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Ano: 2006  Vol. 10   Num. 2  - Abr/Jun Print:
Case Report
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Adenoma Pleomrfico Nasal: Resseco Via Degloving Mdio-facial
Nasal Pleomorphic Adenoma: Resection Via Degloving
Author(s):
Tomas Gomes Patrocnio1, Jos Antnio Patrocnio2, Lucas Gomes Patrocnio3
Palavras-chave:
Adenoma pleomrfico. Beoplasias de glndulas salivares. Neoplasias nasais.
Resumo:

Introduo: O adenoma pleomrfico a neoplasia benigna mais comumente encontrada nas glndulas salivares maiores, principalmente na glndula partida. Raramente pode ser encontrada na rea crvico-facial fora das glndulas maiores e menores da cavidade oral. Objetivo: Relatar um caso de adenoma pleomrfico nasal volumoso que causava deformidade facial e necessitou acesso via degloving mdio-facial para sua resseco. Relato de Caso: O presente artigo descreve um raro caso de uma paciente do sexo feminino, com 16 anos, com queixa de obstruo nasal esquerda h cerca de um ano, com episdios freqentes de epistaxe. Apresentava grave deformidade facial e massa volumosa em cavidade nasal e seios paranasais. Foi realizada exrese de tumor via degloving mdio-facial, cuja anlise histopatolgica diagnosticou adenoma pleomrfico. Concluso: O diagnstico diferencial de leses em fossas nasais e seios paranasais nem sempre fcil, sendo o diagnstico definitivo somente alcanado aps exame antomo-patolgico da pea cirrgica. Um amplo acesso cirrgico como o degloving mdio-facial para massas volumosas essencial para o sucesso teraputico.

INTRODUO

O adenoma pleomrfico o tumor benigno que mais comumente afeta as glndulas salivares maiores, principalmente a glndula partida, em 80% dos casos; as glndulas salivares menores so afetadas em apenas 8% dos casos (1-4).
Os casos que acometem a cavidade nasal so infreqentes. O adenoma pleomrfico nasal foi descrito pela primeira vez por DENKER e KAHLER (1929), depois STEVENSON (1932) e WEIDLEN (1936) (5). Desde ento poucos casos tm sido descritos na literatura mundial.
O objetivo deste trabalho relatar um caso de adenoma pleomrfico nasal volumoso que causava deformidade facial em uma paciente do sexo feminino de 16 anos, devido raridade da apresentao clinica observada e que necessitou resseco cirrgica via degloving mdio-facial devido a seu grande volume.


RELATO DE CASO

J.M.B., feminino, 16 anos de idade, branca, procurou atendimento no Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia com queixa de obstruo nasal unilateral esquerda e intermitentes crises de epistaxe de pequena quantidade havia 1 ano. Com a progresso dos meses, a paciente evoluiu com assimetria facial, apresentando-se no ambulatrio com grande alargamento da pirmide nasal e abaulamento da regio malar ipsilateral.
A rinoscopia anterior, observou-se uma massa que ocupava totalmente a fossa nasal esquerda, de cor vermelho-plida, aspecto frivel e com desvio de septo obstruindo toda a fossa nasal direita. A tomografia computadorizada de seios paranasais mostrou uma leso de aspecto polipide, com densidade de partes moles, localizada em fossa nasal esquerda, desde a narina at nasofaringe, remodelando e preenchendo o seio maxilar esquerda, com obstruo do complexo stio-meatal ipsilateral. Havia eroso do septo sseo nasal com desvio direita (Figura 1).
A paciente foi submetida a exrese cirrgica do tumor, via degloving mdio-facial, com margem de segurana de mucosa livre de tumor (Figura 2). O pedculo deste encontrava-se implantado do septo nasal, prximo base do crnio. O exame antomo-patolgico mostrou extensa proliferao com clulas poligonais de citoplasma eosinfilo e ncleos redondos e ovalados disposto em cinos e trabculas, sobre uma matriz mixide, sendo diagnosticado adenoma pleomrfico (tumor misto benigno). Evoluiu bem no ps-operatrio, sem intercorrncias.



Permanece sob acompanhamento ambulatorial h 12 meses e no se evidencia recorrncia tumoral, com resoluo total das queixas e regresso da deformidade facial.


DISCUSSO

Os tumores das glndulas salivares so relativamente incomuns, correspondendo a cerca de 0,3% de todas as neoplasias, segundo registros de cncer da Inglaterra e Pas de Gales (6). No Brasil, no perodo de 1981 a 1985, de 530.910 casos registrados de tumores malignos em todas as topografias, as glndulas salivares estiveram presentes em 1.504 casos, o que corresponde a 0,28% daquele total (7). Cerca de 94% dos tumores em glndulas salivares tm origem epitelial (9), sendo a partida o stio primrio dos mesmos em 70 a 80% dos casos (4). Nessa glndula, 80% dos tumores tm natureza benigna, predominando o adenoma pleomrfico sobre os demais tipos histolgicos, com uma incidncia que varia de 60,6 a 76,2% (2,8).



De acordo com SPIRRO e col. (1973), 11,8% dos tumores de glndula salivar menor so benignos e somente 1% dos tumores so vistos na cavidade nasal e nasofaringe (1). A localizao mais comum dos adenomas pleomorficos na cavidade nasal na cartilagem quadrangular do septo nasal, seguido da parede externa nasal, principalmente nas conchas nasais (2). COMPAGNO e WONG revisaram 40 casos de tumor misto benigno nasal e encontraram que a maioria destas neoplasias se origina da mucosa do septo sseo ou cartilaginoso (9). No Brasil foram descritos apenas dois casos de adenoma pleomrfico confirmados com anlise histopatolgica (5,10).
Atualmente, h vrias teorias quanto origem do adenoma pleomrfico no septo nasal: 1) originaria-se de restos do rgo de Jacobson ou rgo vomeronasal, um conduto com revestimento epitelial de 6 mm de longitude na poro cartilaginosa do septo, prximo do orifcio nasopalatino, que em geral desaparece precocemente, entretanto pode persistir no adulto (STEVENSON, 1932);
2) teria origem em clulas aberrantes no epitlio de revestimento do septo nasal (ERSNER e SALTZAMAN, 1944);
3) originaria-se a partir de tecido glandular salivar ectpico (EVANS e CRUICKSBANK, 1970) (5).
O tumor pode se apresentar em qualquer idade, mas predomina entre a terceira e sexta dcada de vida, com predomnio no sexo feminino e sem preferncia por raa (9). Os pacientes geralmente procuram um mdico por obstruo nasal unilateral e/ou a presena de massa em fossa nasal freqentemente dolorosa, menos comum, a queixa de epistaxe.
O adenoma pleomrfico apresenta-se como uma massa polipide, lisa, lobulada, firme e encapsulada. Para o diagnstico antomo-patolgico do tumor misto, necessrio estarem presentes dois tipos celulares: um de clulas epiteliais e mioepiteliais; e outro, de um estroma com caractersticas fibride, mixide, condride, vascular ou mixocondride (6). Os exames de imagem, principalmente a TC, determinam a extenso tumoral e o comprometimento de estruturas adjacentes, elucidando o melhor tipo de interveno.
O diagnstico diferencial deve ser realizado com papilomas epiteliais, angiomas, carcinoma de clulas transicionais, adenocarcinoma, gliomas, meningiomas e neuroblastoma olfatrio entre outros (10).
No presente caso, a paciente apresentava epistaxe de repetio, uma massa avermelhada na fossa nasal, e que na TC, comprometia toda a fossa nasal desde a regio do forame esfenopalatino; isso levou os dois otorrinolaringologistas que a examinaram e a encaminharam ao nosso servio a suspeitar de angiofibroma nasofarngeo (mesmo sendo do sexo feminino). Tambm consideramos esta hiptese plausvel, logo optamos por no realizar a bipsia pr-operatria.
Das formas malignas do tumor misto do septo nasal, a mais comum o carcinoma ex-adenoma pleomrfico, no qual apenas o componente epitelial se transforma em maligno e capaz de metastatizar (11). O adenoma pleomrfico benigno metastatizante outro tipo de tumor maligno, que encontrado raramente em tumores recorrentes, no qual, h ocorrncia de metstases com aspecto histolgico de benignidade, apesar de manter um aspecto histolgico benigno (11). Em glndulas salivares menores, foram descritos apenas dois casos, um por WERMUTH et al. na cavidade nasal e outro por FREEMAN et al. no septo nasal (11).
O tratamento de primeira escolha a exciso cirrgica com ampla margem de segurana, com mucosa livre de tumor. A abordagem cirrgica depende do tamanho da leso, se for um tumor pequeno se recomenda uma abordagem por via endoscpica transnasal, porm se houver um comprometimento tumoral grande deve-se ressecar por rinotomia lateral ou degloving mdio facial complementado com endoscopia nasal (12). No caso descrito, optamos pela tcnica do degloving devida ao grande volume da massa (que inclusive causavagrave deformidade facial) e indefinio diagnstica prvia cirurgia.
Algumas das hipteses diagnsticas, alm de tumor de glndulas salivares, eram, schwanoma, angiofibroma nasofarngeo e papiloma invertido, logo um acesso mais amplo foi necessrio com ampla resseco tumoral e margem de segurana. A utilizao de anlise antomo-patolgica de congelao no per-operatrio pode ser uma opo til para se definir a melhor conduta cirrgica. No presente caso, apesar da TC ser sugestiva de tumor benigno, consideramos que a bipsia de congelao seria vlida, porm no estava disponvel em nossa instituio naquele momento. Por isso, ampliamos a margem de resseco do tumor.
Os exames de imagem, principalmente a tomografia determinam a extenso tumoral e o comprometimento de estruturas adjacentes, elucidando o melhor tipo de interveno.
A radioterapia tem pouca utilidade nestes pacientes, e s est indicada em tumores irressecveis ou em caso de contra-indicao cirrgica absoluta.
A recidiva dos adenomas pleomrficos maior naqueles componentes em cuja anlise histolgica se detecta maior contedo mixide, o qual raro na localizao nasal, ao contrario do que ocorre nas neoplasias de glndulas principais (5). Estima-se que a recorrncia tumoral ocorre ao redor de 5% dos casos depois da exciso primria e ao redor de 2 a 3% se malignizam principalmente nos casos de recorrncia tumoral.


CONSIDERAES FINAIS

O diagnstico diferencial de leses em fossas nasais e seios paranasais nem sempre fcil, sendo o diagnstico definitivo somente alcanado aps exame antomo-patolgico da pea cirrgica. Apesar da raridade do adenoma pleomrfico na cavidade nasal, uma neoplasia que deve fazer parte do diagnstico diferencial de tumores nasais associados a epistaxe e obstruo nasal. Um amplo acesso cirrgico como o degloving mdio-facial para massas volumosas essencial para o sucesso teraputico.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Spiro R, Koss L, Hadju S, Strong EW. Tumors of minor salivary origin. A clinicopathologic study of 492 cases. Cancer, 1973, 31:117-29.
2. Eneroth CM. Salivary gland tumors in the parotid gland, submandibular gland and the palate region. Cancer, 1975, 27:1415-1418.
3. Eveson JW, Cawson RA. Salivary gland tumors. A review of 2,410 cases with particular reference to histological types, site, age and sex distribution. J Pathol, 1985, 146:51-58.
4. Spiro RH. Salivary neoplasms: Overview of a 35-year experience with 2,807 patients. Head Neck Surg, 1986, 8: 177-184.
5. Felix J, Tonon S, Saddy J, Meirelles R, Felix F. Adenoma pleomrfico do septo nasal: relato de caso e reviso de literatura. Rev Bras Otorrinolaringol, 2000, 66:276-9.
6. Eveson JW. Pathology of salivary gland tumors. In: Malignant tumors of the mouth, jaws and salivary glands: Edward Arnold, 1995.
7. Registro Nacional de patologia tumoral. Diagnsticos de Cncer. Brasil -1981/1985. Ministrio da sade. Instituto Nacional do Cncer. Coordenao de Programas de Controle de Cncer (Pr-Onco).
8. Rapoport A, Kanda JL, Kowalski LP, Sobrinho JA, Carvalho MB, Fava AS. Tumores benignos da glndula partida. Estudo de 90 casos. Rev Bras Cir Cab Pesc,1983, 7:205-227.
9. Compagno J, Wong RT. Intranasal mixed tumors. Am J Clin Pathol, 1977, 68. 213-18.
10. Rocha MP, Campagnolo AM, Macedo VS, Scarton FB, Rocha HP, Kuhl G. Adenoma pleomrfico de septo nasal: relato de caso. Rev Bras Otorrinolaringol, 2004, 70(3):416-418.
11. Freeman SB, Kennedy KS, Parker GS, Tatum AS. Metastasizing pleomorphic adenoma of the nasal septum. Arch Otolaryngol Head Neck Surg, 1990, 116:1331-1333.
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