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Ano: 1997  Vol. 1   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Estudo da Funo Auditiva Durante a Gestao Normal.
Author(s):
Roseli Saraiva Moreira Bittar, Tanit Ganz Sanchez, Edigar Rezende de Almeida, Rogrio Leo Bensadon
Palavras-chave:
INTRODUO

A manuteno da homeastase dos fluidos do ouvido interno e sua integridade bioqumica so essenciais para o bom funcionamento da audio e do equilbrio1. Segundo RUBIN e BROOKLER2, as alteraes hormonais no organismo da mulher durante o ciclo menstrual, menopausa e gravidez podem provocar distrbios nessa homeostase, gerando sintomas auditivos e labirnticos. Alguns autores tiveram oportunidade de demonstrar tais alteraes durante o ciclo menstrual, manifestadas por vertigens, zumbidos e mesmo assintomticas3,4,5. As alteraes encontradas foram associadas a altos nveis hormonais presentes no sangue, principalmente na fase ps ovulatria imediata. A variao dos limiares tonais durante o ciclo menstrual foi confirmada audiometricamente por DAVIS & AHROON6. LAWS & MOON7 demonstraram comprometimento do reflexo estapediano, que foi atribudo ao hormonal no Sistema Nervoso Central, sempre varivel de acordo com os nveis hormonais no sangue. Em 1993, GOMEZ8 encontrou 52% de alteraes audiomtricas em pacientes que apresentavam tonturas pr-menstruais.

A influncia dos hormnios ovarianos na funo auditiva foi intensamente questionada com a utilizao dos contraceptivos orais durante os ltimos trinta anos, quando foram descritos casos de surdez sbita9,10 e alterao da audio11 atribudos a esses frmacoss. A utilizao dos potenciais evocados do tronco cerebral mostrou-se eficaz na demonstrao de comprometimento das vias auditivas centrais nesses casos12,13. Em 1993, BITTAR e CRUZ14 apresentaram trabalho experimental em cobaias, demonstrando que a progesterona apresenta ao na onda III do potencial evocado, influindo em sua amplitude e morfologia.

De forma anloga, durante a gestao normal, foi descrito comprome-timento do labirinto posterior15, no existindo porm, estudos da funo auditiva nesse perodo. O objetivo de nosso trabalho foi observar o comporta-mento da funo auditiva durante a ges-tao atravs dos Potenciais Auditivos Evocados do Tronco Cerebral (PATC) e da pesquisa do reflexo estapediano.

MATERIAIS E MTODOS

Foram estudadas 14 gestantes e 28 pacientes do sexo masculino, res-peitando-se os padres ticos vigentes no Hospital das Clnicas da FMUSP.

A idade mdia das gestantes foi de 24,6 anos +/- 8,29, enquanto que a dos homens foi de 36,32 anos +/- 11,76.

Todos os pacientes foram submetidos audiometria tonal (audimetro MADSEN OB70), pesquisa do reflexo estapediano (impedancimetro MADSEN ELETRONIC ZO73) e ao exame de Potenciais Evocados do Tronco Cerebral (RACIA APE 78).

As ondas do PATC foram analisadas quanto sua latncia e morfologia. Foram observados ainda os intervalos interpicos entre as ondas I, III e V. Padronizamos realizar os exames no ouvido direito na intensidade de 90 dB.

Regulagem utilizada para realizao dos potenciais evocados:

- estmulo: cliques de 0,08 mseg, polarizao alternada, freqncia de 20/seg. Em cada teste foram utilizadas aproximadamente 1000 estmulos.

- janela: 10 mseg.

- filtro: banda passante de 100 a 3000 Hz.

- amplificao: 5 mv, por diviso.

O clculo estatstico dos valores encontrados foi realizado mediante os seguintes modelos:

a. mdia aritmtica e desvio padro.
b. teste de igualdade das mdias "t" de "Student".

Adotou-se nvel de significncia (p) de 95%, conforme os padres utilizados em estudos biolgicos.

RESULTADOS

No encontramos alteraes estatisticamente significativas quando analisados os limiares de reflexo dos grupos controle e gestantes. Com relao ao intervalo diferencial entre o limiar tonal e o limiar para desencadeamento do reflexo estapediano, que denominaremos campo auditivo, encontramos aumento significativo na freqncia de 2000 Hz (p<0,05). Embora no atingissem os nveis de significncia estabelecidos, as mdias dos intervalos entre limiar tonal e limiar de reflexo encontradas, foram maiores nas gestantes, especialmente nas freqncias agudas. Valores obtidos:

500 Hz + = 0,22

1000 Hz + = 1,65

4000 Hz + = 1,84

As mdias obtidas, quando avaliado o intervalo entre o limiar tonal e o reflexo estapediano, esto no Grfico 1.

Quanto ao PATC, no foram encontradas diferenas significativas entre os dois grupos, quando avaliadas as latncias de todas as ondas. As mdias dos resultados obtidos com relao s latncias esto no Grfico 2. As mdias dos intervalos obtidos entre as ondas I-III, III-V e IV figuram no Grfico 3. Em relao ao estudo morfolgico das ondas, no pudemos observar alteraes importantes entre os dois grupos. Embora no atinjam os nveis de significncia adotados, os valores absolutos das latncias das ondas I, III e V, bem como os intervalos entre elas, foram menores no grupo de gestantes.


Grfico 1. Mdia dos campos auditivos (diferena entre o limiar tonal e o reflexo estapediano) das gestantes em relao ao grupo controle.


Grfico 2. Mdia das latncias das ondas I a V ao BERA, observadas no grupo de gestantes em relao ao grupo controle.


Grfico 3. Intervalos entre as ondas I, III e V ao BERA, observadas no grupo de gestantes em relao ao grupo controle.


DISCUSSO

No encontramos diferena significativa entre os dois grupos, quando analisamos os limiares do reflexo estapediano. Entretanto, o campo auditivo foi significativamente maior a 2000 HZ no grupo de gestantes, o que matematicamente significa que o limiar tonal nessa freqncia foi menor no grupo de estudo em relao ao grupo controle. O aumento do campo auditivo foi atribudo a leso de tronco cerebral por JERGER e JERGER16. De acordo com BITTAR e CRUZ14, a progesterona, hormnio predominante durante a gestao, induz ao comprometimento da onda III da cobaia ao PATC, sugerindo que haja de fato alterao da conduo do impulso nervoso atravs do tronco cerebral, o que explicaria a alterao encontrada. Por outro lado, esta observao paradoxal, uma vez que tradicionalmente, aos melhores limiares tonais so esperados menores nveis de reflexo estapediano17. Estudando contraceptivos orais, SAMANI12 encontrou resultados semelhantes aos nossos, observando melhora dos limiares tonais e aumento do nvel de reflexo com o uso prolongado dessas drogas.

No pudemos observar melhora significativa dos limiares tonais das gestantes na freqncias agudas, mas os valores obtidos a 1000 e 4000 Hz foram mais prximos ao nvel de significncia que a 500 Hz. Nossos achados confirmam estudos preliminares que concluem que a ao hormonal se d principalmente nas freqncias agudas4,11 e que, em presena de altos nveis hormonais, h melhor performance auditiva18.

Com relao ao BERA, nossos estudos no puderam demonstrar alteraes significativas entre os traados das gestantes e do grupo controle. No podemos, no entanto, concluir que a gestao no interfere na conduo do impulso auditivo atravs do Sistema Nervoso Central, devido ao nmero pequeno de casos que estudamos. Observando os resultados encontrados, verificamos que as mdias das ondas I, III e V, bem como seus intervalos, so mais precoces no grupo das gestantes, embora no atinjam o nvel de significncia adotados. Essa observao est de acordo com estudos preliminares que demonstram diminuio das latncias sob influncia do estrgeno usado experimentalmente nos Potenciais Evocados do Tronco Cerebral13 e atuao hormonal na funo vestibular durante a gestao14.

No geral, nossos resultados se aproximam aos de SAMANI et al.12, com contraceptivos orais. O autor relata diminuio significativa das latncias das ondas I e III, quando sensibiliza a prova dos potenciais evocados aumentando o nmero de cliques, o que no ocorre com a padronizao habitual. Observa ainda aumento dos limiares do reflexo estapediano, o que no foi por ns observado, em desacordo com LAWS e MOON7, que descrevem diminuio do nvel de reflexo sob ao hormonal. Acreditamos que nossos achados confirman a hiptese de BITTAR e CRUZ14 que relatam comprometimento da onda III em cobaias com o uso da progesterona, justificando o aumento do campo auditivo.

BIBLIOGRAFIA

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1-Assistente Doutor do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

2-Mdica Assistente e Ps Graduanda em Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

3-Assistente Doutor do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

4-Aluno de Ps Graduao do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
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