Title
Search
All Issues
5
Ano: 2000  Vol. 4   Num. 2  - Abr/Jun Print:
Original Article
Versão em PDF PDF em Português
Barotrauma de orelha mdia associado terapia em cmara hiperbrica
Author(s):
Fabio de Rezende Pinna, Fabrzio Ricci Romano, Rodrigo C. de la Cortina, Ivan Dieb Miziara, Mariza DAgostino Dias, Ricardo Ferreira Bento
Palavras-chave:
barotrauma, orelha mdia, cmara hiperbrica
Resumo:

Atualmente, a terapia de oxigenao hiperbrica est totalmente estabelecida para o tratamento de numeras afeces. Ela consiste em se oferecer um ambiente com oxignio a100% e presso atmosfrica alta, para aumentar a pO2 tecidual. A principal complicao deste procedimento o barotrauma de orelha mdia. Devido s condies dos pacientes que se submetem oxigenoterapia hiperbrica, no se pode confiar apenas em suas queixas, sendo necessria uma investigao das possveis alteraes otolgicas provocadas pela alta presso.Foi realizado um estudo em 21 pacientes submetidos a tratamento com cmara hiperbrica no Hospital das Clnicas FMUSP, tentando-se aferir as alteraes de orelha mdia provocadas pelo procedimento e os fatores que predisporiam estas alteraes. Ns encontramos evidncias de barotrauma em 5 pacientes aps a primeira sesso na cmara, e em 8 pacientes aps a quinta sesso. Os pacientes intubados pareceram ser mais predispostos ao barotrauma. No houve relao entre as queixas dos pacientes e as alteraes observadas. Por isso, conclumos que o barotrauma de orelha mdia uma complicao frequente da oxigenioterapia hiperbrica e sugerimos que todos os pacientes submetidos a este tratamento devam passar por um exame cuidadoso das condies da membrana timpnica.

INTRODUO

A terapia de oxigenao hiperbrica est totalmente estabelecida atualmente para o tratamento de inmeras afeces1,2. Ela consiste basicamente em se oferecer um ambiente com oxignio a 100% e presso atmosfrica de 2 a 2,4 atmosferas3. Com isso, consegue-se uma p02 tecidual de 250 a 500 mmHg4. Apesar deste ambiente ser artificialmente criado, poucas complicaes so descritas com esse procedimento. A mais comum delas o barotrauma de orelha mdia4.

Existem trabalhos contraditrios no que diz respeito ao papel da tuba auditiva para o barotrauma de orelha mdia: enquanto alguns autores relatam maior ndice deste problema em pacientes com disfuno tubrea3, outros desprezam tal fato5.

O mtodo mais confivel para deteco de alteraes de orelha mdia decorrentes da oxigenao hiperbrica a otoscopia simples, fato corroborado por vrios autores4,6. Este o mtodo que apresenta maior relao com as queixas do paciente, em detrimento de outros testes mais objetivos, em especfico a timpanometria, emisses otoacsticas e os potenciais auditivos de tronco cerebral. Este ltimo tem papel importante na deteco de alteraes de orelha interna, que tambm podem ocorrer como complicao deste procedimento3,7.

MATERIAIS E MTODOS

Foi realizado um estudo prospectivo em 21 pacientes submetidos a sesses teraputicas da cmara hiperbrica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. Destes pacientes, 16 eram homens e 5 mulheres, numa proporo de 3:1. A idade variou de 1 a 65 anos, mdia de 33,8 anos. As indicaes de oxigenioterapia hiperbrica foram muito variadas, sendo as causas mais comuns infeces (8 pacientes; 38,1%), traumas (6 pacientes; 28,6%) e neoplasias (5 pacientes; 23,8%) (Tabela 1). Eles foram avaliados em relao indicao da cmara, doena de base, hbitos pessoais, medicao em uso e um interrogatrio sobre antecedentes otorrinolaringolgicos. Dentre os antecedentes, procuramos saber se o paciente apresentava algum indcio de disfuno tubrea como hipoacusia, otites de repetio, otorria, mal formao crnio facial, zumbido, obstruo nasal, IVAS freqentes, alergias, rinorria ou vertigem.

A seguir, era realizada otoscopia com otoscpio porttil antes e aps a primeira sesso. O mesmo era feito antes e aps a quinta sesso. Os pacientes foram ento classificados em relao classificao de Teed8 para barotraumas (Tabela 2). Logo aps a primeira e quinta sesso o paciente era tambm submetido a um interrogatrio sobre eventuais queixas presentes ao longo da sesso. Este interrogatrio abordava a presena ou no de: otalgia, otorragia, hipoacusia, plenitude ou vertigem.

RESULTADOS

Em relao aos antecedentes otorrinolaringolgicos, 8 pacientes apresentavam queixas de rinite (38,1%), 1 paciente (4,8%) apresentava zumbido, 1 paciente vertigem, 1 paciente otorria e 1 paciente hipoacusia por ototoxicidade. No momento da compresso hiperbrica, 2 pacientes apresentavam-se sob intubao orotraqueal (9,5%) e 1 paciente tinha uma traqueostomia (4,8%), portanto, 3 pacientes (14,3%) faziam parte do grupo de no-equalizadores (Tabela 3).

Em relao ao total de pacientes, apenas 1 deles apresentava retrao de membrana timpnica (bilateral), previamente compresso. Este paciente no apresentou queixas aps 5 sesses. O restante dos pacientes apresentava otoscopia normal. Aps a primeira sesso, 1 paciente apresentava barotrauma com classificao Teed 1 (unilateral- E), sendo este o paciente intubado. Dois pacientes se apresentavam com Teed 2 (unilateral - E), e 2 pacientes com Teed 3 (unilateral - E e bilateral, respectivamente). Destes apenas um paciente com Teed 2 e um paciente com Teed 3 bilateral relataram queixas auditivas de hipoacusia, plenitude auricular e zumbido. O paciente com Teed 3 unilateral esquerda tambm estava intubado. Porm, 3 pacientes com otoscopia ps-compresso normais tiveram plenitude e um paciente apresentou otalgia. Aps a 5 sesso, o paciente com Teed 1 teve melhora da otoscopia. Um dos pacientes com Teed 2 manteve o quadro, e o outro, que tinha queixas, apresentou acometimento do mesmo grau bilateralmente. Os pacientes classificados como Teed 3 mantiveram o quadro. Dos pacientes que no apresentavam alteraes aps a primeira sesso, 2 deles apresentaram Teed 1 aps a 5 sesso, um deles acompanhado de otalgia (ambos unilateral - E). Dois pacientes apresentaram Teed 3 aps a 5 sesso (unilaterais - E) (Tabela 4).

Dos vinte e um pacientes estudados, dois estavam intubados e um traqueostomizado, no sendo capazes portanto, de realizar uma abertura ativa da tuba auditiva. Dentre estes, os dois pacientes intubados tiveram alteraes logo aps a 1 sesso, um deles com Teed 1 e o outro Teed 3. O paciente traqueostomizado no teve alteraes. Os antecedentes otorrinolaringolgicos, especialmente de rinite, no pareceram ter influncia nas alteraes provocadas pela cmara hiperbrica.


TABELA 1: Indicaes da oxigenioterapia hiperbrica.


TABELA 2: Classificao de Teed para barotrauma de orelha mdia.


TABELA 3: Antecedentes Otorrinolaringolgicos.


TABELA 4: Resultados.


DISCUSSO

O primeiro relato dos efeitos da presso sobre o organismo humano foi feito por Bert, descrevendo os sintomas auditivos sofridos por dois balonistas. Porm, apenas aps a Primeira Guerra Mundial eles passaram a ser melhor estudados, principalmente nos lanadores de bombas da Luftwaffe alem, que faziam descidas rpidas, sem pressurizao. Desde ento, inmeros estudos foram feitos em relao aos barotraumas em viagens areas. Com a popularizao da oxigenoterapia hiperbrica e o aumento de suas indicaes, o nmero de casos de barotrauma de orelha mdia vem crescendo. A maioria dos trabalhos divide os pacientes em 2 grupos, os equalizadores e os no-equalizadores, a depender da possibilidade de abertura da tuba auditiva3,5. Em nosso estudo, como apenas 3 pacientes encaixavam-se na definio de no-equalizadores (dois sob intubao orotraqueal e um traqueostomizado), no foi possvel encontrar uma significncia estatstica entre estes grupos. Mesmo assim, entre os equalizadores (n=18), 3 deles (16,6%) apresentaram barotrauma aps a 1 sesso na cmara, sendo 1 classificado como Teed 2 e 1 como Teed 3 (bilateral). Aps a 5 sesso, 2 pacientes previamente normais apresentaram otoscopia Teed 1 e dois com Teed 3. Portanto, entre os equalizadores houve um total de 7 pacientes (38,9%) com algum grau de barotrauma. Entre os no-equalizadores, 2 deles apresentaram alteraes, 1 classificado como Teed 1 e outro Teed 3 (66,6%). importante notar que os afetados foram os pacientes intubados. O paciente traqueostomizado, provavelmente por estar consciente, conseguiu realizar a equalizao das presses do ouvido mdio e do meio externo.

Pacientes sob intubao orotraqueal devem ser candidatos colocao de tubos de ventilao, especialmente se forem ser submetidos vrias sesses.

Pacientes com queixas auditivas, ou alteraes otoscpicas, que no melhorem com o uso de descongestionantes e anti-histamnicos, tambm devem realizar este procedimento.

Ns utilizamos apenas a otoscopia como mtodo avaliativo das alteraes no ouvido mdio, j que alguns trabalhos demonstraram que ela o mtodo mais confivel. Mesmo assim, a correlao entre achados otoscpicos e as queixas dos pacientes no ocorreu. Dos pacientes com otoscopia normal aps a 1 sesso, trs apresentaram queixas de plenitude e otalgia. Um dos pacientes com alterao otoscpica no apresentou queixas, alm claro dos pacientes intubados.

Ns no encontramos diferenas significativas entre os pacientes que apresentavam ou no antecedentes otorrinolaringolgicos.

A leso de orelha interna rara, e quando ocorre pode estar relacionada a uma manobra de equalizao realizada de forma muito vigorosa, com imploso da platina em relao ao estribo, ou alteraes na microvasculatura como embolias7.

CONCLUSO

Ns conclumos com este trabalho, que o barotrauma de ouvido mdio uma complicao frequente da oxigenioterapia hiperbrica, e deve sempre ser levado em conta em pacientes recebendo este tratamento.

importante lembrar que devido pobre correlao entre os sintomas e os achados de exame, todos os pacientes submetidos compresso hiperbrica devem ser submetidos ao exame otoscpico para evitar barotraumas no diagnosticados.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Grim, P. S.; Gottlieb, L. J.; Boddie, A.; Batson, E. - Hyperbaric oxygen therapy. JAMA 1990; 263: 2216-20

2. Nemiroff, P.M.; Rybak, L. P. - Applications of hyperbaric oxygen for the otolaryngologist-head and neck surgeon. Am J Otolaryngol 1988; 9: 52-7

3. Beuerlein, M.; Nelson, R. N.; Welling, D. B. - Inner and middle ear hyperbaric oxigen-induced barotrauma. Laryngoscope 1997; 107 Oct: 1350-56

4. Blanshard, J.; Toma, A.; Bryson, P.; Williamson, P. - Middle ear barotrauma in patients undergoing hyperbaric oxygen therapy. Clin Otolaryngol 1996; 21: 400-403

5. Igarashi, Y.; Watanabe, Y.; Mizukoshi, K. - Middle ear barotrauma associated with hyperbaric oxygenation treatment. Acta Otolaryngol (Stockh) 1993; Suppl. 504: 143-145

6. Sheffeld, P. J. - Tissue oxygen measurements with respect to soft tissue wound healing with normobaric and hyperbaric oxygen. Hyperbaric Oxigen Ver 1985; 6: 18-46

7. Zheng, X. Y.; Gong, J. H. - Cochlear degeneration in guinea pigs after repeated hyperbaric exposures. Aviat Space Environ Med 1992; 63: 360-3
8. Teed R. W. - Factors producing obstruction of the auditory tube in submarine personnel. US Naval Med Bull 1944; 42: 293-306

Trabalho realizado na Diviso de Cnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas - FMUSP - Servio do Prof. Aroldo Miniti.
Endereo para correspondncia: Fabio Rezende Pinna - Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica - Hospital das Clnicas - FMUSP - Av. Dr. Enas de Carvalho Aguiar, 255, 6 andar, sala 6021 - So Paulo - SP - Tel./Fax: (0xx11) 280-0299.

1- Acadmico de 6 ano da FMUSP.
2- Mdico Residente de 3 ano da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica - HCFMUSP.
3- Mdico ps-graduando da Disciplina de Otorrinolaringologia da FMUSP.
4- Mdico Assistente Doutor da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do HCFMUSP.
5- Mdica supervisora da UTI-equipe mdica II- Clnica Cirrgica III- Cirurgia do Trauma.
6- Professor Associado da Disciplina de Otorrinolaringologia da FMUSP.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2024