras de pagamento pelo tratamento, além do ódio da imprensa e do povo alemão. Foi acusado de ter deliberadamente escondido o diagnóstico, para tentar colocar a filha da rainha Vitória no trono. Os médicos alemães culparam Mackenzie por ter evitado a cirurgia no início do quadro, afirmando que o Imperador viveria muitos anos, se não fosse por isso. Muitas retaliações se sucederam e o Royal College of Physicians o fez renunciar.

Se tudo isso não tivesse ocorrido, talvez a democracia tivesse se estabelecido na Alemanha, sob o comando de Frederico III. Quem sabe a frota Britânica e o poderoso exército alemão tivessem policiado pacificamente o mundo...

Professor Associada da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
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