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Ano: 1997  Vol. 1   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Dacriocistite aguda decorrente de sinusite maxilar.
Author(s):
Henry Ugadin Koishi, Adriane Iurck Zonato, Fabiana Arajo Sperandio, Rodrigo Bizeli, Ossamu Butugan, Richard Voegels
Palavras-chave:
INTRODUO

Complicaes de sinusites podem ocorrer em pacientes com doena aguda, subaguda ou crnica. Felizmente, o nvel de complicao baixo; entretanto, a incidncia precisa desconhecida. Complicaes so usualmente loco-regionais ao seio envolvido, manifestando-se como alteraes orbitrias ou como osteomielite e, mais raramente, podendo acometer o sistema nervoso central1.

Apresentamos o caso de um paciente com dacriocistite aguda, secundria a sinusite maxilar e mimetizada pela presena de celulite periorbitria que mascarou as caractersticas clnicas da dacriocistite, ressaltando a dificuldade diagnstica, bem como a importncia desta devido ao tratamento distinto que a dacriocistite requer.

RELATO DE CASO

Paciente masculino, de 62 anos, branco, hgido, apresentou-se ao Servio de Pronto Socorro do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina de So Paulo com histria de edema bipalpebral direito, cefalia holocraniana e obstruo nasal direita h 5 dias, negando febre e rinorria. Ao exame fsico, apresentava-se em bom estado geral, corado, hidratado, normocrdico e normotenso, com edema, hiperemia e calor bipalpebral. A conjuntiva do olho direito estava hiperemiada, no apresentando sada de secreo expresso da regio correspondente ao saco lacrimal. A rinoscopia anterior mostrou desvio septal anterior importante para a direita, discreta hiperemia de mucosa nasal, no sendo visualizada secreo em fossas nasais. Foi realizado Rx simples de seios da face que evidenciou velamento maxilo-etmoidal direita (Fig. 1 e 2), sendo ento levantada a hiptese de sinute maxilo-etmoidal complicada com celulite periorbitria. O paciente foi internado para receber antibioticoterapia intravenosa (penicilina cristalina e cloraranfenicol) e antinflamatrio no hormonal, alm de realizao de tomografia computadorizada de seios da face. Foi submetido puno do seio maxilar direito, com sada de secreo purulenta 12 horas aps o incio da antibioticoterapia, e a cultura, tanto para bactrias, como para fungos foi negativa. A tomografia computadorizada mostrou velamento parcial do seio maxilar direito (Fig. 3), espessamento e realce da regio pr-septal orbitria direita, principalmente em regio medial (Fig. 4), com os demais seios de aspecto normal, inclusive os seios etmoidais (Fig. 5). O paciente evoluiu com diminuio do edema palpebral e localizao do processo inflamatrio no canto interno da rbita direita, abaixo do ligamento cantal, mantendo-se desta forma apesar da antibioticoterapia intravenosa. O tratamento foi mudado para clindamicina intravenosa, tendo o paciente apresentado evoluo satisfatria com posterior drenagem de secreo purulenta na regio do saco lacrimal.


Figura 1 - Radiografia de seios paranasais, incidncia de Waters, mostrando velamento do seio maxilar direito.


Figura 2 - Radiografia de seios paranasais, incidncia de Caldwel, mostrando velamento do seio etmoidal direito.


Figura 3 - CT de seios paranasais, corte coronal, mostrando espessamento mucoso e acmulo de secreo em seio maxilar direito.


Figura 4 - CT de seios paranasais, corte axial, mostrando espessamento e realce da regio pr-septal orbitria, direita.


Figura 5 - CT de seios paranasais, corte axial, mostrando seios etmoidal anterior e posterior juntamente com seio esfenoidal sem comprometimento.


DISCUSSO

A patologia infecciosa dos seios paranasais relativamente freqente, com curso geralmente benigno, sendo que poucos pacientes evoluem apresentando complicaes que envolvam a rbita, sistema nervoso central ou estruturas sseas adjacentes. Chandler classificou as complicaes orbitrias das sinusites agudas em: celulite periorbitria, abscesso periorbitrio, abscesso subperiostal, abscesso orbitrio e trombose de seio cavernoso2. As complicaes orbitrias das sinusites so freqentemente vistas em nosso Servio, porm dacriocistite aguda complicao extremamente rara em nossa experincia.
No caso descrito, o paciente apresentou quadro de celulite periorbitria, suspeitando-se inicialmente tratar-se de complicao de sinusite maxilo-etmoidal vista ao Rx simples dos seios da face. Aps a internao do paciente para antibioticoterapia intravenosa, realizou-se tomografia computadorizada que evidenciou comprometimento dos seio maxilar direito (Fig. 3) e processo inflamatrio das vias lacrimais (Fig. 4), sendo que os seios etmoidais estavam normais (Fig. 5).

Devido aos achados tomogrficos e ao fato de, clinicamente, o paciente ter evoludo com melhora da celulite periorbitria, mas permanecendo com edema localizado em canto interno da rbita direita, associado a sinais flogsticos locais, foi levantada a hiptese de dacriocistite aguda em decorrncia de sinusite maxilar.

A dacriocistite aguda inflamao do saco lacrimal, geralmente decorrente de obstruo das vias de drenagem, causada mais freqentemente por mucocele, clculo ou tumor3. Porm, sabe-se que inflamao da mucosa nasal decorrente de sinusopatia ou rinite pode levar obstruo das vias lacrimais com estase e infeco secundria4. Clinicamente, o paciente vai apresentar-se com dor local e lacrimejamento, alm de edema, eritema e hiperemia conjuntival. No caso descrito, o processo inflamatrio nasal causado pela sinusite maxilar pode ter sido o fator desencadeante do processo em vias lacrimais e, conseqentemente a esta, ter-se desenvolvido celulite periorbitria. Williams e Harrison observaram que a ausncia ou a pouca manifestao de sinais e sintomas de rino-sinusite no excluem a possibilidade de desenvolvimento de complicao sinusal5.

A dacriocistite infreqente como causa de celulite periorbitria6, sendo esta mais freqentemente vista como complicao de sinusite etmoidal, o que dificulta o diagnstico. Na avaliao inicial do paciente, o velamento etmoidal, observado no Rx simples dos seios da face, era resultado do processo inflamatrio das partes moles circunjacentes e no de sinusopatia etmoidal, como mostrou a tomografia computadorizada.

O caso ilustra situao rara, onde a dacriocistite foi conseqncia da sinusite maxilar, sendo importante o diagnstico diferencial, pois a antibioticoterapia deve ser ampliada nestes casos, onde a presena de Staphylococcus epidermidis e Staphylococcus aureus so mais freqentes7.

BIBLIOGRAFIA

1. Bailey, BJ et al. Sinusitis: Current Concepts and Manegement. Head & Neck Surgery - Otolaryngology by Lippincott Company Vol.1:366-376, 1993.

2. Chandler, JR; Langenbrunner, DJ; Stevens, ER. The pathogenesis of orbital complications in acute sinusitis. Laryngoscope 80:1414-28, 1970.

3. Fayet, B; Bernard, JA. Abcs palpbraux et lacrymaux. La Revue Du Praticien 45:461-464, 1995.

4. Goldberg, SH; Fedok, FG; Botek, AA. Acute dacryocystitis secondary to exudative rhinitis. Ophthal Plast Reconst Surg 9(1):51-2, 1993.

5. Williams, BJ; Harrison, HC. Subperiostal abscesses of the orbit due to sinusitis in childhood. Aust NZ Ophthalmol 19:29-36, 1991.

6. Molgat, YM; Hurwitz, JJ. Orbital abscess due to acute dacruocystitis. Can J Ophthalmol 28(4):181-3, 1993.

Coden, DJ; Hornblass, A; Haas, BD. Clinical bacteriology of dacryocystitis in adults. Ophthal Plast Reconst Surg 9(2):125-31, 1993.
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