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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 3  - Jul/Set
DOI: 10.1590/S1809-48722011000300014
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Review Article
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Anormalidades sensoriais: Olfato e paladar
Sensorial abnormalities: Smell and taste
Author(s):
Francisco Xavier Palheta Neto1, Mauricio Neres Targino2, Victor Soares Peixoto2, Flvia Barata Alcntara3, Camila Corra de Jesus3, Dalila Costa de Arajo3, Eduardo Flvio de Lacerda Maral Filho3.
Palavras-chave:
olfato, transtornos do olfato, paladar, distrbios do paladar, modalidades sensoriais, otolaringologia.
Resumo:

Introduo: Anormalidades do paladar e do olfato comprovaram ser um tema bem mais complexo do que se reconhecia anteriormente. Diversas entidades nosolgicas cursam com alteraes olfatrias e gustatrias, podendo ser congnitas ou adquiridas. Objetivo: Analisar os principais aspectos das disfunes olfatrias e gustatrias. Mtodo: Foram utilizadas as bases de dados informatizados para a coleta de dados, tendo como palavras-chave "alterao", "olfato" e "paladar". Realizou-se tambm busca no-sistemtica em publicaes cientficas e livros mdicos. Reviso da Literatura: Disfunes olfatrias e gustatrias possuem etiologia variada, destacando-se as doenas nasais e sinusais obstrutivas, infeces do trato respiratrio superior, traumatismo cranioenceflico, envelhecimento, exposio a txicos e algumas medicaes, neoplasias nasais ou intracranianas, patologias psiquitricas e neurolgicas, iatrogenia, causas idiopticas e congnitas. Anamnese detalhada, exame fsico atencioso e exames complementares adequados so importantes para o diagnstico dessas alteraes. Concluso: Disfunes olfatrias e gustatrias frequentemente ocorrem juntas. A deteco precoce de tais disfunes pode levar a um tratamento mais efetivo, retardando a progresso das doenas que as ocasionam e atenuando a severidade dos sintomas. Em muitos casos o tratamento dessas alteraes no fcil e necessria uma cooperao interdisciplinar entre o otorrinolaringologista, endocrinologista, neurologista, psiquiatra entre outros.

INTRODUO

O olfato e o paladar so sentidos qumicos. Os sistemas neurais que intermedeiam estas sensaes, os sistemas gustatrio e olfatrio, esto entre aqueles filogeneticamente mais antigos do encfalo e ao perceberem substncias qumicas na cavidade oral e nasal trabalham conjuntamente (1,2).

As sensaes surgem pela interao de molculas com os receptores da olfao e gustao. Como os impulsos se propagam para o sistema lmbico (bem como para as reas corticais superiores), certos odores e gostos podem desencadear intensas respostas emocionais ou afluxo de memrias (1).

A importncia do paladar reside no fato de que ele permite a um indivduo selecionar substncias especficas de acordo com os seus desejos e, frequentemente, de acordo com as necessidades metablicas dos tecidos corpreos (3).

A olfao, mais ainda que a gustao, tem a qualidade afetiva de ser agradvel ou desagradvel. Por isso, a olfao , provavelmente, mais importante do que a gustao para a seleo de alimentos (3).

Sabe-se que a gustao sobretudo uma funo dos corpsculos gustativos da boca, mas experincia comum que o sentido do olfato contribui fortemente para a percepo do gosto (2). imprescindvel ressaltar a sua relao com a gustao, pois sem o olfato no sentimos de forma adequada o sabor dos alimentos, perdendo assim o apetite e o prazer com a alimentao (4).

Os botes gustativos diminuem com a idade e as papilas gustativas, que atingem seu clmax de desenvolvimento na puberdade, comeam a atrofiar na mulher entre 40-45 anos e no homem aos 50 anos (5).

Quanto olfao, o declnio da sensibilidade olfativa com a idade pode ser resultante de degenerao de clulas centrais e ser independente de modificaes perifricas do aparelho olfativo. Porm, a capacidade regenerativa do epitlio olfatrio declina com a idade (5). A qualidade e intensidade da percepo olfatria dependem do estado anatmico e funcional do epitlio nasal e dos sistemas nervosos central e perifrico. Rinites e resfriados prolongados podem causar hiposmia (perda moderada da sensibilidade olfativa) (4,6).

As alteraes do olfato e do paladar podem estar relacionadas com deformidades nasosseptais, polipose nasal e congesto nasal crnica decorrente de rinites alrgicas e no-alrgicas (7).

Um dano ao sistema olfatrio, como resultado de um traumatismo craniano, ou mesmo, um resfriado comum, o qual impede a conduo de molculas transportadas pelo ar nas cavidades nasais, pode atenuar a percepo do sabor, ainda que as sensaes bsicas do gosto doce, cido, salgado e amargo estejam preservadas (2).

O olfato pode ajudar, tambm, no diagnstico precoce de algumas doenas neurodegenerativas, como a doena de Parkinson. O resultado indica que o comprometimento do olfato, e, consequentemente, do paladar, um indicativo importante para o diagnstico precoce da doena, em uma fase na qual os sintomas motores tpicos (como tremores, rigidez e lentido na execuo dos movimentos) ainda no se manifestaram (8).

Sendo assim, torna-se importante a realizao de estudos das alteraes do olfato e paladar para deteco precoce, e assim um tratamento mais efetivo, no intuito de retardar a progresso das doenas e possveis complicaes que possam levar a perda olfatria e gustatria e, desta forma, atenuar a severidade dos sintomas.

O objetivo realizar uma reviso de literatura sobre os diversos aspectos relacionados s alteraes do olfato e paladar.


MTODO

Foram utilizadas as bases de dados informatizados para a coleta de dados, tendo como palavras-chave "alterao", "olfato" e "paladar". Realizou-se tambm busca no-sistemtica em publicaes cientficas e livros mdicos.

Morfofisiologia

Os sentidos de olfao e gustao fornecem um meio de avaliar molculas volteis no ambiente e os componentes volteis e no-volteis dos alimentos. Desse modo, os humanos e outros mamferos so capazes de discriminar uma grande variedade de odores e sabores. Apesar de a capacidade olfatria dos humanos ser limitada, se comparada com a capacidade de outros mamferos, o homem capaz de perceber uma grande variedade de diferentes molculas odorferas. A sensao de sabores resulta da combinao de informaes gustativas, olfatrias e somatossensrias (9,10).

Olfao

No homem, o sentido da olfao , provavelmente, o menos compreendido, pois, em grande parte, pode ser um fenmeno subjetivo. A superfcie receptora para agentes odorferos localiza-se na parte superior da cavidade nasal e, tipicamente, tem rea de superfcie de apenas 2,4 cm2. As clulas olfatrias so neurnios bipolares derivados do sistema nervoso central. De seu plo apical, cada neurnio estende um nico dendrito para a superfcie epitelial, onde o dendrito se expande em um grande boto, do qual 5-20 clios finos projetam-se na camada de muco que cobre o epitlio. De seu plo basal, cada neurnio projeta um nico axnio atravs da placa cribiforme ssea acima da cavidade nasal para o bulbo olfatrio (10).

H especializao dos clios dos neurnios olfatrios na deteco de odores, pois eles tm receptores especficos para agentes odorferos, bem como a maquinaria de transduo necessria amplificao de sinais sensrios e gerao de potenciais de ao no axnio do neurnio. O muco que banha os clios secretado pelas clulas de suporte do epitlio olfatrio e pelas glndulas de Bowman, que ficam sob o epitlio e possuem dutos que se abrem em sua superfcie. Acredita-se que o muco fornea o ambiente molecular e inico apropriado para a deteco de odores (9-11).

A resposta normal do neurnio a um agente odorfero consiste na despolarizao e na produo de potenciais de ao. O nmero de neurnios que respondem varia de acordo com a concentrao do agente (9,10).

A informao sensria do nariz transmitida ao crebro atravs dos bulbos olfatrios. Os nervos do olfato passam pelas perfuraes da placa cribiforme e entram no bulbo olfatrio, que so estruturas pareadas localizadas acima e atrs das cavidades nasais e consiste em um n emaranhado de dendritos das clulas mitrais e em tufo e fibras nervosas olfatrias. Os axnios mitrais e das clulas em tufo deixam o bulbo pelo trato olfatrio e entram em regies especializadas do crtex, sem passar, primeiro, pelo tlamo (9,10).

Gustao

Clulas gustativas agrupadas em botes gustativos na lngua, palato, faringe, epiglote e tero superior do esfago podem detectar alguns tipos de molculas. Na lngua, os botes gustativos esto localizados principalmente nas papilas, que esto no epitlio (9-11).

Trs tipos morfolgicos de papilas so encontrados em regies diferentes da lngua. Vrias centenas de papilas fungiformes, que tm uma estrutura parecida com pino, esto localizadas nos dois teros anteriores da lngua. No tero posterior, esto as grandes papilas circunvaladas, cada uma delas sendo circundada por um sulco. As papilas foliadas, situadas na borda posterior da lngua, so estruturas parecidas com folhas, e cada uma delas tambm circundada por um sulco. Cada papila fungiforme contm de um a cinco botes gustativos, enquanto cada papila circunvalada ou foliada contm centenas de botes gustativos (9,11).

H quatro tipos de morfologicamente distinguveis de clulas que so encontradas em cada boto gustativo: clulas basais, clulas escuras, clulas claras e clulas intermedirias. Acredita-se que as clulas basais sejam as clulas germinativas, das quais as outras clulas so derivadas.

O boto gustativo tem uma abertura pequena na superfcie do epitlio, chamada de poro gustativo. As cem ou mais clulas gustativas em cada boto estendem microvilosidades, onde a transduo sensria ocorre. A clula gustativa inervada por neurnios sensrios (fibras aferentes gustativas primrias) no seu plo basal. Alm disso, clulas gustativas, como os neurnios, so clulas eletricamente excitveis, com canais de sdio, potssio e clcio dependentes de voltagem e capazes de gerar potenciais de ao (9).

Para fins prticos, considera-se que o sistema gustativo distingue quatro qualidades de estmulos bsicos: amargo, salgado, azedo e doce. O glutamato monossdico pode representar uma quinta categoria de estmulo, chamada "umami". Cada tipo de estmulo gustativo detectado por um mecanismo diferente. Essas interaes tipicamente despolarizam a clula, diretamente ou pela ao de segundos mensageiros. O potencial receptor resultante gera potenciais de ao na clula gustativa, que, por sua vez leva a um influxo de clcio dependente de voltagem e liberao de neurotransmissor nas sinapses formadas com fibras sensrias. Outro mecanismo alternativo pode envolver a liberao de clcio dos estoques intracelulares (9).

Os sabores azedo e salgado envolvem permeao, ou bloqueio, de canais inicos por ons sdio (sabor salgado) ou ons hidrognio (sabor azedo), enquanto sabores doce e amargo parecem ser mediados em alguns casos por receptores especficos (mas em alguns casos eles podem resultar de efeitos diretos em canais inicos) (9).

As fibras gustatrias dos dois teros anteriores da lngua trafegam, primeiro, por ramos do nervo trigmeo e, depois, pela corda do tmpano, um ramo do nervo facial. A sensao gustao do tero posterior da lngua conduzida por fibras do nervo glossofarngeo, enquanto outras fibras da epiglote e de outras reas cursam por ramos do nervo vago. A partir de sua entrada no troco cerebral, todas as fibras gustatrias so afuniladas para o trato solitrio e, finalmente fazem sinapse na poro rostral do ncleo do trato solitrio. Desse ponto, os axnios passam rostralmente, por vias mal definidas, para o ncleo ventromedial do tlamo e, depois, para o crtex cerebral, na regio central do giro ps-central, que se enrola para dentro da fissura lateral (10).

Etiologia

Diversas entidades nosolgicas cursam com alteraes olfatrias e gustativas, podendo ser congnitas ou adquiridas, sendo as mais citadas na literatura: doena nasal e sinusal obstrutiva, infeces de vias areas superiores, traumatismo cranioenceflico, envelhecimento, causa congnita, exposio a txicos, algumas medicaes, neoplasias nasais ou intracranianas, alteraes psiquitricas, doenas neurolgicas, iatrogenia e idioptica. As anormalidades do paladar e do olfato comprovaram ser um tema bem mais complexo do que se reconhecia anteriormente e tambm esto presentes em situaes como deficincia de vitaminas (B6, B12, A) e de zinco ou de cobre, tabagismo, gravidez, anestesia geral, traumas dentrios, arrinencefalia e desvios do septo nasal (12-18).

A obstruo a causa mais comum de distrbio olfatrio. Se a obstruo total, o indivduo apresenta anosmia (molculas odorferas no atingem o epitlio olfatrio), liberando a obstruo a habilidade olfatria retorna. A poro ntero-medial da parte inferior do corneto mdio funciona como reguladora do fluxo areo para a regio olfatria. Obstruo nesta rea crtica por edema da mucosa, plipos, tumores, deformidades sseas, cirurgias entre corneto mdio e septo nasal ou trauma podem diminuir ou eliminar a habilidade olfatria. Isto pode acontecer mesmo quando a cavidade inferior parece normal. Podem ocorrer em qualquer faixa etria, com predominncia em mulheres. Os pacientes geralmente referem perda progressiva e gradual da olfao, flutuante, podendo ocorrer perdas agudas com infeces agudas e exposio a alrgenos (12,13).

As infeces de vias areas superiores tambm constituem uma das principais causas de perda olfatria. A maioria em indivduos entre 40 e 60 anos de idade, dos quais 70-80% so mulheres, geralmente por obstruo do fluxo areo e se resolve em um perodo de um a trs dias. Em alguns poucos casos a olfao no retorna ao normal. bipsia, pode haver metaplasia, com diminuio ou ausncia de receptores olfatrios e com substituio por epitlio respiratrio em alguns casos. A perda olfatria proporcional perda neuronal e o prognstico pobre. Um tero recupera-se espontaneamente com ou sem tratamento, ocorrendo mais frequentemente hiposmia que anosmia. Raramente ocorre fantosmia (percepo de um odor que no real) (16, 17, 19).

Traumatismos cranioenceflicos podem ocasionar danos aos nervos olfativos na lmina cribiforme devido as foras de golpe ou contragolpe. Em adultos a perda da olfao de 5-10%, j em crianas de 1,3-3,2%. mais prevalente no sexo masculino, com cerca de 60% dos casos. Em geral o grau de perda est associado severidade do trauma, o que no significa dizer que um trauma mnimo no possa estar associado anosmia. O incio da perda geralmente imediato, mas alguns pacientes s percebem aps alguns meses. Parosmias so comuns. Amnsia nas primeiras 24 horas est associada anosmia permanente em mais de 90% dos casos. Quando h preservao parcial da olfao tem-se observado diminuio da discriminao dos odores (17).

A causa exata ainda no foi estabelecida. A teoria mais popular presume uma leso dos nervos quando estes deixam o topo da lmina cribiforme. A leso pode ser no crtex frontal, pois alguns pacientes alm de anosmia ps TCE tambm apresentam alteraes psicossociais. A tomografia computadorizada geralmente normal, podendo em alguns casos revelar fratura da lmina cribiforme. A hiposmia ocorre mais em leso frontal; a anosmia em leso occipital, cinco vezes mais frequente. Cerca de 8 a 39% dos pacientes recuperam a funo, dos quais 75% nos trs primeiros meses (17).

O limiar olfatrio diminui com a idade (1% ao ano), sendo esse efeito menor nas mulheres que nos homens. Os idosos tm uma taxa maior de declnio da olfao para uns odores do que para outros, com diminuio da habilidade para discriminar o sabor na comida do cotidiano. Esta diminuio olfatria se deve ao processo fisiolgico de envelhecimento (presbiosmia), ocorrendo na sexta ou stima dcada, ou s doenas de Alzheimer e Parkinson (18).

A disfuno olfatria um dos sinais mais prevalentes na Doena de Parkinson. Observam-se alteraes de discriminao, identificao e limiar olfatrio. A hiposmia um dos sinais que pode anteceder os sintomas motores da patologia. Em uma pesquisa recente foi encontrado que 80% dos pacientes com esta patologia apresentaram anormalidade da identificao olfatria, comparados aos controles (20- 23).

Na anosmia congnita, a possvel fisiopatologia seria a degenerao ou atrofia do epitlio e/ou bulbo olfatrio no processo de desenvolvimento. Geralmente um achado isolado, mas h anosmia familiar associada a calvcie prematura e cefaleia vascular, sendo hereditria, dominante, com penetrncia varivel. A Sndrome de Kallmann a causa mais comum de disfuno olfatria congnita, 1/10000-50000), com anosmia (agenesia do bulbo olfatrio) e hipogonadismo hipogonadotrfico, alm de anormalidades renais, criptorquidismo, surdez, deformidades mdio-faciais e diabetes. causada por um defeito na migrao dos neurnios que produzem o hormnio de liberao de gonadotrofinas (GnRH) e dos neurnios que formam os nervos olfatrios. A anosmia est relacionada deficincia de GnRH porque a migrao e diferenciao dos neurnios secretores de GnRH dependem da formao do bulbo olfatrio. Os indivduos acometidos no entendem o conceito de odor, portanto no sentem a sua falta. Pelo fato de geralmente ainda persistirem alguns quimiorreceptores intactos, odores acres, irritantes e gustao podem ser detectados normalmente (24,25).

Quando h exposio do sistema olfatrio a substncias txicas, a perda olfatria pode ocorrer em dias ou anos, podendo ser reversvel ou permanente. O grau de leso parece estar relacionado ao tempo de exposio e concentrao e toxicidade do agente, comumente associado ao tabaco. So exemplos de drogas que afetam a olfao: anfetaminas, antibiticos (aminoglicosdeos, tetraciclina), cocana, derivados de petrleo, dixido sulfrico, etanol, formaldeido, metais pesados, metanol, monxido de carbono, nicotina, solventes orgnicos, sulfato de zinco (tpico) e tetracloreto de carbono (12, 13).

Os medicamentos costumam afetar mais a gustao que a olfao. Na maior parte das vezes a olfao retorna com a suspenso da medicao, mas existem relatos de leso permanente. Drogas que afetam a composio do muco podem alterar a olfao, como os beta-adrenrgicos, colinrgicos e agentes peptidrgicos (12, 13).

Os processos neoplsicos tambm merecem ateno, destacando-se os de localizao intranasal, como plipos nasais, papiloma, carcinoma epidermoide, adenoma, estesioneuroblastoma (tumor neuroolfativo raro), pois bloqueiam o fluxo areo para fenda olfatria ou por destruio local do aparelho olfatrio (26).

As neoplasias intracranianas que envolvem a superfcie orbital do crebro podem causar anosmia unilateral. Meningiomas da crista esfenoidal ou do sulco olfatrio e gliomas do lobo frontal podem lesar os bulbos ou os tratos olfatrios. Anosmia pode tambm ocorrer em associao a outros tumores do lobo frontal e a leses parasselares e hipofisrias. Em meningiomas do sulco olfatrio ou da rea da lmina cribiforme, anosmia unilateral ocorre precocemente, evoluindo para anosmia bilateral, acompanhada com frequncia de neuropatia ptica. A sndrome de Foster Kennedy consiste em anosmia acompanhada de atrofia ptica ipsilateral unilateral e papiledema contralateral, oriunda classicamente de um grande tumor envolvendo a regio orbitofrontal (26).

Certas patologias psiquitricas cursam com distrbios da olfao. A esquizofrenia pode cursar com alucinaes olfatrias em 15% a 30% das vezes. Pacientes com depresso maior podem apresentar mesmo sintoma, mas geralmente possui habilidade olfatria preservada. A fantosmia pode se apresentar como aura em pacientes com epilepsia do lobo temporal (15,18).

A iatrogenia no pode deixar de ser mencionada como fator etiolgico relevante. Em procedimentos cirrgicos pode ocorrer dano neural e estreitamento do fluxo nasal por alteraes anatmicas ou tecido cicatricial. Alteraes no olfato e no paladar ocorrem aps laringectomia total, pois o paciente passa a respirar diretamente pela traqueia e o ar no passa atravs do nariz para os rgos olfativos terminais. Como o olfato e o paladar esto intimamente ligados, as sensaes de paladar so alteradas. Mas, com o passar do tempo, o paciente comumente se acomoda a este problema, o que pode justificar o fato de nem todos os pacientes referirem alterao olfatria (27-29).

Em cirurgias da fossa anterior e ps neurocirurgia transesfenoidal pode ocorrer leso de lmina cribiforme. A radioterapia tambm est inclusa no conjunto de condies que levam a disfunes do olfato e paladar, assim como as de causas idiopticas, geralmente em adultos jovens, na meia idade e saudveis (12, 26).

Na Hansenase, as alteraes de olfato podem ser encontradas em qualquer forma clnica da doena. Alm disso, uma queixa muito comum nessa patologia e pode ser encontrada mais frequentemente na forma lepromatosa, sendo referido que este acometimento estivesse relacionado com a severidade das alteraes clnicas na mucosa nasal. Em estudo realizado em 2005, os achados de alteraes de olfato foram encontrados em quatro formas diferentes de hansenase, porm em pacientes em estgio avanado ou em reao. Encontrou-se hiposmia em 7,5% dos pacientes, cacosmia em 2,3% e anosmia em 0,6% (16, 30, 31).

Poucos casos de distrbio do olfato tm origem neurolgica. Esclerose mltipla pode causar alteraes do olfato devido a envolvimento das vias olfatrias. Condies neurolgicas diversas que causam anosmia incluem hidrocefalia, acometimento da artria cerebral anterior prximo sua origem, meningite basilar, abscessos do lobo frontal e doena de Refsum. Lobectomias temporais que incluam o crtex piriforme podem causar dficits na identificao de odores (26).

A hiperosmia geralmente funcional, mas pode ocorrer em certos tipos de abuso de drogas e enxaqueca. Alucinaes olfativas se devem mais frequentemente a psicose, mas podem decorrer de uma leso do sistema olfativo central, geralmente neoplsica ou vascular, ou como manifestao de crise convulsiva. As assim chamadas crises uncinadas so crises parciais complexas ou do lobo temporal precedidas de uma aura olfativa ou gustativa, geralmente desagradvel, e frequentemente acompanhadas, enquanto o paciente perde a conscincia, de movimentos de estalar os lbios e ou de mastigao. Esses ataques so tipicamente oriundos de um foco convulsivo envolvendo estruturas do lobo temporal medial (26).

O paladar pode ser afetado em casos de leses do nervo facial proximais sada da corda timpnica. J no caso de distrbios gustativos permanentes, estes podem sobrevir aps paralisia facial de Bell. Disfunes do paladar e do olfato frequentemente ocorrem juntas, pois as anormalidades do paladar se devem geralmente a disfuno olfativa. Disgeusia pode ser um efeito direto ou indireto de condies malignas. Hipergeusia e parageusias podem ocorrer em psicoses e no transtorno de converso (32).

Alucinaes gustativas podem ocorrer em crises parciais complexas e nos tumores envolvendo o uncus ou o oprculo parietal e frequentemente ocorrem em conjunto com as alucinaes olfatrias. Pacientes idosos desenvolvem por vezes disgeusia de origem obscura que pode ocasionar anorexia e perda de peso. A sensibilidade gustativa aumentada ocorre em pacientes com doena de Addison, deficincia da hipfise e fibrose cstica. Leses do nervo lingual podem causar perda do paladar juntamente com perda da sensao exteroceptiva do lado da lngua afetado (32).

Mtodos Diagnsticos

A avaliao das alteraes do olfato pode ser feita atravs da apresentao de odores (canela, aguarrs, limo, fumaa, chocolate, rosa, solvente de tinta, banana, abacaxi, gasolina, sabonete, cebola). Cada narina deve ser explorada separadamente, e o paciente interrogado sobre o tipo de odor (21, 33).

Uma anamnese detalhada deve ser realizada, esclarecendo sobre doenas na famlia, cirurgias anteriores, traumas cranianos, exposio e/ou uso de drogas. Microscopia ou endoscopia pode definir alteraes do fluxo areo como causa de anosmia (33).

A endoscopia nasal til no acesso fenda olfatria, sendo em conjunto com a tomografia computadorizada os meios mais sensveis para o diagnstico de patologias derivadas da cavidade nasal, seios paranasais e encfalo. A rinometria apresenta pouco valor diagnstico, servindo apenas para ilustrar diminuies do fluxo respiratrio. A ressonncia nuclear magntica til para avaliao do bulbo olfatrio, tratos olfatrios e causas intracranianas de distrbios da olfao (34).

TSUKATANI et al em 2005 demonstrou que diferentes testes so concordantes em avaliar se h ou no disfuno no olfato, mas os testes no so concordantes em avaliar os nveis de hiposmia (34).

Nos testes de deteco busca-se a menor concentrao do odorfero capaz de ser detectado. So realizados oferecendo ao paciente dois ou mais estmulos, sendo que apenas um possui substncia com odor. Esse tipo de investigao mostrou-se mais efetiva que simplesmente perguntar se um odor pode ou no ser sentido (35).

Nos testes de reconhecimento busca-se a menor concentrao do odor capaz de ser reconhecido, sendo mais utilizado o mtodo ascendente de limiar. Nesse teste, os odores so apresentados sequencialmente da menor para a maior concentrao e assim estima-se o ponto de reconhecimento do odor (35).

Ressalta-se que tanto o teste de deteco como o de reconhecimento so mtodos subjetivos e dependem de fatores como idade, cooperao do examinado e graus de compreenso do mesmo, com durao mdia de 20 a 30 minutos para sua correta execuo (35).

BRINER & SIMMEN em 1999 descreveram um teste de screening da olfao utilizando oito disquetes contendo diferentes odores (5), que so abertos para liberar o odor e fechados aps o teste, sendo atribudo um (01) ponto para cada acerto do paciente. Considera-se como normal os valores de 6,2 1,0 para o grupo etrio entre 18 e 50 anos e de 6,0 0,9 para o grupo entre 51 e 80 anos. um mtodo simples, de rpida execuo e elimina o risco de contaminao das mos do examinador e do paciente pelo odor. No entanto, ocorre uma intensa liberao do odor ao se abrir o disquete, sendo portanto um teste supralimiar, servindo-se como screnning (36).

O "University of Pennsylvania Smell Identification Test" (UPSIT) um teste psicofsico (subjetivo), com ampla utilizao. So oferecidos 50 odores diferentes ao paciente atravs de uma cartela que, ao ser riscada, exala um odor. A seguir so analisadas: intensidade, irritao, frio, familiaridade e agradabilidade (37).

O "Modular Smell Identification Test" (MODSIT) uma variante do mtodo UPSIT, porm com menor custo e tempo de realizao do exame, pois so oferecidos 12 odores para o paciente que necessita ser alfabetizado para leitura da cartela (38).

So descritos na literatura aparelhos para a medida subjetiva da olfao como o T&T olfatmetro, que consiste de pequenos frascos contendo diluies de 5 diferentes odores, sendo utilizado para determinar o limiar de deteco e o reconhecimento de cada estmulo, obtendo-se um valor mdio do limiar e o olfatmetro Jet Stream (corrente em jato), que se constitui em trs partes: um adaptador para a fossa nasal, um dispositivo para a colocao e diluio do odorfero num tubo e um mini compressor de ar (39,40).

Outros exames podem auxiliar no diagnostico de disfuno olfatoria tais como: Tomografia Computadorizada com Emisso nica de Ftons (SPECT), Reflexo olfatrio-pupilar, Reflexo olfatrio-tensional ou cardiovascular, Reflexo cutneo ou psicogalvnico, Reflexo olfatrio-respiratrio, eletrolfatograma e o Potencial evocado do nervo olfatrio (4).

Anamnese detalhada tambm importante para o diagnstico das alteraes do sabor. Em algumas situaes, necessrio o auxlio de outros especialistas, como endocrinologista e geneticista, para melhor esclarecimento diagnstico. Papis embebidos em solues com diferentes concentraes de glicose, sal, cido, etc, podem ser utilizados, ou pode-se empregar a eletrogustometria, que consiste na estimulao da lngua com correntes eltricas, causando ao paciente a sensao de gosto cido e/ou metlico (33).

Tratamento

Muitas ideias simples podem ser sugeridas a pacientes com alteraes de gosto. A mastigao de goma ou de gelo pode atuar como uma ajuda temporria na hipogeusia. Os pacientes devem ser encorajados a mastigar seus alimentos muito bem, alterando os lados de sua boca ou ento os seus alimentos (41).

Os distrbios da quimiossensibilidade, olfao e gustao, so sintomas de doenas, por isso o tratamento depende da sua causa. As alteraes do olfato causadas por infeces virais so tratadas com hidratao oral, repouso e analgsico, se necessrio. Nas causas obstrutivas nasais, a correo cirrgica conjuntamente com o emprego de corticosteroides tpicos tem se mostrado eficaz. Nas perdas por trauma, as alteraes gustativas e olfativas, se no regredirem aps a melhora do edema, geralmente so irreversveis (33).

Em muitos casos o tratamento das alteraes olfatrias e gustativas no fcil e necessria uma cooperao interdisciplinar entre o otorrinolaringologista, endocrinologista, neurologista, psiquiatra entre outros (41).


COMENTRIOS FINAIS

A olfao e a gustao apresentam anatomia e fisiologia complexas, ainda no totalmente conhecidas. Sua importncia para os animais e seres humanos vital e sua perda traz graves consequncias na qualidade de vida, bem como pode representar risco sade do indivduo. Um dano ao sistema olfatrio pode atenuar a percepo do sabor j que estes sistemas apresentam uma ntima ligao. essencial o conhecimento dos testes atualmente disponveis para que se possa realizar um diagnstico preciso e responder s dvidas do paciente com relao perda parcial ou total do olfato e gustao. Deve-se ter em mente que a deteco precoce dessas alteraes pode levar a um tratamento mais efetivo, no intuito de retardar a progresso das doenas que ocasionam perda olfatria e gustatria e desta forma atenuar a severidade dos sintomas.


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1) Mestrado em Otorrinolaringologia. Doutor em Neurocincias. Preceptor da Residncia Mdica em Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio Betina Ferro de Souza da Universidade Federal do Par. Professor Adjunto da Universidade do Estado do Par e da Universidade Federal do Par.
2) Aluno do Quinto Ano do Curso de Medicina. Universidade do Estado do Par.
3) Aluna do Quarto Ano do Curso de Medicina. Universidade do Estado do Par.

Instituio: Centro de Otorrinolaringologia do Par - COP. Belm / PA - Brasil. Endereo para correspondncia: Francisco Xavier Palheta Neto - Centro de Otorrinolaringologia do Par - Avenida Conselheiro Furtado, 2391, salas 1508 e 1608 - Edifcio Belm Metropolitan - Bairro: Cremao - Belm / PA - Brasil - CEP 66040-100 - Telefone: (+55 91) 3249-9977 / 3249-7161 / 9116-0508 - E-mail: franciscopalheta@hotmail.com

Artigo recebido em 26 de Outubro de 2009. Artigo aprovado em 17 de Novembro de 2009.
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