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Ano: 2009  Vol. 13   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Deteco Precoce e Interveno em Crianas Surdas Congnitas Inseridas em Escolas Especiais da Cidade de Salvador / BA
Early Detection and Intervention in Congenital Deaf Children Inserted in Special Schools of the City of Salvador / BA
Author(s):
Lavnia Santos de Carvalho1, Laura Giotto Cavalheiro2
Palavras-chave:
surdez, sade pblica, desenvolvimento infantil.
Resumo:

Introduo: A privao auditiva interfere no desenvolvimento lingustico da criana, prejudicando sua insero na sociedade e produzindo consequncias cognitivas e emocionais, caso ela no seja inserida em um programa educacional e teraputico precoce e adequado. Objetivo: Caracterizar o processo de deteco precoce e interveno de crianas com perda auditiva inseridas em escolas especiais da cidade de Salvador-BA. Mtodos: Foram avaliados os pronturios e realizada entrevista com as mes de 22 crianas surdas congnitas, com idade entre seis e oito anos. Resultados: A mdia de idade quando houve a suspeita da surdez foi de 1.2 anos e quando foram inseridas em um programa de atendimento educacional e/ou teraputico foi de 3.5 anos. 46% das crianas usam aparelho de amplificao sonora e tiveram um acesso prtese auditiva com 3.6 anos, em mdia. Apenas 37.5% fazem terapia fonoaudiolgica e 9.1% oralizada. Concluso: As crianas surdas avaliadas tiveram acesso linguagem de maneira tardia, sendo que algumas no utilizam um sistema de amplificao sonora ou passaram a utilizar em idades mais avanadas e poucas fazem terapia fonoaudiolgica. Dessa maneira, necessrio atuar na implementao das polticas pblicas direcionadas sade auditiva na populao peditrica e neonatal, possibilitando a ateno integral, universal e de qualidade.

INTRODUO

A privao auditiva interfere no desenvolvimento lingustico da criana, prejudicando a sua insero na sociedade e produzindo consequncias cognitivas e emocionais, caso ela no seja inserida em um programa educacional que leve em considerao a surdez e suas particularidades. O atraso na aquisio da linguagem reduz as ocasies de contatos sociais e pode levar a dficits cognitivos, tornando-se fonte de frustraes para as crianas surdas e seus pais (1).

Diversos autores enfatizam a necessidade da deteco e interveno precoce como fator essencial para que as crianas surdas consigam adquirir a linguagem de maneira eficiente e na idade adequada. Para esses autores, os primeiros anos de vida so ideais para a estimulao auditiva, pois considerado o perodo de maturao neurolgica, poca em que as habilidades auditivas podem ser adquiridas mais eficientemente (2,3,4,5,6,7).

Ademais, os efeitos provocados pela interveno tardia tambm influencia nos custos para a educao futura dessa criana. Experincias em pases desenvolvidos demonstram que o custo pode ser trs vezes maior quando essas crianas necessitam de escola especial (8). Por outro lado, a deteco da perda auditiva ainda mais vivel economicamente que o rastreio da fenilcetonria, hipotireoidismo e anemia falciforme (9).

Tendo em vista os prejuzos causados pela deteco e interveno tardia da surdez, foi criado, em 1998, o Grupo de Apoio Triagem Auditiva Neonatal (GATANU). Uma organizao no-governamental que tem como objetivo divulgar, normalizar, operacionalizar e cadastrar os servios de Triagem Auditiva Neonatal Universal (TANU) no Brasil (10).

Em 1999, foi elaborada a resoluo 01/99 pelo Comit Brasileiro sobre Perdas auditivas da Infncia (CBPAI). Segundo essa resoluo, "todas as crianas devem ser testadas ao nascimento ou no mximo at os 03 (trs) meses de idade e em caso de deficincia auditiva confirmada receber interveno educacional at 6 (seis) meses." Para garantir o acesso da maioria das crianas interveno precoce o Comit recomenda avali-las antes da alta da maternidade (8).

De acordo com o CBPAI, a incidncia de perda auditiva em recm-nascidos saudveis estimada entre 1 a 3 neonatos em cada 1000 nascimentos, porm esse valor aumenta para cerca de 2 a 4% nos provenientes de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Devido a sua elevada prevalncia, constitui-se em um verdadeiro problema de sade pblica (9). Possui, inclusive, maior prevalncia quando comparada s doenas passveis de triagem ao nascimento (8).

Em 2004, foi instituda pelo Ministrio da Sade a Poltica Nacional de Sade Auditiva, atravs da portaria GM 2073/04. Essa poltica define as aes de ateno bsica e de mdia e alta complexidade a serem executadas pelas trs esferas de governo (11).

Levando-se em considerao a importncia a deteco e interveno precoce da surdez no desenvolvimento lingustico, social e cognitivo dos sujeitos, a alta incidncia de indivduos com perdas de audio, a ao das organizaes no-governamentais e a elaborao das polticas pblicas em sade auditiva, o presente trabalho tem como objetivo caracterizar como ocorre esse processo de deteco precoce e de interveno em crianas inseridas em escolas especiais para surdos da cidade de Salvador / BA.


MTODO

Foram avaliados os pronturios e realizada entrevista com as mes de 22 crianas surdas congnitas. Essa populao se constituiu em 100% da populao presente nas instituies que serviram de campo de pesquisa e que satisfaziam aos critrios de incluso propostos.

Estabeleceu-se como critrio de incluso: a presena de perda auditiva congnita severa ou profunda, considerando os limiares auditivos da melhor orelha; a idade entre seis e oito anos, poca em que todas as crianas j devem possuir linguagem oral e escrita desenvolvidas; e serem provenientes de lares de famlias ouvintes. O critrio de excluso foi a presena de diagnstico mdico que indique patologias neurolgicas ou neuropsiquitricas, alm de deficincia mltipla.

Inicialmente foi realizada uma pesquisa entre as escolas especiais cadastradas na Secretaria de Educao da Bahia, com o objetivo identificar aquelas que possuam classes especficas para a populao surda. Detectaram-se quatro escolas, sendo duas pblicas e duas particulares.

Foi, ento, realizado um contato inicial com cada instituio com o intuito de esclarecer os objetivos do presente trabalho e solicitar a utilizao do local como campo de pesquisa. Dessas, duas escolas satisfaziam aos critrios de incluso e concordaram em participar do estudo. Foi ento solicitada ao responsvel legal de cada instituio, a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, conforme CNS 196/96 do Ministrio da Sade, autorizando a realizao da pesquisa no referido local.

Aps a aprovao do projeto pelo Comit de tica em Pesquisa da Universidade do Estado da Bahia, atravs do protocolo no 603060009437, os responsveis legais por cada criana foram orientados quanto ao objetivo e ao mtodo do estudo, sendo solicitada posteriormente a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

Os dados coletados eram sobre a idade de suspeita da surdez; o desenvolvimento da linguagem; acompanhamento fonoaudiolgico; os laudos de exames realizados; a poca em que a criana teve acesso linguagem na modalidade auditivo-oral e/ou visuo-espacial, e se utiliza aparelho de amplificao sonora individual (AASI). Estes dados foram fornecidos atravs de entrevista com as mes ou responsveis legais e complementadas com informaes provenientes dos pronturios ou das fichas cadastrais de cada criana na instituio.


RESULTADOS

Os dados sobre idade da suspeita de surdez, incio do atendimento educacional e/ou teraputico e incio do uso de um sistema de amplificao sonora se encontram na Tabela 1.




A mdia de idade das crianas quando houve a suspeita da surdez discretamente melhor que as encontradas por pesquisas realizadas com a populao brasileira, de 1.3 anos (7) e 1.5 anos(5).

Em relao idade dessas crianas quando foram inseridas em um programa de atendimento educacional e/ou teraputico populao surda, observa-se valor idntico ao relatado em outro estudo, com a populao brasileira(7). Em pesquisa norte-americana, foi encontrada uma mdia de idade de 1.8 anos(4), 1.6 anos a menos que entre as crianas avaliadas. Comparando-se com a idade preconizada pelo CBPAI(8) para o incio do processo teraputico, o atraso de 2.8 anos.

Ao analisar o uso de um sistema de amplificao sonora, observa-se que menos da metade das crianas utilizam o AASI e tiveram um acesso tardio prtese auditiva. Esses valores encontram-se abaixo do encontrado em outra pesquisa, com populao brasileira, que detectaram uma mdia de idade de 3.11 anos (5). Quando se compara com a pesquisa realizada em populao norte-americana, observa-se uma mdia de idade de 1.10 anos nessa populao (4). Para o CBPAI (8), o atraso de 3.0 anos.

O tempo decorrido entre a suspeita da surdez e a insero em um programa educacional especfico ou o incio do uso de ASSI demasiado grande, em comparao ao preconizado pelo CBPAI (Tabela 2), o que pode interferir consideravelmente no desenvolvimento lingustico dessas crianas.




Sobre o perfil de atendimento teraputico, apenas 37.5% fazem terapia fonoaudiolgica, atravs de sesses individuais, com durao de 40 a 50 minutos, que ocorrem apenas uma vez por semana. Todas as crianas avaliadas utilizam a lngua brasileira de sinais e apenas 9.1% tambm oralizada.


DISCUSSO

As crianas surdas avaliadas tiveram acesso linguagem, tanto oral quanto sinalizada, de maneira tardia, sendo que algumas no utilizam um sistema de amplificao sonora ou passaram a utilizar em idades mais avanadas e poucas fazem terapia fonoaudiolgica, sendo privadas do contato efetivo com a linguagem durante os primeiros anos de vida.

Os pais, em geral, suspeitam que seus filhos tm problemas de audio por volta do incio do segundo ano de vida, quando o atraso na aquisio de linguagem torna-se aparente. O fracasso em identificar as crianas com perda auditiva resulta em diagnstico e interveno em idades avanadas.

importante salientar que, devido privao sensorial auditiva que interfere na aquisio da linguagem oral, as crianas surdas filhas de pais ouvintes geralmente atingem a fase escolar sem possuir uma lngua sistematizada e passam a adquiri-la apenas quando ingressam em um programa educacional que considere as suas especificidades. No caso da linguagem oral, a surdez dificulta o acesso face sonora da lngua e no caso da lngua de sinais, a pouca prtica com essa modalidade de linguagem, por parte dos pais ouvintes, prejudica o processo de interao com a criana surda (12, 13, 14, 15, 16).

Apesar do Programa Nacional de Sade Auditiva preconizar a protetizao e o incio do programa teraputico at os 3 anos de idade (11), sabe-se nessa idade perde-se a maior parte do perodo considerado essencial para que a linguagem se desenvolva de maneira eficaz (2,3,6,8,17). Segundo o CBPAI, o tratamento deve ser iniciado preferencialmente at os seis meses de vida (8).

Observa-se, tambm, que a maior parte das crianas foram inseridas em um programa educacional e/ou teraputico mesmo sem o uso do AASI. O uso tardio ou a no utilizao de um sistema de amplificao sonora, por sua vez, dificulta a aquisio da linguagem oral, pois a audio residual presente no suficiente para a percepo e discriminao efetiva das informaes sonoras presentes no ambiente (6,18,19,20).

Ademais, a terapia fonoaudiolgica, caso estivesse sendo utilizada por todos os sujeitos da pesquisa ou caso essas sesses utilizassem maior nmero de horas semanais, poderia facilitar a aquisio da linguagem oral nessas crianas. A terapia fonoaudiolgica, atravs do uso de estratgias especficas para desenvolvimento das habilidades auditivas e da construo do espao dialgico, criar condies para que a criana surda desenvolva a linguagem oral (21,22,23).

importante salientar que foram avaliados os aspectos relativos deteco e interveno precoce em crianas que esto inseridas em um programa de atendimento educacional e/ou teraputico e matriculadas em escolas especiais. Dessa maneira, no esto foram analisadas as crianas que permanecem excludas desse processo, o que poderia demonstrar resultados ainda mais distantes do ideal preconizado pela CBPAI.

A realizao da Triagem Auditiva Neonatal Universal (TANU) de rotina, iniciada ainda nas maternidades, possibilita a identificao precoce da perda de audio, minimizando os efeitos decorrentes da interveno tardia(10). A TANU vem sendo considerada como o melhor mtodo para diagnstico e interveno precoce da deficincia auditiva, j que abrange um grande nmero de recm-nascidos, por ser iniciada ainda na maternidade, alm de ser rpida e eficaz. Portanto, necessrio que a realizao da TANU seja obrigatria para todas as crianas, logo nos primeiros dias de vida, sendo includa a primeira etapa em todas as maternidades do estado.

As etapas seguintes triagem, por sua vez, precisam ser realizadas em locais especializados. Para isso, essencial a estruturao de um sistema de referncia para encaminhamento das crianas que falharam no teste auditivo, de maneira que todas recebam o diagnstico audiolgico e se submetam ao processo de protetizao e terapia fonoaudiolgica. Alm disso, todas essas etapas precisam se realizadas o mais precocemente possvel, por isso esse sistema de referncia precisa ser adequadamente estruturado para que se torne eficiente e cumpra o seu objetivo final.

De acordo com a portaria GM 2073/04, deve-se promover a ampla cobertura no atendimento aos portadores de deficincia auditiva no Brasil, garantindo a universalidade, a equidade, a integralidade e o controle social da sade auditiva (11). No entanto, essa realidade no foi encontrada na populao estudada.


CONCLUSO

Considerando-se as relaes de custo x benefcio e a qualidade de vida dos portadores de surdez, so evidentes as vantagens da deteco precoce das alteraes auditivas, assim como do esclarecimento da populao sobre este assunto.

Dessa maneira, o trabalho em sade pblica deve inserir em suas aes a realizao de atividades educativas voltadas para a preveno e a deteco precoce da surdez, atravs de aes integradas com os diversos profissionais que lidam com a sade coletiva e materno-infantil. Os servios e os profissionais de sade, em articulao com os organismos governamentais e a sociedade, precisam atuar na implementao das polticas pblicas direcionadas sade auditiva na populao peditrica e neonatal, possibilitando a ateno integral, universal e de qualidade.


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1. Especializao sob a forma de Residncia Multiprofissional em Neonatologia. Mestranda em Sade Pblica pela UFBA.
2. Mestre em Distrbios da Comunicao Humana. Professora da Unijorge.

Instituio: Universidade do Estado da Bahia. Salvador / BA - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Lavnia Santos de Carvalho
Rua Alberto Fiza, 270 - Imbu
Salvador / BA - Brasil - CEP: 41720-025
Telefone: (+55 71) 3362-3038 / 9933-6339
E-mail: lavinia.sc@gmail.com

Artigo recebido em 26 de Maio de 2009.
Artigo aprovado em 12 de Junho de 2009.





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