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Ano: 2001  Vol. 5   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Avaliao da eficcia e segurana do moxifloxacino por 7 dias no tratamento da rinossinusite aguda
Evaluation of Efficacy and Safety of Moxifloxacin for 7 Days in the Treatment of Acute Rhinosinusitis
Author(s):
1Jos Antnio Patrocnio, 2Fernanda Inez Gomes Garrote, 3Lucas Gomes Patrocnio
Palavras-chave:
rinossinusite aguda, tratamento, quinolonas, moxifloxacino.
Resumo:

O moxifloxacino uma nova quinolona com excelente ao bactericida contra microorganismos gram-positivos, gram-negativos, anaerbios e atpicos. H uma tendncia mundial de encurtamento do tempo de tratamento da rinossinusite aguda com o lanamento desta nova droga. Chega-se a sugerir seu uso por 7, 5 ou at 3 dias. Objetivamos avaliar a eficcia e a segurana do moxifloxacino por sete dias, na dose de 400 mg por dia, no tratamento da rinossinusite bacteriana aguda adquirida na comunidade. Dezoito pacientes adultos consecutivamente atendidos com clnica sugestiva de rinossinusite bacteriana aguda foram includos no estudo. A idade variou de 16 a 62 anos (mdia de 39 anos) e o tratamento durou sete dias (400 mg, via oral, uma vez ao dia). No retorno dos pacientes evidenciamos: persistncia de febre em 1 (5%), mal-estar em 2 (11%), dor em seios da face em 3 (17%), cefalia em 4 (23%), secreo ps nasal em 5 (29%) e obstruo nasal em 9 (52%). Quanto avaliao da eficcia pelo paciente, obtivemos cura em 5 pacientes (29%), melhora em 8 (47%), ineficcia em 4 (23%). Quanto avaliao pelo mdico, obtivemos cura em 9 (52%), melhora em 4 (23%) e ineficcia em 4 (23%). Os efeitos colaterais foram: nuseas em 3 pacientes (17%), ansiedade em 2 (11%) e mal-estar em 1 (5%). Os resultados deste estudo sugerem que, apesar de seguro, o tratamento da rinossinusite aguda com moxifloxacino (400 mg por dia) por sete dias insuficiente para a resoluo do quadro.

INTRODUO

No Brasil, estima-se que 15 milhes de pessoas so acometidas por rinossinusite anualmente. De cada cinco pessoas adultas, uma ter pelo menos um episdio de rinossinusite ao longo de sua vida. Muitas vezes, acontece aps episdio de infeco do trato respiratrio superior (0,5 a 5% dos resfriados complicam-se como rinossinusite aguda)1.

A rinossinusite aguda um processo inflamatrio que ocorre em um ou mais seios paranasais, durando menos de um ms. A instalao do quadro infeccioso ocorre quando h falha nos mecanismos de clearance dos seios (funo ciliar, produo do muco e integridade da mucosa), sendo o bloqueio do stio, o elemento chave na fisiopatologia2. Entre as causas podemos citar as infeces do trato respiratrio superior, rinite alrgica, abscesso dentrio, plipo nasal, corpo estranho, tumor, anormalidade anatmica, trauma facial, deficincia de imunoglobulina, sndromes que afetam o movimento ciliar.

Os patgenos bacterianos mais comuns na rinossinusite aguda so Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae (responsveis por mais de 50% dos casos). Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes e Moraxella catarrhalis so causas menos comuns. Misturas de bactrias anaerbias (Bacteroides, Peptostreptococus, Fusobacterium) so tambm encontradas3.

O diagnstico baseia-se fundamentalmente na histria clnica e exame fsico otorrinolaringolgico, sendo geralmente dispensveis exames complementares.

O tratamento antimicrobiano usual das rinossinusites realizado de maneira emprica, baseado em dados microbiolgicos de trabalhos publicados na literatura4,5. Deve, portanto, obrigatoriamente, ser eficaz contra pneumococo e H. Influenzae. A disseminao mundial de resistncia a mltiplas drogas no Streptococcus pneumoniae uma grande ameaa sade pblica. A resistncia chegou a 50% em alguns pases (no Brasil vem aumentando gradativamente) e est associada freqentemente resistncia aos macroldeos e cotrimoxazol, comprometendo gravemente os antibacterianos existentes6. Foram desenvolvidas novas fluoroquinolonas especificamente para combater cepas resistentes e fornecer um tratamento alternativo aos beta-lactmicos e macroldeos no tratamento destas infeces. Entre estas quinolonas se encontram: levofloxacina, gatifloxacina (dita de 3 gerao) e moxifloxacino (4 gerao).

O moxifloxacino, 8-metoxi-fluorquinolona, uma nova quinolona com excelente ao bactericida contra microorganismos gram-positivos, gram-negativos, anaerbios e atpicos. Seu perfil farmacocintico caracteriza-se por biodisponibilidade oral de 89%, aparentemente no ser metabolizado pela via P-450, com meia-vida variando de 9 a 16 horas e de boa penetrao em tecidos cavitrios como os seios paranasais7,8.

Existe uma tendncia mundial de encurtamento do tempo de tratamento com o lanamento destas novas drogas. Chega-se a sugerir o uso destas por 7, 5 e at 3 dias em infeces otorrinolaringolgicas

Portanto, objetivamos, com este ensaio clnico, avaliar a eficcia e a segurana do moxifloxacino por sete dias, na dose de 400 mg por dia, no tratamento da rinossinusite bacteriana aguda adquirida na comunidade.

PACIENTES E MTODOS

Dezoito pacientes adultos consecutivamente atendidos com clnica sugestiva de sinusite bacteriana aguda foram includos no estudo. A idade com idade variou de 16 a 62 anos (mdia de 39 anos). Os pacientes apresentavam pelo menos trs dos seguintes sinais e sintomas, por menos de 4 semanas: febre e mal estar, cefalia, dor a palpao dos seios da face, edema e hiperemia da mucosa nasal, secreo ps-nasal e obstruo nasal. Foram excludos do estudo, os pacientes com histria de alergia a quinolona, portadores de imunodeficincia e gestantes.

Todos os pacientes receberam sete dias de tratamento (400 mg, via oral, uma vez ao dia). A anlise dos dados foi feita com 17 pacientes foram includos, j que um paciente perdeu o follow-up.

A eficcia, assim como a segurana, foram avaliadas pela resposta clnica no stimo dia aps o tratamento, sendo considerada como cura, a resoluo completa dos sinais e sintomas clnicos; melhora, como a persistncia de pelo menos um dos sinais e sintomas (excluindo obstruo nasal naqueles que apresentavam alterao anatmica comprovada); e ineficcia, a persistncia de todos os sinais e sintomas.

O presente estudo foi aprovado pela Comisso de tica da instituio onde foi realizado.

RESULTADOS

admisso dos pacientes analisados, 12 (70%) apresentavam rinite alrgica, 9 (52%) hipertrofia de cornetos e 2 (11%) desvio de septo concomitante sinusopatia.

Dos sintomas clnicos admisso obtivemos: obstruo nasal em 14 pacientes (82%), secreo ps nasal em 13 (76%), cefalia, dor nos seios da face e mal-estar em 12 (70%), febre em 5 (29%), tosse noturna em 2 (11%), cacosmia e halitose em 1 (5%) (Figura 1).

Ao exame otorrinolaringolgico, 15 pacientes apresentavam secreo nasal (88%), 13 hiperemia da mucosa (76%), 9 edema da mucosa (52%) e 8 dor palpao dos seios (47%) (Figura 2).

No retorno dos pacientes, aps 7 dias de tratamento, evidenciamos: persistncia de febre em 1 (5%), mal-estar em 2 (11%), dor em seios da face em 3 (17%), cefalia em 4 (23%), secreo ps nasal em 5 (29%) e obstruo nasal em 9 (52%) (Figura 3).

Quanto avaliao da eficcia pelo paciente, obtivemos cura em 5 pacientes (29%), melhora em 8 (47%), ineficcia em 4 (23%). Quanto avaliao pelo mdico, obtivemos cura em 9 (52%), melhora em 4 (23%) e ineficcia em 4 (23%) (Figura 4).

Os efeitos colaterais foram relatados em seis pacientes (35%), sendo estes especificamente: nuseas em 3 pacientes (17%), ansiedade em 2 (11%) e mal-estar em 1 (5%) (Figura 5).


Figura 1. Sintomas clnicos admisso.


Figura 2. Sinais ao exame otorrinolaringolgico admisso.


Figura 3. Sinais e sintomas aps 7 dias de tratamento.


Figura 4. Avaliao da eficcia do tratamento.


Figura 5. Efeitos colaterais apresentados durante o tratamento, relatados pelo paciente.


DISCUSSO

Atualmente, incluem-se entre os antibiticos usados no tratamento da rinossinusite aguda, os beta-lactmicos associados ou no aos inibidores de beta-lactamase, os macroldeos, as cefalosporinas e as quinolonas. Estes ltimos surgem como uma alternativa s drogas de eleio em virtude da crescente resistncia dos pneumococos aos outros trs7,8.

Vrios estudos demonstram taxa de sucesso clnico de aproximadamente 90% no uso de moxifloxacino (400 mg por dia) por 7 a 14 dias7,9,10,11. Em uma meta-anlise de 4 estudos multinacionais realizados em 282 pacientes com rinossinusite aguda tratada com moxifloxacino, houve sucesso clnico em 96% dos casos, tendo sido erradicados 89 a 97% dos S. pneumoniae (n=35), S. aureus (n=7), H. influenzae (n=23) e M. catarrhalis (n=23)12.

No nosso estudo observamos uma eficcia menor do que os dados da literatura (76%). Acreditamos que, apesar de haver grande adeso ao tratamento (dose nica diria), no foi alcanado um percentual alto de eficcia pelo pouco tempo de tratamento (7 dias). Com isso, a despeito de sua excelente atividade contra cepas resistentes aos beta-lactmicos e macroldeos, devemos nos preocupar com o impacto ecolgico de seu uso mais amplo nas infeces adquiridas na comunidade.

Com relao segurana, so relatados poucos efeitos adversos do moxifloxacino, sendo, em geral, leves e predominantemente gastrointestinais7,8,9,11. Outra meta-anlise de 20 estudos de Fase II e Fase III envolvendo 4.926 pacientes tratados com moxifloxacino (geralmente 400 mg/dia) indicou que os eventos adversos foram muito leves e transitrios na maioria das vezes e levaram descontinuao do tratamento em 3,8% dos pacientes. Os eventos mais freqentes foram nuseas (7,2%) e diarria (5,7%). Ocorreu tontura em 2,8% dos pacientes e no ocorreu fototoxicidade relacionada ao frmaco13. Em um outro estudo foram relatados efeitos adversos em 37% dos pacientes tratados com moxifloxacino, sendo nuseas em 11%. No nosso estudo observamos dados consistentes com a literatura10. Os efeitos colaterais estavam presentes em 35% dos pacientes, mais comumente nuseas (17%).

Acreditamos que estudos mais amplos, com maior casustica, devam ser executados para que se chegue a uma concluso mais segura a respeito do encurtamento do tempo de tratamento da rinossinusite aguda.

CONCLUSO

Os resultados deste estudo sugerem que, apesar de seguro, o tratamento da rinossinusite aguda com moxifloxacino (400 mg por dia) por sete dias insuficiente para a resoluo do quadro.

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Servio de Otorrinolaringologia do Hospital Santa Genoveva, Uberlndia, Minas Gerais, Brasil.
Endereo para correspondncia: Jos Antnio Patrocnio - Rua XV de Novembro, 327 / apt. 1600 - Bairro Centro - Uberlndia /MG - CEP: 38400-214 - Telefone/Fax: (34) 215-1143 - E-mail: lucaspatrocinio@triang.com.br ou lucaspatrocinio@doctor.com
Artigo recebido em 6 de novembro de 2000. Artigo aceito em 5 de dezembro de 2000.

1- Professor Titular e Chefe do Servio de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de Uberlndia.
2- Residente do Servio de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de Uberlndia.
3- Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
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