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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Perfil do Atendimento Otorrinolaringolgico em Clnica Privada
Otorhinolaryngology Clinics Profile in Private Practice
Author(s):
Lucas Gomes Patrocnio1, Daniel Matos Barreto2, Luciano Freitas Rodrigues2, Tomas Gomes Patrocinio2, Sonia Regina Coelho3, Jos Antonio Patrocinio4
Palavras-chave:
Internato e residncia. Otorrinolaringologia. Prtica privada. Determinao de necessidades de cuidados de sade. Currculo.
Resumo:

Introduo: Investimento financeiro e intelectual so necessrios ao otorrinolaringologista ingressando no mercado de trabalho para criao da sua prpria clnica privada, sendo indispensvel o conhecimento da clientela para o planejamento e gerenciamento desta. Objetivo: Descrever o perfil do paciente que procura o atendimento otorrinolaringolgico clnico e cirrgico em uma clnica privada. Mtodos: Analise retrospectiva de todos as consultas, exames e cirurgias realizadas em uma nica clnica privada de Otorrinolaringologia no perodo de 1o de janeiro a 31 de dezembro de 2005. Resultados: Foram realizados 15.235 atendimentos, sendo 9.183 (60%) consultas novas, 2.746 (18%) retornos e 3.306 (21%) ps-operatrio. Enfermidades otolgicas foram as mais freqentes (4.937 consultas), seguidas das nasais (4.094) elarngeas (2.291). Foram realizadas 1.181 cirurgias pelo autor snior, sendo mais freqentes turbinectomia/septoplastia (416) e tonsilectomia/adenoidectomia (386). Ressalta-se o grande nmero de cirurgias plsticas faciais realizadas (117). Os exames complementares mais realizados foram videonasolaringoscopia (1.954), audiometria (1.614) e imitanciometria (1.404). Concluses: Conhecimento em otorrinolaringologia geral importante visto que as principais reas apresentaram-se bastante freqente na clnica privada, sendo mais comuns consultas em otologia, rinologia e laringologia, respectivamente. As cirurgias mais simples, turbinectomia/septoplastia e adenotonsilectomia, representam a maior parte do movimento cirrgico da clinica otorrinolaringolgica, que pode ser ampliado com a atuao atravs de uma sub-especialidade. No presente caso, a plstica facial representou uma parte importante das cirurgias realizadas.

INTRODUO

Nas ltimas dcadas, o tempo alocado para as disciplinas de especialidades como a otorrinolaringologia, em geral, tem declinado ao passo que o conhecimento das doenas tem crescido exponencialmente (1). Vrias pesquisas sobre avaliao de necessidades educacionais tm sido realizadas na otorrinolaringologia (2,3,4,5), entretanto nenhum estudo descreveu o perfil do paciente e suas mais freqentes queixas.

Entende-se a Otorrinolaringologia, atualmente, como uma especialidade mdica de ampla rea de atuao, muitas vezes disputando mercado com outras reas mdicas, como cirurgia plstica, cirurgia buco-maxilo-facial, cirurgia de cabea e pescoo, neurologia, entre outras. Dentro da especialidade possvel optar por diversas subespecialidades. Ao fim de sua residncia ou especializao, o jovem otorrinolaringologista ingressa no mercado de trabalho, muitas vezes, com o objetivo de abrir sua prpria clnica privada. Para isso, necessrio investimento tanto financeiro (espao fsico, aparelhos propeduticos) quanto intelectual (escolher ou no uma sub-especialidade de atuao). Conhecer o paciente que nos procura essencial para o planejamento e gerenciamento da carreira profissional.

O presente trabalho tem o objetivo de descrever o perfil do paciente que procura o atendimento otorrinolaringolgico clnico e cirrgico em uma clnica privada, onde no h atendimento do SUS (Sistema nico de Sade).


CASUSTICA E MTODO

Foram analisados todos os atendimentos (consultas e exames) e cirurgias realizadas em uma nica clnica privada de Otorrinolaringologia no perodo de 1 de janeiro de 2.005 a 31 de dezembro de 2.005. Todas as consultas e cirurgias foram realizadas pelo autor snior, sendo que os exames e procedimentos auxiliares foram realizados por mdicos assistentes e fonoaudilogas.

A clnica em questo conta com grande movimento de referncia por outros mdicos e profissionais da rea da sade, pois se situa dentro de um hospital de referncia da regio e possui equipamentos de diagnstico em audiologia (audimetro, imitancimetro, BERA, vectoeletronistagmografia, otoemisses acsticas), videodiagnstico (nasolaringofibroscpio rgido e flexvel e laringoestroboscpio) e polissonografia. A referncia por outros otorrinolaringologistas baixa, sendo excludos todos exames complementares que foram solicitados fora da clnica, ou seja, que no foram provenientes de consultas realizadas pelo autor snior.

As consultas foram classificadas em uma das trs classes: "Consulta Nova" - paciente que compareceu consulta pela primeira vez nos ltimos 30 dias; "Retorno" -paciente que compareceu consulta para avaliao clnica anterior nos ltimos 30 dias; "Ps-operatrio" - paciente que retorna nos primeiros 90 dias aps a realizao de um procedimento cirrgico.

Em cada consulta foram analisados: data da consulta, idade e sexo do paciente, motivo da consulta (queixa principal) e diagnstico provvel. Ademais, foram analisados os procedimentos diagnsticos, exames complementares e cirurgias realizados. Foram excludos os pequenos procedimentos sob anestesia local, por motivo de melhor representao na anlise.

Os dados foram compilados em um banco de dados e analisados no Epiinfo 2000. O presente estudo foi aprovado pelo Comit de tica da instituio no parecer no 035/2004.


RESULTADOS


Consultas

Foram realizados 15.235 atendimentos durante o ano de 2005, sendo 9.183 consultas novas (60%) 2.746 consultas de retorno (18%) e 3.306 retornos de psoperatrio (21%). Foram 51% dos pacientes do sexo masculino e 49% do sexo feminino. Idade variou de 0 a 95 anos, com mdia de 30,4 18 anos (Figura 1).


Figura 1. Distribuio dos pacientes atendidos em clnica privada de otorrinolaringologia durante o ano de 2005 de acordo com a idade.



Em relao distribuio anual, aproximadamente homognea, com uma diminuio do movimento de consultas nos meses de novembro e dezembro, poca mais freqente de frias (Figura 2).


Figura 2. Distribuio das consultas segundo o ms em clnica privada de otorrinolaringologia durante o ano de 2005.



As principais enfermidades foram agrupadas, para fins de anlise, em 7 grupos (Figura 3):


Figura 3. Distribuio das consultas segundo o grupo nosolgico em clnica privada de otorrinolaringologia durante o ano de 2005.



I - Enfermidades Infecciosas Agudas: 2.282 consultas

As patologias mais freqentemente encontradas foram: rinossinusite aguda (798), otite mdia aguda (791), IVAS (691) e tonsilite aguda (571).

II - Enfermidades Rinolgicas: 4.094 consultas

As patologias mais freqentemente encontradas foram: rinite alrgica (1.756) rinite hipertrfica (1.051), desvio de septo nasal (866) e epistaxe anterior (221).

III - Enfermidades Otolgicas: 4.937 consultas.

Grupo dividido em (Figura 4): IIIa - Enfermidades da orelha interna: disacusias com ou sem vertigem e zumbido (1.776), vertigem (366) e zumbido (353) isolados; IIIb - Enfermidades da orelha mdia e mastide: otite mdia com efuso (277) e otite mdia crnica simples (271); IIIc - Enfermidades da orelha externa: impactao de cerume (1.094) e otite externa (417).


Figura 4. Distribuio das queixas otolgicas segundo o subgrupo nosolgico em clnica privada de otorrinolaringologia durante o ano de 2005.



IV - Enfermidades Larngolgicas: 2.291 consultas.

Divide-se em: IVa - Queixas de globus e tosse: 1.498 consultas divididas principalmente entre laringite por refluxo gastroesofgico e laringite aguda; IVb - Queixas de disfonia: 793 consultas, predominando ndulo de pregas vocais.

V - Enfermidades Bucofarngeas: 1.175 consultas.

As patologias mais freqentemente encontradas foram hipertrofia de tonsila farngea (431), tonsilite crnica e de repetio (379) e hipertrofia de tonsila palatina (365).

VI - Sndrome da Apnia e Hipopnia Obstrutiva do Sono (SAHOS): 566 consultas.

VII - Tumores Crvico-Faciais: 141 consultas Principalmente ndulos cervicais e adenomegalias (99), mas tambm bcio (19) e neoplasias malignas (19).

A porcentagem de retornos foi de 19,2%, com maiores ndices para os casos de neoplasias de cabea e pescoo e doenas da orelha mdia, mastide e orelha interna (Tabela 1).




Exames Complementares

Os exames complementares, realizados na clnica por mdicos e fonoaudilogos esto representados na Figura 5. Os mais realizados foram videonasolaringoscopia e videolaringoestroboscopia (1.954) e audiometria (1.614), geralmente com imitanciometria (1.404). Outros procedimentos so realizados menos freqentemente: BERA (619), vectoeletronistagmografia (343) e polissonografia (166).


Figura 5. Exames complementares realizados em clnica privada de otorrinolaringologia durante o ano de 2005.



Cirurgias

Foram realizados 1.181 procedimentos cirrgicos pelo autor snior no ano de 2005. As mais freqentes foram turbinectomia associada ou no a septoplastia (416) e tonsilectomia associada ou no a adenoidectomia (386). Interessante ressaltar o grande nmero de cirurgias plsticas faciais realizadas (117), devido referncia da clnica em cirurgia esttica facial. O principal representante deste grupo foram as rinoplastias (94), que somam 80% das cirurgias estticas realizadas, com menor participao das cirurgias de otoplastia e rejuvenescimento facial (ritidoplastia, blefaroplastia, frontoplastia) (Tabela 2).




As cirurgias otolgicas realizadas foram miringotomia para colocao de carretel (22), timpanoplastia (14), mastoidectomia (14) e estapedotomia (12). As cirurgias endonasais foram sinusectomia com ou sem polipectomia (43), cauterizao da artria esfenopalatina (5), acesso tumores de hipfise (3), papiloma invertido (2), plipo de Killian (1), dacriocistorrinostomia (1) e descompresso de rbita por oftalmopatia de Graves (1). Entre as cirurgias de cabea e pescoo, foram realizadas parotidectomias (7), tireoidectomia (6) e cirurgias de neoplasias malignas de laringe, lngua e trgono retromolar com esvaziamento cervical (4).


DISCUSSO

necessrio estabelecer o tipo de relacionamento entre graduao em Medicina e Residncia Mdica, com proposio de aclarar seu papel no ensino mdico. Para tanto, se faz necessria a definio precisa dos objetivos educacionais que se pretende atingir com a residncia (6,7,8), sendo imprescindvel o conhecimento do perfil do paciente que se ir lidar na pratica diria da profisso.

A Otorrinolaringologia uma especialidade intermediria, situada entre as 15 primeiras no Brasil e abriga 1,6% dos mdicos especialistas brasileiros (9), oferecendo possibilidades de atuao tanto em reas de habilidades tcnicas como nas bases cognitivas, oferecendo aos profissionais que por ela optarem um mercado de trabalho promissor.

Apesar da distribuio das consultas clnicas em todo o campo de conhecimento da Otorrinolaringologia e Cirurgia Crvico-Facial, o principal movimento do consultrio do otorrinolarinologista geral foi a otologia. Rinologia, otorrinolaringologia geral e laringologia aparecem em seguida, nesta ordem.

Considera-se fundamental a presena de aparelho de videonasolaringoscopia e audiometria e imitanciometria. A maior freqncia de realizao destes exames complementares fidedigna, visto que somente os exames solicitados pelo autor snior foram considerados, conforme j citado. Outros procedimentos, menos realizados, porm de maior remunerao so BERA, vectoeletronistagmografiae polissonografia. O rendimento mensal associa-se positivamente com aqueles que apresentam maior nmero de aparelhos para realizao de exames complementares nos consultrios (10).

Em relao s cirurgias, reconhece-se o papel principal de procedimentos cirrgicos simples como turbinectomia com ou sem septoplastia e tonsilectomia com ou sem adenoidectomia que, somadas, representam aproximadamente 68% do total de cirurgias. Percebe-se ainda, o grande nmero de cirurgias de uvulopalatofaringoplastia, atribudo a presena de aparelho de polissonografia na clnica.

Em relao s cirurgias estticas faciais, verifica-se que a procura pelo otorrinolaringologista ocorreu, no presente estudo, em grande porcentagem. Muitos pacientes "aproveitam" a realizao de outros procedimentos (principalmente septoplastias e turbinectomias) e acrescentam procedimentos estticos. O profissional que desenvolve habilidades cirrgicas em uma subespecialidade, no presente caso a cirurgia esttica facial, tem aumentada a sua possibilidade cirrgica e de remunerao (10).


CONCLUSES

Conhecimento em otorrinolaringologia geral importante visto que as principais reas apresentaram-se bastante freqente na clnica privada, sendo mais comuns consultas em otologia, rinologia e laringologia, respectivamente. Os exames complementares mais freqentemente realizados foram videonasolaringoscopia, audiometria e imitanciometria. As cirurgias mais simples, turbinectomia/septoplastia e adenotonsilectomia, representam a maior parte do movimento cirrgico da clinica otorrinolaringolgica, que pode ser ampliado com a atuao atravs de uma sub-especialidade. No presente caso, a plstica facial representou uma parte importante das cirurgias realizadas.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Lund VJ. Otolaryngology in the curriculum - 10 years on: discussion paper. J R Soc Med 1990;83(6):377-9.

2. Carr MM, Brown DH, Reznick RK. Needs assessment for an undergraduate otolaryngology curriculum. Otolaryngol Head Neck Surg 1999;120(6):865-8.

3. Ganzel TM, Martinez SA. Are we teaching medical students what they need to know? Otolaryngol Head Neck Surg 1989;100(4):339-44.

4. Lawrence PF, Alexander RH, Bell RM, Folse R, Hayne JL, Laub VW. Determining the content of a surgical curriculum. Surgery 1983;94:309-15.

5. Spivey BE. A technique to determine curriculum content. J Med Educ 1971;46:269-74.

6. Marcondes E. Residncia mdica e ps-graduao. Rev Hosp Clin Fac Med Univ So Paulo 1975;30(4):384-6.

7. Kassab P. Residncia mdica e ps-graduao. Rev Assoc Med Bras 1978;24(6):185.

8. Patrocnio LG, Silveira GC, Patrocnio TG, Patrocnio JA. Avaliao de necessidades para um currculo de otorrinolaringologia na graduao. Rev Bras Otorrinolaringol 2002;68(1):107-11.

9. Machado MH. Perfil do mdico no Brasil: anlise preliminar. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1996.

10. Maniglia JV. Perfil do egresso da residncia em otorrinolaringologia e cirurgia de cabea e pescoo da Santa Casa de Franca, da Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto e da Clnica Maniglia. [Tese de Livre Docncia]. Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto; 2004.










1. Otorrinolaringologista. Mdico do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
2. Mdico. Residente do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
3. Mestre. Chefe da Diviso de Laringologia e Voz do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
4. Professor Titular. Chefe do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.

Instituio: Departamento de Otorrinolaringologia, Hospital Santa Genoveva, Uberlndia / MG, Brasil.

Endereo para correspondncia: Lucas Gomes Patrocinio
Rua XV de Novembro, 327 / Apt. 1600 - Centro - Uberlndia / MG - CEP 38.400-214
Telefone/Fax:(55) 34 - 215-1143 - E-mail: lucaspatrocinio@triang.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 10 de janeiro de 2007 . Cod. 208. Artigo aceito em 3 de junho de 2007.
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