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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Efeito do Programa de Orientação a Pais no Desenvolvimento Lexical de Crianças Usuárias de Implante Coclear
Effect of the Parents Guiding Program for the Lexical Development of Children using Cochlear Implant
Author(s):
Juzzie Melo Mota1, Talita Fortunato Tavares2, Robinson Tsuji Koji3, Ricardo Ferreira Bento4, Carla Gentile Matas5, Claudia Regina Furquim de Andrade6, Débora Befi Lopes7.
Palavras-chave:
implante coclear, desenvolvimento da linguagem, linguagem, linguagem infantil.
Resumo:

Introdução: Crianças com perda auditiva profunda possuem atraso no repertório vocabular em comparação a crianças ouvintes de mesma idade cronológica. Um dos fatores considerados fundamental durante o processo de desenvolvimento da linguagem é a intervenção da família. Objetivo: Propor um programa controlado para orientação a pais de crianças usuárias de implante coclear (CIC) e verificar a efetividade do programa através da variação de desempenho lexical das crianças. Método: Estudo prospectivo.Participaram da pesquisa oito CIC e suas respectivas famílias as quais foram divididas em dois grupos: GI (com programa de orientação) e GII (sem programa de orientação). O desempenho lexical das crianças foi mensurado através do LAVE (Lista de Avaliação do Vocabulário Expressivo) pré e pós-programa de orientação. O programa de orientação Família Participativa para CIC foi constituído por quatro sessões, de aplicação semanal, com duração de 60 minutos cada. Os temas abordados foram desenvolvimento de habilidades auditivas e linguísticas. Resultados: As ANOVAs intra-grupos não indicaram desempenho significantemente diferenciado no LAVE na comparação pré- e pós programa de orientação em ambos os grupo. ANOVAs entre-grupos não revelaram diferença estatisticamente significante entre os grupos para performance lexical. Conclusão: Os grupos não se diferenciaram na efetividade do programa como medido pelo LAVE. Tal resultado deve ser um indicador importante de medidas de evolução lexical baseadas somente na percepção familiar. Em estudos futuros devem ser considerados extensão temporal do programa, expansão da amostra, e medidas objetivas do desenvolvimento lexical.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento lexical relaciona-se de maneira direta ao desenvolvimento da linguagem. O desempenho em testes padronizados de vocabulário tem sido utilizado em muitos estudos como preditor de atrasos linguísticos tanto de crianças ouvintes quanto de crianças com deficiências auditivas usuárias de aparelhos de amplificação sonora individuais (AASI) e implante cocleares (IC) (1,2,3,4,5,6).

O MacArthur-Bates Communicative Development (7,8,9) e o Language Development Survey (LDS) (10,11) são instrumentos bastante utilizados para verificar o desenvolvimento do lexical. Ambos os testes são compostos por uma checklist de palavras a qual deve ser preenchida pelos pais. Validações concordantes entre os dois testes já foram comprovadas e são amplamente aceitas na literatura (11,12). Uma versão e adaptação do LDS para o Português Brasileiro foi publicada por Capovilla (13) sendo o nome do teste traduzido para Lista de Avaliação de Vocabulário Expressivo (LAVE). Até o momento, não são reportadas pesquisas com estes instrumentos em crianças brasileiras usuárias de IC.

Pesquisas revelam que crianças com perda auditiva profunda possuem atraso no repertório vocabular em comparação a ouvintes de mesma idade cronológica (3,14,15,16). Um dos fatores considerados responsáveis é o fato de a integridade anátomo-fisiológica do sistema auditivo constitui um pré-requisito para a aquisição e o desenvolvimento normal das habilidades linguísticas acarretando, portanto, em déficit no desenvolvimento lexical. Outro fator fundamental durante o processo de desenvolvimento da linguagem é a intervenção da família. O desempenho de linguagem de crianças é influenciado positivamente pelo envolvimento familiar e interação mãe-filho, e consequentemente, pelo input linguístico dado pela família o qual determinará o léxico da criança.

Com base nos programas de reabilitação com família participativa - prática baseada em evidências - o objetivo da pesquisa realizada foi à proposição de um programa controlado para a orientação a pais de crianças surdas usuárias de implante coclear. O programa recebeu o título de Família Participativa para Crianças Surdas Usuárias de Implante Coclear. Este programa abordou temáticas relacionadas ao desenvolvimento das habilidades linguísticas e auditivas. A hipótese do estudo é a verificação da efetividade do programa pela variação de desempenho das crianças, pré e pós-programa, pelo teste LAVE.


MÉTODO

Esta pesquisa foi aprovada pela comissão de ética da instituição sob protocolo número 0290/10. Todos os responsáveis assinaram termo de consentimento livre e esclarecido concordando com a participação na pesquisa e na posterior divulgação dos dados. Seguindo os preceitos éticos e morais pertinentes os familiares das crianças em grupo controle estavam cientes que no caso de confirmação da hipótese do estudo haveria o imediato início de programa de orientação específico para esse grupo.

Casuística

Participaram da pesquisa oito crianças surdas usuárias de implante coclear (CIC) atendidas no Ambulatório de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e suas respectivas famílias (Tabela 1).

A seleção inicial das famílias foi realizada com base no questionário econômico Critério de Classificação Econômica Brasil (17) (CCEB). Este questionário classificou as famílias de classes econômicas e graus de escolaridade semelhantes.

Os participantes foram divididos em dois grupos:

- Grupo Pesquisa (GI): quatro CIC e seus respectivos pais, participantes do programa de orientação - Família Participativa CIC;

- Grupo Controle (GII): quatro CIC e seus respectivos pais, não participantes do programa de orientação.

A escolha para composição de GI e GII foi realizada por meio do uso de números aleatórios (Extrato de Tábula de Números Aleatórios). O pareamento dos grupos foi realizado com base no questionário de Permeabilidade da Família que possibilita qualificar a abertura da família quanto ao processo terapêutico (18). O critério de pareamento foi por pontuação similar ou de variação inferior a 1.

Procedimentos

Etapa 1: Composição dos Grupos

Os familiares (pai e/ou mãe) foram convidados a disponibilizar voluntariamente seus dados socioeconômicos para a pesquisa. Após concordarem, familiares foram convocados individualmente em uma sala separada para preenchimento do questionário. Durante o preenchimento do questionário, a pesquisadora apresentou as perguntas oralmente aos participantes, transcrevendo suas respostas. O tempo utilizado no preenchimento variou de cinco a dez minutos por participante. Uma vez compatibilizados os extratos econômicos e níveis de escolaridade foram sorteados e pareados os grupos.

Etapa 2: Aplicação do LAVE

O LAVE (teste de passa/falha onde os pais assinalam as palavras que são faladas, espontaneamente, pelas crianças, nas diversas categorias lexicais) foi aplicado em duas coletas. O pré-teste foi aplicado em GI e GII no mesmo período de tempo. O pós-teste de GI foi aplicado imediatamente após o fim do programa para todos os participantes (entre 30 e 40 dias). O pós-teste de GII foi aplicado entre 30 e 40 dias após o pré-teste para todos os participantes.

Etapa 3: Realização do Programa de Família Participativa para Crianças Surdas Usuárias de Implante Coclear.

O Programa de Família Participativa para Crianças Surdas Usuárias de Implante Coclear foi constituído por quatro sessões, de aplicação semanal, com duração de 60 minutos cada. A duração do programa foi de quatro semanas. Os módulos abordados foram: habilidades auditivas e habilidades linguísticas. As sessões foram estruturadas na forma: objetivo; conteúdo programático; técnica de abordagem e relação dialética (19).


RESULTADOS

Análise intra-grupos

A análise intra-grupos foi realizada considerando a predominância entre as categorias lexicais no pré, pós e na comparação pré-pós aplicação do LAVE. Foram utilizados os testes de Kruskal-Wallis ANOVA por ranques nas testagens pontuais e Friedman ANOVA para a testagem comparativa. As Figuras 1 e 2 permitem visualização desses resultados.

Para 9GI foi obtido:

- Pré-teste - H (13, N=42)=22.007 p = .055; indicando uma tendência a desempenho diferenciado entre as categorias;

- Pós-teste - H (13, N=42)=15.621 p = .270; indicando que não há desempenho diferenciado entre as categorias;

- Pré x Pós - (N=42, gl=1) = 9.783 p = .002*; indicando que há desempenho significantemente diferenciado entre as performances pré e pós.

Para GII foi obtido:

- Pré-teste - H (13, N=42)=30.764 p = .003*; indicando uma tendência a desempenho diferenciado entre as categorias;

- Pós-teste - H (13, N=42)=15.459 p = .280; indicando que não há desempenho diferenciado entre as categorias;

- Pré x Pós - (N=42, gl=1) = 2.454 p = .117; indicando que não há desempenho significantemente diferenciado entre as performances pré e pós.

Análise entre-grupos

A análise entre-grupos foi realizada considerando a performance entre os grupos no pré-teste, no pós-teste e quanto à evolução lexical dos grupos. O teste utilizado foi ANOVA de um fator. A Tabela 2 e a Figura 3 permitem a visualização dessa comparação.

Comparação no Pré-teste - F(1,82)=1.9568,p=.1656, indicando que não há diferença significante entre os grupos.

Comparação no Pós-teste - F(1,82)=.0006,p=.979, indicando que não há diferença significante entre os grupos.

Comparação Pré x Pós-teste - Apesar de, em média, a evolução no desempenho lexical ter sido maior para o GI, não é observada diferença estatisticamente significante entre os dois grupos através de ANOVA de um fator.









DISCUSSÃO

As análises quantitativas do estudo indicam não haver influência do Família Participativa CIC na expansão do vocabulário quando usado o teste LAVE (percepção familiar).

Numa análise qualitativa pode ser observado que para o Grupo I a média de palavras adquiridas foi maior que para GII. Para cada palavra adquirida pelo Grupo II, 2,18 palavras foram adquiridas pelo Grupo I indicando uma influência positiva da aplicação do programa de Família Participativa CIC na expansão do vocabulário das crianças.

Outro dado de natureza qualitativa foi observado durante a aplicação do programa - o aprendizado das famílias em relação às habilidades linguísticas e auditivas de suas crianças.

O delineamento da pesquisa pode ser caracterizado como experimental e os dados obtidos considerados um estudo piloto sobre o tema. Na expansão do estudo deverão ser considerados tanto a extensão do programa quanto à introdução de um instrumental objetivo de avaliação do desenvolvimento do léxico das crianças. O número de participantes, embora seja compatível com estudos semelhantes, é uma variável de importância e deve ser expandido.

Apesar das limitações do estudo esta pesquisa é de interesse frente ao limitado referencial bibliográfico sobre o tema - desenvolvimento da linguagem em crianças brasileiras usuárias de Implante Coclear. Com a evolução dos estudos brasileiros nessa área serão possíveis às comparações cross-language e assim o conhecimento sobre a real influência da língua no desenvolvimento da linguagem nas crianças usuárias do implante coclear.



Figura 1. Desempenho no LAVE por categoria lexical - GI.




Figura 2. Desempenho no LAVE por categoria lexical - GII.




Figura 3. Evolução Lexical de ambos os grupos (GI e GII).




CONCLUSÃO

A hipótese do estudo não foi confirmada. Os grupos não se diferenciaram na verificação da efetividade do programa pela variação de desempenho das crianças, pré e pós-programa, pelo teste LAVE. Esse resultado deve ser considerado um indicador importante sobre as avaliações de evolução de vocabulário baseadas exclusivamente na percepção familiar. As principais variáveis que devem ser consideradas nos estudos futuros são: expansão da amostra; testagem objetiva com instrumento de avaliação de vocabulário validado; extensão temporal do programa.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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3. Nott P, Cowan R, Brown M, Wigglesworth G. Early Language Development in Children with Profound Hearing Loss Fitted with a Device at a Young Age: Part II-Content of the First Lexicon. Ear & Hearing. 2009, 30(5):541-551.

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1 Fonoaudióga com Aprimoramento em Implante Coclear pelo HC/FMUSP.
2 Doutoranda em Ciências da Reabilitação Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
3 Doutor em Otorrinolaringologia pela FMUSP.
4 Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
5 Professora Doutora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
6 Professora Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
7 Professora Associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo / SP - Brasil. Endereço para correspondência: Professora Associada Débora Befi-Lopes - Rua Cipotânea, 51 - Cidade Universitária - São Paulo / SP - Brasil - CEP: 05360-160 - Telefone: (+55 11) 3091-8419 - Email: dmblopes@usp.br

Artigo recebido em 13 de Setembro de 2010. Artigo aprovado em 7 de Outubro de 2010.
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