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Ano: 2006  Vol. 10   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Avaliao Audiolgica de Indivduos Portadores de Malformao de Orelha
Audiologic Evaluation in Individuals with Ear Abnormalities
Author(s):
Eliane Aparecida Techi Castiquini1, Tyuana Sandim da Silveira3, Daniela Rodrigues Shayeb4, Adriana Sampaio de Almeida Meyer4
Palavras-chave:
Ouvido externo. Deficincia auditiva. Auxiliares de audio.
Resumo:

Introduo: A perda auditiva um dos achados clnicos mais comuns nos casos de malformaes de orelha. Objetivo: Caracterizar a perda auditiva nos diferentes tipos de malformaes, correlacionando aos achados da tomografia computadorizada. Mtodo: 37 pronturios de indivduos portadores de malformao de orelha foram analisados. Destes, 19 eram crianas e 18 adultos, sendo 22 do sexo masculino e 15 do sexo feminino. Os dados referentes avaliao audiolgica e otorrinolaringolgica (incluindo o laudo da tomografia computadorizada de osso temporal) foram analisados e comparados. Resultados: Pde-se verificar predomnio de: malformaes de orelha externa e de malformaes de orelha externa associadas as malformaes de orelha mdia; e perda auditiva condutiva moderada. A adaptao do dispositivo auditivo foi freqente nos indivduos com malformao bilateral e o tratamento cirrgico foi freqente naqueles com malformao unilateral. Concluso: A avaliao audiolgica no foi suficiente para predizer o tipo e a extenso da malformao, o que enfatizou a necessidade da realizao da tomografia computadorizada.

INTRODUO

A perda auditiva um dos achados clnicos mais comuns nos casos de malformaes de orelha e o tipo e o grau desta perda estar relacionado ao local da malformao: orelha externa, orelha mdia e/ou orelha interna.
As malformaes de orelha externa geralmente esto associadas s malformaes de orelha mdia, uma vez que possuem a mesma origem embriolgica (1). Porm, as malformaes de orelha interna coexistem com as malformaes da orelha externa em 15 a 20% dos casos, o que pode ser justificado pelo fato da orelha interna desenvolver-se separadamente e em perodo gestacional anterior ao desenvolvimento das demais orelhas (2).
importante classificar a perda auditiva o mais precocemente possvel, a fim de definir a conduta. As possibilidades de tratamento para estas malformaes incluem a adaptao de dispositivos auditivos por conduo area ou por conduo ssea, a adaptao de dispositivos auditivos implantveis (implante sseo integrado) ou a reconstruo cirrgica da orelha.
A reconstruo cirrgica da orelha malformada possvel quando h suficiente desenvolvimento da orelha mdia e quando o nervo facial no recobre a janela oval (3). Os autores relataram ainda que, mesmo aps a reconstruo cirrgica, a amplificao necessria, uma vez que a audio normal raramente alcanada.
Para os casos de malformaes bilaterais, a preocupao est relacionada ao desenvolvimento da fala e da linguagem. De acordo com Fetterman e Luxford (4), uma vez que a cirurgia no indicada at a idade de 6 anos, as crianas com este tipo de malformao deveriam ser adaptadas o mais precocemente possvel, de modo a favorecer a estimulao auditiva necessria para o desenvolvimento da fala e da linguagem.
Uma vez que nos casos de malformaes unilaterais a audio contralateral, se normal, propiciar este desenvolvimento (4), a cirurgia adiada at que o paciente possa compreender os riscos para a funo auditiva e facial e decida por si s. A indicao cirrgica tambm depende dos achados da tomografia computadorizada e da avaliao audiolgica (4,5).
Os indivduos no candidatos cirurgia podero ser encorajados a testar os dispositivos auditivos por conduo area ou por conduo ssea. Se o conduto auditivo externo est aberto e possui tamanho suficiente, um dispositivo auditivo por conduo area pode ser adaptado. SILVEIRA et al. (6) relataram a importncia de investigar as condies anatmicas da orelha externa malformada, de modo a verificar a possibilidade da introduo do molde auricular e da sustentao do dispositivo auditivo retroauricular por conduo area.
Os dispositivos auditivos por conduo ssea so indicados nos casos em que o indivduo no apresenta condies anatmicas para a adaptao por conduo area e consistem de um vibrador eletromagntico pressionado contra a mastide, sustentado por um arco ao redor da cabea (7). Assim, a onda sonora captada pelo microfone convertida em vibraes eletromagnticas, as quais so transmitidas cclea (4).


OBJETIVO

Este estudo teve por objetivo caracterizar a perda auditiva observada nos diferentes tipos de malformaes, correlacionando aos achados da tomografia computadorizada de osso temporal; e apresentar a conduta indicada.


MTODO

Este trabalho foi realizado no Centro de Distrbios da Audio, Linguagem e Viso do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais da Universidade de So Paulo (CEDALVI, HRAC-USP), Bauru-SP. O mesmo foi aprovado pelo Comit de tica e Pesquisa sob protocolo n 41/2003-UEP-PC.
Os pronturios dos indivduos portadores de malformao de orelha foram analisados com o propsito de serem selecionados aqueles que possussem avaliao otorrinolaringolgica (incluindo a solicitao e o laudo da tomografia computadorizada de osso temporal) e audiolgica completa (audiometria tonal limiar e logoaudiometria realizada no audimetro modelo AD-28, marca Interacoustic, fones TDH-39). A partir destes critrios foram selecionados 37 pronturios, dos quais 19 eram crianas e 18 adultos.
A realizao da tomografia computadorizada de osso temporal nos indivduos portadores de malformao de orelha no faz parte da rotina clnica deste Centro, porm solicitada de acordo com a necessidade do mdico otorrinolaringologista a fim de esclarecer o local de comprometimento e as estruturas malformadas. Como os indivduos atendidos vm de diferentes localidades, este procedimento pode ser realizado nas cidades de origem.
Os dados referentes avaliao otorrinolaringolgica, ao laudo da tomografia computadorizada de osso temporal e a avaliao audiolgica foram compilados, analisados e comparados quanto ao tipo de malformao presente.


RESULTADOS

Dos 37 indivduos avaliados, 22 eram do sexo masculino e 15 eram do sexo feminino. A malformao bilateral foi observada em 19 orelhas, enquanto 18 apresentaram malformao unilateral, o que totalizou 56 orelhas malformadas.
Quanto s malformaes unilaterais, 13 indivduos apresentaram malformao da orelha direita e 5 indivduos apresentaram malformao da orelha esquerda.
Diferentes tipos de malformaes foram observados por meio da avaliao otorrinolaringolgica e da tomografia computadorizada de osso temporal. Os dados referentes s malformaes podem ser visualizados no Grfico 1.
A malformao de orelha externa esteve presente em 23 orelhas e diferentes anomalias foram encontradas (Tabela 1).
Quanto ao tipo e grau da perda auditiva observada nas malformaes de orelha externa (Tabela 1), apenas nas orelhas cuja anomalia apresentada foi estenose de conduto auditivo externo verificou-se perda auditiva condutiva leve. As demais orelhas (21) apresentaram perda auditiva condutiva moderada. Destas, 1 orelha apresentava microtia e estenose de conduto auditivo externo, 7 apresentavam agenesia de pavilho auricular e de conduto auditivo externo e 13 apresentavam microtia e agenesia de conduto auditivo externo.
As Tabelas 2 e 3 apresentam as anomalias observadas nos demais tipos de malformaes, correlacionadas ao tipo e grau da perda auditiva.
A conduta para os 18 indivduos portadores de malformao unilateral pode ser observada na Tabela 4.
J a conduta para os 19 indivduos portadores de malformao bilateral pode ser observada na Tabela 5.


DISCUSSO

A partir da amostra estudada, pde-se verificar predomnio das malformaes no sexo masculino (23 indivduos). Por razes desconhecidas, h prevalncia de malformaes de orelha no sexo masculino (4,8).













De acordo com SCHUKNECHT (9) e FETTERMAN e LUXFORD (4), a malformao de orelha unilateral em 70 a 85% dos casos, porm, neste estudo, no foi observado predomnio desta malformao.
Quanto s malformaes unilaterais (18 orelhas), observou-se predomnio da orelha direita (13 orelhas). OKAJIMA et al. (8) e FETTERMAN e LUXFORD (4) tambm citaram que, por razes desconhecidas, a orelha direita a mais afetada quanto a presena de malformao.
No Grfico 1 pde-se visualizar os tipos de malformaes encontradas nas 56 indivduos avaliados, dados estes obtidos por meio da avaliao otorrinolaringolgica e da tomografia computadorizada, uma vez que a extenso do comprometimento s pde ser determinada por meio desta ltima. A tomografia computadorizada tornou-se extremamente importante para avaliar o desenvolvimento da orelha mdia e da cadeia ossicular, assim como as anormalidades da orelha interna. Este procedimento auxilia na determinao da extenso do desenvolvimento do osso timpnico, da pneumatizao da mastide, da presena da janela oval e da platina do estribo, da anatomia da orelha interna e da indicao cirrgica (5,10).
Assim, a partir do Grfico 1 pde-se verificar predomnio de malformaes da orelha externa (23 orelhas) e de malformaes da orelha externa associada mdia (24 orelhas). As anormalidades da orelha externa geralmente esto associadas s de orelha mdia, uma vez que possuem a mesma origem embriolgica (1).
Ainda com relao s malformaes citadas acima, pde-se verificar diferentes anomalias descritas pelo mdico otorrinolaringologista, mediante o laudo da tomografia computadorizada. Porm, aps a avaliao audiolgica observou-se que todas apresentaram perda auditiva condutiva, com predomnio do grau moderado (Tabelas 1 e 2). Nos pronturios analisados no foram encontradas descries detalhadas com relao s malformaes de orelha mdia.
Em apenas 1 orelha foi realizado o diagnstico de malformao da cadeia ossicular. Inicialmente, o indivduo em questo foi submetido avaliao audiolgica, sendo constatada perda auditiva condutiva moderada. Como no havia dados relevantes na anamnese, o diagnstico audiolgico levou suspeita da malformao, o que foi concludo por meio da tomografia computadorizada, cujo laudo confirmou a integridade da orelha externa e a malformao da cadeia ossicular. CRYSDALE (1) relatou que as crianas diagnosticadas com perda auditiva congnita, com ausncia de microtia ou atresia, podem apresentar diagnstico audiolgico tardio em razo da deformidade invisvel e a perda auditiva, nestes casos, deve ser conseqncia da deformidade ossicular, anquilose ou fixao do estribo.
Uma vez que os achados audiolgicos para as malformaes de orelha externa, de orelha mdia e de orelha externa associadas mdia foram semelhantes, se evidenciou a necessidade da realizao da tomografia computadorizada de osso temporal para determinar a extenso da malformao (comprometimento da orelha mdia).
Apenas 4 orelhas apresentaram malformaes associadas de orelha externa, mdia e interna, cujo diagnstico foi obtido por meio da tomografia computadorizada de osso temporal. Nestas malformaes, observou-se perda auditiva do tipo mista e sensorioneural, e o grau variou entre moderado e profundo (Tabela 3). As anormalidades da cclea e canais semicirculares coexistem com a atresia em 15 a 20% dos casos apenas, o que pode ser justificado pelo fato da orelha interna desenvolver-se separadamente e em perodo gestacional diferente ao do desenvolvimento da externa (2). Enquanto a orelha interna est bem desenvolvida, a externa e a mdia esto comeando a delinear formas (11).
Ainda por meio da tomografia computadorizada, foi possvel observar 4 orelhas internas diagnosticadas com malformao de Mondini. Na audiometria tonal limiar verificou-se perda auditiva sensorioneural de grau moderado (1 orelha), severo (1 orelha) e profundo (2 orelhas). Na literatura pesquisada no foram encontrados dados relacionados ao grau da perda auditiva que pudessem ser confrontados.
A partir da Tabela 4, pde-se verificar que os indivduos portadores de malformao unilateral, em sua maioria (10 indivduos), optaram por realizar a cirurgia para a reconstruo da orelha ou a cirurgia para implante sseo integrado. A presena de audio contralateral normal, provavelmente, influenciou 5 indivduos no candidatos cirurgia a permanecerem apenas em controle audiolgico e, os demais 3 indivduos optaram pela adaptao do dispositivo auditivo.
J nos casos dos indivduos portadores de malformao bilateral (Tabela 5), a adaptao do dispositivo auditivo por conduo area ou ssea foi freqente (13 indivduos). Nos casos de malformao bilateral a cirurgia geralmente indicada (2), porm, neste estudo, no foram considerados os critrios adotados para a seleo dos candidatos a este procedimento.


CONCLUSO

A partir da anlise dos 37 pronturios de indivduos portadores de malformao de orelha, pde-se verificar predomnio de malformaes de orelha externa e de malformaes de orelha externa associadas s de orelha mdia. Quanto perda auditiva, observou-se predomnio de condutiva moderada.
A avaliao audiolgica foi importante para verificar o quanto a audio est comprometida, porm no foi suficiente para predizer o tipo e a extenso da malformao, o que enfatizou a necessidade da realizao da tomografia computadorizada de osso temporal.
A indicao do dispositivo auditivo foi freqente nos indivduos com malformao bilateral e a indicao cirrgica foi freqente nos indivduos com malformao unilateral.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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