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Ano: 2003  Vol. 7   Num. 2  - Abr/Jun Print:
Original Article
Estudo da Hipertenso Arterial Sistmica e do Diabetes Mellitus como Fatores Agravantes da Presbiacusia
Systemic Arterial Hypertension and Diabetes Mellitus as Risk Factors for Presbycusis
Author(s):
Vera Lucia Ribeiro Fuess*, Dafne Patrcia Cerchiari**.
Palavras-chave:
presbiacusia, fatores de risco, idoso, audiometria.
Resumo:

Introduo: A presbiacusia um problema epidemiolgico e os dados sobre seus fatores predisponentes e agravantes so controversos. Objetivos: Estudar a prevalncia de presbiacusia e a relao da hipertenso arterial sistmica (HAS) e do diabetes mellitus (DM) como fatores de risco. Metodologia: Foi realizada avaliao audiolgica em 132 idosos em uma Feira de Sade. Foram excludos os indivduos com perda auditiva por outra causa, que no a presbiacusia (44 pacientes). Investigouse patologias sistmicas nos 88 indivduos restantes. Resultados: 84% dos indivduos apresentavam presbiacusia. Relacionou-se piora da perda auditiva com o avano da idade, observando-se que 17,6% dos pacientes entre 60 e 64 anos tinham presbiacusia e que, acima de 74 anos 100% dos indivduos manifestavam esta afeco. Entre os idosos, 65,9% tinham patologia sistmica, sendo nove (10,2%) pacientes com DM tipo 2, 27 (30,7%) com HAS e 22 (25%) portadores de HAS e DM. Houve maior incidncia e intensidade de presbiacusia em homens. Concluso: A prebiacusia mostrou-se altamente prevalente no grupo estudado, particularmente nos pacientes do sexo masculino e nos de idade mais avanada. No houve relao entre presbiacusia e patologias sistmicas.

INTRODUO

A perda auditiva decorrente do envelhecimento representa um problema epidemiolgico em constante crescimento, por refletir o envelhecimento geral da popula o (1,2). A presbiacusia o comprometimento sensorial mais freqente entre idosos, com prevalncia de aproximadamente 46% em indivduos de 48 a 92 anos (3). MEGIGHIAN (1) observa que a perda auditiva se torna freqente a partir dos 55 anos de idade, atingindo cerca de 14% da populao entre 60-64 anos e 50 a 60% acima dos 80 anos. A presbiacusia resulta principalmente dos efeitos cumulativos da exposio ao rudo, do envelhecimento da cclea e de doenas vasculares (4,5). Segundo HINCHCLIFFE (6), CORSO (7), MARSHALL (8) e MEGIGHIAN (1), ela reflete uma ampla gama de alteraes degenerativas e fisiolgicas que ocorrem em muitas combinaes no sistema auditivo perifrico e central. LEITHAUSER (9) no acredita que a presbiacusia seja fisiolgica. O autor cr que fatores tpicos de risco, como Hipertenso Arterial Sistmica e Diabetes Mellitus tenham um papel menor que o rudo ambiental crescente e o estilo de vida dos dias atuais. Nos casos de presbiacusia de incio precoce, com evoluo rpida, por volta dos 55 anos de idade, AMSTUTZ-MONTADERT e ANDRIEU-GUITRANCOURT (2) recomendam a busca de distrbios metablicos ou vasculares, o uso de ototxicos e de nicotina.

Os autores tambm acreditam que o rudo seja o principal fator de agravo para a presbiacusia. MEGIGHIAN (1), estudando 13.710 idosos do campo e da cidade, no concorda que o desenvolvimento tecnolgico esteja afetando negativamente a perda auditiva relacionada idade, que ele considera fisiolgica. JORGENSEN (10) e CULLEN (11) teorizam que os diabticos apresentam maior risco de perda auditiva tanto por desordens metablicas como por neuropatias. CULLEN (11) no observa relao entre o tempo de durao do diabetes tipo 1 e uma piora da perda auditiva. Dalton (12) observa modesta associao entre o diabetes tipo 1 e perda auditiva, no reconhecendo piora da perda auditiva com o tempo de doena ou com o controle da glicemia. ACUA GARCIA (13) encontra limiares audiomtricos acentuadamente piores em diabticos com neuropatia diabtica quando comparados populao controle e aos diabticos no neuropatas.

O autor observa piora dos limiares em freqncias agudas proporcionalmente ao tempo de doena e ao descontrole da glicemia. TAY (14) e MA (5) em diabticos tipo 1 e tipo 2, ESPAA (15) em diabticos tipo 1 e BOOMSMA (16) em diabticos tipo 2, concluram que a perda auditiva apresenta relao com o tempo de doena. DAVANIPOUR (17) acredita que a associao entre perda auditiva e hipertenso arterial sistmica observada em uma populao de 1.314 idosos indique que as patologias vasculares associadas hipertenso arterial sistmica possam ser etiologicamente responsveis por esta perda auditiva. CRUICKSHANKS (3), DAVANIPOUR (17) e CORSO (7) observam perda auditiva mais acentuada nos idosos do sexo masculino. MEGIGHIAN (1) observa maior prevalncia de perda auditiva em homens que em mulheres acima de 60 anos. TAY (14) e ACUA GARCIA (13) no observam diferena audiomtrica relacionada ao gnero do paciente. Devido existncia de poucos estudos epidemiol gicos para avaliar a perda auditiva em adultos (3), e aos resultados discordantes nos estudos realizados, optamos por estudar a prevalncia de presbiacusia em idosos e a relao da hipertenso arterial sistmica e do diabetes mellitus como fatores de risco para esta perda auditiva.

METODOLOGIA

O Comit de tica em Pesquisa da Universidade de Mogi das Cruzes emitiu parecer favorvel a este trabalho quando de sua incluso no Programa de Iniciao Cientfica CNPq UMC. Pessoas acima de 60 anos de idade, moradoras da cidade de Mogi das Cruzes SP, foram convidadas a realizarem avaliao auditiva durante a Feira de Sade Antonio Prudente, realizada nos dias 18 e 19 de agosto de 2001.

Fomos procurados espontaneamente por 132 pacientes. Esta avaliao constituiu-se de questionrio sobre antecedentes pessoais e otolgicos, otoscopia realizada por mdico otorrinolaringologista, audiometria tonal limiar e audiometria vocal, realizadas conjuntamente por duas fonoaudilogas. As audiometrias foram realizadas em cabine acusticamente isolada, com audimetro Maico MA 41. Inclumos neste estudo somente os dados obtidos com consentimento prvio do paciente. A presso arterial e a glicemia foram medidas em todos os pacientes, considerados alterados a glicemia maior que 200 mg/dL (a populao no se encontrava em jejum) e limiares pressricos maiores que 100 mmHg (diastlicos) e/ou 150 mmHg (sistlicos).

Os que j sabiam ser portadores de diabetes mellitus ou hipertenso arterial foram includos no grupo de patologias sistmicas. Foram considerados portadores de presbiacusia os pacientes com limiares maiores que 25dB HL nas freqncias 4, 6 e 8 KHz, em ambas as orelhas, com curva descendente.

Os pacientes que apresentaram SRT acima de 30dB HL foram orientados para acompanhamento otorrinolaringolgico para eventual tratamento clnico/ cirrgico ou adaptao de aparelho auditivo. O estudo estatstico foi realizado atravs do programa SP SS verso 7.5, aplicado o teste Kolmogorov-Smirnov.

RESULTADOS

Dos 132 indivduos avaliados, 18 foram excludos por falta de dados.

Das 114 pessoas restantes, 14 (12,3%) apresentaram limiares audiomtricos dentro da normalidade e 100 (87,7%) possuam algum grau de perda auditiva. Destes pacientes com perda auditiva, 74 (64,9%) apresentaram limiares audiomtricos compatveis com presbiacusia e 26 (22,8%) com perda auditiva por outras causas, sendo estes tambm excludos.

Destes 100 pacientes que apresentavam perda auditiva, 12,1% apresentavam SRT acima de 30 dB em ambas as orelhas, sendo orientados a procurar otorrinolaringologista para eventual protetizao auditiva. A populao final includa neste estudo (88 pacientes) foi dividida em:

grupo I, constitudo de 14 pacientes (15,9%) com limiares audiomtricos dentro dos limites da normalidade e grupo II, formado por 74 pacientes (84,1%) com perda auditiva sugestiva de presbiacusia (Grfico 1). Destes pacientes, 24 tinham entre 60 e 64 anos (27,3%), 31 entre 65 e 69 anos (35,2%), 18 entre 70 e 74 anos (20,5%) e 15 pacientes tinham mais que 74 anos (17%).

O Grfico 2 mostra a distribuio destes pacientes nos grupos I e II. Dos pacientes do grupo II, observamos aumento do nmero de casos de presbiacusia proporcionalmente ao aumento da idade.

Encontravam-se neste grupo: 54,1% dos indivduos entre 60 e 64 anos, 93,5% daqueles entre 65 e 69 anos e 100% das pessoas acima dos 74 anos.

No estudo estatstico observou-se diferena significativa nas freqncias 2, 3, 4, 6 e 8 KHz entre os indivduos de 60 a 70 anos e os da faixa etria acima de 74 anos (p =0,05) (Grfico 3). Destes 88 pacientes estudados, 27 pacientes apresentaram hipertenso arterial sistmica (30,7%), 9 apresentam diabetes mellitus (10,2%), 22 pacientes apresentam ambas as patologias (25%) e 30 pacientes no apresentam doenas sistmicas (34,1%) (Grfico 4). Todos os pacientes com HAS, 13 do sexo feminino e 14 do sexo masculino, apresentaram presbiacusia, no havendo como comparar os grupos I e II. Dos pacientes em estudo, metade do sexo masculino. Destes, apenas 8,9% apresentam limiares audiomtricos dentro dos limites da normalidade.

Entre os pacientes do sexo feminino, 23,3% tinham limiares normais. Mesmo nos indivduos do grupo I observamos limiares piores nas freqncias agudas entre os indivduos do sexo masculino (Grfico 5).

Esta diferena tambm foi observada ao se dividir os grupos por presena ou no de patologias sistmicas.

No grupo sem patologia sistmica, os limiares tonais dos homens encontravam-se significativamente maiores nas freqncias 4, 6 e 8 KHz, e no grupo com hipertenso, nas freqncias 3, 4 e 6 KHz.

Apenas o grupo dos pacientes com DM no pode ser avaliado quanto ao gnero por s haver pacientes homens com presbiacusia e uma mulher sem perda auditiva (Grficos 6 e 7). Quanto s queixas relacionadas acuidade auditiva, observamos que os pacientes com presbiacusia apresentavam zumbido e dificuldade para ouvir duas vezes mais que os pacientes do grupo sem perda auditiva, embora esses ltimos tambm se queixassem de zumbido em 21,4% dos pacientes, e de dificuldade para ouvir na mesma porcentagem (Grfico 8). Dos 37 pacientes com zumbido, 13 no tinham patologia sistmica. Dos 38 pacientes com dificuldade para entender a fala, 13 no apresentavam patologia sistmica.

















DISCUSSO

Observamos aumento do nmero de casos de presbiacusia proporcionalmente ao aumento da idade. Estes resultados concordam com os de MEGIGHIAN (2). No encontramos relao entre diabetes mellitus tipo 2 e aumento na incidncia de presbiacusia, concordando com a reviso de literatura realizada por JORGENSEN (10), que chama ateno para a dificuldade em se distinguir a perda auditiva dos diabticos da perda auditiva senil em indivduos no diabticos.

Para ESPAA (15), o fato de jovens diabticos no terem perda auditiva exclui a hiperglicemia como fator isolado para alteraes auditivas. A ausncia de relao entre retinopatia e perda auditiva faz o autor acreditar que o diabetes tenha papel ototxico, acelerando alteraes degenerativas da orelha, j que alteraes labirnticas microvasculares isoladas no podem ser responsabilizadas pelos sintomas auditivos. Quando analisamos os pacientes com HAS em associao com DM, tambm no encontramos relao entre a presena destas patologias e a piora dos limiares audiomtricos, contrariando DAVANIPOUR (17), BRANT (18) e DUCK (19). No pudemos relacionar o agravamento dos limiares audiomtricos na presena de HAS, j que os 27 pacientes com esta patologia isolada apresentavam presbiacusia.

O fato de pacientes com associao de HAS e DM no apresentarem piora dos limiares tonais no nos permite inferir que a hipertenso arterial tenha interferncia direta na presbiacusia, como faria supor a presena de presbiacusia em todos os hipertensos estudados. A maior preservao auditiva observada nas mulheres estudadas est de acordo com diversos estudos recentes (1, 3, 7, 17) e observada em todos os grupos, com e sem perda auditiva, com e sem patologia sistmica associada. Os resultados obtidos concordam com os de LEITHAUSER (9), que acredita que fatores tpicos de risco, como hipertenso e diabetes mellitus tenham um papel menor que o rudo ambiental na gnese da presbiacusia. WESTON (20) sugere haver um sinergismo entre diversos fatores que comprometem a sade (fumo, arterioesclerose, distrbios circulatrios, hipertenso, anemia, etc.) e a perda auditiva decorrente da idade. A presena de zumbido e a queixa de dificuldade para ouvir tambm mostraram alta prevalncia, mesmo em idosos com limiares audiomtricos dentro dos limites da normalidade, e sem relao com a presena de patologia sistmica. No encontramos estudos neste sentido para comparao.

O estudo das vias auditivas centrais e o processamento auditivo central poderiam, eventualmente, esclarecer a fisiopatologia destes sintomas.

CONCLUSO

Neste estudo comprovou-se a alta prevalncia de perda auditiva na terceira idade, com apenas 12,3% de pacientes com limiares audiomtricos dentro da normalidade. Constatou-se maior incidncia e intensidade da presbiacusia com o avanar da idade e nos indivduos do sexo masculino. No observamos, contudo, maior freqncia ou intensidade de presbiacusia em pacientes portadores de hipertenso arterial sistmica e/ou diabetes mellitus.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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* Doutora em Otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo e Professora Adjunta de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes.
** Aluna da Graduao da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes.

Trabalho apresentado no XXXIV Conventus ORL Latina, em 02 a 04 de maio de 2002, em So Paulo e no V Congresso de Iniciao Cientfica (CNPq - UMC), em 29
a 30 de agosto de 2002.
Trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes.
Endereo para Correspondncia: Dra. Vera Lucia Ribeiro Fuess . Rua Galdino Alves, 220 . Mogi das Cruzes / SP . CEP 08780-250 . Telefone: (11) 4799-2440 . Fax:
(11) 4725-9596 . E-mail: nari@osite.com.br
Artigo recebido em 8 de agosto de 2002. Artigo aceito com modificaes em 17 de maro de 2003.
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