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Ano: 2009  Vol. 13   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Corpos Estranhos em Otorrinolaringologia: Um Estudo de 128 Casos
Foreign Bodies in Otorhinolaryngology: A Study of 128 Cases
Author(s):
Breno Simes Ribeiro da Silva1, Leandro Oliveira Souza2, Marcela Gonalves Camera3,
Arnaldo G. Braga Tamiso3, Luiz Vicente Rizzo Castanheira3.
Palavras-chave:
corpos estranhos, otolaringologia, orelha, nariz, faringe.
Resumo:

Introduo: A ocorrncia de corpos estranhos em otorrinolaringologia motivo de frequentes consultas no servio de urgncia. Objetivo: O objetivo deste trabalho descrever uma srie de pacientes com corpos estranhos, bem com avaliar o quadro clnico e o tratamento nestes casos. Mtodo: Foi realizado estudo prospectivo de 128 pacientes com diagnstico de corpo estranho de nariz, orelha e orofaringe, atendidos no pronto-socorro do Hospital Paulista de Otorrinolaringologia, So Paulo, no perodo de agosto de 2005 a agosto de 2007. Resultados: Foram 67,18% casos de corpo estranho de orelha; 18,75% casos de cavidade nasal e 14,07% de orofaringe. Destes pacientes 55,47% foram do sexo masculino e 44,53% do sexo feminino. A idade mediana foi de 17 anos. A mdia do tempo de evoluo foi de 12,2 dias, sendo que 57,03% dos casos foram atendidos com menos de 24 horas de evoluo. Do total de pacientes, 64,85% receberam atendimento inicial no PS do Hospital, e 35,15% vieram encaminhados de outro servio aps alguma tentativa de remoo prvia. O sintoma mais comum dos casos de corpo estranho de orofaringe foi a odinofagia, presente em 88,88% dos casos; dos corpos estranhos de nariz, a rinorreia unilateral esteve presente em 37,5% dos casos e cacosmia em 25% dos casos; e nos corpos estranhos de orelha 39,53% evoluram com hipoacusia. Concluso: A maioria dos casos com manipulao prvia para remoo dos corpos estranhos por profissional no habilitado ou por leigos evoluiu com complicaes.

INTRODUO

Corpos estranhos (CE) so motivos frequentes de consultas em Otorrinolaringologia. Os stios mais comumente acometidos so cavidade nasal, orelhas e orofaringe. Nestes locais os corpos estranhos apresentam sintomas caractersticos e a remoo destes no representa grande dificuldade para o especialista. A forma de inoculao pode ser voluntria ou acidental (1,2,3).

Segundo vrios autores (1,4,5,6,), os CE correspondem, em mdia, por 11% dos casos de Emergncias em Otorrinolaringologia, podendo evoluir com complicaes em 22% dos casos. Estas complicaes so, na maioria dos casos, simples, mas, eventualmente, quadros mais severos, como perfuraes timpnicas e broncoaspirao podem ocorrer (6,7).

Vrios fatores so decisivos para a ocorrncia de complicaes como a tentativa de remoo por curiosos e profissionais de sade no habilitados; inexperincia do mdico no manejo de corpos estranhos; falta de infra-estrutura hospitalar adequada; m estruturao da rede pblica para Emergncias em Otorrinolaringologia e longa permanncia do corpo estranho (1,6,8).

O grande potencial para complicaes durante a remoo destes corpos estranhos torna importante a atuao do otorrinolaringologista neste procedimento. O sucesso da remoo de CE depende da cooperao do paciente, da habilidade do mdico, do tipo de CE, da manipulao prvia, da visibilidade e profundidade do CE e dos equipamentos disponveis (2).

Como a ocorrncia de CE envolvendo as cavidades nasais, orelhas e orofaringe motivo de frequentes consultas em servios de emergncia de otorrinolaringologia, seu tempo de permanncia que ir determinar a sintomatologia, j que os casos de CE raramente so assintomticos. Nas cavidades nasais os sintomas iniciam-se com espirros, rinorreia hialina e obstruo nasal, evoluindo em alguns dias para rinorreia unilateral ftida e purulenta. Nas orelhas o quadro pode se iniciar com hipoacusia, otorragia, otorreia ou zumbido. J na orofaringe o principal sintoma a odinofagia (1,2).

Em relao ao modo de introduo dos CE pode-se classific-los em voluntria ou acidental. A voluntria ocorre principalmente nas crianas e a acidental, no qual mais comum em adultos, representada por animais vivos, sendo a miase mais comumente encontrados e associados a complicaes mais severas (2,9). Os primeiros anos de vida, so para as crianas, uma fase de explorao e interao com o meio ambiente. Quando comea a engatinhar e/ou andar, a criana passa a ter acesso a uma grande variedade de objetos, nos quais acabam, por curiosidade, colocando-os em orifcios mais expostos como orelha, nariz e orofaringe (10).

A forma e o tamanho dos objetos encontrados como CE pode determinar a dificuldade na remoo. No CE de orelha podem ocorrer complicaes devido as pequenas dimenses do meato acstico externo e a proximidade de estruturas importantes (2,4). A remoo torna-se difcil quando o CE est prximo da membrana timpnica, devido o risco de perfurao da mesma. Dentre as complicaes mais frequentes pode-se encontrar: lacerao do meato acstico externo, perfurao timpnica, otite externa e hematoma. Os casos de CE de cavidade nasal podem evoluir com epistaxe, perfurao septal e rinossinusite de acordo com o tempo de evoluo e a localizao dos mesmos (1,2).

O objetivo deste estudo descrever uma srie de pacientes com corpos estranhos no Servio de Otorrinolaringologia do Hospital Paulista de Otorrinolaringologia - So Paulo, bem como avaliar o quadro clnico e tratamento nestes casos e suas complicaes.


MTODO

Foram analisados de forma prospectiva, 128 pacientes com diagnstico de corpo estranho em orelha, nariz ou orofaringe, atendidos no pronto socorro do Hospital Paulista de Otorrinolaringologia, So Paulo, no perodo de agosto de 2005 a agosto de 2007.

Foram levados em considerao a idade, sexo, localizao do corpo estranho, tempo de introduo e remoo do corpo estranho, tipo de corpo estranho, complicaes e sintomas mais comum.

O material utilizado para a remoo dos corpos estranhos inclui espculos nasais e auriculares, abaixadores de lngua de Bruennings, fibras ticas flexveis e rgidas de 4mm de dimetro (70o, 0o e 30o), pinas Kelly e baioneta, laringoscpio de fibra tica, pinas Hartmann e jacar, ganchos rombos e pontiagudos, seringas para lavagem auricular e lavador eltrico de orelhas. Em apenas 12 (9,37%) pacientes houve a necessidade de remoo no centro cirrgico com anestesia geral.


RESULTADOS

Foram estudados 128 casos de CE em otorrinolaringologia, sendo 86 (67,18%) de orelha; 24 (18,75%) de cavidade nasal e 18 (14,07%) casos de orofaringe (Grfico 1). Em relao ao sexo dos pacientes observamos 71 (55,47%) do sexo masculino e 57 (44,53%) do sexo feminino. A idade variou de 2 - 78 anos, sendo que a mdia de idade foi de 17 anos. Dentre as faixas etrias, 41 pacientes (32,03%) estavam na faixa de 0-10 anos, 9 (7,03%) entre 11-20 anos, 74 (57,81%) entre 21-59 anos e apenas 4 (3,13%) acima de 60 anos (Tabela 1).

A mdia do tempo de evoluo foi de 12,2 dias, sendo que 73 (57,03%) casos foram atendidos com menos de 24 horas de evoluo. Do total de pacientes 83 (64,85%) receberam atendimento inicial no PS do Hospital Paulista e 45 (35,15%) vieram encaminhados de outro servio aps alguma tentativa de remoo prvia. Os casos de CE de orelha apresentaram mdia do tempo de evoluo de 11,76 dias. Nos casos de CE de nariz a mdia do tempo de evoluo foi de 38,03 dias. Para os casos de CE de orofaringe a mdia foi de apenas 1,82 dias.

De acordo com a localizao, dos 86 CE auriculares, 45 (52,32%) foram introduzidos na orelha direita, 39 (45,34%) na esquerda e 2 (2,34%) em ambas as orelhas. Nos CE nasais 9 (37,5%) envolveram a narina direita e 14 (58,33%) a esquerda e apenas 1 (4,17%) em ambas as narinas. Dos casos de orofaringe, 5 (27,77%) ocorreram na tonsila direita, 7 (38,88%) na tonsila esquerda e 6 (33,33%) em base da lngua.

Entre os CE auriculares, 44 (51,16%) foram removidos com pina jacar; 29 (33,73%) com irrigao auricular com gua morna atravs de seringa ou lavador eltrico de orelha; 5 (5,82%) com cureta otolgica para cermen e 8 (9,31%) s foi possvel a remoo em centro cirrgico. Dos 24 pacientes com CE nasais, 18 (75%) foram submetidos extrao com sonda de Itard; 5 (20,83%) com pina jacar ou baioneta; e apenas 1 (4,17%) foi necessrio remoo em centro cirrgico. J nos casos de orofaringe 15 (83,33%) foram removidos com pina de Hartmann, sendo em alguns casos necessria a utilizao da fibra tica (flexvel e/ou rgida) para melhor visibilidade, e em 3 (16,67%) casos s foi possvel em centro cirrgico por meio de anestesia geral. Os 12 (9,37%) casos que se fez necessrio levar ao centro cirrgico com auxlio de anestesia geral, foi devido principalmente a falta de colaborao dos pacientes, principalmente na faixa etria infantil e nos casos de orofaringe ao intenso reflexo nauseoso.

Os sintomas mais comuns dos casos de CE auriculares foram hipoacusia com 34 (39,53%) casos e otalgia com 21 (24,41%) casos. Nos CE nasais, a rinorreia unilateral estiveram presentes em 9 (37,5%) casos e a cacosmia em 6 (25%) casos. Nos CE de orofaringe o principal sintoma foi odinofagia com 16 (88,88%) casos (Tabela 2).

O CE mais frequente de orelha foi o algodo, com 37 (43,02%) casos, seguido de artefatos de plstico com 16 (18,60%) casos. O CE mais frequente na cavidade nasal encontramos o mesmo nmero de fragmentos de esponja e de papel com 8 (33,33%) casos cada. J na cavidade oral a espinha de peixe foi a mais encontrada com 13 (72,22%) casos (Tabela 3).

Foram encontrados apenas 18 (14,06%) casos de complicaes, decorrentes da presena de CE ou da manipulao dos mesmos. Dos CE auriculares 9 (7,03%%) casos apresentaram otite externa aguda; 3 (2,34%) casos tiveram lacerao do conduto auditivo externo e apenas um (0,78%) caso apresentou perfurao timpnica. Nos CE nasais 4 (3,12%%) casos evoluram para rinossinusite e um (0,78%) caso com epistaxe. Os casos de CE de regio de orofaringe no apresentaram complicaes (Grfico 2).



Grfico 1. Distribuio dos corpos estranhos em otorrinolarinogologia



Grfico 2. Frequncia e tipos de complicaes existentes para remoo do corpo estranho.










DISCUSSO

Os otorrinolaringologistas lidam com a maior parcela de orifcios corpreos naturais pelos quais os corpos estranhos podem ser introduzidos como: orelha, nariz e boca. O esfago e as vias areas inferiores so atingidas de forma indireta, uma vez que os corpos estranhos devem passar primeiramente pela faringe ou fossas nasais. Alguns autores ressaltam que os CE de orofaringe e fossas nasais so CE esofagianos e brnquicos em potencial (1,7,8). Com isso, sabemos que tais acidentes podem levar a complicaes srias e, inclusive, ao bito, o que neste trabalho, no observamos nenhum desfecho fatal.

Nossos dados so concordantes com a literatura (2,5,8,11,12,13) sobre a localizao dos corpos estranhos, com predominncia em orelhas, seguidos pelos da regio nasal e orofaringe. Em relao ao sexo, em comparao com outros autores (2,5,8), no encontramos diferena estatisticamente significativas.

A distribuio por faixa etria mostra uma clara predominncia de CE em regio nasal em crianas, o que tambm foi confirmado em outros estudos (1,2,8,14). Observou-se diminuio da incidncia conforme o aumento da idade. Este fato pode ser explicado pela curiosidade e da descoberta em relao ao corpo. Com o crescimento e o desenvolvimento cognitivo, a introduo de CE nas narinas diminui significativamente, sendo encontrado apenas em pacientes com distrbios psiquitricos (2,15). J os corpos estranhos em orofaringe so mais encontrados em adultos, enquanto os de orelha mostram uma distribuio mais balanceada, o que so concordantes com a literatura (2,8,11,16).

O tempo de evoluo foi inferior a 24 horas em 57,03% dos casos, semelhante ao encontrado nos estudos de IKINO et al ( 1998) e TIAGO et al (2006). A mdia do tempo de evoluo dos CE de orofaringe foi de apenas 1,82 dias, o que pode ser explicado pelo alto incmodo devido a presena do CE neste local. Os casos de CE de nariz foi os que mais apresentaram elevada mdia de tempo de evoluo com 38,03 dias enquanto os de orelha foram 11,76 dias.

A alta incidncia de espinhas de peixe como corpos estranhos de orofaringe reflete o pouco cuidado e a falta de ateno no preparo da alimentao e mastigao, especialmente com peixes pequenos. Nos casos de CE de orelha o algodo foi o mais encontrado principalmente pelo hbito da populao pelo uso de cotonetes para limpeza e alvio do prurido otolgico. J em crianas encontramos mais fragmentos de plsticos variados, desde pedao de brinquedos, botes, miangas entre outros. Fragmentos de esponja e de papel, geralmente removidos de travesseiros, colches, livros e cadernos, foram os corpos estranhos nasais mais encontrados. O caso de corpo estranho animado em nosso estudo representou apenas 5 casos, todos em pacientes acima de 20 anos de idade.

Os sintomas mais encontrados dos casos de CE auriculares foram hipoacusia com 39,53% dos casos e otalgia com 24,41% dos casos. Nos CE nasais, a rinorreia unilateral estiveram presentes em 37,5% dos casos e a cacosmia em 25%. Nos CE de orofaringe o principal sintoma foi odinofagia com 88,88% casos, devido ao extremo desconforto objetivando a busca pelo atendimento precoce.

Os matrias e mtodos utilizados para a remoo dos CE de orelha, nariz e orofaringe foram semelhantes aos apresentados nos estudos de MARQUES et al (1998) e TIAGO et al (2006). Sendo que apenas 9,37% casos foram necessrio levar ao centro cirrgico com auxlio de anestesia geral, devido principalmente a falta de colaborao dos pacientes, ocorrendo em sua maior parte na faixa etria infantil e nos casos de orofaringe ao intenso reflexo nauseoso. O que se mostrou dentro dos demais estudos no qual a relao entre a necessidade de anestesia geral para remoo de CE variou de 8,6 a 30% (17).
Encontramos complicaes em 14,06% dos casos. A maioria dos autores observaram maior incidncia de complicaes em casos previamente manipulados por mdicos de outra especialidade, outros profissionais de sade, o prprio paciente e mesmo outros leigos (4,6,11,16).

Em nosso estudo, as complicaes mais frequentes foram otite externa aguda (7,03%) evoluindo com otalgia, sendo o tratamento feito com gotas tpicas e sintomticos, rinossinusite aguda (3,12%) com rinorreia purulenta e obstruo nasal, onde foi prescrito antibiticos sistmicos por 14 dias e lavagem nasal com soluo fisiolgica, lacerao do conduto auditivo externo (CAE) com 2,34%, epistaxe (0,78%) sendo que de pequena quantidade, no necessitando de qualquer mecanismo de conteno e perfurao timpnica (0,78%) que foi tratado e feito acompanhamento ambulatorial.


CONCLUSO

Com este estudo observamos que a maioria dos casos com manipulao prvia para a remoo do corpo estranho por profissional no habilitado ou por leigo evoluiu com complicaes, mostrando que o manejo desses pacientes deve ser realizado pelo mdico otorrinolaringologista e com o uso de material adequado.

O grande nmero dos casos de corpo estranho em ouvido, nariz e garganta resolve-se facilmente, porm importante frisar que, quando em casos que h dificuldade tcnica ou por falta de cooperao do paciente, deve-se optar pela remoo em centro cirrgico sob sedao ou anestesia geral, evitando assim, complicaes iatrognicas.


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1. Ex-Fellow na Universidade de Graz - ustria.
2. Otorrinolaringologista. Ps-graduando pela Fundao Santa Casa de Misericrdia de So Paulo.
3. Residente do Primeiro Ano do Hospital Paulista de Otorrinolaringologia.

Instituio: Hospital Paulista de Otorrinolaringologia. So Paulo / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Breno Simes Ribeiro da Silva - Rua Dr. Diogo de Farias, 780 - Bairro Vila Clementino - So Paulo / SP - Brasil - CEP: 04037-002 - Telefone: (+55 11) 5087-8700 - E-mail: brenosimoes21@yahoo.com.br

Artigo recebido em 6 de Agosto de 2009. Artigo aprovado em 1 de Outubro de 2009.
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