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Ano: 2004  Vol. 8   Num. 3  - Jul/Set Print:
Exposio Ocupacional ao Rudo e Qumicos Industriais e seus Efeitos no Sistema Auditivo: Reviso da Literatura
Occupational Exposure to Noise and Industrial Chemicals and Their Effects on the Auditory System: Revision of Literature
Author(s):
Andra Pires de Mello*, William Waismann**.
Palavras-chave:
perda auditiva, rudo, exposio ocupacional, solventes, produtos qumicos.
Resumo:

Introduo: Por sua inegvel importncia, o rudo tem recebido exclusividade quase absoluta nas abordagens relacionadas sade auditiva dos trabalhadores. Entretanto, ao se considerar perda auditiva ocupacional, importante que se reconhea a potencialidade de outros agentes e sua possvel interao com o rudo sobre a sade auditiva dos trabalhadores. H evidncias de que os produtos qumicos podem provocar perda auditiva independentemente da presena do rudo e de que a interao rudo / produtos qumicos pode ocasionar uma perda auditiva mais importante do que aquela resultante da exposio isolada ao rudo ou ao produto qumico, ou seja, haveria um sinergismo entre estes dois agentes. Os produtos qumicos citados seriam os solventes, asfixiantes e os metais. Objetivo: Revisar o assunto e alertar sobre as falhas nos Programas de Conservao Auditiva em ambientes de trabalho que focalizam suas preocupaes exclusivamente no rudo ocupacional. Concluses: No Brasil a legislao trabalhista especfica no recomenda a realizao de audiogramas peridicos em trabalhadores expostos a produtos qumicos, exceto para aqueles expostos a nveis de rudo acima dos limites permitidos. Instituies como o NIOSH (National Institute for Occupational Safety and Health), ACGIH (American Conference of Governmental Industrial Hygienists) e o Exrcito Americano recomendam, desde 1998, que a audio dos trabalhadores expostos a certos produtos qumicos seja monitorada. Mais recentemente o Parlamento Europeu tambm recomendou que os Programas de Conservao Auditiva fossem modificados para atender s necessidades dos trabalhadores expostos a riscos qumicos.

INTRODUO

Apesar dos esforos, a perda auditiva induzida pelo rudo (PAIR) permanece como um importante problema em todo o mundo, principalmente nos pases mais industrializados. Nos EUA, a PAIR a doena ocupacional mais comum. Aproximadamente 30 milhes de trabalhadores, tanto na Europa como nos EUA, encontram-se expostos a um nvel de rudo potencialmente lesivo no seu ambiente de trabalho (1). Uma demonstrao indireta de seus efeitos o aumento progressivo de aes indenizatrias cveis e trabalhistas ocasionadas pela PAIR. As razes para a falha na proteo dos trabalhadores contra a PAIR so muitas. Alm do preponderante desrespeito proteo do trabalhador, comum em nosso meio, h que se destacar diferenas individuais (susceptibilidade) e o pouco estudado fenmeno de potencializao da PAIR pela co-exposio a certos produtos qumicos. Existem evidncias de que produtos qumicos podem levar perda auditiva independentemente da presen a do rudo.

A interao rudo-produto qumico pode produzir perda auditiva muito maior do que aquela resultante da exposio isolada ao rudo ou ao produto qumico. Essas interaes representam importante papel neste processo, pois o controle da exposio, tanto ambiental quanto ocupacional, em geral considera apenas o rudo ou a toxicidade isolada de cada agente.

REVISO DE LITERATURA

Efeitos do rudo sobre a audio

Os efeitos do rudo sobre a audio podem variar desde uma alterao passageira at a perda irreversvel da mesma. De um modo geral, podem ser divididos em 3 categorias: mudana temporria no limiar (TTS: Temporary threshold shift), trauma acstico e mudana permanente no limiar (PTS:Permanent threshold shift) (2). A TTS ocorre depois de exposio a rudo intenso, mesmo que por um curto perodo de tempo, e tende a regredir espontaneamente em minutos ou semanas, aps repouso auditivo.

Para GLORIG (3), o termo trauma acstico deve restringir-se perda auditiva de instalao sbita, provocada por um som de alta intensidade, como no caso de uma exploso. J o PTS resulta da exposio contnua, diria, a nveis de presso sonora elevados, compreendidos entre 85 e 120 dBA. Sua instalao ocorre de forma lenta e gradativa e sua leso irreversvel. As principais caractersticas da PAIR so (4): a) ser sempre neurossensorial, afetando as clulas ciliadas da orelha interna, e quase sempre bilateral (os audiogramas so geralmente similares, bilateralmente); b) em geral no produz perda auditiva profunda (no ultrapassa 40 dB nas freqncias baixas e 75 dB nas altas freqncias); c) no progressiva aps a cessao do estmulo sonoro; d) exposio continuada ao rudo por longos perodos mais lesiva do aquela descontnua, com perodos de descanso auditivo; e) existncia de PAIR prvia no torna o ouvido mais sensvel a futuras exposies ao rudo; f) o dano inicial no ouvido interno reflete uma perda auditiva em 3.000, 4.000 e 6000 Hz. Sempre existe uma perda maior nestas faixas do que em 500, 1.000 e 2.000 Hz.

O maior dano geralmente ocorre em 4.000 Hz. As freqncias mais altas e mais baixas levam mais tempo para serem afetadas do que a faixa entre 3.000 e 6.000 Hz.

Ototoxicidade por produtos qumicos industriais

A ototoxicidade conhecida desde o sculo XIX, quando foi publicado que certas drogas como o quinino e o cido saliclico poderiam produzir mudana temporria no limiar auditivo bem como tonteiras e zumbidos (5). Porm, ela s foi reconhecida como um verdadeiro problema mdico nos anos 40 (sculo XX), quando se verificou leso permanente do rgo vestibular e coclear em vrios pacientes tratados com estreptomicina, medicamento utilizado na teraputica da tuberculose (6). No sero consideradas, aqui, as chamadas ototoxicoses iatrognicas (leses do sistema auditivo provocada no paciente por droga utilizada em seu tratamento), principalmente aquelas decorrentes, por exemplo, do uso de antibiticos aminoglicosdeos.

Sero tratadas ototoxicoses em decorrncia da exposio a produtos qumicos relacionados aos processos de trabalho. Uma infinidade de substncias lanada a cada ano nos diversos processos produtivos e a velocidade de introduo no mercado no acompanhada pelo conhecimento de sua toxicidade. Acrescente-se o fato de que os efeitos crnicos a baixas doses so praticamente desconhecidos para a quase totalidade das substncias. Por isso as fontes de risco de origem qumica adquirem importncia crucial para avaliao e interveno. Existem atualmente mais de 750.000 substncias qumicas conhecidas. Cerca de 85.000 so utilizadas rotineiramente e comercialmente, embora os seus riscos e efeitos para o homem sejam somente conhecidos, ainda que parcialmente, para cerca de 7.000 destas substncias (7). O enfoque que vem sendo dado sade auditiva dos trabalhadores tem sido quase que exclusivamente atribudo ao rudo. Entretanto, a literatura apresenta in- meros trabalhos que comprovam leso auditiva em decorr ncia da exposio ocupacional a produtos qumicos, mesmo na ausncia do rudo e outros que intentam demonstrar interao entre rudo e produtos qumicos (1,8,9). Alguns estudos sugerem que a exposio simult- nea a rudo e produtos qumicos produzem efeito sinrgico, ou seja, a perda auditiva resultante maior do que aquela produzida pela soma da ao isolada de cada um, rudo ou produtos qumicos (5,6,8,10). Isso relevante porque, isoladamente, rudo e produtos qumicos podem estar dentro dos limites de exposio definidos em legislao, porm, quando em exposio combinada, aumentariam o risco de perda auditiva.

Mesmo faltando ainda tal comprova o no homem, reconhecida essa ao sinrgica, ela impor alteraes nos limites que hoje norteiam a preven- o da perda (8,10). Os achados audiolgicos da perda auditiva por exposio ocupacional a substncias qumicas no diferem muito da PAIR no que diz respeito configurao audiomtrica.

Em geral esta perda se caracteriza por ser coclear, bilateral, simtrica, progressiva e irreversvel, com incio nas freqncias altas do audiograma. Talvez essa configurao praticamente idntica da PAIR possa justificar o porque deste assunto to importante ter sido negligenciado por tantos anos. A partir do momento em que h perda auditiva com estas caractersticas, em um ambiente ruidoso, tem-se atribudo a causa como sendo exclusivamente devida ao rudo, no se valorizando poss- vel exposio qumica. Isto tambm faz refletir sobre a possibilidade de um ambiente com elevado nvel de rudo nem sempre ser aquele que apresenta o maior nmero de perdas auditivas, podendo ser superado por ambiente que expe o trabalhador a produto qumico ototxico (9,10). Quase no se valoriza o fato da perda auditiva induzida por qumicos poder progredir mesmo aps o trmino da exposio ao agente qumico, o que no observado em relao ao rudo (1,6). A insero de um qumico na categoria de alta prioridade para estudos leva em considerao primeiramente o nmero de trabalhadores expostos ocupacionalmente a ele e a evidncia da sua toxicidade geral, ou seja, sua nefro e neurotoxicidade.

Propriedades ototxicas somente foram investigadas para um nmero muito reduzido de qumicos industriais (11). Da literatura se conclui que existem 3 grupos principais de qumicos considerados como alta prioridade nas pesquisas de ototoxicidade ocupacional: solventes, asfixiantes e metais. Mais recentemente, foram includos neste grupo os pesticidas (organofosforados) (12).

Ototoxicidade ocupacional de solventes orgnicos

Os solventes orgnicos so os agentes ototxicos ocupacionais mais estudados, sendo citados, em especial: tolueno, xileno, estireno, n-Hexano, dissulfeto de carbono e tricloroetileno (11). Cerca de 50% dos solventes so utilizados na fabrica- o de vernizes, tintas, colas, cosmticos; 20% na fabrica o de sapatos; 10% nas indstrias de agrotxicos e 10% so usados na limpeza de metais, lavagem a seco, indstria txtil e farmacutica. Tambm so utilizados como matria prima na fabricao de plsticos e na indstria de combust veis (13). So classificados de acordo com a sua estrutura molecular ou grupo funcional.

Classes de solventes orgnicos incluem hidrocarbonetos alifticos e aromticos, alguns deles halogenados; lcoois; teres; steres; amidas, aminas; aldedos;cetonas e complexo de misturas. A toxicidade de um solvente orgnico em uma mesma classe pode variar dramaticamente.

Da mesma forma, diferenas sbitas na estrutura do qumico podem corresponder a diferenas dramticas na toxicidade do solvente. Os efeitos dos solventes orgnicos a altas exposies so similares: desorientao, euforia, atordoamento e confus o, progredindo para inconscincia, convulso e morte por parada respiratria ou cardaca. A rapidez de desenvolvimento destes sintomas demonstra que os efeitos narcticos de vrios solventes devem-se aos solventes em si, e no aos metablitos.

Na maioria dos indivduos, a recuperao dos efeitos no sistema nervoso central rpida e completa aps a remoo do local de exposio (14). Estudos sugerindo a ototoxicidade de solventes orgnicos foram publicados desde os anos 60, mas sua ototoxicidade no foi claramente demonstrada at os anos 80 (11). BARREGARD E AXELSSON (15) observaram, na dcada de 1980, perda auditiva neurossensorial mais acentuada do que o habitual pela exposio isolada ao rudo, sugerindo uma possvel interao ototraumtica entre o rudo e os solventes.

BERGSTRN E NYSTRM (9) avaliaram a audio de 319 trabalhadores de diferentes setores da indstria durante 20 anos. Observaram 23% de incidncia de perda auditiva em trabalhadores do setor qumico, contra 5 a 8 % de outros setores no expostos a qumicos, porm expostos a um nvel de rudo de 95 a 100 dBA, superior ao do setor qumico, de 80 a 90dBA. Avaliando trabalhadores de uma indstria de fibras de viscose-rayon em So Paulo, expostos a dissulfeto de carbono, MORATA (16) verificou alta incidncia de perda auditiva neurossensorial, sugerindo a possibilidade do dissulfeto de carbono estar associado ocorrncia de perda auditiva. Os resultados publicados por MORATA et al (17) so ainda mais preocupantes, j que sugerem que os solventes, mesmo em concentrao dentro dos limites recomendados de exposio, podem ser ototxicos. A exposio combinada entre tolueno e rudo parece causar leso mais severa do que a verificada pela exposio isolada a cada agente. JOHNSON et al (5) foram os primeiros a demonstrar que a exposio seqencial ao rudo, seguida de tolueno, provocaria perda auditiva mais acentuada do que a verificada aps exposio ao rudo ou ao tolueno isoladamente. Um estudo em 190 trabalhadores de uma indstria grfica em So Paulo avaliou a exposio ocupacional a rudo e tolueno.

A funo auditiva e vestibular de um grupo exposto simultaneamente a rudo (88-98 dBA) e tolueno (100-365 ppm) foi comparada com um grupo exposto a rudo isoladamente (88-97 dBA), a um grupo exposto mistura de solventes, onde o maior componente desta mistura era o tolueno, e ainda a um grupo controle, no exposto a nenhum destes agentes.

Verificou-se maior risco de perda auditiva nos grupos expostos simultaneamente a rudo e tolueno, seguido pelo grupo exposto mistura de solventes e, por ltimo, pelo grupo exposto somente a rudo (10). A partir do momento em que a disfuno auditiva causada pelo tolueno foi identificada, vrios pesquisadores passaram a examinar outros solventes que poderiam tamb m ser ototxicos. O xileno e o estireno foram selecionados pela sua similaridade estrutural com o tolueno.

Ratos foram expostos mistura de xileno e estireno e ambos causaram significativa perda auditiva nos animais experimentais. Ambos pareceram ser, inclusive, potencialmente mais ototxicos que o tolueno (18). As propriedades narcticas e neurotxicas do estireno representam os principais efeitos na sade reconhecidos em seres humanos. Esses efeitos tm sido observados em casos de curtas exposies a altas concentraes e/ou longas exposies a baixas concentraes.

O processo neurofisiolgico induzido pelo estireno desconhecido. Entretanto, hidrocarbonetos volteis como o estireno so altamente lipoflicos e facilmente absorvidos pelo sistema nervoso (19).

Estudos de reviso indicam que exposio a estireno causa leso permanente e progressiva do sistema auditivo do rato (19). Cabe ressaltar, entretanto, que como os estudos de toxicidade foram realizados com animais, deve-se sempre relativizar a avaliao da susceptibilidade ototxica quando baseada em estudos animais.

A susceptibilidade aos solventes espcie-dependente.

O metabolismo dos solventes aromticos, por exemplo, inerente a cada espcie e isto pode ser a origem da diferente susceptibilidade inter-espcies.

Verificou-se, para o estireno, que o sistema auditivo das cobaias no lesado, nem h agravamento de perda auditiva, como no caso dos ratos (1,19). Infelizmente, porm, o metabolismo do solvente no homem similar ao do rato, conseqentemente este se torna o melhor modelo animal para o estudo dos efeitos ototxicos dos solventes (1). Com as mesmas condies de inalao, a concentra- o sangunea do solvente nas cobaias bem menor do que nos ratos.

Isto foi verificado para o estireno e p-xileno, enquanto o o-xileno e m-xileno parecem no ser ototxicos. Desta forma deve ser mais difcil alcanar uma concentra- o txica nas cobaias em relao aos ratos (20). MORATA et al observaram que o tempo necessrio de exposio ocupacional a solventes para desenvolvimento da perda auditiva seria de 2 a 3 anos, bem menor do que o tempo observado em relao ao rudo (21).

Para JACOBSEN et al, seriam necessrios 5 anos de exposio para que se observassem efeitos significativos dos solventes sobre a audio (22).

Ototoxicidade ocupacional de asfixiantes

O monxido de carbono (CO) um gs incolor e inodoro. As principais fontes de intoxicao resultam da combusto incompleta do carvo, motores a exploso e gs de iluminao. Outras fontes seriam a fumaa de cigarros, fornos de temperaturas elevadas nas indstrias metalrgicas. provvel que o nmero de indivduos potencialmente expostos a CO no ambiente de trabalho exceda qualquer outro agente fsico ou qumico (1). O cianeto de hidrognio, tambm conhecido como gs ciandrico, era a substncia classicamente usada para matar condenados nas cmaras de gs.

O principal risco ocupacional o manuseio de sais de cianeto em locais prximos ao de cidos, especialmente em galvanoplastias que usam cianeto de sdio, como desengraxantes alcalinos e cidos fortes (clordrico, crmico, sulfrico). Tambm utilizado como fumigante para matar ratos em pores de navios (13). Existem evidncias demonstrando que exposies a nveis baixos a moderados de asfixiantes, como o monxido de carbono e o cianeto de hidrognio podem potencializar a perda auditiva induzida pelo rudo.

Eles, isoladamente, no seriam ototxicos, mas ocorreria efeito de potencializao (diz-se que h potencializao quando um agente, mesmo no txico por si, potencializa a toxicidade de outro agente) ao do rudo. O cianeto de hidrognio parece ter apenas efeito sbito sobre a audio, quando a exposio ocorre de forma isolada. Observou-se altos nveis de radicais livres na cclea com a exposio combinada de CO e rudo.

O mesmo no acontecendo em exposies isoladas ao CO e ao rudo, quando no h produo de nveis to elevados de radicais livres (1,23). Como dito, intervalos de repouso auditivo so importantes para evitar danos permanentes. Estes intervalos de repouso auditivo seriam importantes para a recupera o da cclea.

O rudo intermitente parece, assim, causar menor alterao no limiar auditivo do que o rudo contnuo, de igual intensidade.

Porm, quando a exposio ao rudo se d em combinao com o CO, no se verificam diferen- as entre os efeitos do rudo intermitente e contnuo (23). Ototoxicidade ocupacional de metais O chumbo o metal mais estudado quanto ototoxicidade (11).

A produo de baterias chumbo-cidas representa o segmento industrial responsvel pelo maior consumo de chumbo nos pases em desenvolvimento.

Em razo das propriedades txicas do chumbo e das condies de trabalho prevalentes nestas indstrias, os trabalhadores encontram-se freqentemente expostos a elevadas concentra es desse elemento e, conseqentemente, sujeitos intoxicao (24). Este quadro principalmente observado em pases em desenvolvimento.

Estudos realizados em indstrias de baterias chumbo-cidas observaram diferena significativa entre os nveis de chumbo em sangue (Pb-S) em trabalhadores de pases desenvolvidos, quando comparados com aqueles de pases em desenvolvimento.

Enquanto 28% dos trabalhadores desse segmento industrial na Jamaica e 38% na Coria apresentavam nveis de Pb-S acima de 60mg/dl, nos EUA apenas 6% apresentavam nvel acima deste valor (24). A literatura mundial rica em estudos sobre os efeitos da intoxicao pelo chumbo no organismo, o mesmo no sendo observado em relao aos efeitos do chumbo sobre o sistema auditivo, principalmente em relao exposio ocupacional.

Em relao exposio simultnea com o rudo e possveis interaes, os trabalhos so praticamente inexistentes. Em 183 trabalhadores expostos ao chumbo, observou- se correlao estatisticamente significante entre o nvel de chumbo no sangue e perda auditiva na freqncia de 4000 Hz. Nenhuma outra freqncia demonstrou tal correlao.

Entretanto, neste estudo no foi considerado o nvel de exposio ao rudo a que estes trabalhadores encontravam-se expostos (25). FARAHAT et al (26) avaliaram os limiares auditivos de 45 trabalhadores de uma grfica expostos a elevados nveis de chumbo.

Observaram correlao significativa entre os nveis de chumbo no sangue e alterao nos limiares auditivos, principalmente na freqncia de 8000 Hz. Conclu ram que, em virtude do nvel mdio de rudo ao qual os trabalhadores estavam expostos ser de 42 dB, houve significativa associao entre os nveis de chumbo no sangue e elevao dos limiares auditivos. Em um estudo com 220 trabalhadores de uma indstria de baterias, em Taiwan, expostos a elevados nveis de rudo e chumbo, foram mensurados o nvel de chumbo no sangue, a concentrao de chumbo no ar, o nvel de rudo no ambiente de trabalho e os limiares auditivos desses trabalhadores.

Observou-se significativa correlao entre os ndices de exposio crnica elevados e limiares auditivos. Em contraste, no foi observada correlao entre exposio por curtos perodos ao chumbo e perda auditiva.

Da mesma forma, no foi observada correlao entre exposio ao rudo e alterao dos limiares auditivos, bem como nenhuma interao entre o rudo e o chumbo (27). Indivduos expostos ocupacionalmente a nveis elevados de chumbo por longos perodos foram testados atravs de audiometria tonal, potenciais evocados auditivos de tronco enceflico e o nvel de chumbo no sangue para avaliar neuro-ototoxicidade.

Concluram que a exposi o isolada ao chumbo no a causa de disacusia neurossensorial, porm que a combinao entre a intoxica- o ao chumbo e a exposio ao rudo poderia induzir a neuro-ototoxicidade, principalmente em indivduos suscept veis (28). Apesar de estar estabelecido que o chumbo neurotxico, os nveis e parmetros de exposio necess rios a induzir a neuro-ototoxicidade ainda no foram estabelecidos (28). O mercrio um metal lquido txico em temperatura e presses usuais, utilizado muitos anos antes de Cristo, para extrao de ouro.

A alta toxicidade decorre de suas vrias formas qumicas (metlica, inica e compostos orgnicos), elevada volatilidade e solubilidade em gua e lquidos, o que facilita a transposio atravs dos alvolos pulmonares e da barreira hemato-enceflica (29). Atualmente o mercrio (Hg) utilizado em metalurgia, produo de chapus de feltro, equipamentos mdicos e ambientais, indstria qumica e nuclear, refinarias de petrleo, indstria de papel e de clorolcalis.

Tambm tem sido usado em amlgamas na odontologia. No Brasil, com a industrializao, o uso do metal difundiu-se e foram detectadas situaes com elevadas concentraes de Hg nos locais de trabalho, como no garimpo na regio da Amaznia e em guas e organismos aquticos, no litoral Sudeste. Entre os ambientes de trabalho que podem ser classificados como altamente perigosos destacam-se a produo de ouro em garimpos.

Este processo produtivo causa a exposio direta dos trabalhadores ao mercrio metlico nos ambientes de trabalho e a exposio indireta de populaes que estejam prximas s reas garimpeiras. O mercrio metlico pode sofrer processo de metilao em sedimentos dos rios, contaminando os peixes e causando um perigo potencial de exposio ao metil-mercrio para toda a populao (30). O hidrargirismo ou mercurialismo metlico crnico ocupacional (MMCO) manifesta-se de forma aguda ou crnica aps exposio intensa ou prolongada a vapores de Hg no processo de trabalho (29). Apesar de menos pronunciada do que as alteraes causadas pelo chumbo, alteraes significativas no ABR tm sido observadas em casos de exposio ocupacional ao mercrio (18). Na dcada de 50, uma grave desordem neurolgica foi primeiramente reconhecida entre pessoas que viviam nas vizinhanas de Minamata, Japo.

Na ocasio, mercrio em sua forma orgnica (metilmercrio) foi lanado ao mar por uma indstria qumica japonesa. A contaminao da fauna da baa de Minamata foi a causa direta da intoxicao humana, j que as comunidades vizinhas tinham como principal dieta, peixes e frutos do mar.

Os habitantes contaminados desenvolveram um distrbio neurolgico que se tornou conhecido como doena de Minamata. Mais de 80% dos pacientes portadores de Doena de Minamata apresentavam perda auditiva (31). Estudos em animais revelaram perda de clulas ciliadas externas na espira mdia da cclea.

Em humanos, em estgios iniciais e mdios da intoxicao pelo mercrio pode haver leso coclear comprometendo a regio apical da cclea, enquanto em estgios mais avanados a perda auditiva provavelmente resulta de leso neurolgica (5). Em casos srios de intoxicao pelo mercrio, a perda auditiva pode ser profunda (18). SHLOMO et al (32) avaliaram trabalhadores assintomticos expostos a mercrio e compostos organoclorados como tricloroetileno, percloroetileno e tricloroetano, expostos a nveis de exposio considerados seguros, com tempo de exposio mdia de 15 anos. Foram avaliados atravs da pesquisa dos potenciais evocados auditivos de tronco enceflico (ABR).

Verificaram prolongamento anormal do intervalo interpicos I-III, sugerindo comprometimento das vias auditivas centrais. O objetivo era verificar a utilidade do ABR em detectar efeitos subclnicos do mercrio e de organoclorados no sistema nervoso central de trabalhadores assintomticos, expostos a nveis seguros, ou seja, abaixo dos limites de exposio permitidos. Foram descritos 3 casos clnicos de trabalhadores expostos ao mercrio e os autores concluem que a leso auditiva e vestibular j se encontrava instalada, mesmo que os nveis biolgicos do metal no tivessem atingido valores significativos de intoxicao.

Nestes casos, o exame clnico neurolgico encontrava-se normal, com ausncia dos sintomas e sinais clssicos do hidrargirismo, tais como tremores. Concluram que o comprometimento da audio e equilbrio aconteceria de forma precoce, numa fase subcl nica, na qual os parmetros biolgicos no so considerados crticos (33).

DISCUSSO

No Brasil, a caracterizao das condies de seguran a e sade no trabalho tem sido realizada pelo Minist rio do Trabalho atravs das Normas Regulamentadoras. De acordo com estas normas, existem agentes fsicos (rudo, vibraes, presses anormais, temperaturas extremas, radiaes ionizantes, radiaes no ionizantes, infrasom e ultra-som), qumicos e biolgicos (bactrias, fungos, vrus etc.) no ambiente de trabalho, capazes de provocar danos integridade fsica dos trabalhadores e passveis de produzir condies insalubres ou perigosas no trabalho (NR- 9) (34). A NR-15 (34) regulamenta as Atividades e opera- es insalubres.

A exposio ao rudo considerada inadequada se ocorrer em nveis acima dos limites de tolerncia prescritos na prpria norma. O Anexo I da NR- 15 estabelece os Limites de Tolerncia (LT) para rudos contnuos ou intermitentes e o Anexo II estabelece o limite de tolerncia para rudos de impacto. Entretanto, no Brasil, a legislao trabalhista espec- fica no recomenda a realizao de audiogramas peridicos em trabalhadores expostos a produtos qumicos, exceto para aqueles trabalhadores expostos ao rudo, listados nos anexos I e II da NR-15. O Decreto 3080 (35), do Ministrio da Previdncia Social permite, apenas, que se reconhea o nexo causal em caso de exposio a alguns solventes.

patente a necessidade de estudos voltados ao tema na realidade brasileira. Em seu Guia da Conservao Auditiva de 1998 (36), o Exrcito Americano instituiu uma srie de modificaes relacionadas preveno das perdas auditivas. Dentre elas pode-se citar que exposies qumicas deveriam ser consideradas. O novo padro estabelecido pelo GCA determina que trabalhadores expostos a certos qumicos (cianido, n-hexano, estireno, tricloroetileno, tolueno, entre outros) deveriam ser includos no Programa de Conservao Auditiva, independentemente do nvel de presso sonora ao qual estivessem expostos. Instituies de pesquisa como o NIOSH (National Institute of Occupational Safety and Health) e ACGIH (American Conference of Governmental Industrial Hygienists) desde 1998 tambm recomendavam que audiogramas fossem realizados em trabalhadores expostos a certos produtos qumicos (37,38). Mais recentemente, em fevereiro de 2003, o Parlamento Europeu publicou a nova diretriz relacionada ao rudo, exigindo que os empregadores valorizem os efeitos na sade e segurana dos trabalhadores que sejam resultantes de interaes entre rudo e substncias ototxicas.

Esta diretriz deixa implcito que os programas de preveno de perdas auditivas devero ser modificados para atender as necessidades dos trabalhadores expostos a riscos qumicos (39). A falta de guias ou padres para exposies combinadas a rudos e produtos qumicos em relao perda auditiva impe estudos adicionais.

Para isso, criouse na Europa a NoiseChem, que uma comisso europ ia voltada ao estudo dos efeitos de solventes e rudos no sistema auditivo e vestibular.

Esta comisso conta com colaboradores de diversos pases Europeus e com os EUA (8).

COMENTRIOS FINAIS

Novas pesquisas so necessrias para que se possa melhor conhecer efeitos conjuntos de rudo e produtos qumicos sobre a audio, almejando inclusive o alcance de padronizaes de maior segurana.

Neste sentido, as interaes devem ser consideradas, pois o controle da exposio tanto ambiental quanto ocupacional tem sido realizado considerando-se a toxicidade isolada de cada agente.

Maior compreenso dos efeitos das exposies combinadas necessria para desenvolver estratgias de preveno mais efetivas em relao perda auditiva. Em geral, estudos sobre perdas auditivas ocupacionais tm se baseado na audiometria tonal e simples aferio dos limiares tonais, como forma de estimar os efeitos do rudo sobre a funo auditiva.

Para investigao dos efeitos das exposies combinadas, esta tpica abordagem parece no ser suficiente, nem adequada (12). No caso brasileiro, de acordo com a NR-15, 85 dB o limite de tolerncia para rudo. Ser este valor seguro para exposies combinadas a rudo e produtos qumicos, ou ainda, somente para produto qumico em relao perda auditiva?

Como se pode garantir a segurana em ambientes contendo mltiplos agentes? Sob estes pontos de vista, a legislao parece inadequada. Outro dado que merece ateno que o nico teste exigido pela Organizao para Economia Coopera- o e Desenvolvimento (OECD) para teste de toxicidade na bateria de observao funcional a avaliao qualitativa do reflexo de startle aps clique de 115 dBNPS (Nvel de Presso Sonora).

Este teste no suficientemente sensvel para detectar perda auditiva induzida por qumicos, o que refora a necessidade de reviso destas recomendaes (40). Produtos neurotxicos podem levar a problemas to ou mais srios do que a perda auditiva.

Porm h evidncias de que a perda auditiva possa ser uma manifesta o precoce de intoxicao. Cabe lembrar que um composto neuro-ototxico pode lesar no s o componente perifrico da audio, mas tambm o componente central. Portanto, o conhecimento de que esses produtos qumicos podem afetar a audio seria mais um argumento para fortalecer a luta pela melhoria das condies de trabalho, o que deveria ser o objetivo maior de quem trabalha nesta rea.

Compreender os efeitos mltiplos sobre a audio pode representar uma mudana no paradigma da conservao auditiva, retirando o foco quase exclusivo que tem sido dado ao rudo.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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