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Ano: 2005  Vol. 9   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Atividade Coclear Assimtrica: Influncia do SNC?
Asymmetrical Cochlear Activity: A CNS Influence?
Author(s):
Mariana Lopes Fvero*, Tanit Ganz Sanchez**, Ricardo Ferreira Bento**, Andria F. Nascimento***.
Palavras-chave:
Predominncia hemisfrica, emisso otoacstica, destros, sistema auditivo eferente.
Resumo:

Introduo: A predominncia de um hemisfrio cerebral sobre o outro j est bem estabelecida e h indcios que esta predominncia pode ocorrer tambm ao nvel do sistema auditivo perifrico por influncia do trato olivococlear medial. Objetivo: Estudar esta predominncia coclear comparando as EOAPD e a supresso das EOAPD nas orelhas esquerda e direita de indivduos destros. Casustica e Mtodo: Neste estudo de corte transversal, 44 voluntrios destros com audiometria normal e sem zumbido foram submetidos a EOAPD na ausncia e na presena de um rudo branco na orelha contralateral. Comparamos a amplitude das EOAPD e a proporo de supresso destas EOA nas orelhas esquerda e direita dos participantes. Resultados: A orelha direita apresentou amplitudes de EOAPD significativamente maiores nas freqncias de 1000, 1500, 2000 e 3000 que a orelha esquerda e maior proporo de supresso destas EOAPD nas freqncias de 1000, 2000, 3000 e 4000 Hz. Concluso: A atividade coclear direita foi estatisticamente maior na orelha direita do que na esquerda, porm esta predominncia no regular em toda extenso coclear.

INTRODUO

A lateralidade do Sistema Nervoso Central ou a predominncia de um hemisfrio cerebral sobre o outro um tema muito estudado desde que PAUL BROCA (1861) e CARL WERNICKE (1874) descreveram reas dominantes para a linguagem no hemisfrio esquerdo, mas somente com o surgimento dos exames de imagem funcional foi possvel entender melhor este funcionamento assimtrico (1) e estudar se a ausncia desta predominncia pode colaborar com o aparecimento de quadros como dislexia, afasia, esquizofrenia e autismo (2,3).

Por outro lado, determinar clinicamente esta assimetria pode no ser tarefa fcil. Alm dos vrios nveis de intensidade de predominncia hemisfrica, ela pode ser diferente em um mesmo indivduo, para os diversos membros e rgos sensoriais, de tal modo que pode haver lateralidades cruzadas para diferentes rgos e funes. Mais comumente, para se descrever a lateralidade, examina-se a dominncia dos membros superiores, inferiores e do sistema ocular.

No entanto, h evidncias que tambm o sistema auditivo central e perifrico funcionem de forma lateralizada. Maiores amplitudes da onda III na audiometria de tronco cerebral e das emisses otoacsticas transientes (EOAT) na orelha direita (OD) em contrapartida com a maior presena de zumbido e de perda auditiva temporria aps exposio a rudo na orelha esquerda (OE) sugerem, alm de uma assimetria entre as orelhas, que a OE seja mais vulnervel a alteraes auditivas (4-6).

Valores maiores de supresso da amplitude das EOAT na OD com o uso de um rudo na orelha contralateral (4,7) e mudanas nas amplitudes destas emisses durante tarefas de ateno auditiva e visual (8) indicam que o trato olivococlear medial pode estar envolvido na manuteno deste padro assimtrico perifrico e por meio dele, o crtex pode modular o funcionamento coclear.

Diante disto, o objetivo deste trabalho estudar assimetrias do funcionamento coclear comparando-se a amplitude das emisses otoacsticas por produto de distoro (EOAPD) e a amplitude de supresso das EOAPD nas OD e OE de indivduos destros.

CASUSTICA E MTODO

O projeto foi aprovado pela Comisso de tica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (CAPPesq, protocolo no 544/00).

Foi realizado um estudo com 44 indivduos sem queixas auditivas com idade mdia de 46,8 anos (desvio padro = 9,5 anos) sendo 14 (31,8%) indivduos do sexo masculino.

Os critrios de incluso foram:
- indivduos destros segundo a verso resumida do questionrio de EDINBURGH (9);
- ausncia de zumbido;
- audiometria tonal normal bilateralmente (limiares at 25 dBNA nas freqncias de 250 a 8000Hz) e simtrica em todas as freqncias (p > 0,26);
- imitanciometria normal;
- presena de emisses otoacsticas por produto de distoro nas freqncias de 1 a 6kHz;
- cincia da pesquisa, com assinatura do termo de consentimento ps-informao.

Para a medida das EOAPD (2F1-F2), foi utilizado um analisador coclear Celesta 503 (verso 3.xx) (Madsen Electronics, Taastrup, Denmark). As respostas foram analisadas no grfico da freqncia pela amplitude. O estmulo acstico supressor usado foi um rudo branco gerado por um audimetro Maico, modelo MA 32, via fone de ouvido TDH39 e coxim MX 41, na intensidade de 50 dBNA. Com o intuito de evitar manipulao da sonda das EOAPD, o fone foi acoplado na orelha contralateral captao das EOAPD antes do incio do teste. Apesar disto, a sonda da EOA foi sistematicamente testada antes da captao de cada srie.

Foi considerada a razo sinal rudo de 6 dB em cada freqncia ao invs da amplitude total das EOAPD. A captao das EOAPD ocorreu primeiro na ausncia do rudo branco na orelha contralateral e aps, na sua presena.

O clculo do efeito supressor das EOAPD foi feito pela subtrao da razo sinal rudo obtida sem o rudo contralateral do valor da razo sinal rudo com o uso do rudo contralateral, para cada freqncia especfica. Valores positivos indicaram supresso das EOAPD e valores negativos ou zero indicaram no supresso.

Para determinar lateralidade do funcionamento coclear, comparamos os resultados obtidos nas orelhas direita e esquerda dos participantes.

As associaes foram testadas com o teste de qui-quadrado de McNemar (para os valores de supresso) e de t-pareado (para os valores de emisso otoacstica) de acordo com mtodos previamente descritos (10). Consideramos nvel de significncia estatstica p < 0,05.

RESULTADOS

1. Comparao dos valores das EOAPD entre as orelhas esquerda e direita

Os resultados das EOAPD obtidos nas orelhas esquerda e direita dos participantes esto na Tabela 1. As EOAPD foram significativamente maiores na orelha direita nas freqncias de 1000, 1500, 2000 e 3000 Hz. No houve associao entre lateralidade e amplitude de EOAPD nas freqncias de 4000 e 6000 Hz, ou seja, as diferenas entre as orelhas no atingiram o nvel de significncia estatstica. No entanto, vale ressaltar que em 4000 Hz a amplitude das EOAPD foi maior direita (p=0,06) e em 6000 Hz as amplitudes das EOAPD foram muito semelhantes entre si, com um discreto predomnio esquerda (p=0,59).

2. Comparao dos valores de supresso das EOAPD entre as orelhas esquerda e direita

Os resultados da supresso das EOAPD obtidos nas orelhas esquerda e direita dos participantes esto na tabela 2. A supresso foi significativamente maior na orelha direita nas freqncias de 1000, 2000, 3000 e 4000 Hz. No houve associao entre lateralidade e supresso das EOAPD em 1500 Hz e em 6000 Hz, sendo em 1500 Hz a supresso discretamente maior direita (p=0,56) e em 6000 Hz discretamente maior esquerda (p=0,65).





DISCUSSO

O estudo detalhado das EOA e da ao do trato olivococlear medial sobre elas traz dados importantes sobre a atividade coclear. O trato olivococlear medial age sobre os movimentos das clulas ciliadas externas (CCE) provocando uma hiperpolarizao atravs da liberao de acetilcolina na fenda sinptica (11,12). Esta hiperpolarizao ocorre em oposio despolarizao, induzida naturalmente pelos estmulos sonoros e evidenciada pela reduo da amplitude das emisses otoacsticas (EOA) com o uso de uma estimulao acstica na orelha contralateral (13,14). Este reflexo eferente tem a funo, entre outras, de proteger as CCE da estimulao lesiva de rudos intensos.

Os nossos resultados sugerem um predomnio da OD sobre a OE, tanto quando se analisa a amplitude das EOAPD, como a porcentagem de supresso das EOAPD, de acordo com outros estudos usando EOAT (4,7,15) e sugerem que h a manuteno do predomnio hemisfrico ao nvel perifrico por provvel influncia do trato olivococlear medial (16).

Deste modo, teorizamos que uma melhor funo do trato olivococlear medial direita levaria a uma maior proteo das CCE, que geraria EOA maiores e desencadearia reflexos eferentes mais efetivos deste lado, refletindo um equilbrio entre a funo das CCE e do trato olivococlear medial, com predominncia funcional direita. Talvez isto explique a maior presena de zumbido e de perdas auditivas temporrias aps exposio a rudo na OE.

No entanto, da mesma forma que j foi sugerido na literatura, parece que esta predominncia coclear direita nos destros no ocorre de forma simtrica e regular, em todas as freqncias, havendo uma alternncia da funo do trato olivococlear medial entre as orelhas (4,7). Na Tabela 2 podemos observar que em 1500 Hz e em 6000 Hz praticamente as duas orelhas apresentaram porcentagens de supresso muito semelhantes, sem sinais de predomnio, enquanto Khalfa et al referem uma maior supresso das EOAT esquerda na faixa de 2400 Hz nos indivduos destros (4).

Quando analisamos a amplitude das EOAPD, vemos que em 4000 Hz apesar de no se ter atingido o nvel de significncia estatstica, como ocorreu nas freqncias entre 1000 e 3000 Hz, a amplitude tambm foi maior direita. J em 6000 Hz, as amplitudes de EOAPD foram muito semelhantes entre as orelhas, com um discreto predomnio da orelha esquerda, exatamente como nos resultados da supresso das EOAPD.

Uma seleo rigorosa dos participantes necessria nos estudos de lateralidade e predominncia funcional. Como j relatado anteriormente, possvel haver lateralidades cruzadas para diferentes rgos e funes, portanto a seleo de indivduos comprovadamente destros (predomnio do membro superior direito) no prova que estes tambm possuam sistemas auditivos predominantes direita (ou crtex auditivo esquerdo predominante). Para esta comprovao, testes eletrofisiolgicos com estmulo verbal, tonal e de escuta dictica (4,7,17) deveriam ser realizados no momento da incluso dos participantes para a determinao da real predominncia auditiva.

Sob esta tica, h o risco de termos includo na amostra indivduos destros com predomnio funcional do sistema auditivo tanto esquerda como direita, o que nos faz sugerir que talvez esta associao entre indivduos destros e predomnio funcional coclear direita seja ainda maior do que mostramos aqui.

No h na literatura o protocolo ideal e bem estabelecido de pesquisa da funo do trato olivococlear medial, provavelmente em funo das muitas variveis a serem controladas, o que tambm pode influenciar a interpretao dos resultados obtidos. Optamos por exemplo, pelo uso de um rudo branco como rudo supressor. Apesar do rudo branco conter energia em uma faixa de freqncia ampla, entre 100 Hz e 10.000 Hz, h uma queda da efetividade a partir de 4000 Hz (18). Vale ressaltar que a supresso ocorre com especificidade de freqncia e proporcional intensidade do rudo supressor.

Portanto, os resultados em 6000 Hz, onde no encontramos predomnio funcional de uma orelha sobre a outra, tanto na amplitude de EOAPD como na porcentagem de supresso, podem refletir esses mecanismos fisiolgicos ou serem decorrentes do mtodo usado, como a escolha do rudo branco como rudo supressor, no caso do estudo da supresso da amplitude das EOAPD.

CONCLUSES

O sistema auditivo perifrico funciona de forma lateralizada com predomnio funcional, nos destros, da OD sobre a OE. Provavelmente isto ocorre por influncia do trato olivococlear medial, que, no entanto, parece no agir de forma predominante e regular em toda extenso coclear.

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