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Ano: 2003  Vol. 7   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Original Article
Avaliao das Manifestaes Otorrinolaringolgicas em Usurios de Crack
Evaluation of Otolaryngologicals Manifestations in Crack Cocaine Users
Author(s):
Flvio Augusto Passarelli Prado*, Fabrcio Ricci Romano**, Cristian Wiikmann***, Ivan Dieb Miziara****.
Palavras-chave:
otorrinolaringologia, crack, drogas, cocana, laringe.
Resumo:

Introduo: O consumo de cocana cresceu de forma considervel no Brasil, devido popularizao do crack, forma fumvel da cocana com grande poder de induo dependncia, baixo custo e fcil obteno, que atinge uma camada social mais baixa, com pouco acesso ao sistema de sade. Na literatura mdica existem alguns estudos sobre as alteraes otorrinolaringolgicas agudas causadas pelo consumo do crack, porm poucos sobre as alteraes crnicas causadas pelo mesmo. Pacientes e Mtodos: Avaliamos as principais manifestaes otorrinolaringolgicas em 18 pacientes em tratamento no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, com histria de uso crnico de crack, encontradas atravs de anamnese, exame fsico otorrinolaringolgico completo e nasofibrolaringoscopia. Resultados: A grande maioria dos pacientes tinha queixas relacionadas orofaringe e laringe aps o consumo da droga e as principais alteraes encontradas foram a presena de edema e hiperemia em regio supra-gltica. Concluses: A presena de hiperemia em supraglote um achado inespecfico que deve ser valorizado para o diagnstico de consumo da droga.

INTRODUO

O consumo de cocana intensificou-se em nossa sociedade nesta ltima dcada. Um dos fatores responsveis por isto foi a popularizao do crack, cocana fumvel, que absorvida rapidamente pelos vasos pulmonares, causando imediata euforia, que dura em mdia 20 minutos apenas. Isso faz com que o usurio use novamente a droga em um curto espao de tempo, levando-o rapidamente dependncia.

Esta caracterstica da droga associada ao seu baixo custo e fcil obteno fez com que seu uso fosse difundido a uma camada social mais pobre e vulnervel, sem acesso prvio cocana. Devido s caractersticas desse principal grupo de usurios, classe econmica baixa e pouco acesso aos servios de sade, h uma escassez de informaes acerca dos efeitos crnicos sistmicos ou locais do uso de crack, principalmente no que diz respeito s manifestaes otorrinolaringolgicas. O crack sintetizado a partir do aquecimento da soluo de cocana e gua, misturada a soda custica, que forma um precipitado slido que quando seco forma a pedra da droga (1). Na literatura a maioria dos trabalhos cientficos que discutem as alteraes locais causadas pelo fumo de crack referem-se apenas a leses agudas, diferindo conforme o seu meio de administrao.

As principais leses otorrinolaringolgicas agudas descritas so queimaduras de lbios, cavidade oral, orofaringe, epiglote e laringe. Na cocana em forma de crack essas queimaduras so geralmente causadas pela inalao de vapor da droga em alta temperatura ou inalao de partculas metlicas incandescentes, que fazem parte do cachimbo.

Como a droga causa anestesia local, os usurios so ainda mais expostos a tais leses (2-4). As principais leses locais relacionadas ao consumo crnico desta droga, descritas da literatura mdica, so pulmonares, tais como os efeitos farmacolgicos locais da cocana sobre o epitlio brnquico, a perda da neuroregulao da funo pulmonar, edema pulmonar, hemorragia alveolar, barotrauma, reaes de hipersensibilidade e doena pulmonar intersticial (5,6). FLIGIEL et al. compararam leses traqueobrnquicas causadas pelo uso do crack, tabaco, maconha e a associao destas, mostrando que o uso de maconha e tabaco associados produzem significantes alteraes na mucosa brnquica. J o fumo de crack isoladamente ou associado maconha, aparentemente no mostrou ser importante causador de leso traqueobrnquica, porm sua associao com o fumo de tabaco ampliou as leses brnquicas causadas pelo fumo isolado de tabaco (7). Sabe-se que um dos efeitos instantneos causados pelo fumo do crack a ativao da circulao de leuccitos polimorfonucleares (PMN), aumentando sua capacidade bactericida, anti-tumoral e citotxica, concomitante a uma produo elevada de interleucina 8, um potente ativador de PMN (8), Outro efeito causado a alterao da freqncia e da harmonia dos batimentos ciliares do epitlio respiratrio (9).

Essas alteraes associadas a potente vasoconstrio prolongada causada pela droga (10,11) possivelmente podem contribuir para as leses crnicas no epitlio do trato respiratrio. Quanto cocana injetvel ou aspirvel, as principais leses otorrinolaringolgicas agudas relacionam-se com leso coclear e efeitos teratognicos.

As leses crnicas rinolgicas causadas pelo uso de cocana aspirvel, como as perfuraes de septo nasal e palato, so bem descritas pela literatura mdica (12-15). O objetivo deste estudo de, atravs de anamnese detalhada, exame otorrinolaringolgico completo e nasofibrolaringoscopia, avaliar os efeitos deletrios do uso crnico de crack sobre o trato aerodigestivo alto (cavidade oral, faringe e laringe), correlacionando-os com o tempo e quantidade de uso da droga.

PACIENTES E MTODOS

Foram selecionados 18 pacientes de acompanhamento pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de lcool e Drogas (GREA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo, com histria de uso de crack. Estes pacientes, aps primeira consulta no GREA, foram convidados a fazer uma avaliao otorrinolaringolgica, sendo ento submetidos no mesmo dia, a anamnese, seguindo formulrio especfico, estabelecendo-se o tempo e quantidade de uso da droga e associao com outras drogas, as principais queixas otorrinolaringolgicas prvias ao consumo da droga, para que se fosse estabelecido apenas as queixas relacionadas ao uso da droga e as queixas otorrinolaringolgicas atuais, alm de hbitos pessoais e doenas associadas. Os pacientes foram ento encaminhados ao ambulatrio da Diviso de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo, para realizao de exame fsico otorrinolaringolgico completo, compreendido em otoscopia, rinoscopia anterior e oroscopia, seguido de uma nasofibrolaringoscopia com fibroscpio flexvel. Os dados obtidos foram analisados por meio de tcnicas descritivas, uma vez que no havia interesse em se comparar grupos de pacientes. Parmetros como soma, mdia aritmtica, mdia ponderada, desvio padro da mdia, freqncia absoluta e relativa foram utilizados com auxlio do software Excel 5.0 for Windows, para elaborao de grficos descritivos.

RESULTADOS

Foram avaliados um total de 18 pacientes, 15 do sexo masculino e 3 do sexo feminino, com mdia de idade de 28,2 anos, todos com histria de uso crnico de crack. Oito pacientes apresentavam histria de uso recente da droga. O restante apresentava-se abstinente h pelo menos trs semanas (Tabela 1). A mdia do perodo de consumo da droga foi de 44 meses, numa freqncia mdia de 6 a 7 pedras de crack por dia. Deve-se ressaltar que, evidentemente, cada paciente entrevistado possua um determinado padro de consumo da droga, alguns ficavam abstinentes por longos perodos, outros s usavam crack nos finais de semanas, por exemplo. Pouqussimos pacientes referiram histria de consumo dirio da droga, portanto, a quantidade de uso descrita na Tabela 1 apenas uma mdia aproximada. A associao do uso de crack a outros tipos de droga foi um achado extremamente freqente (Grfico 1), assim como o tabagismo.









Apenas 2 pacientes no apresentavam histria de tabagismo e nenhum paciente referiu histria de etilismo importante. Como antecedentes mrbidos, um paciente referiu histria de meningite, leptospirose e hepatite A e uma paciente apresentava antecedente de asma e hipertenso arterial sistmica, estando em uso de corticoterapia inalatria e sistmica. As principais queixas otorrinolaringolgicas, relativas ao perodo de consumo do crack (Tabela 2), excluindo- se as queixas otorrinolaringolgicas prvias ao uso da droga, foram as relacionadas garganta e orofaringe. Poucos pacientes referiram sintomas aps certo perodo de abstinncia de consumo.

J as queixas nasais relacionam-se ao perodo de uso da cocana da forma inalvel. As queixas auditivas, especialmente o zumbido, tambm foram relacionadas apenas ao perodo de consumo do crack. Alm dos sintomas acima referidos, dois pacientes relataram sensao de anestesia e um paciente relatou ressecamento em orofaringe, durante o uso da droga.

Dois pacientes relataram histria de queimadura em orofaringe durante o consumo do crack por cachimbo. Apenas dois pacientes apresentaram alteraes incaractersticas na otoscopia e apenas um paciente apresentou hiperemia a oroscopia. Como j esperado (9-11), alteraes em rinoscopia, como hiperemia de mucosa nasal, edema e hipertrofia de cornetos, foram encontradas em pacientes com histria de uso de cocana inalvel, principalmente na narina usada para consumo da droga. Um paciente, tambm usurio de cocana inalvel, possua uma perfurao em regio de septo nasal anterior.

As principais alteraes encontradas na nasofibrolaringoscopia (Tabela 3) foram de edema e hiperemia inespecfica em mucosa de orofaringe e laringe, principalmente em regio supragltica, compreendida por epiglote, bandas ventriculares, valculas, seios piriformes e regio gltica, principalmente em cordas vocais. Apenas um paciente apresentou uma leso cicatricial hiperemiada em corda vocal esquerda. Os achados de hiperemia em epiglote localizaramse principalmente em face larngea dessa. As outras alteraes encontradas na nasofibrolaringoscopia ocorreram em casos isolados, no se repetindo dentre a maioria dos pacientes avaliados. Os pacientes com histria de uso crnico de cocana inalvel apresentaram alteraes nasais significantes como hipertrofia de corneto, hiperemia e edema de mucosa nasal em 55,5% dos casos, sempre na narina usada para a inalao da droga, indo de acordo ao exame fsico. Metade dos pacientes avaliados apresentou desvio de septo nasal, como achado de fibroscopia. Destes, a maioria no referiu sintomas relacionados ao seu desvio de septo.

DISCUSSO

A escassez de literatura cientfica sobre as manifestaes otorrinolaringolgicas em pacientes com histria de uso crnico de crack dificulta a comparao de nossos resultados, no dispondo de um padro ao qual possa ser defrontado com alguma referncia anterior. As principais alteraes encontradas pela nasofibrolaringoscopia podem ser sugestivas de leso provocada pelo uso crnico desta droga, porm a confirmao deste fato dificultada pelo fato de que 88,9% de nossos pacientes eram tabagistas e sabe-se que o tabagismo crnico provoca leses semelhantes as encontradas em nossos pacientes. A presena de uma leso cicatricial hiperemiada encontrada na corda vocal de um dos pacientes provavelmente foi causada pela aspirao de alguma partcula incandescente, que ao entrar em contato com a corda vocal, produziu leso trmica desta.

Porm o paciente no referiu histria compatvel com este fato. Outra hiptese plausvel que esta leso seja apenas um achado inespecfico, visto que esta no se repetiu em outros pacientes.

Os resultados alcanados em nosso estudo no devem ser desprezados, pois certas alteraes como a presena de hiperemia em epiglote e aritenides repetiram- se em mais da metade dos casos, nos fazendo acreditar que talvez estas leses no sejam apenas achados inespecficos. Para que estas alteraes encontradas em nosso estudo sejam confirmadas como secundrias ao uso crnico de crack faz se necessria a realizao de outros estudos avaliando um nmero maior de pacientes e utilizando um grupo controle de pacientes tabagistas e outro grupo de pacientes no usurios de crack e no tabagistas, desta forma nos possibilitando identificar apenas as leses causadas pelo uso da droga.

CONCLUSES

A presena de hiperemia em supraglote um achado inespecfico que deve ser valorizado para o diagnstico de consumo do crack.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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* Mdico Residente da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
** Mdico Doutorando do Curso de Ps Graduao Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da faculdade de Medicina da Universidade de
So Paulo.
*** Mdico Preceptor da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
**** Mdico Colaborador da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

Trabalho realizado na Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
Trabalho apresentado no Annual Meeting of American Academy of Otolaryngology Head and Neck Surgery Foundation, 16 a 19 de setembro de 2001, Denver,
Colorado, EUA.
Suporte financeiro: FAPESP.
Endereo para correspondncia: Flvio Augusto Passarelli Prado Av. Senador Casimiro da Rocha, 834 So Paulo / SP CEP 04047-001 Telefone: (11) 9642-8945
E-mail: flavioapp@ig.com.br
Artigo recebido em 12 de agosto de 2002. Artigo aceito em 10 de outubro de 2002.
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