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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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ndice de Reconhecimento de Fala na Presbiacusia
Speech Discrimination Index in Presbycusis
Author(s):
Ana Tereza de Matos Magalhes1, Maria Valria Schmidt Goffi Gmez2
Palavras-chave:
Presbiacusia. Idoso. Audio. Perda auditiva neurossensorial. Testes auditivos.
Resumo:

Introduo: A presbiacusia tem sido mencionada como principal fator explicativo da dificuldade de compreenso de fala em indivduos idosos. Porm, na experincia clnica comum observar indivduos com o mesmo grau e configurao de perda auditiva neurossensorial possuem diferentes resultados do ndice de reconhecimento de fala (IRF). Objetivo: Verificar o grau e configurao audiomtrica e relacionar com habilidade de fala por meio de valores do Limiar de Recepo de Fala (SRT) e IRF de idosos com presbiacusia. Casustica e Mtodo: A amostra constou de pacientes do setor de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da FMUSP encaminhados para o setor de Audiologia para realizao da audiometria. Foi realizado o levantamento de 50 pronturios, sendo 27 do sexo masculino e 23 do sexo feminino com mdia de idade de 73,6 anos. Resultados: As perdas auditivas neurossensoriais simtricas e bilaterais mais frequentes foram grau mnino (41%) e moderado grau I (36%). Concluso: Os valores de IRF apresentaram resultados variados, observando-se que mesmo a perda auditiva sendo mnima por vezes a discriminao era muito pobre ou nas perdas auditivas moderadas por vezes o IRF apresenta limites normais.

INTRODUO

A expectativa de vida vem aumentando em toda populao mundial, no Brasil o nmero de idosos com idade superior a 60 anos ultrapassa 10 milhes (1). Assim, surge a necessidade de compreendermos melhor as alteraes decorrentes do processo de envelhecimento, j que estas ocorrem em vrios sistemas do organismo, entre eles a audio.

A comunicao um ato fundamental na vida, sendo a audio fator importante para que esta ocorra de forma efetiva. A perda auditiva decorrente da idade tem impacto negativo na qualidade de vida destes indivduos, pois interfere na comunicao, sobretudo em ambientes ruidosos, dificultando as relaes sociais.

A perda auditiva um dos problemas crnicos mais freqentemente encontrados nos idosos e tende aumentar com a idade, acometendo 33% daqueles entre 65 e 74 anos, 45% das pessoas entre 75 e 85 anos e 62% das pessoas acima de 85 anos de idade (2).

Presbiacusia o termo que se refere perda auditiva associada ao processo de envelhecimento, ocorrendo em ambos os sexos (2). Aparece a partir de 60 anos de idade e depende de vrios fatores. Tantos fatores endgenos, como hereditariedade ou doenas (por exemplo: diabetes e hipertenso), como fatores exgenos, nutrio, stress e exposio ao rudo podem influenciar na perda de audio (3).

O audiograma da presbiacusia inicia-se com perda auditiva nas freqncias mais altas, depois as freqncias mais baixas tambm so afetadas (3). Isto , geralmente a audio encontra-se normal nas freqncias de 250 a 2000 Hz, com declnio gradual para uma perda auditiva leve em altas freqncias nas mulheres e perda auditiva moderada mais abrupta nos homens (2). Alm destas caractersticas, a performance da inteligibilidade de fala pode cair em torno de 35% (4).

Apesar da sua alta incidncia, no h como prevenir, curar ou descobrir o fator desencadeante da presbiacusia, apenas sabe-se que aparece e inevitvel.

SCHUKNECHT (5) descreveu quatro classificaes de presbiacusia: sensorial, caracterizada pela perda de clulas ciliadas e atrofia do nervo auditivo no giro basal da cclea. O audiograma caracterizado por perda auditiva com queda abrupta em altas freqncias e uma reduo proporcional da habilidade de reconhecimento de fala. A presbiacusia neural est associada degenerao primria dos neurnios e das fibras nervosas, com a perda maior na base da cclea. caracterizada pela perda da habilidade de reconhecimento de fala desproporcional perda auditiva para tons puros. A presbiacusia metablica ou da estria vascular envolve a atrofia da estria vascular. O audiograma tem configurao com perda auditiva plana e as habilidades de fala tendem a se manter intactas apesar da perda. Por ltimo, presbiacusia mecnica que envolve o enrijecimento da membrana basilar ou outras desordens mecnicas, o que interfere na transmisso do som dentro da cclea. A perda auditiva lentamente progressiva, com configurao descendente.

A presbiacusia tem sido mencionada como principal fator explicativo da dificuldade de compreenso de fala em indivduos. Porm, esta dificuldade relatada pelo idoso parece ser maior do que a esperada quantidade de perda auditiva (6). Pois, em muitos casos, pela configurao audiomtrica recomenda-se protetizao auditiva com bom prognstico, porm observa-se que mesmo com a amplificao sonora, a dificuldade de compreenso da fala continua sendo queixa mais comum entre estes indivduos (7).

Os testes de fala so meios importantes para avaliar a funo comunicativa receptiva dos idosos de uma forma quase sistemtica. Fornecem informaes objetivas e facilmente quantificveis sobre alteraes derivadas da perda auditiva e habilidade de reconhecimento de fala em diferentes situaes (2).

A habilidade de fala pode ser avaliada tanto por meio do limiar da logoaudiometria, em que pesquisada a menor intensidade na qual o indivduo consegue identificar 50% das palavras familiares que lhe so apresentadas, seria o Limiar de Recepo de Fala (LRF) ou o termo mais utilizado Speech Reception Threshold (SRT). Ou por meio do ndice de Reconhecimento de Fala (IRF) em que avalia a discriminao da fala por meio de uma lista de monosslabos e disslabos 40 dB acima dos limiares de recepo de fala (SRT) (8).

Na experincia clnica comum observar indivduos com o mesmo grau e configurao de perda auditiva neurossensorial que possuem diferentes resultados do IRF (9).

Alm dos testes da fala fornecerem dados sobre a eficincia comunicativa dos indivduos, proporcionam tambm, informaes para o diagnstico diferencial relacionadas ao local da leso e auxiliam na seleo da prtese auditiva individual.

O presente trabalho teve como objetivo verificar o grau e configurao audiomtrica e relacionar com a habilidade de fala por meio de valores do SRT e IRF de indivduos com presbiacusia.


CASUSTICA E MTODO

O trabalho foi aprovado pelo Comit de tica e Pesquisa - CAPPesp da Diretoria do Hospital das Clnicas e da FMUSP pelo protocolo nmero 1042/06.

A amostra constou de pacientes do setor de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo encaminhados para o setor de Audiologia para realizao da audiometria que apresentaram os seguintes critrios de incluso:

- Indivduos com idade superior a 60 anos de ambos os sexos, com base no critrio estabelecido pelo Estatuto do Idoso (10).

- Apresentarem configurao audiomtrica de presbiacusia, isto , hipoacusia bilateral e simtrica, geralmente com curva audiomtrica descendente e acima de 2000 Hz no estgio inicial, sendo que as freqncias graves tambm podem ser afetadas (11).

- Dados da Logoaudiometria: SRT - os resultados so expressos em dB, que representam o reconhecimento de 50% do material de fala, deve ser encontrada em nveis de at 10 dB acima dos limiares mdios de 500, 1000 e 2000 Hz (Redondo e Lopes Filho, 1997). E IRF que so expressos em porcentagem de acertos e consideram limites normais entre 90 e 100% e limites alterados abaixo de 89% (12).

- Sem passado otolgico ou cirurgia de orelha.

- No sejam portadores de sndromes congnitas ou malformaes craniofaciais.

Na audiometria os limiares de audibilidade foram classificados segundo BIAP - (Recomendao nmero 02/1 bis, 1996) (13) sendo a mdia dos limiares auditivos das freqncias de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz:

- limiares auditivos normais: at 20 dB;

- perda auditiva mnima: de 21 dB a 40 dB ;

- perda auditiva moderada:
Grau 1: de 41 dB a 55 dB
Grau 2: de 56 dB a 70 dB

- perda auditiva severa:
Grau 1: de 71 dB a 80 dB
Grau 2: de 81 dB a 90 dB

- perda auditiva profunda:
Grau 1: de 91 dB a 100 dB
Grau 2: de 101 dB a 110 dB
Grau 3: de 111 dB a 119 dB

- anacusia: 120 dB

A classificao dos valores de IRF foram baseados em JERGER e SPEAKS (14):

- Limites normais: 100% a 92%
- Ligeira dificuldade: 88% a 80%
- Dificuldade moderada: 76% a 60%
- Discriminao pobre: 56% a 52%
- Discriminao muito pobre: abaixo de 50%

Foi realizado o levantamento de 50 pronturios de pacientes atendidos que apresentaram os critrios de incluso, sendo estes 27 do sexo masculino e 23 do sexo feminino, com mdia de idade de 73,6 anos (faixa etria de 60 a 97 anos).

Os resultados foram colocados em tabelas para melhor visualizao.


RESULTADOS

Observa-se a presena de grau mnino, moderado grau I e II e severo, sendo as mais frequentes grau mnino (41%) e moderado grau I (36%). Comparando a classificao do IRF com a perda auditiva mnima, observa-se que a maioria est dentro dos limites da normalidade (51%) e ligeira dificuldade (32%). Porm, na perda auditiva moderada grau I oberva-se nmero igual de pacientes com limites dentro da normalidade (25%), ligeira dificuldade (25%) e dificuldade muito pobre (25%) de IRF (Tabela 1).




Na Tabela 2 encontra-se a mdia dos valores de IRF (em %) nos diferentes graus de perda auditiva, nota-se queo valor de IRF diminui conforme a perda auditiva aumenta, porm esta diminuio pequena.




Os dados de IRF tambm foram comparados com valores de SRT dos pacientes e realizado porcentagem mdia do IRF (Tabela 3).




Nos limites normais de SRT, os valores de IRF encontram-se dentro da normalidade (41%) ou com ligeira dificuldade (36%). Entre 26-40 dBNA a maioria encontra-se dentro da normalidade (41%), seguido de ligeira dificuldade (21%) e discriminao muito pobre (15%). O SRT de 41-55dBNA, a classificao de ligeira dificuldade (35%) mais frequente, aps limites normais, dificuldade moderada e discriminao muito pobre aparecem com mesma frequncia (19%). Entre 56-70dBNA, a dificuldade mais frequente moderada e discriminao muito pobre (36,5% cada) (Tabela 4).




DISCUSSO

Observa-se predomnio do sexo masculino na amostra total com 54% sendo o sexo feminino com 46%, o que concorda com a literatura que observa perda auditiva significativamente maior em homens (15).

A configurao audiomtrica foi bilateral, simtrica, descendente (16), de grau mnimo e moderado grau I e II e severo. O que concorda com os achados de BARALDI et al (17) que em seu estudo, comparando idosos com e sem hipertenso, encontraram no grupo sem hipertenso 38,9% com grau leve e 27,8% com grau moderado e 2,8% com grau severo, assemelhando-se ao resultados encontrados neste estudo.

Observa-se que os limiares de SRT dentro da normalidade tm os melhores resultados de reconhecimento de fala, o que esperado para alteraes cocleares. Porm, os resultados mostram em alguns casos com o mesmo grau de perda auditiva foram encontrados diferentes valores de IRF. Apesar do aumento da perda auditiva, encontra-se uma distribuio homogenea de valores de reconhecimento de fala, que variaram dos melhores resultados (96%) aos piores (6%). Mesmo em orelhas normais tambm foram encontradas porcentagem de idosos com pobre performance de reconhecimento de fala.

Acredita-se que h um decrscimo na performance de inteligibilidade de fala com o avanar da idade. JERGER(18) j mencionava em seu estudo a desproporo de perda auditiva, quando a mdia da perda auditva estava entre 40-49dB, o valor mximo de discriminao de fala decline 80% de reconhecimento no grupo de 10-19 anos de idade para 60% no grupo de 80-89 anos. Como tambm suspeitava que a discriminao da fala possui evidncias mais centrais do que perifricas para explicar este fenmeno.

YOSHIOKA e THORNTON (19) comentam que a discriminao da fala muito afetada quando a perda auditiva leve, mudando o reconhecimento de "muito bom" para "razovel" quando a rampa da perda auditiva ngreme. Para perdas moderadas a severa todos apresentaram discriminao pobre, entretanto em nossos achados foi possvel observar que mesmo em perdas moderadas h grande variedade na habilidade de fala.

Estudos sobre o processamento auditivo temporal de idosos que se queixam de dificuldade de entender a fala mostram que essa habilidade no guarda relao com o nvel de perda auditiva. PINHEIRO e PEREIRA (20) avaliaram o processamento auditivo em idosos e encontraram a habilidade de sntese binaural alterada, que seria responsvel pela compreenso em lugares ruidosos. Ento, a queixa de dificuldade de compreenso auditiva mesmo com uma boa adaptao de aparelho de amplificao sonora poderia ser explicada por uma disfuno do processamento auditivo (7). Assim, estudos sobre o processamento auditivo seriam interesantes, uma vez que o IRF realizado em situao ideal de escuta o que no ocorre na realidade diria (21).

Diante de tantos ndices diferentes de habilidade de fala nos idosos, achamos que a classificao de SCHUKNECHT (5) fundamentada e necessria para compreendemos melhor as diferenas entre as presbiacusias.

Embora existam vrias explicaes e sugestes sobre a relao de discriminao pobre e nvel de audio, o que encontramos a real dificuldade de compreenso de fala no idoso, sendo assim prejudicada sua comunicao e consequentemente afetada sua qualidade de vida.


CONCLUSO

A amostra apresentou como mdia de idade de 73,6 anos, com predomnio de sexo masculino (54% e 46% feminino), com perda auditiva neurossensorial simtrica, bilateral e descendente de grau predominantemente mnino e moderado grau I segundo BIAP (13).

Os valores de IRF, baseado em JERGER e SPEAKS (14), e de SRT segundo a perda auditiva, apresentaram resultados variados, observando-se que mesmo a perda auditiva sendo mnina a discriminao por vezes era muito pobre ou nas perdas auditivas moderadas apresentavam limites normais de IRF.


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1. Aprimoramento. Fonoaudiloga.
2. Fonoaudiloga Doutora em Cincias dos Distrbios da Comunicao pela UNIFESP - EPM. Fonoaudiloga da Clnica de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da FMUSP.

Instituio: Hospital das Clnicas - Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de So Paulo.

Endereo para correspondncia: Ana Tereza de Matos Magalhes
Rua Santa Cruz, 805 - Apto 102 - Vila Mariana - So Paulo / SP - CEP 04121-000
Telefone: (11)3289-1987 - E-mail: atmmagalhaes@yahoo.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 2 de abril de 2007. Cod. 236. Artigo aceito em 17 de abril de 2007.
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