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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Incidncia de Rouquido em Alunos do ltimo Ano dos Cursos de Licenciatura
Incidence of Hoarseness in Students of the Last Year of Degree Courses
Author(s):
Francisco Xavier Palheta Neto1, Jorge Victor Carvalho Freire2, Luiz Andr Arajo Damasceno2, Renato de Oliveira Ferreira2, Victor Hugo Azancot Fernandes2, Anglica Cristina Pezzin Palheta3
Palavras-chave:
rouquido, fatores de risco, distrbios da voz, sade do trabalhador, educao, qualidade de vida
Resumo:

Introduo: Os professores representam um dos grupo mais freqentemente acometido por alteraes vocais, sob a pena do surgimento de sintomas disfnicos, prejudiciais ao prosseguimento do magistrio. Objetivo: Avaliar a ocorrncia de rouquido em alunos do ltimo ano dos cursos de licenciatura de uma Instituio de Ensino Superior. Mtodo: Realizou-se estudo prospectivo, individuado, observacional e transversal, entrevistando-se 100 alunos quanto a aspectos clnicos, pessoais e profissionais,atravs de questionrio prprio. Resultados: Dos 100 alunos 65% j lecionam em pelo menos uma instituio de ensino. Do total dos alunos que j lecionam 83,08% apresentam algum tipo de sintoma relacionado ao uso inadequado da voz. Dentre os alunos que j lecionam em instituies, apenas 26,15% relatam manter habitualmente algum cuidado com a voz enquanto 73,85% dizem no ter esse hbito. 83,33% dos estudantes ao apresentarem algum sintoma relacionado a voz no buscam atendimento mdico. Dentre as queixas a trade: dor ou irritao (27,33%), pigarro (21,33%) e rouquido (21,33%) foram constatados como as de maior freqncia. A sintomatologia foi de 27% nos que usam pouca gua, contrastando com os 8% dos que fazem o uso de muita gua. Concluso: Mais da metade dos alunos pesquisados j trabalhavam como professor e apresentavam queixa de rouquido. fundamental que orientaes vocais sejam fornecidas durante esses cursos de graduao.

INTRODUO

A voz se faz presente nos processos de socializao humana, como um dos componentes da linguagem oral e da relao interpessoal, produzindo impactos na qualidade de vida dos sujeitos, especialmente daqueles que fazem o uso da voz falada e/ou cantada em sua profisso (1-17).

Entre os vrios profissionais que utilizam a voz como sua principal "ferramenta de trabalho", sem dvida tem-se os professores como o grupo mais freqentemente acometido por alteraes vocais, seja pelo uso indevido, seja pelo uso abusivo da funo fonatria. Isso se deve pela necessidade de adaptao dos rgos da fonao, sob a pena do surgimento de sintomas disfnicos, mais ou menos precoces, prejudiciais ao prosseguimento do magistrio (2-4).

Na profisso docente, a voz fator relevante para o desempenho profissional e a atuao do professor em sala de aula, especialmente enquanto componente constitutivo da identidade do professor como trabalhador, do impacto do docente sobre o discente e componente do processo ensino-aprendizagem (1, 5, 6).

No Brasil, as estatsticas oficiais mostram que 25% da populao economicamente ativa depende da voz para exercer algum tipo de ocupao. Estima-se que 2% dos professores brasileiros, cerca de 25 mil profissionais, sero afastados de suas funes por problemas na laringe e nas pregas vocais (4, 7).

O Instituto de Previdncia e Assistncia do Municpio de Belm (IPAMB) em 2005 registrou 182 casos de doenas ocupacionais no servio pblico do municpio. Desses, 47% so da Secretaria Municipal de Educao, dentre esses, 30% sofrem de disfonia e rouquido aguda, sendo que dessa parcela 19% so professores (8).

A prtica vocal bem estrutura no fadiga em absoluto a voz. Pelo contrrio, os msculos e os rgos vocais se desenvolvem e de fortificam com o exerccio. Faz-se, ento, de suma importncia um trabalho preventivo atingindo a classe de profissionais da voz, para garantir uma voz mais saudvel, mediante orientaes e cuidados bsicos, para que possa utilizar o mximo de seu potencial vocal, sem comprometer o delicado aparelho fonador (9).

A disfonia representa qualquer dificuldade de emisso vocal que impea a produo natural da voz e pode se apresentar como sintoma principal ou secundrio. As manifestaes podem ser: esforo a emisso, dificuldade de manter a voz, variao na freqncia fundamental, habitual ou na intensidade, rouquido, falta de volume e projeo, perda da eficincia vocal e pouca resistncia ao falar (10).

Para que a fonao seja normal necessrio que, alm do aparelho fonador, a laringe funcione adequadamente e em sinergia. preciso que os mecanismos respiratrios, os de ressonncia e com o sistema nervoso estejam adaptados fonao. Pela atividade profissional exercida, com carga horria excessiva, condies de trabalho adversas, grande interferncia em nvel biolgico, emocional e ambiental, a voz prejudicada pelo mau uso e/ou abuso do delicado aparelho fonador, poder apresentar alteraes e patologias. Sabe-se que a rotina diria das escolas tem um nvel de rudo muito grande, provocado pela fala das crianas em intensidades fortes e em competio com o barulho do ambiente, obrigando o professor a falar mais intensamente, prejudicando muitas vezes a ao pedaggica por causa de uma voz desgastada no uso constante. Tal prtica poder levar a prejuzos tanto para o profissional como para o aluno e todo o processo educacional. Muitas ausncias de professores durante o ano letivo, devido a licenas mdicas para repouso vocal, quebram a relao professor-aluno refletindo-se, inclusive, no rendimento escolar (11).

Observa-se que os cursos de magistrios e pedagogia encontram-se ainda desprovidos, em seu currculo, de material orientador que proporcione a preveno dos males vocais. Apesar da proximidade de um novo sculo, os professores ainda permanecem utilizando a voz de forma muito intensa, gritando com o aluno no intuito de estabelecer autoridade. Os professores saem dos seus cursos muito bem orientados a respeito de como educar, porm despreparados com relao a sua sade vocal, provocando problemas quando se deparam com a falta de tcnica para o uso correto da voz (11).

O uso incorreto da voz geralmente favorecido pela falta de conhecimento sobre a produo vocal, pela ausncia de noes bsicas sobre a voz e as possibilidades do aparelho fonador, o que pode levar o indivduo a selecionar ajustes motores imprprios a uma produo normal de voz (10).

Cativados pelo tema e pela necessidade de orientao, esclarecimento e conscientizao da populao de modo geral e mais especificamente dos futuros "profissionais da voz", o presente estudo visa avaliar a ocorrncia de rouquido e as caractersticas do trabalho de estudantes universitrios que ministram aulas mesmo antes da graduao; muitas vezes sem os devidos cuidados com a voz.

Este estudo foi realizado com o objetivo de analisar a ocorrncia de rouquido em estudantes universitrios de licenciatura em pedagogia, matemtica e letras de uma Instituio de Ensino Superior, e correlacionar com as caractersticas de possveis atividades extracurriculares relacionadas ao ato de lecionar.


MTODO

Todos os alunos envolvidos na presente pesquisa foram entrevistados segundo os preceitos da declarao de Helsinque e Cdigo de Nuremberg, respeitadas as Normas de Pesquisas envolvendo seres humanos (Res. CNS 196/96) do Conselho Nacional de Sade, aps aprovao por Comit de tica em Pesquisa e autorizao da Instituio de Ensino Superior (sob nmero 133/06), onde foi realizada a coleta dos dados. Os alunos fizeram parte da pesquisa aps assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para este estudo foram coletadas informaes clnicas, pessoais e profissionais atravs de questionrio prprio elaborado pelos pesquisadores. Foram entrevistados 100 alunos de uma Instituio de Ensino Superior, em seus locais de estudo. Este estudo caracteriza-se como prospectivo, individuado, observacional e transversal sendo definido como um inqurito epidemiolgico. A escolha dos estudantes universitrios analisados neste estudo foi feita de forma aleatria e conforme aceitao da instituio em que estudam e dos prprios alunos.

Foram includos nesta pesquisa 100 alunos do ultimo ano dos cursos de Matemtica, Letras e Pedagogia de uma Instituio de Ensino Superior, aps terem assinado o termo de consentimento livre e esclarecido, alm de concordado com a metodologia da pesquisa. Foram excludos desta pesquisa todos os alunos que estavam na vigncia de tratamento fonoterpico.

Para este estudo, foi elaborado um Banco de Dados (BD) no programa Bio Estat 4.0. Os dados coletados foram: quanto ao fato do estudante j lecionar ou no (h quanto tempo, carga horria diria, tempo de intervalo, em quantas instituies, nvel de rudo do local, disponibilidade de gua); quanto ao hbito de fumar, ingerir bebidas alcolicas, instruo por parte da instituio onde estudam em relao aos cuidados com a voz; quanto sintomatologia clnica (dor ou irritao na garganta, rouquido, dificuldades no uso da voz) e ao uso de medicamentos ou promoo de cuidados com a garganta. Ressalta-se que por motivos ticos, foi preservada a identidade de todos os estudantes. Os dados coletados foram armazenados no BD. As anlises foram realizadas no programa Bio Estat 4.0. Os resultados foram analisados segundo estatstica descritiva em tabelas de freqncia e segundo a estatstica analtica por teste no paramtrico do Quadrado (X) - Teste de contingncia - LxC, utilizando o programa Bio Estat 4.0 de AYRES et al. (2006), segundo os objetivos propostos no trabalho. Foi considerado estatisticamente significativo p > 0,05.


RESULTADOS

Foram entrevistados 100 alunos de uma Instituio de Ensino Superior, onde 65 (65%) j lecionam em pelo menos uma instituio de ensino e os demais se dedicam exclusivamente atividade acadmica.

Foi observada uma importante correlao entre o aparecimento de sintomas nos alunos entrevistados que j possuam alguma atividade relacionada ao ato de lecionar (83,08%) conforme os achados observados na Tabela 2.






Identifica-se na Tabela 3 que 83,33% dos estudantes ao apresentarem algum sintoma relacionado a voz no buscam atendimento mdico, fato esse que se torna bastante prejudicial pra sua sade e para a progresso de sua carreira profissional futura, em virtude de que esta conduta negligente pode acarretar uma evoluo malfica da sintomatologia, que em algum momento pode culminar com o seu afastamento (transitrio ou permanente) de suas atividades profissionais.




Observando-se a Tabela 4 percebe-se que dentre os alunos que j lecionam em instituies, apenas 26,15% relatam manter habitualmente algum cuidado com a voz enquanto 73,85% dizem no ter esse hbito, fundamental para sua vida profissional futura.




Quanto s Tabelas 5 e 6 v-se, dentre os universitrios que relatavam algum tipo de queixa vocal, a trade: dor ou irritao (27,33%), pigarro (21,33%) e rouquido (21,33%) como os sintomas de maior freqncia.






DISCUSSO

A voz se faz presente nos processos de socializao humana, como um dos componentes da linguagem oral e da relao interpessoal, produzindo impactos na qualidade de vida dos sujeitos, especialmente daqueles que fazem o uso da voz falada e/ou cantada em sua profisso (1).

Na profisso docente, a voz fator relevante para o desempenho profissional e a atuao do professor em sala de aula, especialmente enquanto componente constitutivo da identidade do professor como trabalhador, do impacto do docente sobre o discente e componente do processo ensino-aprendizagem (1, 5, 6).

Atualmente os professores representam o grupo com maior incidncia de alteraes vocais (2).

No presente estudo, foram entrevistados 100 alunos de uma Instituio de Ensino Superior, onde 65 (65%) j lecionam em pelo menos uma instituio de ensino (Tabela 1). Do total dos alunos que j lecionam 83,08% apresentam algum tipo de sintoma relacionado ao uso inadequado da voz (Tabela 2), o que concorda com os achados de FABRON e ORNOTE (1996) (12), que os professores apresentaram mais queixas de distrbios vocais, e ao preconizado por FIGUEIREDO e LIECHAVIUS (1995) (13), que acharam relevante o nmero de professores que apresentam hbitos e conduta vocal inadequada, dificultando na adaptao da voz ao uso profissional, dor ao falar, cansao, vocal rouquido e afonia.

Alm disso, foi observado que dentre os alunos que j lecionam em instituies, apenas 26,15% relatam manter habitualmente algum cuidado com a voz enquanto 73,85% dizem no ter esse hbito, fundamental para sua vida profissional futura (Tabela 4). Os professores saem dos seus cursos muito bem orientados a respeito de como educar, porm despreparados com relao a sua sade vocal, provocando problemas quando se deparam com a falta de tcnica para o uso correto da voz (11).

Foi identificado neste estudo que 83,33% dos estudantes ao apresentarem algum sintoma relacionado a voz no buscam atendimento mdico (Tabela 3), fato esse que se torna bastante prejudicial pra sua sade e para a progresso de sua carreira profissional futura, em virtude de que esta conduta negligente pode acarretar uma evoluo malfica da sintomatologia, que em algum momento pode culminar com o seu afastamento (transitrio ou permanente) de suas atividades profissionais. No Brasil, as estatsticas oficiais mostram que 25% da populao economicamente ativa depende da voz para exercer algum tipo de ocupao. Estima-se que 2% dos professores brasileiros, cerca de 25 mil profissionais, sero afastados de suas funes por problemas na laringe e nas pregas vocais (4, 7). No primeiro consenso sobre voz profissional, foram estimados que 100 milhes de reais so gastos por ano, na rede municipal, no Brasil, por afastamentos de professoras (14).

Foi observada, dentre os universitrios que relatavam algum tipo de queixa vocal, a trade: dor ou irritao (27,33%), pigarro (21,33%) e rouquido (21,33%) como os sintomas de maior freqncia (Tabela 5). Corroborando com os achados de ALMEIDA (2005) (2). Em pesquisas realizadas no Brasil e no mundo, as queixas mais citadas pelos professores foram: rouquido, cansao vocal, dor ou irritao e pigarro.

Foi encontrada uma relao bastante significativa e notria entre a presena de sintomas relacionados ao uso inadequado da voz e a ingesto de gua. Sendo que essa associao (sintomas X ingesto de gua) assume a freqncia de 27% nos que usam pouca gua, contrastando com os 8% dos que fazem o uso de muita gua. Desta forma, indo ao encontro da literatura mundial que coloca a ingesto de lquidos, tal qual a gua, como um fator protetor pra riscos do mau uso da voz (Tabela 6).




CONCLUSO

Dos 100 alunos, 65 (65%) j lecionam em pelo menos uma instituio de ensino. Do total dos alunos que j lecionam 83,08% apresentam algum tipo de sintoma relacionado ao uso inadequado da voz. Dentre os alunos que j lecionam em instituies, apenas 26,15% relatam manter habitualmente algum cuidado com a voz enquanto 73,85% dizem no ter esse hbito. Conclui-se que 83,33% dos estudantes ao apresentarem algum sintoma relacionado a voz no buscam atendimento mdico. Dentre os universitrios que relatavam algum tipo de queixa vocal, a trade: dor ou irritao (27,33%), pigarro (21,33%) e rouquido (21,33%) foram constatados como os sintomas de maior freqncia. A sintomatologia foi de 27% nos que usam pouca gua, contrastando com os 8% dos que fazem o uso de muita gua. Tendo em vista estes resultados, imperativo a realizao de novas pesquisas, assim como o surgimento de disciplinas acadmicas orientando para o uso adequado da voz e dos riscos inerentes ao mau uso.


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1. Mestre em Otorrinolaringologia pela UFRJ. Doutorando em Neurocincias pela UFPA. Professor Assistente de Otorrinolaringologia da UFPA e da UEPA. Preceptor da Residncia Mdica em Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio Bettina Ferro de Souza da UFPA.
2. Graduao. Aluno do Quarto Ano do Curso de Medicina da UEPA.
3. Mestre em Otorrinolaringologia pela UFRJ - Doutoranda em Neurocincias pela UFPA. Professora Assistente de Otorrinolaringologia da UEPA. Preceptora da Residncia Mdica em Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio Bettina Ferro de Souza da UFPA.

Instituio: Instituio de Ensino Superior. Belm / PA - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Francisco Xavier Palheta Neto
Travessa Baro do Triunfo, 3380/502 - Bairro: Marco
Belm / PA - CEP 66093-050
Telefone: (91) 3249-9977 / 3249-7161 / 9116-0508
E-mail: franciscopalheta@hotmail.com

Artigo recebido em 1 de junho de 2008.
Artigo aceito em 30 de junho de 2008.
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