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Ano: 2004  Vol. 8   Num. 4  - Out/Dez Print:
Original Article
Perfil Audiomtrico de Trabalhadores Agrcolas
Audiometric Findings of Agricultural Workers
Author(s):
Christiane Werlang Manjabosco*, Thas Catalani Morata**, Jair Mendes Marques***.
Palavras-chave:
perda auditiva, trabalhador agrcola, zumbido.
Resumo:

Introduo: Os trabalhadores agrcolas esto expostos a agentes nocivos a sade, sendo possveis candidatos a apresentar danos auditivos. Objetivo: Descrever o perfil audiomtrico do trabalhador agrcola para verificar a influncia deste trabalho sobre a audio do trabalhador. Mtodos: Foram realizados questionrios e exames audiomtricos em indivduos do sexo masculino, subdivididos em dois grupos pareados por idade: Grupo 1, com 42 sujeitos que trabalham em uma empresa agrcola, expostos a rudos de mquinas associado ou no ao contato direto e/ou indireto com agrotxicos; Grupo 2, com 42 que atuam em atividades diversas, sem exposio a agentes externos nocivos audio e sem histria prvia de perda auditiva. Resultados: No Grupo 1, 60% (25) dos trabalhadores agrcolas apresentam limiares auditivos alterados. Destes, 23 foram sugestivos de perdas auditivas ocupacionais, incluindo as perdas auditivas induzidas pelo rudo e por ototxicos (17% expostos somente a rudo e 83% a rudo e agrotxicos). O zumbido freqente esteve presente em 57%(13) dos casos. Dos 19 sujeitos que possuem contato com agrotxicos, 42%(8) j tiveram intoxicao por esses agentes. No Grupo 2, apenas 7%(3) sujeitos apresentaram limiares alterados. Foi verificado que os limiares auditivos mdios dos dois grupos de trabalhadores diferem estatisticamente nas freqncias de 3 a 8 kHz, sugerindo uma associao entre o trabalho agrcola e a ocorrncia de perdas auditivas. Concluso: Os resultados sugerem a necessidade de implantar programas preventivos para o controle e a conserva o da audio em indivduos expostos a rudo e agrotxicos no trabalho agrcola.

INTRODUO

O trabalhador agrcola est exposto a vrios agentes nocivos sade, incluindo rudos de vrios tipos, vibraes e produtos qumicos especficos, como agrotxicos. A ao destes agentes pode ser simultnea, favorecendo o comprometimento da audio. O indivduo que trabalha em indstrias com rudo intenso tem um acompanhamento peridico no que diz respeito sade e principalmente audio, fornecendo informaes sobre o problema. J os trabalhadores agrcolas que esto expostos diariamente a rudo e em contato com vrios tipos de agrotxicos, no tm o mesmo acompanhamento.

Como conhecemos a influncia destes fatores na audio, possvel que esses indivduos sejam candidatos a apresentarem danos auditivos por estarem expostos a fatores de risco para a sade auditiva. Os estudos sobre as perdas auditivas de trabalhadores tm sido mais voltados para os riscos de exposio a rudo, onde a literatura apresenta inmeros estudos bem consolidados (1-4). Porm, existem outros fatores de risco para a sade auditiva que tm sido observados com freqncia nos ambientes de trabalho, como a exposio a produtos qumicos de efeito ototxico (4-19).

Os problemas de sade advindos das mais diversas atividades ocupacionais acometem milhares de trabalhadores, os quais esto diariamente expostos a estes agentes patol- gicos.

Uma das ameaas mais srias tem sido aquela oriunda dos agrotxicos na atividade agrcola (20). Os produtos neurotxicos podem causar problemas srios, inclusive a perda de audio. Este dado muito importante, pois h evidncias de que a perda auditiva possa ser uma manifestao precoce de intoxicao. Alm disso, o produto neurotxico pode lesar no somente o componente perifrico da audio, mas tambm o componente central. Por isso, so necessrias novas pesquisas para conhecer melhor os efeitos associados do rudo e dos produtos qumicos sobre a audio, priorizando padroniza- es de maior segurana. Compreender melhor os efeitos das exposies combinadas pode auxiliar no desenvolvimento de estratgias de preveno mais efetivas em relao perda auditiva (19). So poucos os estudos que relatam a associao entre exposio a agrotxicos e alteraes auditivas, mas todos concordam com esta associao.

Algumas das publica es relatam estudos desenvolvidos no Brasil (13-16). Em estudos com trabalhadores expostos a agrotxicos do tipo organofosforado, verificaram alta incid ncia de neuropatias perifricas e tambm a presena de perdas auditivas do tipo neurossensorial de grau leve a moderado (21). Um caso de perda auditiva aps intoxicao aguda a dois tipos de organofosforados foi constatado por HARELL et al. (22). Oito ou nove horas aps a exposio, o sujeito apresentou viso turva e episdios graduais de nusea. No quarto dia aps a exposio, referiu perda auditiva e tontura, sendo constatada perda auditiva bilateral profunda. Um caso de perda auditiva sbita nas freqncias agudas bilaterais foi observado aps a exposio aguda a um tipo de piretride de uso domstico.

A perda auditiva regrediu depois da desintoxicao mediante medicao (23). Realizou-se um estudo com um grupo de agricultores em Nova York, onde foi observado perda auditiva perifrica associada exposio a plantaes pulverizadas com inseticidas dos tipos piretride e organofosforado (24). Em outro estudo, realizado tambm com trabalhadores rurais, com idades entre 15 a 59 anos, expostos a agrotxicos do tipo organofosforado e piretride, e sem exposio a rudo.

Constatou-se que 57% apresentaram perda auditiva neurossensorial nas freqncias altas (13). Em pesquisas mais recentes, atravs de um grupo de trabalhadores expostos a inseticidas do tipo organofosforado e piretride alm de rudo, foram constatadas que as exposies crnicas a estes inseticidas afetam o sistema auditivo nos nveis perifrico e central, independentemente das exposies concomitante a ru- do (14, 15). Tambm foi investigado a audio de 98 trabalhadores com idade mdia de 41 anos, submetidos exposio crnica aos inseticidas organofosforados e piretrides com um tempo mnimo de trs anos. Estes sujeitos foram divididos em dois grupos: um grupo (n=47) sem exposio atual ou pregressa a rudo e o outro (n=51) com exposio a rudo na vida atual ou pregressa.

Constatou-se que 64% e 67% apresentaram alterao na audiometria tonal, respectivamente. Concluiu-se que a exposio isolada aos inseticidas dos tipos organofosforados e piretrides causa dano auditivo perifrico e o rudo um fator que interage com os inseticidas, potencializando seus efeitos ototxicos (16). Dessa maneira, o presente trabalho tem por objetivo fazer uma descrio do perfil audiomtrico do trabalhador agrcola para verificar a influncia deste tipo de trabalho sobre a audio e discutir a necessidade de programas preventivos destinados a essa populao.

MATERIAL E MTODO

Caracterizao da populao do estudo

O estudo foi realizado na cidade Cruz Alta / RS e a populao foi constituda de indivduos do sexo masculino. A populao foi subdividida em dois grupos: Grupo 1 (grupo exposto): composto por 42 sujeitos que trabalham no ramo da agricultura, com idade mdia de 38 anos, sendo a mnima de 19 anos e a mxima de 62 anos (desvio padro de 11,5 anos). Eles apresentam tempo mdio de 15 anos de trabalho na agricultura, sendo o mnimo de 1 ano e o mximo de 40 anos (desvio padro de 12 anos).

Todos os sujeitos trabalham em torno de oito horas dirias numa empresa agrcola situada na cidade de Cruz Alta, RS e dividem-se de acordo com as seguintes funes: 34 so considerados Trabalhadores Agrcolas Polivalentes, 5 so Motoristas e 3 so Mecnicos. A lavoura fica situada na zona rural da cidade de Cruz Alta, onde ocorre o cultivo das sementes (soja, milho e trigo).

O armazm, que fica localizado na zona urbana, tem a funo de preparar e armazenar estas sementes cultivadas. A oficina mecnica fica localizada junto sede da lavoura, tambm na zona rural de Cruz Alta. O Grfico 1 mostra a distribuio dos trabalhadores segundo local de trabalho e o Grfico 2, o grau de escolaridade dos trabalhadores agrcolas. Grupo 2 (grupo controle): constitui-se tambm de 42 sujeitos no expostos a agentes externos nocivos audio e sem histria prvia de perda auditiva. Estes indivduos apresentam idade mdia de 38 anos, sendo a mnima de 19 e a mxima de 60 anos (desvio padro de 11,2 anos).

Este grupo composto por indivduos que atuam em vrias atividades, como: medicina, advocacia, comrcio, contabilidade, vigilncia, secretaria, estudante entre outros. Em ambos os grupos, foram excludos os indivduos que apresentaram perda auditiva condutiva e perda auditiva mista. Os dois grupos foram pareados de acordo com a idade.

Instrumentos e procedimentos

Entrevista

Grupo 1 (grupo exposto): inicialmente foi elaborado um questionrio piloto para avaliar a adequao e compreenso das perguntas. Este questionrio foi aplicado a um grupo de dez sujeitos que trabalham na empresa agrcola citada anteriormente.

Aps a realizao de algumas modificaes, o questionrio em seu formato final foi aplicado ao grupo de 42 indivduos que compuseram este grupo. Grupo 2 (grupo controle): 25 sujeitos foram avaliados no consultrio da autora, localizado na cidade de Cruz Alta/RS, que atravs de perguntas especficas relacionadas audio, pde constatar a exposio ou no destes sujeitos a agentes nocivos audio no ambiente de trabalho.

Os demais 17 sujeitos deste grupo foram avaliados no Laboratrio de Audiologia da Universidade Tuiuti do Paran, situada na cidade de Curitiba / PR, por estudantes da ps-graduao que utilizaram um questionrio para a investigao da exposio a agentes nocivos audio no ambiente do trabalho. Os dois grupos de participantes foram questionados quanto exposio de rudo fora do ambiente de trabalho ou em atividades de lazer (como tiro ao alvo, caa, conjunto musical, etc). Nenhum dos participantes do grupo 2 relatou estar exposto de forma consistente a rudo excessivo no ambiente de trabalho ou fora dele. Testagem Auditiva Grupo 1 (grupo exposto):

a testagem auditiva foi feita pela autora, em cabine acstica, atravs da utilizao do audimetro GSI 68, com as datas de calibrao acstica em setembro de 2002 e setembro de 2003.

A avaliao audiolgica destes trabalhadores foi realizada aps o perodo mnimo de quatorze horas de intervalo aps a sada do trabalho (repouso auditivo). Grupo 2 (grupo controle):

como j foi mencionada anteriormente, uma parte desse grupo foi avaliada no Laboratrio de Audiologia da Universidade Tuiuti do Paran, por estudantes da ps-graduao, em cabine acstica e atravs da utilizao do audimetro AC-40 com as datas de calibrao acstica em maro de 2002 e maro de 2003. Os demais participantes do grupo 2 foram avaliados pela autora na cidade de Cruz Alta, exatamente como foi avaliado o grupo 1.

Os dois audimetros utilizados na coleta de dados foram calibrados segundo a mesma norma e procedimento. Os dois grupos de participantes foram submetidos ao exame de audiometria tonal por via area nas freqncias de 500, 1.000, 2.000, 3.000, 4.000, 6.000 e 8.000 Hz. Foi testada via ssea somente naqueles indivduos que apresentaram limiares auditivos acima de 25dBNA, nas freqncias de 500, 1.000, 2.000, 3.000 e 4.000Hz. Avaliao de Exposies Ototraumticas Os nveis de presso sonora das mquinas geradoras de rudo a que os trabalhadores agrcolas esto expostos foram medidos atravs de um decibelmetro da marca Instrutherm DEC- 405 Sound Level Meter-0130841 por um tcnico de segurana do trabalho.

As medies foram feitas junto ao ouvido do indivduo, para que os valores obtidos fossem prximos aos nveis de rudo que chega ao ouvido do trabalhador.

No foi possvel realizar medies das exposies a agrotxicos dos trabalhadores, mas atravs do questionrio obtivemos descries de seu uso. RESULTADOS Os nveis de presso sonora das mquinas geradoras de rudo encontradas constam na Tabela 1. Resultados do Questionrio Descrio das Exposies dos Trabalhadores Agrcolas Todos os sujeitos deste grupo trabalham expostos a mais de um tipo de rudo, como os rudos de mquinas do armazm, mquinas e implementos agrcolas, caminho e mquinas da oficina (como lixadeira, solda eltrica, esmeril). O Grfico 3 mostra estes tipos de rudo a que os trabalhadores esto expostos. Os Trabalhadores Agrcolas Polivalentes

que trabalham na lavoura esto expostos a rudo de mquinas e implementos agrcolas apenas trs meses por ano (abril, outubro e novembro), nas chamadas pocas de safra, quando ocorre o plantio e a colheita das sementes cultivadas, trabalhando de 12 a 15 horas por dia. J os sujeitos que trabalham no armazm esto expostos diariamente a rudo das mquinas do local (mquina moedor de gros e mquina pr-limpeza), pois estas esto sempre operando, com aumento no nmero de mquinas e de horas em funcionamento nas pocas de safra, para a preparao das sementes cultivadas.

Por isso, a maioria dos trabalhadores faz horas extras nestas pocas, trabalhando de 12 a 15 horas por dia. Os motoristas esto expostos diariamente a rudo do caminho e os mecnicos a rudo das mquinas da oficina (esmeril, lixadeira, solda eltrica) e tambm a rudo de caminho, mquinas e implementos agrcolas. Dos 42 trabalhadores expostos a rudo, 19% (8) esto expostos diariamente por oito horas, 55% (23) esto expostos trs meses por ano (abril, outubro e novembro) em torno de dez a doze horas dirias e 26% (11) esto expostos diariamente por oito horas, incluindo horas extras nas pocas de safra.

importante observar que 100% deles trabalham expostos a rudo e que 88% possuem contato indireto e/ou direto com agrotxicos (apenas os 5 motoristas (12%) no tm este contato). O contato direto ocorre quando os trabalhadores preparam o agrotxico que ser utilizado para aplicao na lavoura com avio agrcola ou atravs do pulverizador.

Esta aplicao ocorre normalmente nos meses de setembro, janeiro e fevereiro, no coincidindo com o perodo em que a maior exposio a rudo ocorre. Tambm ocorre contato direto quando o agrotxico utilizado para a preparao da semente de trigo. Este procedimento chamado de expurgo e feito uma vez por ms no armazm, pelos sujeitos que trabalham no local. O contato indireto com agrotxicos ocorre sempre, pois todos os sujeitos esto em contato com o local onde feita a aplicao do agrotxico, seja dentro do armazm ou na lavoura, onde se encontram resduos destes agentes txicos. Os tipos de agrotxicos usados pelos trabalhadores desta empresa agrcola e sua classificao encontram-se no Anexo 1. Verificou-se que todos os indivduos que apresentam contato indireto com agrotxicos correspondem a 88% (37) da populao pesquisada. Os 12% (5) restantes no possuem contato indireto. Aqueles que tm contato direto com agrotxicos correspondente a 79% (33) dos sujeitos avaliados, tambm possuem contato indireto.

Destes, 33% (11) tm contato uma vez por ms e 67% (22) possuem contato direto trs meses por ano. Constatou-se que dos 37 trabalhadores que apresentam contato com agrotxicos, 30% (11) j tiveram intoxicao por agrotxicos e 70% (26) nunca tiveram. Os trabalhadores agrcolas tambm foram questionados quanto ao uso de equipamentos de proteo individual e medidas preventivas. A Tabela 2 mostra os tipos de equipamentos de proteo individual e medidas preventivas mais utilizadas, relatadas por este grupo de trabalhadores. Queixas Relacionadas Audio As queixas auditivas apresentadas pelos trabalhadores agrcolas aps a jornada de trabalho esto descritas abaixo na Tabela 3.

Resultados dos Exames Audiomtricos

As mdias dos limiares auditivos encontradas nostrabalhadores agrcolas encontram-se no Grfico 4. Dos 42 sujeitos avaliados, 40%(17) apresentam audio normal (limiares < 25dBNA) e 60% (25) apresentam limiares auditivos rebaixados. Destes, 92% (23) apresentam alterao neurossensorial bilateral e 8% (2) unilateral. A maioria dos trabalhadores com alterao nos limiares auditivos apresentam rebaixamento na faixa de freqncias altas. Vinte e trs (92%) dos 25 exames auditivos alterados indicaram rebaixamento nas freqncias de 3.000 a 6.000 Hz. Vinte e duas (88%) das audiometrias tambm se mostraram alteradas nas freqncias de 1.000 e 2.000 Hz (5-20%) e 8.000 Hz (17-68%).

O grau de perda auditiva nestas freqncias variou de leve at severo. Em resumo, das 25 audiometrias com alterao nos limiares auditivos, 16% (4) esto expostos somente a rudo e 84% (21) esto expostos a rudo e agrotxicos. Desses 21 exames, 14% (3) possuem contato indireto com agrotxicos e 86% (18) contato indireto e direto. Dos 37 trabalhadores que apresentam contato com agrotxicos, 30% (11) j tiveram intoxicao por estes agentes.

Destes, 8 (73%) apresentam perdas auditivas nas altas freqncias. Em relao queixa de zumbido, 52% (13) dos sujeitos relataram esta queixa e 48% (12) no relataram. No total dos exames com alterao nos limiares auditivos, 23 foram considerados casos sugestivos de perdas auditivas ocupacionais.

Duas audiometrias foram excludas por apresentarem perdas auditivas unilaterais, o que no corresponde ao risco oferecido pelas condies de trabalho destes sujeitos, segundo a literatura. Destes dois sujeitos, um tem 31 anos e trabalha na oficina mecnica e o outro tem 50 anos e trabalha na lavoura. Nesses 23 exames, podem estar refletidos os efeitos da exposio a rudo (alterao na faixa de 3.000 a 6.000 Hz) e tambm por ototxicos (alterao nas freqncias de 3.000 a 8.000 Hz). A Tabela 4 mostra os sujeitos com perdas auditivas ocupacionais, de acordo com os anos de trabalho na agricultura. Dentre esses 23 exames, 17% (4) esto expostos somente a rudo, enquanto 83% (19) esto expostos a rudo e agrotxicos. Das 19 audiometrias de trabalhadores expostos a agrotxicos com alterao auditiva, 11% (2) possuem contato somente indireto e 89% (17) contato direto e indireto com estes agentes. Ainda de acordo com os 19 exames citados anteriormente, 42% (8) j tiveram intoxicao por agrotxicos e 58% (11) no tiveram.

Desses 8 que j tiveram intoxica- o, todos apresentam perda de audio. Dos 23 exames sugestivos de perdas auditivas ocupacionais, 57% (13) apresentam queixa de zumbido freqente e 43% (10) no apresentam esta queixa. Dos 42 exames auditivos realizados no grupo controle, 39 (93%) apresentam limiares auditivos normais e somente 3 (7%) apresentam limiares auditivos alterados. Destes, 2 apresentam alterao unilateral e 1 bilateral (idades respectivas de 45, 56 e 60 anos). As mdias dos limiares auditivos encontradas nos participantes que no trabalham na agricultura encontram-se no Grfico 5. O teste de Mann-Whitney foi usado na comparao dos limiares auditivos dos grupos I (expostos) e grupo II (controle).

Os Grficos 6 e 7 mostram as mdias dos limiares auditivos apresentados na orelha direita e orelha esquerda de ambos os grupos pesquisados. Os limiares auditivos das freqncias de 500 a 2.000 Hz, que normalmente no so afetadas pelas exposies estudadas, no so estatisticamente diferentes entre os grupos. Esse dado indica que o grupo controle foi adequadamente selecionado.

J na faixa de freqncias susceptveis aos efeitos do rudo e de vrios produtos ototxicos, os limiares se apresentaram estatisticamente diferentes.













DISCUSSO

As diferenas observadas na prevalncia de altera- es audiomtricas e nos limiares mdios entre trabalhadores agrcolas e a populao em geral, sugerem um risco sade auditiva advindo das condies de trabalho desta populao. Um rudo intenso durante um tempo de exposio suficiente para causar um dano auditivo no provocar perda auditiva se a orelha estiver adequadamente protegida (25).

Quanto ao uso de equipamento de proteo individual (EPI) pelos trabalhadores agrcolas que apresentam perda auditiva ocupacional, observou-se que uma parte significativa deles (61%) utilizam mscaras. Segundo a NR-6, a empresa obrigada a fornecer os EPIs necessrios de acordo com as exposies observadas no ambiente de trabalho. No caso desta empresa agrcola de Cruz Alta / RS, onde h exposio a produtos qumicos, so fornecidos aos funcionrios EPIs como: protetor auricular, mscara, luva, culos, botina e macaco. Entretanto, somente 21% dos trabalhadores referiram usar EPIs sempre durante o trabalho.

Isso pode explicar o fato de grande parte dos trabalhadores apresentarem alteraes auditivas, alm da falta de outros EPIs que deveriam ser fornecidos pela empresa. Na populao estudada, grande parte dos trabalhadores (47%) no usa protetores auriculares. Por outro lado, verificou-se que 43% destes sujeitos que apresentam perda auditiva ocupacional relataram fazer uso de protetor auricular durante a jornada de trabalho.

Dessa maneira, pode-se levantar a hiptese de que o protetor utilizado na empresa no adequado para o nvel de presso sonora a que estes sujeitos esto expostos, ou que o uso deste equipamento no est sendo feito de maneira correta. Dos trabalhadores expostos a rudo e que tamb m possuem contato indireto e/ou indireto com agrotxicos, 23 (60%) apresentaram perda auditiva nas altas freqncias. Este dado vai ao encontro de pesquisas realizadas (13-16,21-24).

Pelo imenso nmero de agrotxicos usado na agricultura e pela falta de um sistema de vigilncia sanitria que acompanhe a audio dos trabalhadores de forma peridica, fica difcil prever que tipo de agrotxico pode causar dano auditivo no indivduo.

De acordo com a literatura, sabe-se que grande parte destes produtos so neurotxicos, podendo afetar diferentes pores do sistema nervoso central e perifrico (13-16,21-24). Dos 37 trabalhadores que apresentam contato com agrotxicos, 30% (11) j tiveram intoxicao por esses agentes.

A ocorrncia de perdas auditivas nas altas freq ncias muito mais elevada (73%) entre os trabalhadores que j tiveram intoxicao, do que nos demais trabalhadores expostos (54,8%).

Este dado refora a relao entre alterao auditiva e exposio a agrotxicos, embora no se possa saber o grau de intensidade e as combina es qumicas a que estes indivduos estavam expostos. Em relao s queixas auditivas citadas por esse grupo de trabalhadores agrcolas, verifica-se que a maioria (78%) dos 23 sujeitos com perda auditiva ocupacional apresentam queixas auditivas aps a jornada de trabalho, como zumbido, tontura, sensao de ouvido tapado e dificuldade para ouvir. Isso sugere a associao entre ocorrncia de alteraes auditivas e freqncia de queixas relacionadas audio. A queixa auditiva mais citada pelos trabalhadores com alterao auditiva foi o zumbido, em 57% dos casos. O grupo de trabalhadores agrcolas avaliados apresentam idade mdia de 38 anos, em plena atividade produtiva. A maior parte (68%) desses sujeitos que apresentam alterao auditiva tm idades de 20 a 50 anos. Os participantes dos dois grupos estudados foram pareados por idade, justamente para o controle desta varivel. Os dados estatsticos obtidos atravs do teste de Mann-Whitney para comparao dos limiares auditivos dos grupos I (expostos) e grupo II (controle) indicam que os limiares nas freqncias de 3.000 a 8.000 Hz so estatisticamente diferentes.

De acordo com JERGER e JERGER (1989) e KS e KS (1998), a faixa de freqncias afetadas no caso da exposio a rudo est entre 3.000 e 6.000 Hz.

Pela literatura sabe-se que as exposies a esses agentes ototxicos causam alteraes auditivas na faixa de freqncias, que vo de 3.000 a 8.000 Hz (9, 18), o que foi observado no grupo de trabalhadores avaliados.

Isso nos sugere que, alm do efeito do rudo, e pelo fato da freqncia de 8.000 ser estatisticamente diferente entre os grupos, existiu uma ao do agente ototxico na audio dos trabalhadores agrcolas. Excludas as variveis de histria mdica que indicavam patologias auditivas e o fator idade, constatou-se que o fator ocupacional no caso dos trabalhadores agrcolas assume grande importncia para explicar a diferena entre os dois grupos.

Como os grupos so pequenos e no h detalhes de sua exposio a agrotxicos, nem resultados auditivos centrais, no se pode avaliar qual foi contribui- o de cada agente (rudo ou agrotxico) nos achados audiomtricos dos indivduos avaliados. Mas, de qualquer forma fica esclarecido que a atividade profissional destes trabalhadores oferece um risco audio.

Atividades Preventivas e o Trabalhador Agrcola

A partir deste estudo, pode-se verificar que a audio dos trabalhadores que atuam no ramo de atividade agrcola pior do que a populao em geral.

A presena de fatores de risco audio indica a necessidade da realizao de programas preventivos nesta rea. O risco no trabalho com agrotxicos est associado basicamente ao seu manuseio e aplicao, por isso a descontaminao das roupas impregnadas com estes agentes muito difcil, permanecendo o acmulo da substncia qumica.

Nesse caso, a pele permanece em constante contato com os agentes, o que facilita sua absoro drmica (26). Por esse motivo, importante salientar, que seria indicado que o trabalhador exposto a agrotxicos tivesse um local adequado para alimentar-se, trocar, guardar e lavar as roupas de trabalho, e tambm orientaes quanto ao hbito de lavar as mos e a face antes de beber, comer ou fumar. Infelizmente, isso no ocorre na empresa agrcola estudada (14). As nicas medidas preventivas tomadas por alguns trabalhadores so: higiene das mos, banho e troca de roupa, em porcentagens no significativas. Uma das alternativas para a preveno de perdas auditivas so os chamados Programas de Conservao Auditiva (PCA) ou Programas para Preveno de Perdas Auditivas, que consistem em um conjunto de aes com o objetivo de minimizar as exposies a agentes de risco, evitando assim o desencadeamento ou agravamento de perdas auditivas relacionadas ao trabalho. Nos Estados Unidos, foi publicado um Guia Prtico para Preveno de Perdas Auditivas Ocupacionais, apresentando uma nova concepo para a implantao de programas que tenham como objetivo evitar a ocorrncia de perdas auditivas em trabalhadores, e no simplesmente o cumprimento das leis.

Assim, o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) prope a utiliza- o do termo Programa de Preveno de Perdas Auditivas (PPPA) em detrimento de Programa de Conservao Auditiva (PCA), pois o PPPA alm de incorporar todos os itens do PCA, inclui algumas etapas e estratgias que enfatizam a preveno. Internacionalmente, no se exige que populaes expostas a nveis de rudo abaixo de 85 dBA faam parte de programas para preveno de perdas auditivas (25).

No entanto, institutos de pesquisa como o NIOSH (1998) e a American Conference of Governmenatl Industrial Hygienists (ACGIH, 1998) recomendam que os indivduos expostos a produtos qumicos ototxicos sejam includos em programas para preveno de perdas auditivas, independente da exposio a rudo. Segundo Portaria 19 de 9 de abril de 1998 e o disposto na Norma Regulamentadora -NR-7:

Programa de Controle Mdico e Sade Ocupacional, necessria a avaliao e acompanhamento da audio dos trabalhadores expostos a nveis de presso sonora elevados.

O artigo 13 da Consolidao das Leis do Trabalho (CLT) da Lei N. 5889, de oito de junho de 1973, destaca que nos locais de trabalho rural sero observadas as normas de segurana e higiene de trabalho estabelecidas na Portaria do Ministrio do Trabalho.

Portanto, apontando para exames mdicos obrigatrios tanto para o trabalhador urbano quanto para o agrcola, faz-se obrigatrio exame mdico por conta do empregador, na admisso;

na demisso e periodicamente, e os exames complementares ficam a critrio mdico. Nestes inclui-se o exame audiomtrico, que atualmente est sendo exigido por obrigatoriedade nas empresas industriais.

Estes exames obrigatrios no setor agrcola no vem sendo realizados com periodicidade. A escolha de medidas de controle na reduo dos riscos ambientais nos locais de trabalho, com protetores individuais, segundo a abordagem preventiva da seguran- a do trabalho, deveria ser um dos ltimos recursos a serem utilizados.

No entanto, o que se observa o seu uso como regra pela ausncia de medidas de preveno na fonte de emisso (27). Segundo a Norma Regulamentadora 6, aprovada pela Portaria n 3.214, de 8 de junho de 1978, toda empresa obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI adequado ao risco e em perfeito estado de conservao e funcionamento, sempre que as medidas de proteo coletiva forem tecnicamente inviveis.

Para quem trabalha com produtos qumicos, os EPIs obrigatrios so: para a cabea (como protetor facial, culos e mscara); para membros superiores (como luvas); para membros inferiores (como calados de proteo, imperme veis e resistentes); para o tronco (como jaquetas, capas e outras vestimentas especiais); para corpo inteiro (como aparelhos de isolamento); proteo respiratria (como mscara e respiradores contra poeira).

Para aqueles que trabalham com rudo, onde o nvel de presso sonora ultrapassa o limite estabelecido na NR-15, o uso do protetor auricular obrigatrio para a proteo auditiva do trabalhador. Alguns locais de trabalho agrcola distribuem equipamentos de proteo individual (EPI), porm, na maioria das vezes, os trabalhadores no so orientados quanto ao seu uso nem quanto nocividade dos agentes a que eles esto expostos diariamente.

No entanto, no basta somente fornecer os EPIs necessrios sem um programa educativo. importante salientar informaes a respeito dos produtos qumicos utilizados e, principalmente, seu manuseio seguro, incluindo a importncia do uso de equipamentos de proteo individual. Um dado importante deste estudo que merece ateno o baixo grau de escolaridade dos trabalhadores agrcolas.

Isso dificulta a compreenso destes sujeitos para instrues de uso e informaes que eles possam ter acesso sobre equipamentos de proteo individual e sobre a toxicidade dos agrotxicos.

Este fato deve ser levado em considerao na elaborao de programas educativos. Nossos achados confirmam a necessidade da realiza- o de trabalhos preventivos com trabalhadores agrcolas. Tanto os empregados como os empregadores necessitam ser orientados em relao aos tipos de agentes a que os trabalhadores esto expostos e suas conseqncias. Como difcil encontrar empresas ou empregadores que ofeream esse tipo de programa, rgos pblicos de sade deveriam promover e coordenar uma iniciativa nessa rea.

Assim, toda populao que trabalha no ramo agrcola, principalmente da regio Sul (onde a base econ- mica gira em torno da agricultura), teria acesso a este servio.

CONCLUSES

O fator ocupacional dos trabalhadores da empresa agrcola estudada teve grande impacto nos achados audiomtricos dos indivduos avaliados. Fica evidente a necessidade da realizao de programas preventivos para preveno e controle de perdas auditivas em trabalhadores agrcolas expostos a rudo e agrotxicos, ou seja, Programas de Preveno de Perdas Auditivas (PPPA).

A efetividade do PPPA requer no s medidas de controle a rudo, mas tambm das exposies aos agrotxicos, assim como a participao do trabalhador e do empregador na busca de solues alternativas no processo de trabalho e produo.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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* Mestre em Distrbios da Comunicao pela Universidade Tuiuti do Paran.
** Professora do Curso de Mestrado em Distrbios da Comunicao da Universidade Tuiuti do Paran.
*** Professor do Curso de Mestrado em Distrbios da Comunicao da Universidade Tuiuti do Paran. Trabalho realizado na Universidade Tuiuti do Paran.

Trabalho apresentado no Encontro Internacional de Audiologia em 01 de maio de 2004, em Bauru-SP.
Endereo para correspondncia: Christiane Werlang Manjabosco . Rua Salatiel Soares de Barros, 178 . Cruz Alta / RS . CEP: 98010-340 . Telefone: (55) 3324-4067
/ 9976 8956 Fax: (55) 3322-8161 . E-mail: manjabosco@comnet.com.br
Artigo recebido em 2 de julho de 2004. Artigo aceito em 16 de outubro de 2004.
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