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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Avaliao do Benefcio da Prtese Auditiva Digital e da Percepo da Desvantagem Auditiva ou
Evaluating the Benefits of Digital Hearing Aids and Perceptions of Hearing Deficiencies in Non-institutionalized Elderly
Author(s):
Maria Helena Pinho Costa1, Andr Luiz Lopes Sampaio2, Carlos Augusto C. P. de Oliveira3
Palavras-chave:
Presbiacusia. Envelhecimento. Prtese auditiva.
Resumo:

Introduo: Indivduos acima dos 60 anos podem apresentar dificuldade para se comunicar ao telefone ou em locais de maior rudo, ou ainda necessitam de maior volume na televiso e no rdio para compreender as mensagens. O Aparelho de Amplificao Sonora (AAS) tem sido utilizado como opo teraputica primria para portadores de deficincias auditivas no passveis de tratamento clnico ou cirrgico. Com os avanos da tecnologia, a maioria dos deficientes auditivos podem se beneficiar do uso de AAS. O benefcio fornecido pelo uso da amplificao tem sido definida como a diferena entre o desempenho do indivduo sem e com AAS. Objetivo: Avaliar subjetivamente o benefcio derivado de AAS digital e avaliar a percepo dos efeitos psicossociais advindos da desvantagem auditiva ou "handicap" provocada pela deficincia auditiva. Mtodo: Participaram do estudo 30 idosos usurios de AAS digital, todos na faixa etria entre 60 e 89 anos e portadores de deficincia auditiva do tipo neurossensorial, bilateral, ps-lingual. A avaliao do benefcio foi feita por meio do questionrio Abbreviated Profile of Hearing Aid Benefit-APHAB, nas condies sem e com prtese auditiva. A avaliao da percepo da desvantagem auditiva foi realizada por meio do questionrio Hearing Handicap for the Elderly-HHIE. Resultados: Em mdia, 63,8% das respostas dadas revelaram benefcio com o uso do AASI e 80% apresentaram algum grau de percepo do handicap ou desvantagem auditiva. Concluso: Na avaliao subjetiva do benefcio, houve benefcios, registrando-se significativa melhora da comunicao com o uso do AAS e h percepo da desvantagem auditiva no grupo avaliado.

INTRODUO

A perda da sensibilidade auditiva ocorre, com o passar dos anos, em decorrncia de predisposio gentica ou de fatores exgenos como, por exemplo, a exposio a rudos intensos, o uso de medicamentos ototxicos e a presena de algumas comorbidades. Freqentemente, indivduos com idades entre 50 e 60 anos apresentam dificuldade para se comunicar ao telefone ou em locais de maior rudo ou, ainda, precisam aumentar o volume da televiso e do rdio para compreenderem as mensagens. Esses so sintomas que se relacionam, na maioria das vezes, com a presbiacusia, perda auditiva neurossensorial associada ao avano da idade afetando principalmente as freqncias altas e dificultando a discriminao das palavras com prejuzo comunicao. As queixas mais comuns se referem dificuldade para compreender o que dito (1).

Segundo a Organizao Mundial de Sade (OMS), a deficincia auditiva manifesta-se por reduo da sensibilidade ou da discriminao auditiva, por dificuldades de localizao do som ou por zumbidos (2). Essa deficincia pode ser medida por meio de tcnicas psicoacsticas, como a audiometria, testes de percepo de fala e avaliao do processamento auditivo ou por tcnicas eletrofisiolgicas, como a pesquisa dos potenciais auditivos evocados das vias auditivas centrais ou a pesquisa das emisses otoacsticas evocadas. A incapacidade auditiva verificada na medida em que essa deficincia afeta o desempenho e habilidade do indivduo de utilizar a audio nas atividades dirias, como percepo de sons da fala ou do ambiente. O handicap , portanto, definido como o impacto que essa deficincia causa no bem-estar e na qualidade de vida do indivduo, repercutindo nas relaes inter-pessoais, no equilbrio emocional, nas interaes ou nas aspiraes educacionais, sociais e ocupacionais (2).

Nos idosos, o Aparelho de Amplificao Sonora (AAS) o elemento propulsor do processo de reabilitao auditiva. A escolha da melhor prtese auditiva, assim como o acompanhamento de sua utilizao pelo usurio, constituem desafios para profissionais, como o fonoaudilogo e o otorrinolaringologista. Atualmente, os AAS so equipamentos individualizados, miniaturizados, digitais ou digitalmente programveis, versteis e dotados de controles que podem ser manipulados com relativa facilidade pelos usurios, at mesmo pelos mais idosos.

O benefcio advindo do uso do AAS pode ser definido como as vantagens ou os ganhos e ainda os proveitos obtidos pelo usurio com a amplificao sonora (3). Esse benefcio pode ser medido, e assim sendo, considerado positivo, negativo ou at neutro, na dependncia do efeito que o AAS exerce sobre o desempenho de cada indivduo (4). O benefcio pode estar relacionado exclusivamente ao alvio da sensao da perda auditiva perifrica, ou pode ocorrer independentemente da percepo do usurio, beneficiado pela melhora de sua audio nas atividades do dia-a-dia (3,5). Assim sendo, o benefcio trazido para o usurio da amplificao sonora varia entre os indivduos, principalmente em funo de sua motivao para o uso da amplificao sonora (6). Desta forma, muito importante uma avaliao clnica subjetiva do paciente quanto a sua percepo da deficincia auditiva, ou seja, o impacto que a privao auditiva traz diariamente ao indivduo, ou seja, o handicap.

Em audiologia, pode-se medir o benefcio proporcionado pelo uso do AAS por meio da diferena entre o desempenho do usurio em situaes sem e com o uso do AAS, em avaliaes feitas em idnticas condies (6,7). Esse benefcio pode ser tambm mensurado por meio de avaliaes objetivas - ganho funcional e testes de reconhecimento de fala - e subjetivas, com a aplicao de questionrios de auto-avaliao, comparando-se as situaes sem e com o uso do AAS (8,9).

A avaliao objetiva isolada do benefcio advindo do uso do AAS insuficiente, pois o ganho funcional verificado em cabina acstica, com tons puros e palavras foneticamente balanceadas, o que no se equipara, de forma alguma, s situaes da vida diria. Assim sendo, por um lado, importante que o benefcio seja avaliado nas situaes cotidianas, quando sons ambientais tambm competem com a voz humana; por outro lado, o redutor de rudo do AAS pode identificar o tom puro como um rudo ambiental nas freqncias graves e o ganho avaliado torna-se insuficiente. Nessa situao, o paciente pode apresentar algum benefcio com a amplificao sonora que pode ser detectado pelos mtodos subjetivos, ainda que o ganho avaliado objetivamente seja insuficiente.

Assim sendo, o questionrio Profile of Hearing Aid Benefit (PHAB) foi elaborado por COX e RIVERA em 1992 (10) com o intuito de avaliar o benefcio proporcionado pelo uso de amplificao sonora em duas situaes distintas sem e com o uso de AAS. Entretanto, em clnica, COX e ALEXANDER, em 1995, (11) desenvolveram uma verso reduzida desse questionrio, o Abbreviated Profile of Hearing Aid Benefit(APHAB), traduzido para a Lngua Portuguesa por Almeida (12) como Benefcio do Aparelho de Amplificao Sonora, em 1998.

O APHAB (Anexo 1) um questionrio de auto-avaliao no qual o indivduo quantifica as dificuldades experimentadas nas diferentes situaes de comunicao do cotidiano. considerado instrumento efetivo para fornecer dados padronizados com o objetivo de avaliar a incapacidade auditiva associada deficincia auditiva. composto por 24 perguntas agrupadas em subescalas que se referem compreenso da fala nos ambientes cotidianos em que se avaliam a facilidade de comunicao (FC) em ambientes sem sons competitivos, a reverberao (RV), que se refere qualidade da escuta em ambientes amplos, e o rudo ambiental (RA), que avalia a capacidade de perceber a fala na presena de rudos competitivos, alm das reaes dos usurios aos sons ambientais (AS), que verifica a averso dos usurios aos sons e no propriamente o benefcio. As trs primeiras escalas avaliam a compreenso da fala em diferentes situaes de vida diria e a ltima quantifica as reaes negativas aos sons ambientais. Nessa subescala, avalia-se o nvel de desconforto aos sons com o uso do AAS e no propriamente o benefcio.




Esse questionrio, quando respondido em situaes distintas - sem e com o uso do AAS - , permite a mensurao do benefcio do AAS. Todos os itens so afirmaes sobre as habilidades de comunicao ou percepo dos sons nas situaes de vida diria e os indivduos em teste devemindicar o quo freqentemente cada afirmao verdadeira. fornecida uma escala de resposta de sete pontos e, a cada opo de resposta, esto associados um termo descritivo e uma porcentagem, a saber, "sempre"(99%), "quase sempre"(87%), "geralmente (75%), metade das vezes (50%), "s vezes"(25%), "raramente"(12%) e "nunca"(1%). Quanto mais alto for o valor de cada subescala, maior a dificuldade experimentada nas situaes de comunicao do dia-a-dia. Cada item deve ser respondido duas vezes, uma para a condio sem AAS e a outra para a condio com o uso do AAS. O APHAB avalia tanto o desempenho isolado do indivduo, sem ou com o AAS, como o benefcio fornecido pelo amplificador, computando-se a diferena entre as duas situaes. Esse questionrio considerado um instrumento clnico de validao dos resultados obtidos com a amplificao sonora que pode ser til para quantificar a incapacidade do indivduo associada perda auditiva e reduo dela com o uso da amplificao.

O handicap ou a desvantagem auditiva tambm pode ser avaliado por meio da aplicao de questionrios. O questionrio Hearing Handicap Inventory for the Elderly (HHIE) foi desenvolvido por VENTRY e WEINSTEIN, em 1982 (13) e traduzido para o portugus por WIESELBERG, em 1997 (14) (Anexo 2). Esse questionrio foi designado para avaliar os efeitos auditivos e no auditivos - psicossociais - provocados pela deficincia auditiva em idosos. Esse instrumento pode ser utilizado no processo de reabilitao auditiva, na verificao da reduo perceptiva da desvantagem auditiva, na indicao do uso de amplificao sonora e, ainda, como um complemento na realizao de triagem audiomtrica (5). Com o objetivo de ser utilizado como procedimento de avaliao rpida em idosos com problemas auditivos, o HHIE apresenta uma verso simplificada denominada HHIE-S. Essa verso do questionrio foi validada em 1988 por BESS, LICHTENSTEIN e LOGAN (15).




O HHIE composto por 25 perguntas, nas quais 13 exploram as conseqncias emocionais da deficincia auditiva e 12 se referem aos efeitos sociais e situacionais dessa deficincia. Assim sendo, o handicap avaliado segundo critrios de pontuao. VENTRY e WEINSTEIN, em 1982, (13) propuseram uma forma de mensurar a desvantagem auditiva sendo que quatro pontos so atribudos s respostas "sim", dois pontos s respostas " s vezes" e zero ponto s respostas "no". Desta forma, a pontuao zero indica a ausncia de percepo da desvantagem auditiva, a qual maior quanto maior for a percepo do indivduo de sua desvantagem auditiva, ou seja, das dificuldades geradas pela deficincia auditiva.

O presente estudo tem como objetivo avaliar subjetivamente o benefcio do uso de prteses auditivas digitais em idosos no institucionalizados e identificar a sua percepo em relao aos efeitos psicossociais e situacionais advindos da desvantagem auditiva provocada pela deficincia auditiva.


CASUSTICA E MTODOS

Um estudo prospectivo foi realizado em uma amostra de convenincia de 30 idosos, com 60 ou mais anos de idade, no institucionalizados em tratamento otorrinolaringolgico e audiolgico ambulatorial em clnica privada, na cidade de Braslia-DF, entre julho e outubro de 2004. Foram selecionados 30 pacientes consecutivos com mais de 60 anos, alfabetizados, portadores de perda auditiva neurossensorial adquirida aps o perodo de aquisio da linguagem em uso de AAS digital bilateral, j em uso por um perodo mnimo de 3 meses e mximo de 24 meses, com mdia de 11,2 meses.

Todos os pacientes foram submetidos a uma avaliao otorrinolaringolgica prvia e tinham indicao do uso de AAS. Esses pacientes foram acompanhados pelos mesmos profissionais, um fonoaudilogo e um outro, otorrinolaringologista, durante o processo de indicao, seleo e adaptao do AAS. O protocolo de avaliao usado no estudo foi submetido e aprovado pelo comit de tica em pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de Braslia, sob o nmero 061/2003. Os participantes da pesquisa assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, conforme os preceitos ticos na realizao de pesquisas com seres humanos (Anexo 3).




Todos os pacientes responderam, no modo lpis/ papel, dois questionrios de auto-avaliao distintos, sem o auxlio de outras pessoas. Aps a leitura dos textos, cada indivduo selecionava as melhores opes expostas. Para a verificao do benefcio do uso de AAS, foi utilizado o questionrio de auto-avaliao APHAB, na verso de ALMEIDA (12) em duas situaes distintas - sem e com o uso do AAS.

O benefcio geral foi calculado por meio da diferena entre as mdias dos escores nas situaes sem e com o uso do AAS de cada uma das subescalas do questionrio. A subescala de averso aos sons foi utilizada para se verificar o nvel dedesconforto aos sons com o uso do AAS e no propriamente para o clculo do benefcio, calculado e apresentado separadamente para cada uma das respostas dadas a cada item de cada uma das subescalas que compem o questionrio. Os dados foram estratificados de acordo com o percentual de benefcio em menor que - 50%, de - 22% a - 10%, de - 9% a + 9%, de + 10% a + 22%, de + 23% a + 49% e acima de + 50%.

O benefcio pode ser negativo em algumas questes, j que o usurio pode fazer uma avaliao melhor sem o uso do AAS em relao situao com o seu uso. Assim, a maior pontuao percentual negativa corresponde ao maior grau de dificuldade, enquanto a maior pontuao positiva referese ao maior benefcio. Para se considerar que houve o benefcio com o uso do AAS, foi utilizado o ponto de corte de 22,0% entre os valores obtidos sem e com o uso do AAS, sendo que, a partir de 23%, considerou-se que houve um benefcio do ponto de vista subjetivo (11).

A desvantagem auditiva foi verificada por meio do questionrio de auto-avaliao HHIE, na verso de WIESELBERG (1987) (Anexo 2) (14), que observava os efeitos da perda auditiva nos aspectos emocionais e sociais, em indivduos idosos no institucionalizados. Esse questionrio foi aplicado apenas para a situao com o uso do AAS. Os pacientes foram ento estratificados de acordo com percepo de perda auditiva com o uso do AAS em: <= 16 (sem percepo), 17 a 42 (percepo leve) e > 42 (percepo severa) (14).

Os indivduos foram classificados segundo o grau de perda auditiva, levando-se em conta a melhor orelha, de acordo com a classificao de DAVIS E SILVERMAN, elaborada em 1970 (16), que utiliza a mdia aritmtica das respostas nas freqncias audiomtricas de 500, 1000 e 2000 Hz, e que classifica os graus de perdas auditivas para a mdia aritmtica em: leve, de 26 a 40 dB NA; moderada, de 41 a 70 dB NA; severa, de 71 a 90 dB NA e profunda, maior que 90 dB NA.


RESULTADOS

Todos os 30 pacientes responderam aos dois questionrios e no houve excluso de indivduos nesse estudo. Os indivduos selecionados para esse estudo estavam em uso de trs modelos diferentes de AAS digitais do mesmo fabricante. Dos 30 sujeitos, 18 pertenciam ao gnero feminino (60%) e 12 (40%) ao masculino. A idade dos sujeitos variou de 60 a 89 anos, sendo que 7 (23%) estavam na faixa etria de 60-69 anos; 9 (30%), na de 70-79 anos e 14 (47%), na de 80- 89 anos. Quando estratificados quanto perda auditiva, considerando-se a melhor orelha, 13 (43,3%) dos indivduos apresentavam perda auditiva leve e 17 (56,7%), perda auditiva neurossensorial moderada. Apenas um paciente apresentava perda auditiva severa na pior orelha e leve na melhor.

A Tabela 1 apresenta a distribuio das 180 respostas dadas pelos pacientes ao questionrio APHAB, para os seis itens relacionados com a FC. Em 1% (n=2) das respostas, a faixa de benefcio variou de -9% a + 9%. O benefcio foi negativo e variou de - 50% a -10% em 4,3% das respostas (n= 8), e, em 20% das respostas (n=11), variou entre 10% e 22%. Houve percepo subjetiva de benefcio com o uso do AAS - faixas de benefcio > 22,0% -, portanto, em 74,7% das respostas.




A Tabela 2 mostra a distribuio das respostas das questes referentes RV. Das respostas dadas, 48,7% (n=87) mostram interferncia da reverberao na qualidade da comunicao com o uso do AAS e benefcio, portanto, insuficiente - faixas de benefcio inferiores a 23% -, sendo que 11% (n=20) apresentaram benefcio menor que -50%,2,8% (n=5) variando de -22 a -10%, 13,9% (n=25) de -9 +9%. Houve benefcio para essa subescala em 51,7% das respostas avaliadas (n=93).




Em relao subescala RA (Tabela 3), observou-se que, em 35% das respostas dadas (n=63), no houve benefcio registrado pelos pacientes, sendo que 7,8% das respostas (n=14) apresentaram benefcio menor que -50%; 5,0% (n=09) variou de -22 a -10%, 7,2% (n=13) de -9 +9% e, em 65% das respostas (n=117), houve benefcio superior a 22%.




Pelos resultados da subescala de AS, Tabela 4, percebe-se que, com o uso do aparelho, registram-se 46,2% (n=83) de relatos de desconforto aos sons.




O Benefcio geral deste estudo foi, em mdia verificado em 63,8% das respostas avaliadas, levando-se em considerao que para a subescala de FC foi de 74,7%, RA 65% e RV 51,7% das respostas avaliadas.

Quando foi avaliada a percepo da desvantagem auditiva pelos pacientes - handicap - as perdas sociais foram percebidas por 48% dos pacientes, enquanto as emocionais foram percebidas por 52% dos pacientes. A desvantagem auditiva foi percebida em 48% das situaes avaliadas, somando-se o percentual de respostas para "sim" e "s vezes".

Quando se quantificou a percepo da desvantagem auditiva, observou-se que apenas 20% das respostas indicaram a no percepo da desvantagem auditiva pelos pacientes. Em 80,0% das outras respostas, os pacientes manifestaram a percepo da desvantagem auditiva em grau de leve a severo, conforme Tabela 5.




DISCUSSO

Segundo RUSSO (17), a perda auditiva , possivelmente, a deficincia mais devastadora no processo de envelhecimento. A presbiacusia, no raramente, o fator que sinaliza a chegada da terceira idade acarretando dificuldades na comunicao e gerando seqelas importantes de natureza emocional, social e ocupacional. O AAS um recurso recomendado que facilita a compreenso da fala. Entretanto, o uso desses dispositivos nem sempre proporciona ao usurio uma audio normal, ou igual quela anterior instalao da presbiacusia, principalmente em situaes em que h rudo competitivo.

Na concepo de SILVEIRA e RUSSO (18), a avaliao audiolgica convencional capaz de fornecer dados referentes ao tipo e grau de deficincia auditiva que o indivduo apresenta, sendo tambm imprescindvel a avaliao da maneira como essa deficincia afeta a qualidade de vida emocional e social dos pacientes por meio de outros instrumentos. Com esse propsito, os questionrios de auto-avaliao vm sendo mais empregados a cada dia com o intuito de avaliar e quantificar as conseqncias sociais e emocionais da deficincia auditiva. Esses questionrios so, portanto, instrumentos importantes na rotina clnica para verificar o benefcio do uso da prtese auditiva com relao compreenso da fala em ambientes mais silenciosos, com rudo ou ambiente reverberante alm da desvantagem advinda da deficincia auditiva. Alm disso, so instrumentos que complementam a avaliao objetiva, como o ganho funcional, os ganhos de insero e os testes de percepo de fala.

Sabe-se que as dificuldades de adaptao da prtese auditiva no idoso esto relacionadas ao grau de perda auditiva, compreenso da fala, s dificuldades de manuseio do controle de volume do AAS, motivao para o uso do AAS e aceitao da perda auditiva, bem como expectativa em relao ao benefcio da prtese auditiva. freqente, o indivduo mais idoso e com pouca insero social apresentar maior resistncia ao uso da prtese, por considerar que, economicamente e socialmente, no vale a pena investir em um aparelho to caro. Nesses casos, somente as avaliaes objetivas convencionais so insuficientes para avaliar e conduzir o processo de adaptao dos AAS.

Como os questionrios so tradues de outras lnguas e culturas, necessria a adaptao desses instrumentos para o nvel social, cultural, mental e cognitivo do grupo de paciente avaliado. Nessa pesquisa, observou-se que, durante o preenchimento dos questionrios, alguns pacientes solicitaram esclarecimento quanto ao que seria avaliado. Salienta-se a necessidade da construo de instrumentos de avaliao originalmente adequados a nossa realidade social, cultural e econmica.

As perdas auditivas moderadas representaram 56,7% da amostra estudada e as perdas auditivas leves representaram 43,3%. Os pacientes com perda auditiva moderada apresentam maior dificuldade de comunicao quando a mensagem emitida em intensidade fraca, de acordo com a distncia e com rudo competitivo. Observa-se, na prtica clnica, freqentemente em indivduos idosos, um comprometimento desproporcional entre a compreenso da fala e o grau de perda de audio. Assim sendo, perdas consideradas inicialmente leves podem se traduzir por comprometimentos profundos do processamento auditivo central, isto , as redundncias intrnsecas complementares inerentes ao sistema nervoso central tendem a diminuir com o avano da idade, segundo RUSSO (19). Esse fato pode justificar benefcios no muito satisfatrios com o uso do AAS em populaes com perda leve de audio verificado no presente estudo.

Cerca de 74% das respostas revelaram benefcio na subescala FC com o uso do AAS, portanto, foi a subescala que revelou benefcio com maior freqncia . O resultado verificado para ambientes silenciosos sugere que a deficincia auditiva nesses pacientes provavelmente no ocorre simplesmente por um declnio na audio, passvel de correo completa pela amplificao, mas tambm por possveis alteraes no processamento auditivo central. Assim sendo, o acompanhamento desses pacientes, seguido de orientaes e treinamento mais direcionado para essa dificuldade, deve ser encorajado para os profissionais que atuam com essa modalidade de tratamento.

Entretanto, a subescala RV apresentou o benefcio em menor freqncia das respostas, 51,7%. Esse resultado deve-se, certamente, acstica do ambiente e a distncia entre o falante e o ouvinte, visto que, em ambientes menos reverberantes mais fcil a discriminao dos sons de fala do que em ambientes reverberantes, que dificultam a comunicao. Resultado semelhante foi encontrado por FERRARI(20), BUCUVIC (21) e por ASSAYAG (22).

Em relao dificuldade para compreender a fala em ambientes ruidosos, subescala RA, verificou-se benefcio com prtese auditiva de 65%. comum o idoso sentir dificuldade na compreenso da fala, principalmente em ambientes ruidosos. Esse achado tambm est de acordo com a caracterstica da presbiacusia- rebaixamento nas altas freqncias - que dificulta a comunicao em ambientes ruidosos.

Na subescala AS, que enfoca a impresso do usurio frente intensidade dos sons ambientais, foram encontrados ndices elevados de relatos de desconforto com o AAS, 46,2% das respostas dadas. Esse resultado esperado em usurios de AAS, uma vez que ocorre o aumento da audibilidade dos sinais acsticos tornando-os mais intensos com a amplificao e incomodando, em graus variados, os usurios de AAS.

O benefcio mdio, obtido entre as trs subescalas (FC, RV, RA), foi verificado em 63,8% das respostas dadas.

No presente estudo, foram avaliados pacientes com perodo de adaptao entre 3 meses e 24 meses, com mdia de uso de 11, 2 meses. Assim sendo, o benefcio poderia ser verificado em um maior nmero de respostas se o perodo de adaptao tivesse sido maior, principalmente nos pacientes com trs meses de uso (n= 2). Esses resultados, em conformidade com a literatura cientfica, mostram benefcio com o uso do AAS. ALMEIDA em 1988 (10), verificou diferena estatisticamente significante favorvel ao uso do AAS e ASSAYAG, em 2003 (22), verificou benefcio global de 51,7% com o AAS.

A desvantagem provocada pela deficincia auditiva pode se expressar em situaes sociais e emocionais. No presente estudo, 48% dos pacientes relataram desvantagem no mbito social e 52% revelaram desvantagens emocionais. A percepo da desvantagem foi considerada severa segundo a metodologia utilizada em 40% das respostas. A percepo da desvantagem auditiva influencia diretamente no benefcio com o uso do AAS, pois, quanto maior a percepo da desvantagem, maior a possibilidade do indivduo utilizar o AAS e perceber os ganhos ou proveitos da escuta com AAS.

Deve-se ressaltar que o questionrio que avalia a desvantagem auditiva foi aplicado na vigncia do uso do AASI. Desta forma, a percepo da desvantagem auditiva anterior ao uso do AASI poderia ser maior, j que alguns pacientes (n=16) estavam em uso do AASI h mais de um ano.

Segundo WIESELBERG, em 1997, (14) a desvantagem auditiva diminui com o tempo de adaptao do AAS e a maior familiaridade do paciente com o seu uso, diminuindo a desvantagem provocada pela perda auditiva e reintegrando o indivduo em sua vida social. Ressalta-se a necessidade, portanto, de um acompanhamento sistemtico do paciente usurio de AAS, a fim de que possam ser reavaliados a adaptao e o benefcio, identificando as dificuldades e oferecendo as orientaes fonoaudiolgicas oportunas a cada caso, para a diminuio do ndice de abandono do uso do AAS.


A utilizao do questionrio APHAB pode evidenciar algumas dificuldades apresentadas pelos pacientes com o uso do AAS em vrias situaes de escuta, viabilizando o apoio por meio da discusso dessas dificuldades e a adoo de estratgias de comunicao que levam o paciente a fazer melhor uso do sinal sonoro que escuta.


CONCLUSO

Diante dos resultados da presente investigao, pode-se chegar s seguintes concluses: houve benefcioem mdia, 63,8% das respostas dadas pelos pacientes nessas subescalas avaliadas e h percepo da desvantagem auditiva em 80% dos pacientes do grupo avaliado.

A avaliao subjetiva do benefcio das prteses auditivas importante para a validao dos resultados da amplificao e deve ser incorporada rotina clnica dos fonoaudilogos. Os dados ressaltam a importncia da abordagem subjetiva na avaliao individual das conseqncias psicossociais geradas pela deficincia auditiva, viabilizando a busca de estratgias para a sua minimizao.


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1. Mestre em Cincias Mdicas pela Universidade de Brasilia. Diretora Proprietria da Audiolgica Aparelhos Auditivos.
2. Doutor em Cincias da Sade / Universidade de Braslia. Mdico do Servio de Otorrinolaringologia da Universidade de Braslia.
3. Ph.D. Professor Titular da Disciplina de Otorrinolaringologia da Universidade de Braslia.

Instituio: Universidade de Braslia.

Endereo para correspondncia:
SEP/S 715/915 CJ A BL D SL 412/413 - Centro Clnico Pacini
Asa Sul Braslia / DF - CEP 70390-155

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 20 de maro de 2007. Cod. 231. Artigo aceito em 11 de junho de 2007.
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