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Ano: 2006  Vol. 10   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Estudo Experimental da Erva Mate (lex Paraguariensis) como Agente Etiolgico de Neoplasia do Trato Aro-digestivo
Mate (Ilex Paraguariensis) as an Etiological Agent of Neoplasia in the Aerodigestive Tract. An Experimental Study
Author(s):
Geraldo Pereira Jotz1, Honrio Sampaio Menezes2, Claudio Galleano Zettler2, Rafael Jos Vargas Alves3, Roberto Chacur4, Caroline Buzzatti4, Mariana Dias de Oliveira4, Tiago Hermes Maeso Montes5, Marta Hbner6, Eduardo Walker Zettler6
Palavras-chave:
Mate. Cncer. Esfago. Pulmo. Faringe. Traquia.
Resumo:

Introduo: Existem estudos que consideram o "chimarro" como fator de risco para desenvolvimento do cncer de orofaringe, esfago e laringe (infuso de erva mate, Ilex paraguariensis). Objetivo: Comparar a histologia do trato aro-digestivo de ratos submetidos ao consumo de erva mate Ilex paraguariensis, com um grupo controle. Material e Mtodo: Setenta e cinco ratos Wistar adultos foram testados, 60 bebendo mate na temperatura ambiente e 15 bebendo gua (grupo controle), durante 5 meses. A histologia do trato aro-digestivo destes animais foi analisada. Resultados: Os animais apresentaram alteraes nos exames antomo-patolgicos havendo diferena significativa (p=0,02) entre os que tomaram mate e o grupo controle. Houve diferena estatstica entre o peso corporal dos grupos em estudo e o grupo controle (p<0,001). Concluso: Este estudo indica que o consumo de mate afeta o trato aerodigestivo superior e responsvel pela perda de peso dos animais estudados.

INTRODUO

O hbito de tomar mate, ou chimarro, como tambm conhecida esta bebida, por infuso quente, feita com as folhas secas e picadas de Ilex paraguariensis, tem sido implicada como possvel causa de cncer do trato aerodigestivo na Amrica do Sul, onde elevadas taxas de incidncia so observadas numa rea que inclui o sul do Brasil, Uruguai e nordeste da Argentina.
Este hbito comum em reas com maior incidncia de cncer esofgico e no comum nas outras reas com menor incidncia (1) .
MUNOZ et al. (1) relataram um estudo de caso-controle que mostrou associao do carcinoma epidermide de esfago com lcool, tabaco, consumo de carne e ingesto de mate.
VICTORA et al. (2) descreveram um risco relativo 12,2 vezes maior de desenvolver cncer de esfago para os bebedores de mais de 2,5 litros de mate por dia. Os dois possveis mecanismos envolvidos na elevao dos riscos para cncer de esfago, o primeiro envolveria substncias carcinognicas no extrato da planta e o segundo a injria trmica potencializando a ao de outros carcingenos ingeridos (2).
A injria trmica foi estudada no Paraguai (3), no Japo (4), no Ir (5), na Unio Sovitica (6) e em Porto Rico (7), sugerindo associao entre a ingesto de bebidas quentes e o desenvolvimento de cncer esofgico, suspeitando-se que a alta temperatura em que bebido, ou seja, a 69,5oC (2,8) possa potencializar a carcinognese, especialmente quando associado com lcool e tabaco (9).
O mate tambm usado pela medicina popular para perda de peso, como estimulante do sistema nervoso central, diurtico e antireumtico (10).
O presente estudo tem por objetivo avaliar o peso ponderal e a histologia do trato aerodigestivo de ratos submetidos ao consumo de erva mate Ilex paraguariensis, ingerida em temperatura ambiente, comparando com um grupo que recebeu somente gua durante o perodo de estudo, analisando-se apenas o efeito do produto, sem o efeito trmico.


MATERIAL E MTODO

O estudo foi experimental, utilizando uma populao de 75 ratos Wistar adultos (250-300g), divididos em 3 (trs) grupos de 20 (vinte) ratos cada, que consumiram um preparado de erva-mate (com folhas do tipo I) com gua ambiente durante 5 meses, e um grupo de 15 (quinze) ratos que consumiram gua sem erva-mate, como grupo controle, sendo analisados os seus aparelhos aerodigestivo com exame anatomopatolgico (hematoxilina-eosina e imuno-histoqumica - Ki 67 e p53), no 8o (oitavo) ms de vida do rato.
Os grupos ingeriram a bebida em temperatura ambiente, porm preparada com gua quente no modelo padro do chimarro tradicional (folhas de erva-mate modas). Cada grupo de estudo consumiu um tipo de erva-mate, grupo 1: Erva-mate verde (produto com acentuado teor de grnulos finos, que conserva o paladar amargo e se destina degustao como chimarro, apresentando uma colorao verde e espuma. Este produto o preferido pelo consumidor gacho); grupo 2: Erva-mate pura folha (erva-mate tipo exportao, que possui baixssima quantidade de paus; passa por um processo de descanso e envelhecimento na armazenagem, configurando um produto menos verde, mais suave, de acordo com o gosto de mercado externo) e o grupo 3: Erva-mate in natura (produto elaborado pelos pesquisadores com folhas de origem controlada, com moagem intermediria entre os dois produtos anteriores).
Ratos com 3 meses de idade so considerados adultos, e com 8 meses so considerados idosos. Sendo assim, foi escolhido este perodo de 5 meses para melhor simular o consumo humano. Os ratos, alm do preparado da erva-mate, consumiram "Nuvilab", rao especial para sua espcie. O mesmo tipo de rao foi oferecido para o grupo controle.
Tanto o consumo do preparado de erva mate (marcas A, B e C; grupos 1, 2 e 3, respectivamente), como a ingesto de rao foram controlados diariamente, estabelecendo-se controle rgido de consumo para o trs grupos de ratos. Cabe salientar que a erva mate da marca C de cultivo controlado e conhecido (in natura).
Aps a eutansia dos ratos, procedeu-se o estudo histolgico dos tecidos do trato aerodigestivo, incluindo traquia, pulmes, lngua, faringe, esfago, estmago, dueodeno e pncreas. O material obtido foi processado em histotcnico com confeco de blocos de parafina, com cortes em micrtomo na espessura de 5 micras. Foram obtidos trs cortes, sendo o primeiro parafina e utilizado para a colorao pelo mtodo de hematoxilina e eosina. Os dois seguintes, foram obtidos em organosilano para estudo imunohistoqumico dos anticorpos p53 e ki67.
Aspectos ticos
Os animais foram tratados de acordo com a Lei 6.638 de 08 de maio de 1979 e com o Manual para tcnicos de biotrio, que regulamenta e indica cuidados mnimos e dignos para animais de experimentao, bem como com orientaes preconizadas pelo Colgio Brasileiro de Experimentao Animal (COBEA). O protocolo foi aprovado pelo Comit de tica em Pesquisa de ambas Instituies que sediaram o experimento.
Anlise estatstica
Para registro e anlise dos dados foi utilizado o sistema SPSS. Os resultados foram expressos em estatstica descritiva, e utilizados o teste exato de Fischer e o qui-quadrado. O limite alfa considerado nestas comparaes ser de 5%, com nvel de significncia alfa de 0,05.


RESULTADOS

O controle sobre 60 ratos recebendo mate diariamente e um grupo controle de 15 ratos, seguido de exames antomo-patolgicos do trato aerodigestivo permitiu colher os resultados abaixo discriminados. A lngua e a orofaringe no apresentaram alteraes histolgicas relevantes.
A Tabela 1 revela os resultados dos exames a que foram submetidas s peas.



Os animais apresentaram alteraes nos exames antomo-patolgicos (Tabela 1) havendo diferena significativa (p=0,02) entre os que tomaram mate (os trs grupos como um todo) e o grupo controle. Ocorreu apenas um tumor maligno (Mesotelioma de mediastino) dentre os animais do grupo que tomou mate, relacionado ao mediastino, sendo este, um achado ocasional. O trato respiratrio foi o mais atingido, tendo sido observado um grande nmero de alteraes inflamatrias respiratrias (traqueite, bronquilite, traqueite cronica, metaplasia escamosa da traqueia, pneumonia, hiperplasia glandular traqueal e fibrose pleural).
A variao do peso corporal foi anotada e produziu os resultados demonstrados na Tabela 2.



O grupo 1 teve ganho ponderal mdio de 13,87% (DP=6,49), o grupo 2 teve ganho ponderal mdio de 15,69 (DP=3,78), o grupo 3 teve ganho ponderal mdio de 23,65% (DP=14,33) e o grupo controle teve ganho ponderal mdio de 44,08% (DP=5,82). Houve diferena estatstica entre os grupos em estudo e o grupo controle (p<0,001) e a diferena entre o grupo que usou erva da marca C (in natura) e os grupos que usaram erva comercial (A e B) ficou em p<0,03.


DISCUSSO

Este estudo avaliou as alteraes de peso e histolgicas do trato aerodigestivo de ratos submetidos ao consumo de erva mate Ilex paraguariensis, ingerida em temperatura ambiente, eliminando o fator de confuso da temperatura alta da gua, uma vez que este fato relatado como fator de risco para desenvolvimento de cncer nos bebedores de mate (11).
Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento de neoplasia maligna do trato aerodigestivo, a erva mate (hbito de tomar chimarro) tem sido referenciada na literatura como um fator importante. Um fator em que ainda no se observou um consenso na literatura a quantidade de mate consumido, assim como a j referida temperatura da infuso. Entretanto, como ns no infundimos lquidos quentes, o fator temperatura foi descartado.
O cncer de laringe, de boca, orofaringe em indivduos tomadores de mate tem alta prevalncia no Uruguai (12) e no sul do Brasil (13), apresentando fator de risco dobrado em comparao com sujeitos que no tomam mate. Quando foram associados fatores de risco como tabaco e lcool (vinho) o risco aumentou cinco vezes (14). O cncer de lngua foi estudado no Uruguai (15) onde o risco de 2,5 entre os tomadores de mate. No cncer de boca e orofaringe existe o fator do calor local na gnese de alteraes epiteliais, pois em nosso estudo no conseguimos demonstrar que a erva-mate pudesse ter potencial carcingeno, no descartando entretanto, os possveis efeitos relacionados a sua exposio a longo prazo.
O cncer de esfago em reas onde o hbito de beber mate prevalente, como no Uruguai e no Sul do Brasil, existe alta incidncia deste tipo de tumor (16). VICTORA et al. (17) encontraram uma taxa de 1.9 de risco de desenvolvimento do cncer de esfago em tomadores de mate em comparao com no tomadores. VASSALO et al. (16) descreveram que mate contem taninos, responsvel sobre o aumento de cncer de esfago.
ROLON et al. (18), CASTELLSAGUE et al. (19) estudaram a relao de cncer de esfago com tomadores de mate quente, no relacionando com o hbito de tomar mate frio, indicando a gua muito quente como fator desencadeador do risco de cncer esofgico, fato no confirmado por outros pesquisadores como De STEFANI et al. (20) e PINTOS et al. (13). Em nosso estudo, entretanto, no observamos alteraes ao exame antomo-patolgico no trato digestivo, mostrando que ao retirarmos o calor como fator de risco, os tipos de erva-mate estudadas no se mostraram danosas ao tecido.
MUNOZ et al. (1) confirmaram histologicamente a ocorrncia de esofagite em bebedores de mate, fato no encontrado em nossas amostras.
Embora a injria trmica tem sido sugerida como mecanismo de ao, a carcinognese qumica do mate no foi excluda ainda, pois se observa na literatura que vrios autores indicam que a erva-mate em si possui um componente carcinognico e mutagnico intrnseco, independente da infuso com gua quente e do produto final (1,14, 18, 21). Ainda, os derivados fenatrnicos, incluindo o benzopireno, j foram identificados nas fraes qumicas do mate, estas substncias tm se mostrado como carcinognico em laboratrios animais, quando purificados e aplicados sobre a pele destes (16, 22).
Em estudo in vitro FONSECA et al. (21) encontraram extratos de mate genotxicos, mutagnicos e indutor de aberraes cromossmicas em linfcitos perifricos tratados com mate. Estes compostos presentes no mate podem ser responsveis pelo aumento do risco de cncer de pulmo observado em estudo caso-controle no Uruguay (23). No presente estudo aparecem alteraes patolgicas evidentes nos tecidos do trato areo (traquia, brnquios e pulmes), muito provavelmente pela ao indireta destas substncias, uma vez que h uma diferena significativa entre os grupos de ratos que ingeriram mate e os ratos do grupo controle.
Na literatura no encontramos dados sobre a carcinogenicidade da ingesto de mate por animais de experimentao (11). Entretanto, observamos em nosso estudo a presena de um rato portador de neoplasia (mesotelioma de mediastino) entre aqueles que ingeriram mate, sendo a nica vscera com alteraes neoplsicas dentre as vsceras dos ratos estudados, o que no descarta a hiptese de que, ao combinarmos outros fatores de risco com a ingesto do mate, este exera um efeito potencializador de carcinognese, como o fato referido por DE STEFANI et al. (24), justificando a alta taxa de cncer de bexiga no Uruguai. Alm disto, a exposio a este tipo de erva (Tipo I) bem como as trs marcas estudadas no nos permitem afirmar que a ingesto de mate no tenha efeitos carcingenos.
O emagrecimento (ou o pouco peso ganho) dos animais est de acordo com o efeito esperado para a ingesta de mate, como refere GOSMANN et al. (10), provavelmente por seu efeito diurtico e estimulante do sistema nervoso central. Entretanto, neste estudo utilizamos apenas erva-mate tipo I e, ao compararmos as erva-mates comerciais (A,B e C) entre si e com o grupo controle, podemos observar diferena significante em relao ao peso ponderal, com diferena significantemente maior para o grupo controle. Ao comparamos as ervas-mates, observamos diferena significante (p<0,03) entre o grupo que usou erva da marca C (in natura) e os grupos que usaram erva comercial (A e B), comprovando que o fator diurtico de algumas ervas comerciais maior do que outras.
O estudo aqui conduzido eliminou fatores de confuso e analisou um perodo longo da vida de animais de experimentao, sendo o mate foi preparado de acordo com o costume local e deixado esfriar. O que poderia ser modificado, eventualmente, seria a concentrao da infuso e o nmero de animais utilizados.


CONCLUSO

De acordo com os dados apresentados possvel concluir que os animais que ingeriram a infuso de erva mate apresentaram alteraes no trato aerodigestivo nos exames antomo-patolgicos, havendo diferena estatisticamente significativa entre estes e o grupo controle. Ocorreu um tumor maligno de mediastino entre os animais de experimentao do grupo que tomou mate, de achado ocasional. As infuses preparadas com erva mate diminuram significativamente o ganho de peso dos ratos que ingeriram o mate em relao ao controle, durante o perodo estudado.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Antonio Rios pelo apoio logstico no trato com os animais.


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