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Ano: 2006  Vol. 10   Num. 4  - Out/Dez Print:
Case Report
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Projtil de Arma de Fogo como Corpo Estranho Nasal: Relato de Caso
Firearm Projectile as Nasal Foreign Body: Case Report
Author(s):
Joo Alcides Miranda1, Marcello Henrique de Carvalho Borges1, Elaine de Abreu Mendes2
Palavras-chave:
Armas de fogo. Migrao de corpo estranho.
Resumo:

Introduo: Os acidentes por arma de fogo na regio de cabea e pescoo so comuns em nosso meio. Entretanto, raro o relato de um projtil se comportando como corpo estranho nas fossas nasais. Objetivo: Apresentar o caso de uma paciente com quadro de obstruo nasal conseqente, principalmente, de um projtil alojado no interior da concha nasal inferior direita e discutir a origem e o tratamento deste corpo estranho. Relato do caso: Paciente de 30 anos com histria de acidente por arma de fogo em regio occipital direita h 2 anos, evoluindo com alojamento do projtil no interior da concha nasal inferior direita. O corpo estranho foi ento retirado por via endoscpica. Concluso: Os corpos estranhos podem apresentar migrao espontnea e, se causam sintomas ou risco de vida ao paciente, devem ser removidos.

INTRODUO

Os acidentes por arma de fogo vm aumentando progressivamente em todo o mundo (1). E o Brasil, infelizmente, destaca-se neste contexto, sendo mais de 32.000 mortes ao ano decorrentes deste tipo de acidente (2) .
As leses que ocorrem na regio da cabea e pescoo no so raras e comumente tm elevada morbidade e mortalidade (1,3,4). O acometimento da pirmide nasal tambm no raro, entretanto, o relato de projteis de arma de fogo atuando como corpos estranhos nas fossas nasais pouco observado na literatura (5,6).
DAYAL e SINGH (6) apresentaram a situao de um paciente vtima de acidente por arma de fogo, com leses significativas na face, no qual foi constatado radiologicamente a existncia de objeto metlico na rinofaringe. Por outro lado, a migrao espontnea de corpos estranhos pelos tecidos do organismo, do tipo metlico ou no, descrita e a fossa nasal pode fazer parte do caminho ou mesmo ser o ponto final da movimentao do corpo estranho (7,8).
Relatamos aqui o caso de uma paciente de 30 anos com histria de acidente por arma de fogo em regio occipital direita h 2 anos na qual evidenciou-se a presena do projtil no interior da cabea da concha nasal inferior direita.


RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, 30 anos, natural de Salvador / BA, residente em Bragana Paulista / SP, procurou o ambulatrio de Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio So Francisco queixando-se de obstruo nasal bilateral, predominante direita, associada a episdios de cefalia maxilar direita. No havia outras queixas relacionadas. Os sintomas tiveram piora h dois anos, aps acidente por arma de fogo, no qual, segundo a paciente, houve apenas um orifcio de entrada, na regio occipital direita. A mesma relatou que o projtil no foi retirado.
Aps exame otorrinolaringolgico, observou-se nasofibroscopia desvio septal grau 3, zona 2 alta direita e grau 2, rea 2 baixa esquerda, alm de hipertrofia de conchas nasais inferiores, mais acentuada direita. Foi solicitada tomografia computadorizada de seios paranasais que evidenciou a presena de imagem hiperdensa de caractersticas metlicas em fossa nasal direita, na topografia da concha inferior, no se observando imagens sugestivas de estilhaos nos outros cortes (Figura 1).





Indicado a cirurgia, realizou-se septoplastia bilateral e a retirada do projtil do interior da concha nasal inferior direita por via endoscpica. Foi feita inciso superficial na mucosa da cabea da concha, suficiente para vizualizao do projtil. Este foi facilmente retirado com simples trao (Figura 2). Finalmente, uma turbinectomia inferior parcial bilateral, tambm via endoscpica, completou o procedimento. No foi necessrio tamponamento nasal. Durante a induo anestsica foram feitos 2 gramas de cefazolina (EV) e a paciente fez uso de cefalexina (2 gramas / dia - VO) nos primeiros 7 dias aps a cirurgia. O exame pericial do projtil revelou o calibre 38. O ps-operatrio transcorreu satisfatoriamente, estando a paciente no momento sem queixas.


DISCUSSO

A obstruo nasal possui vrias causas, como o desvio septal e a hipertrofia de conchas nasais. Apesar de ser menos comum, a presena de um corpo estranho no interior da fossas nasais tambm pode ser uma dessas causas (9,10,11).
Mesmo que os acidentes por arma de fogo apresentem elevada incidncia nos dias de hoje, so pouco descritos casos nos quais projteis se comportem como corpos estranhos nas fossas nasais (5).
Na literatura consultada observamos somente um caso, relatado por DAYAL e SINGH (6) , no qual constatou-se a presena de objeto metlico na rinofaringe.
O diagnstico dos corpos estranhos nasais no apresenta maiores dificuldades. Alm do quadro tpico de obstruo nasal unilateral e/ou rinorria hialina ou purulenta ftida, dependendo do tempo de evoluo, o exame otorrinolaringolgico e, em casos selecionados, a nasofibroscopia e a tomografia computadorizada de seios paranasais desvendam o diagnstico (1,10,11) .
Em nosso relato a anamnese e os exames fsico e de vdeo foram essenciais ao revelarem o desvio septal bilateral e a hipertrofia de conchas predominante direita, entretanto, somente aps a realizao do exame de imagem o diagnstico foi concludo. O que nos deixou profundamente intrigados foi como esse projtil se alojou no interior da concha inferior, sendo que seu orifcio de entrada foi nico e ocorreu na regio occipital. Haveria um outro orifcio de entrada? A paciente afirmou veementemente que no. realmente surpreendente como no ocorreram leses em estruturas nobres e demais seqelas aps o acidente. Uma explicao convincente e aceita seria a migrao espontnea do corpo estranho, situao esta j observada e relatada por SALVATI et al (7) e por ILKKO et al (8) . A ausncia de estilhaos nos cortes da tomografia computadorizada argumento a favor desta explicao proposta.
A conduta ideal na presena de um corpo estranho nasal a sua imediata remoo, j que esta uma urgncia otorrinolaringolgica (9,11) . Diante de um projtil de arma de fogo presente na fossa nasal, a retirada do mesmo tambm o mais indicado, porm, quando ele no gera desconforto ao paciente ou quando a sua retirada implicar em riscos maiores que os benefcios pode-se optar por conduta conservadora (1,3,4) .
Nossa paciente apresentava queixa obstrutiva nasal causada inicialmente pelo desvio septal bilateral e pela hipertrofia de conchas. Estes sintomas no eram to intensos antes do acidente, mas a presena do corpo estranho intensificou a queixa obstrutiva da paciente. Sendo assim, para completo alvio dos sintomas, preferimos realizar a retirada do projtil junto da septoplastia e da turbinectomia parcial inferior bilateral no mesmo ato operatrio. Torna-se necessrio mencionar que antibioticoterapia ps - operatria foi imprescindvel pelo risco de infeco da cartilagem septal.


CONCLUSO

Os acidentes por arma de fogo podem no trazer de imediato prejuzo sade do paciente, no necessitando, ento, da remoo do projtil. Este, algumas vezes, pode se comportar como corpo estranho aps uma possvel migrao atravs dos tecidos. Havendo sintomas ou risco de vida, ser pertinente a sua remoo.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Reiss M, Reiss G, Pilling E: Gunshot injuries in the head and neck area - basic principles, diagnosis and managment. Schweiz Rundsch Med Prax, 1998, 87 (24): 832-8.
2. Brasil registra mais mortes por armas de fogo do que conflitos armados internacionais. Disponvel em http: www.unescobrasil.org.br . Acessado em 09 de dezembro de 2005.
3. Castro C, Santos S, Fernandez R, Labella T: Non-fatal firearm injuries of the head and neck. An Otorrinolaringol Ibero Am, 1989, 16 (3): 257-70.
4. Ogunleye AO, Adeleye AO, Ayodele KJ, Usman MO, Shokunbi MT: Arrow injury to the skull base. West Afr J Med, 2004, 23 (1): 94-6.
5. Sobrinho FPG, Jardim AMB, Sant'Ana IC, Lessa HA: Corpo estranho na nasofaringe: a propsito de um caso. Rev Bras Otorrinolaringol, 2004, 70 (1): 24 -8.
6. Dayal D, Singh AP: Foreign body nasopharynx. J Laryngol Otol, 1970, 84: 1157-60.
7. Salvati M, Cervoni L, Rocchi G, Rastelli E, Delfini R: Spontaneus movement of metallic foreign bodies. Case Report. J Neurosurg Sci, 1997, 41 (4): 423 - 5.
8. Ilkko E, Reponen J, Ukkola V, Koivukangas J: Spontaneus migration of foreign bodies in the central nervous system. Clin Radiol, 1998, 53 (3): 221 - 5.
9. Hong D, Chu YF, Tong KM, Hsiao CJ: Button batteries as foreign bodies in the nasal cavities. Int J Pediatr Otorrinolaryngol, 1987, 14 (1): 15-9.
10. Duarte AF, Soler RC, Zavarezzi F: Endoscopia nasossinusal associada a tomografia computadorizada de seios paranasais no diagnstico de obstruo nasal crnica. Rev Bras Otorrinolaringol, 2005, l 71 (3): 361-3.
11. Pinheiro SD, Freitas MR. Obstruo nasal. In: Campos CAH, Costa HOO. Tratado de Otorrinolaringologia Vol 3. 1 ed. So Paulo: Roca; 2003, p. 166-74.
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