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19
Ano: 2011  Vol. 15   Num. 3  - Jul/Set
DOI: 10.1590/S1809-48722011000300019
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Case Report
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Dolicomega da artria vrtebro-basilar como causa de perda auditiva neurossensorial assimtrica - relato de caso
Megadolicho basilar artery as a cause of asymmetrical sensorineural hearing loss - case report
Author(s):
Antonio Antunes Melo1, Fernando Souza Leo2, Alexandre Jos Costa Campos2, Maria do Rosrio Tvora de Arruda Antunes3, Dbora Bunzen2, Slvio da Silva Caldas Neto4.
Palavras-chave:
artria basilar, zumbido, perda auditiva neurossensorial.
Resumo:

Introduo: No diagnstico diferencial das perdas sensorioneurais assimtricas fazem parte os distrbios vasculares e dentre essas alteraes encontra-se o dolicomega da artria vrtebro-basilar. Habitualmente essa doena assintomtica e quando h sintomas esses podem ser causados por compresso ou isquemia. Clinicamente podem ocorrer: perda neurossensorial, zumbido, cefaleia, hipoestesia facial, neuralgia trigeminal, vertigem, diplopia e paralisia facial entre outros. O exame de imagem de escolha para seu diagnstico a ressonncia nuclear magntica. A terapia do dolicomega da artria basilar pode ser intervencionista ou conservadora dependendo dos achados associados. A abordagem multidisciplinar incluindo neurologista, neurocirurgio e otorrinolaringologista para adequada conduo do caso recomendada. Objetivo: Relatar o caso de um paciente com perda auditiva neurossensorial assimtrica cujo diagnstico foi de dolicomega da artria basilar. Relato do Caso: JBS, 57 anos, sexo masculino, branco com histria de hipoacusia neurossensorial assimtrica e zumbido tipo apito bilateral h vrios anos. Exame otorrinolaringolgico apresentando otoscopia, rinoscopia anterior e orofaringe normais. Comentrios Finais: O tratamento consistiu de acompanhamento do paciente, controle do zumbido com medicao e uso de um aparelho de amplificao sonora individual na orelha esquerda.

INTRODUO

O achado de uma perda neurossensorial assimtrica deve sempre levantar um conjunto de hipteses diagnsticas, bem como a elaborao de um raciocnio clnico direcionado para investigar as diversas possveis causas. As doenas retrococleares fazem parte do diagnstico diferencial das perdas auditivas neurossensoriais, tais como: neurinomas do acstico, meningiomas, cistos epidermoides intradurais congnitos, schwannomas no-acsticos da fossa posterior, dolicoectasias vrtebro-basilares, aneurismas, malformaes artrio-venosas, lipomas, hemangiomas e osteomas (1,2).

Na investigao desses casos podem ser solicitados para avaliao os seguintes exames: estudo de potenciais evocados auditivos de tronco cerebral (BERA) e a ressonncia nuclear magntica (RNM) (3). Na literatura existem autores que optam pela realizao inicial do BERA, para s ento, nos casos sugestivos de doena retrococlear, realizar RNM. H outra corrente que indica a RNM como exame de eleio, uma vez que h casos de falso-negativos na realizao do BERA. Desta forma, a reduo de custo proporcionada por uma triagem inicial com o BERA no compensaria o diagnstico tardio destas afeces e as possveis complicaes decorrentes.


RELATO DE CASO

JBS, 57 anos, sexo masculino, branco com histria de hipoacusia e zumbido tipo apito bilateral h vrios anos. Exame otorrinolaringolgico apresentando otoscopia, rinoscopia anterior e orofaringe normais. Antecedentes de esquistossomose mansnica diagnosticada h 12 anos confirmada com parasitolgico de fezes positivo em duas amostras para Schistosoma mansoni. Nega outras co-morbidades. Realizada audiometrias tonal e vocal que evidenciaram perda neurossensorial assimtrica (Orelha direita: 500 Hz - 40 dB; 1000 Hz - 35 dB; 2000 Hz - 40 dB; 3000Hz - 40 dB; 4000 Hz - 35 dB; 8000 Hz - 50 db. Orelha esquerda: 500 Hz - 65 dB; 1000 Hz - 65 dB; 2000 Hz - 70 dB; 3000Hz - 75 dB; 4000 Hz - 75 dB; 8000 Hz - 85 dB). Foi solicitada ressonncia nuclear magntica que mostrou artria basilar com ectasia e sinuosidade esquerda, projetando-se para o ngulo ponto-cerebelar na fossa posterior, chegando a tocar na poro ventral da emergncia do 7o e 8o pares cranianos. Com base nos achados, foi estabelecido o diagnstico de dolicoectasia de artria basilar, sendo solicitada avaliao neurocirrgica que afastou a possibilidade de tratamento cirrgico considerando a topografia da leso (alta morbimortalidade) e intensidade dos sintomas. A conduta escolhida foi acompanhamento do caso e prescrio de clonazepan na dosagem de 0,5 mg/dia. Foi indicada ainda a utilizao de aparelho de amplificao sonora individual na orelha esquerda.


DISCUSSO

Os distrbios vasculares fazem parte do diagnstico diferencial das perdas sensorioneurais assimtricas, dentre essas alteraes encontra-se uma entidade rara conhecida como dolicomega da artria basilar. Habitualmente a dolicomega assintomtica, porm quando h sintomas estes podem ser causados por compresso ou isquemia (4). Clinicamente podem ocorrer: perda neurossensorial (sendo raro como sintoma isolado), zumbido, cefaleia, hipoestesia facial, neuralgia trigeminal, vertigem, diplopia e paralisia facial entre outros (5-9). No caso estudado os sintomas foram de hipoacusia neurossensorial moderada em orelha esquerda acompanhada de zumbido bilateralmente sem outros sinais ou sintomas associados. O exame de imagem de escolha para seu diagnstico a ressonncia nuclear magntica que pode demonstrar tortuosidade, estenose, trombose ou dolicoectasia (10). O paciente apresentou na RNM dolicomega da artria basilar com sinuosidade. A mesma projetava-se para o ngulo ponto-cerebelar na fossa posterior estando bastante prxima da emergncia dos nervos facial e vestbulo-coclear. H uma relao entre sintomatologia e achados nos exames de imagem. Quando se evidencia apenas tortuosidade sem dilatao torna-se mais provvel o comprometimento de apenas um par craniano, no entanto, se h dilatao arterial importante pode haver o comprometimento mltiplo com dficits neurolgicos graves (11). poca do diagnstico, neste paciente no havia comprometimento de outros pares cranianos, alm do vestbulo-coclear, nem leses neurolgicas associadas. Podem ser encontrado eventualmente pacientes oligossintomticos e com perdas auditivas leves apesar de terem leses de dimenses acentuadas. Em 1986, NISHIZAKI et al estudaram 23 casos de dolicoectasia de artria basilar em estudo retrospectivo num intervalo de 10 anos encontrando infarto pontino (30%), insuficincia vrtebro-basilar e de espasmo facial (17%), ataque isqumico transitrio e de hemorragia cerebelar (4%) (12). O trabalho conclui que a dolicoectasia da artria basilar encontra-se associada com infarto isqumico cerebral e que seria indicada, mesmo nos casos assintomticos, terapia profiltica contra acidente vascular cerebral isqumico. Contudo j foi descrita tambm a compresso mecnica isolada por dolicomega de grandes dimenses causando a perda auditiva sem estar associada a infarto de tronco cerebral (13). Este achado parece ser semelhante ao que foi encontrado no paciente apresentado uma vez que no foram encontradas trombose nem aterosclerose no sistema vrtebro-basilar que justificassem a perda auditiva descrita. possvel tambm que a perda auditiva esteja associada a comprometimento vestibular causando vertigem, transtornos visuais e oscilopsia associados a movimentos da cabea e da marcha. Esses sintomas, entretanto no foram encontrados no paciente descrito. A terapia do dolicomega da artria basilar ser intervencionista ou conservadora dependendo dos achados associados. A cirurgia pode ser perigosa pelo risco de causar leso nos pequenos vasos que se originam na artria basilar causando um acidente vascular. J a terapia com antiagregantes plaquetrios pode ser uma das estratgias adotadas para reduzir a possibilidade de trombose arterial (14). fundamental uma abordagem multidisciplinar incluindo neurologista, neurocirurgio e otorrinolaringologista para adequada conduo do caso uma vez que h uma grande variedade de apresentaes clnicas desta doena e cujos tratamentos de escolha ainda permanecem controversos (15).


COMENTRIOS FINAIS

Nos casos de perda neurossensorial assimtrica acompanhada ou no de zumbido devero fazer parte do diagnstico diferencial as doenas de origem vascular, dentre elas o dolicomega da artria basilar, cujo diagnstico s ser estabelecido com a investigao adequada.


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1) Doutorado. Otorrinolaringologista do Servio de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de Pernambuco.
2) Especialista em Otorrinolaringologia. Otorrinolaringologista.
3) Especialista em Fonoaudiologia.Fonoaudiloga.
4) Livre Docencia. Professor Adjunto de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Instituio: Servio de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da Universidade Federal de Pernambuco. Recife / PE - Brasil. Endereo para correspondncia: Antonio Antunes Melo - Rua Dom Joo de Souza 40/2102 - Madalena - Recife / PE - Brasil - CEP: 50610-070 - Telefax: (+55 81) 3492-2695 - E-mail: antunes.orl@gmail.com

Artigo recebido em 17 de Julho de 2009. Artigo aprovado em 28 de Abril de 2011.
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