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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 3  - Jul/Set
DOI: 10.1590/S1809-48722011000300011
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Zumbido: possvel associao com alteraes cervicais em idosos
Tinnitus: probable association with the elderly's cervical alterations
Author(s):
Michelle Damasceno Moreira1, Luciana Lozza de Moraes Marchiori2, Viviane de Souza Pinho Costa3, Erick Costa Damasceno4, Paula Carolina Dias Gibrin5.
Palavras-chave:
zumbido, cervicalgia, coluna vertebral, idoso.
Resumo:

Introduo: O zumbido um sintoma prevalente e de alto impacto na qualidade de vida do paciente idoso. A presena de cervicalgia e alteraes na coluna cervical so comuns em pacientes com queixa de zumbido. Objetivo: Avaliar a prevalncia do zumbido e cervicalgia em um grupo de idosos e verificar a possvel associao entre zumbido, cervicalgia e restrio de amplitude de movimento cervical. Mtodo: Estudo transversal retrospectivo com avaliao da amplitude de movimento cervical atravs de goniometria e do zumbido e da cervicalgia atravs da aplicao de questionrio padronizado. Resultados: A amostra foi constituda por 147 indivduos, com idade mdia de 69,22 anos sendo 61,90% mulheres. Desses indivduos, 42,85% apresentaram queixa de zumbido 51% dos indivduos relataram queixa de dor cervical. No houve associao entre zumbido e dor cervical e nem associao entre zumbido e restrio de amplitude de movimento cervical. Concluso: Embora no tenha sido constatada associao entre zumbido e dor cervical e entre zumbido e restrio de amplitude de movimento, observou-se grande prevalncia de queixa de zumbido, de cervicalgia e de diminuio na amplitude de movimento cervical na populao de idosos. Os resultados da presente pesquisa, por meio da constatao desta grande prevalncia do zumbido em toda a populao de estudo, serviro de base a uma integrao entre profissionais da rea de sade envolvidos com tais alteraes.

INTRODUO

O aumento da idade diretamente proporcional presena de mltiplos sintomas auditivos, tais como, vertigem, presbiacusia e zumbido (1). Alm disso, a prevalncia de degenerao na articulao cervical e cervicalgia em indivduos acima de 50 anos alta, com a tendncia de aumentar a severidade com a idade (2).

O zumbido um sintoma definido como a percepo de um som nos ouvidos ou na cabea sem que haja produo do som por uma fonte externa. Afeta aproximadamente 15% da populao mundial e esta prevalncia aumenta para 33% entre os indivduos com mais de 60 anos de idade (3). O zumbido um sintoma que frequentemente acompanha a presbiacusia e costuma ser mais perturbador que a prpria perda auditiva (4).

Atualmente, sabe-se que o zumbido surge como resultado da interao dinmica de vrios centros do sistema nervoso e do sistema lmbico e que as alteraes e ou leses na cclea so as precursoras deste processo, causando desequilbrio nas vias inferiores do sistema auditivo, resultando em atividade neuronal anormal, mais adiante realada pelo sistema nervoso central e, finalmente, percebida como zumbido (3). Alm disso, aferncias a partir da poro cervical com projees para o ncleo coclear, indicam uma influncia do reflexo da coluna cervical a este centro de audio (5).

Entre as inmeras etiologias do zumbido esto as doenas otolgicas, metablicas, cardiovasculares, patologias da coluna cervical, odontolgicas, neurolgicas, psiquitricas e outras relacionadas com ingesto de drogas, cafena, lcool e tabagismo (6,7). E ainda, a diminuio da acuidade auditiva, exposio rudos, leses de cabea e cervical,fatores de estilo de vida e estado mental (8).

A presena de queixa de cervicalgia e cefaleia comum em pacientes com zumbido e ainda, verifica-se que estes pacientes podem ter o seu sintoma influenciado pela presena de pontos-gatilho miofasciais nos msculos posturais da regio cervical, na cintura escapular e musculatura mastigatria, onde provocam dor espontnea ou ao movimento (9). Pacientes com dor crnica, particularmente com dor miofascial em regio cervical ou doena degenerativa da coluna cervical, a incidncia de zumbido e hiperacusia mais elevada do que seria previsvel da populao em geral (10).

O objetivo deste estudo foi investigar a prevalncia do zumbido e alteraes cervicais em pacientes idosos do projeto EELO (Estudo do Envelhecimento e Longevidade) e verificar suas possveis associaes.


MTODO

Foi realizado um estudo transversal em que os critrios foram incluso de pessoas idosas com idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, com vida independente, que estavam classificados nos nveis 3 e 4 do Status Funcional proposto por SPIRDUSO (11), e que aceitaram participar voluntariamente do estudo.

Foram alocados os primeiros 147 indivduos do projeto EELO (estudo sobre envelhecimento e longevidade) no municpio de Londrina. A amostragem foi definida de forma aleatria estratificada, levando-se em considerao as cinco regies do municpio.

Neste estudo, foram mensurados os movimentos ativos de flexo, extenso, flexo lateral de neutro para a direita e para a esquerda, rotao em neutro para a direita e para a esquerda da coluna cervical para avaliar se existe a diminuio de amplitude de movimento na populao estudada atravs da goniometria utilizando um gonimetro universal (Carci, Indstria e Comrcio de Aparelhos Cirrgicos e Ortopdicos Ltda, Brasil) com escala de medida de dois em dois graus. Para mensurao da ADM cervical atravs da goniometria foi considerado o sistema de mensurao desenvolvido por KAPANDJI (12) e MARQUES (13), sendo de flexo cervical de 0 a 65o, extenso cervical de 0-50o, flexo lateral para a direita e esquerda de 0 a 40o e rotao cervical de 0 a 55.A presena de cervicalgia e o zumbido foram verificados atravs da aplicao de questionrio padronizado, utilizado durante as coletas do projeto EELO.

Esta pesquisa foi aprovada pelo comit de tica em pesquisa da UNOPAR, protocolo nmero 0070/09.

Foi realizado estudo com os testes Qui-quadrado e Risco Relativo para verificar as possveis associaes entre a cervicalgia e os indivduos que apresentaram e os que no apresentaram zumbido, alm de mensurao de amplitude de movimento de cervical, para verificar se havia restrio na mobilidade articular e a possvel associao com o zumbido.

Foram considerados para as anlises univariadas p<0,01 e para incluso no modelo final para o teste Qui-quadrado e para o Risco Relativo o valor de p<0,05, ambos com intervalo com 95% de confiana. O programa estatstico utilizado foi o SAS 9.1.3


RESULTADOS

A amostra foi constituda por 147 indivduos em idade entre 60 e 95 anos e com mdia de idade entre 69,22 anos sendo 61,90% mulheres (91) e 38,10% homens (56). Desses indivduos, 42,85% (63) apresentaram queixa de zumbido 36,50% homens (23) e 63,50% mulheres (40), dos que apresentaram zumbido (63), 61,90% apresentaram zumbido bilateralmente, 26,99 na orelha direita e 11,11% na orelha esquerda. E ainda, 51% dos indivduos relataram queixa de dor cervical, sendo que destes 70,7% eram do sexo feminino. Ao realizar o teste Qui-quadrado e para o Risco no houve evidncias para acreditar que exista associao entre zumbido e dor cervical j que o p = 0,1984 (p>0,05) (Tabela 1)

Os idosos obtiveram uma limitao em todas as amplitudes de movimentos, conforme a Tabela 2. Quando comparado presena de zumbido com a amplitude de movimento da cervical, no houve associao entre a limitao de movimento da cervical entre pessoas com e sem zumbido, p > 0,05. (Tabela 3)

Se desconsiderar o fator zumbido, h diferena na amostra entre o tamanho das limitaes de rotao cervical de acordo com o lado. Nesse caso, a restrio de amplitude de movimento mais limitada para o lado direito do que para o lado esquerdo p=0.0324 Tabela 4.

No houve associao entre o lado afetado pelo zumbido e o lado da restrio de amplitude de movimento, nos indivduos com queixa de zumbido p >0,05.






Legenda: Lim.flex.cerv :limitao em flexo de cervical; Lim ext cerv: limitao em extenso cervical; Lim rot cerv d: Limitao de rotao cervical para a direita; Lim flex cerv e: limitao de rotao cervical para a esquerda; Lim flex lat d: limitao em flexo lateral para a direita; limitao em flexo lateral para a esquerda.




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DISCUSSO

A prevalncia de zumbido nesta populao foi de 40%. Em um estudo no Japo a prevalncia de zumbido foi de 18,6% em indivduos acima de 65 anos, na Austrlia a prevalncia foi de 32,7% acima de 60 anos e na Nigria 41,9% em indivduos acima de 80 anos (7,8). O zumbido pode afetar direta ou indiretamente o indivduo nas suas atividades profissionais e de lazer, interferir em relacionamentos familiares e sociais podendo levar, em casos extremos, at mesmo ao suicdio. Estudos tm demonstrado que o zumbido pode reduzir qualidade de vida e diminuir a sensao de bem-estar em populaes de idosos (14).

Em estudo brasileiro, de 406 pacientes avaliados no perodo de seis meses, 58% apresentaram queixa de zumbido, sendo que, destes, 68% eram do sexo feminino e 32% eram do sexo masculino o que compatvel estes resultados, em que dos idosos que apresentavam zumbidos 63,50% eram mulheres (15).

Os estudos so controversos no que diz respeito influncia do sexo na prevalncia do zumbido. Apesar de alguns mostrarem discreto aumento da prevalncia no sexo feminino, outros sugerem maior prevalncia no sexo masculino, mas raramente se alcana significncia estatstica. A possvel justificativa para a maior prevalncia no sexo masculino seria o fato de os homens estarem mais expostos ao rudo ocupacional. Por outro lado, as mulheres apresentam maior disponibilidade de tempo para procurar auxlio mdico, o que explicaria o achado de maior prevalncia no sexo feminino. Neste estudo tambm houve maior predomnio de pacientes do sexo feminino (3).

Foi verificado que 51% da populao do estudo apresentava queixa de cervicalgia, equivalente a estudos em que a prevalncia de dor cervical na populao adulta pode variar de 6 a 50% (16). Tais sintomas so decorrentes de vrios processos degenerativos, traumas diretos, ou em razo de microtraumas cumulativos do estresse postural. A reduo de massa muscular entre 50-80 anos de idade, provavelmente resultado do processo de envelhecimento do sistema neuromuscular combinado com a diminuio do nvel de atividade fsica (2).

Pesquisa desenvolvida por um grupo de pesquisa em zumbido mostrou que este sintoma tambm apresenta uma forte associao com a presena de pontos gatilhos miofaciais nas regies de cabea, pescoo e cintura escapular (9). Alm disso, foi demonstrado que em pacientes com zumbido, 75% dos pacientes apresentavam influncia na intensidade do zumbido dependente da movimentao da cabea e do pescoo (18). Embora a alta prevalncia da cervicalgia e zumbido em nosso estudo, no houve associao entre essas duas queixas.

Os idosos deste estudo apresentaram reduo de amplitude de movimento em todos os graus de movimento, sendo o maior em flexo cervical. Porm no houve associao entre o zumbido e a reduo de amplitude de movimento. A amplitude diminui com a idade de forma consistente em praticamente todos os estudos e aparentemente no h influncias intrnsecas que consigam diminuir essa progresso. A reduo de amplitude de movimento cervical multifatorial. Deve-se levar em considerao, os processos degenerativos, sejam eles discais, sseos e/ou ligamentares, alm de encurtamentos musculares e desuso (2).

No houve associao entre o lado afetado pelo zumbido e o lado da restrio de amplitude de movimento nos indivduos deste estudo, porm houve uma tendncia a tal associao possivelmente pela existncia, nos casos de tenso muscular, de uma conexo entre os aferentes proprioceptivos e nociceptivos da regio cervical e o ncleo coclear (9). Acredita-se a partir da literatura da rea e dos dados obtidos neste estudo, que em pesquisas com uma populao maior possa ser evidenciada uma associao entre o lado da restrio de amplitude de movimento e o lado do zumbido.


CONCLUSO

Conclui-se que o zumbido e a cervicalgia tem prevalncia importante nos idosos e que, com o envelhecimento h uma diminuio na amplitude de movimento cervical em todos os graus - flexo, extenso, rotao cervical e flexo lateral sendo a maior limitao em rotao cervical para a direita.

No houve associao entre zumbido e cervicalgia nem entre zumbido e diminuio de amplitude de cervical nesta populao. Tambm no ocorreu associao entre o lado afetado pelo zumbido e o lado da restrio de amplitude de movimento, nos indivduos com queixa de zumbido. Os resultados deste estudo preliminar demonstram a necessidade de mais pesquisas e do avano no nmero desta amostra, para realmente se chegar concluso destas associaes.


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1) Especialista, Mestranda em Cincias da Reabilitao UNOPAR. Fisioterapeuta concursada pelo Programa Sade da Famlia.
2) Doutora em Medicina e Cincias da Sade. Docente do Mestrado em Cincias da Reabilitao UNOPAR.
3) Doutora em Enfermagem, Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto, USP. Professor, Universidade Norte do Paran, PR.
4) Bacharel em Estatstica - Universidade de Braslia, 2008. Scio-Diretor da Odds&Actions e Conselheiro do Conselho Regional de Estatstica 1 Regio.
5) Especialista em Audiologia, mestranda em Cincias da Reabilitao UNOPAR. Fonoaudiloga do Cismepar.

Instituio: Universidade do Norte do Paran - UNOPAR. Londrina / PR - Brasil. Endereo para correspondncia: Michelle Damasceno Moreira - Rua Augusto Guerino, 195 Apto 35 - Bairro: Portal de Versailhes 1 - Londrina / PR - Brasil - CEP: 86057-240 - Telefone: (+55 43) 3178-0336 / 3371-7990 / 9161-5577 - E-mail: micmoreira@yahoo.com.br

Artigo recebido em 6 de Abril de 2011. Artigo aprovado em 23 de Maio de 2011.
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