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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 3  - Jul/Set Print:
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Relação dos Sintomas Otológicos nas Disfunções Temporomandibulares
Relation of the Otological Symptoms in the Temporomandibular Dysfunctions
Author(s):
Ilza Maria Machado1, Paulo Roberto Pialarissi2, Thainá Decicco Minici3, Juliana Rotondi3, Léslie Piccolotto Ferreira4.
Palavras-chave:
transtornos da articulação temporomandibular, transtornos da audição, dor facial
Resumo:

Introdução: As disfunções da articulação temporomandibular (ATM) abrangem uma série de problemas clínicos que envolvem a musculatura mastigatória, a própria articulação e estruturas associadas à região da orelha. Objetivo: Analisar a relação entre disfunção temporomandibular e sintomas otológicos. Método: Fizeram parte do estudo retrospectivo 20 mulheres com média de idade de 22,38 anos. O estudo foi realizado por uma equipe multidisciplinar que envolveu médico otorrinolaringologista, fonoaudiólogas e ortodontista. As participantes foram submetidas ao preenchimento de um questionário que abordou questões sobre sintomas otológicos e posteriormente foram submetidas a um exame otoscópico e exame clínico da articulação temporomandibular. Resultados: 85% da amostra tiveram disfunção temporomandibular conjuntamente com queixas de sintomas otológicos. Os sintomas otológicos mais autorreferidos foram de plenitude auricular (50%), zumbido (35%) e vertigem (10%). Conclusão: Os resultados mostraram alto percentual entre as DTMs e sintomas otológicos. Outras pesquisas com uma amostra maior são sugeridas com o intuito de confirmar a correlação entre DTM e Sintomas otológicos.

INTRODUÇÃO

A articulação temporomandibular (ATM) é considerada uma das mais completas do ser humano, pois permite diversos movimentos, como: abertura, fechamento, protru¬são, retrusão e lateralidade da mandíbula (1). As disfunções temporomandibulares (DTMs) abrangem uma série de problemas clínicos que envolvem a musculatura mastigatória, a própria articulação e estruturas associadas (2, 3, 4, 5).

Estudos demonstram (6, 7, 8, 9) a não existência de um fator etiológico que se responsabilize pela DTM, sendo, portanto, uma doença de caráter multifatorial, que inclui fatores traumáticos, problemas degenerativos, hábitos nocivos, posição anormal do côndilo e do disco articular, atividades excessivas da musculatura mastigatória e variáveis psicossociais e psicológicas.

Cerca de 70 a 93% da população, em geral, apresenta pelo menos um sinal e/ou sintoma de DTM, mas apenas uma, em cada quatro pessoas, tem tal conhecimento (2, 10). Estudo realizado com o objetivo de verificar a sintomatologia das DTMs em 144 indivíduos (10) ressalta que somente 5 a 13%, com mais de um sinal e/ou sintoma de DTM, apresentam alteração clinicamente significativa, como dor ou graves disfunções.

As DTMs são caracterizadas por uma série de sinais e sintomas clínicos que se manifestam, como: dores musculares, cefaleia, estalidos na ATM, dificuldades em realizar movimentos mandibulares, limitação na amplitude dos movimentos mandibulares, especialmente com relação à abertura bucal (4, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18).

Esses sinais advêm de inflamações da área retrodiscal, uma vez que o disco articular encontra-se deslocado (6). A área retrodiscal ao sofrer tensão pode produzir inflamação que resulta em dor com característica contínua (19).

No que se refere aos sintomas otológicos relacionados às DTMs, os mais citados pela literatura (20, 21), são os de zumbido, otalgia, plenitude auricular, perda de audição e vertigem.

A associação das DTMs e a origem dos sintomas otológicos, ainda, não estão totalmente esclarecidas (4, 22, 24, 24). Existem algumas hipóteses sobre a relação entre sintomas otológicos e as DTMs. A primeira delas é a de que o mau posicionamento do côndilo da mandíbula poderia ocasionar sintomas de otalgia, zumbido e vertigem.

O zumbido em indivíduos com DTM pode ser decorrente de um sinal neural, induzido pelo nervo aurículo temporal ou por redução dos sinais sensórias (2). Este sintoma pode ser decorrente de outras alterações, como doenças da orelha interna ou sistema nervoso central (25).

Um caso repórter sobre trauma na ATM (26) menciona que o côndilo da mandíbula ao sofrer um deslocamento pode provocar um estiramento da cadeia ossicular e desencadear sintomas aurais.

Outra hipótese vai na direção de apontar que a ocorrência de hiperatividade nos músculos da mastigação pode contrair o músculo tensor do tímpano e a membrana timpânica, fato que resulta em uma disfunção tubário com sintomas de plenitude auricular, desequilíbrio e perda de audição (20, 24, 26, 27).

Este estudo, portanto, tem como objetivo analisar a relação entre disfunção temporomandibular e sintomas otológicos.


MÉTODO

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em pesquisa, sob o no. 04/803, e todos os participantes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

Participaram do estudo 20 alunas graduandas em Fonoaudiologia, com média de idade 22,38 anos, que previamente haviam realizado testes de audição, ou seja, audiometria tonal, logoaudiometria e imitanciometria.

Todas as participantes foram avaliadas por uma equipe multidisciplinar que incluiu médico otorrinolarin¬gologista, fonoaudiólogas e uma ortodontista. As participantes do estudo foram submetidas ao preenchimento de um questionário, entregue pelas fonoaudiólogas, que contou com questões relacionadas aos sintomas de DTM e otológicos, elaborado para esta pesquisa.

No laboratório de anatomia da própria universidade, foi realizado exame de otoscopia com o médico otorrinolarin¬gologista para verificar presença (quando presente fluido visível na orelha média, opacificação, retração e imobilidade de membrana timpânica na insuflação) ou ausência (íntegra, translúcida e com movimentação na insuflação) de alteração.

Foi realizado exame clínico da articulação temporo¬man¬dibular por ortodontista, que levantou dados referentes à presença de DTM. Verificou-se presença de dor na musculatura da mastigação, sinais clínicos de DTM (crepitação, estalido, desvio dos movimentos mandibulares) e presença de hábitos deletérios (bruxismo, apertar os dentes e onicofagia).

Para análise estatística foram considerados os seguintes dados: no questionário foi considerado sujeito com alteração otológica aquele que autorreferiu pelo menos um sintoma de otalgia, plenitude auricular, zumbido e vertigem: e na avaliação odontológica, a DTM foi definida pela presença de três ou mais sinais e/ou sintomas, sendo imprescindível o sintoma de dor.

Todos os dados foram digitados na planilha Excel e para medir o grau de relação entre sintomas otológicos e DTM foi utilizado o Teste Exato de Fisher, e o nível de significância adotado, de 5%.


RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta os dados levantados a partir da avaliação odontológica.

A Tabela 2 apresenta os dados levantados a partir do questionário e caracterizam os participantes quanto aos aspectos relacionados aos sintomas otológicos.

A Tabela 3 apresenta a descrição dos movimentos mandibulares e assimetria de face na avaliação da motricidade orofacial.

Na Tabela 3 foram explicitadas a relação e concordância entre os sintomas otológicos e DTM.












DISCUSSÃO

Este estudo buscou uma possível relação entre disfunção temporomandibular e sintomas otológicos. Foi constatado em 85% da amostra presença de dor acompanhado de dois ou mais sinais e/ou sintomas para DTM. As DTMs são caracterizadas por diversos sinais e sintomas que se manifestam na musculatura orofacial (2, 3, 4, 5), e região pré-auricular, próxima ao ouvido (21).

Os principais sinais e sintomas de DTM encontrados neste estudo foram: estalo (70%), desvio dos movimentos mandibulares (60%), dor de cabeça (60%) e dor sobre a ATM (60%). Estudo constatou-se, em indivíduos com DTM, presença de desvio da mandíbula e redução vertical dos movimentos mandibulares (18). Estes problemas podem ser desencadeados por fatores que envolvem a oclusão, posição anormal do côndilo da mandíbula, atividade excessiva da musculatura orofacial, hábitos parafuncionais e variáveis psicossociais e psicológicas (7).

Foi observado dor a palpação na musculatura da mastigação, principalmente, no músculo pterigóideo lateral (75%). Isso pode estar relacionado ao fato de os músculos pterigóideos, estabelecerem relação direta com o côndilo da mandíbula e trabalharem conjuntamente com os músculos masseteres e temporais, no desempenho dos movimentos mandibulares (27). Estudo (6) menciona que a dor advém de inflamações ou tensão na área articular.

Os resultados do presente estudo mostram que não houve correlação estatística entre sintomas otológicos e DTM (p-valor = 0,1404). Dos 20 pacientes analisados 17 (85%) tiveram DTM e 15 (75%) sintomas otológicos. Destes 15 pacientes com sintomas otológicos, 14 (93, 3%) apresentaram DTM. Assim, no grupo de pacientes com DTM (17), 85% também autorreferiram presença de sintomas otológicos.

Os sintomas otológicos mais autorreferidos pela amostra foram de plenitude auricular e zumbido. Estes sintomas também têm sido relatados pela literatura em pacientes com DTM (20, 23, 24, 26, 27). Os sintomas otológicos estão associados com dificuldades nos movimentos mandibulares, abrir a boca e nas funções do sistema estomatognático (23) (mastigação, deglutição, respiração e fala).

É importante focar que se deve ficar atento ao sintoma de zumbido, visto que tal alteração pode ser decorrente de doenças da orelha interna ou sistema nervoso central e não apenas pela DTM (25).

Pesquisa (26) aponta que o côndilo da mandíbula ao sofrer um deslocamento pode provocar estiramento da cadeia ossicular e, assim, a ocorrência de sintomas otológicos.

Outra hipótese vai na direção de apontar que a ocorrência de hiperatividade nos músculos da mastigação, por sua vez, levará a contração do músculo tensor de tímpano e da membrana timpânica ou contração muscular do véu palatino. Tal fato pode provocar disfunção da tuba auditiva e em sequencia, sintomas de plenitude auricular, desequilíbrio e perda de audição (20, 24, 26, 27).

Pode-se dizer que a relação e origem dos sintomas otológicos ainda não foram totalmente esclarecidas (23). Porém, pesquisa (24) comprova que as DTMs, geralmente, vêm associadas a sintomas otológicos.


CONCLUSÃO

Os achados deste estudo apontam alto percentual de sintomas otológicos em pacientes com DTM. Destaca-se a importância da pesquisa dos sintomas otológicos na avaliação das DTMs. Cabe, ainda, sugestões de outras pesquisas com uma amostra maior de sujeitos para confirmação da relação entre as DTMs e sintomas otológicos.


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1 Mestre. Fonoaudiologa.
2 Doutor. Médico Otorrinolaringologista.
3 Graduação. Fonoaudióloga.
4 Doutora. Professora Titular do Departamento de Fundamentos da Fonoaudiologia da PUC-SP; Coordenadora e docente do Curso de Especialização em Fonoaudiologia -Voz-PUC-SP/COGEAE.

Instituição: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP. São Paulo / SP - Brasil. Endereço para correspondência: Ilza Maria Machado - Rua Napoleão de Barros 1058 - Apto.11 - Bairro: Vila Clementino - São Paulo / SP - Brasil - CEP: 04024-003 - Telefone: (+55 11) 9421-4049 - E-mail: ilzamachado@yahoo.com.br

Artigo recebido em 24 de Março de 2010. Artigo aprovado em 27 de Abril de 2010.
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