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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 3  - Jul/Set Print:
Case Report
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Terapia Miofuncional Oral Aplicada a Dois Casos de Sndrome da Apnia Obstrutiva do Sono Grave
Oral Myofunctional Therapy Applied on Two Cases of Severe Obstructive Sleep Apnea Syndrome
Author(s):
Danielle Barreto e Silva Pitta1, Andr Farias Pessoa2, Andr Luiz L. Sampaio3, Raimundo Nonato Rodrigues4, Marilene Guiot Tavares5, Paulo Tavares6
Palavras-chave:
Terapia miofuncional. Apnia obstrutiva do sono. Roncos.
Resumo:

Introduo: A fonoaudiologia pode representar uma nova alternativa no tratamento de pacientes com sndrome da apnia obstrutiva do sono a partir da terapia miofuncional oral. A terapia miofuncional consiste na adequao das estruturas e funes do sistema estomatogntico, por meio de exerccios funcionais (respiratrios, de suco, deglutio e mastigao) e musculares visando o aumento do tnus e mobilidade das estruturas orais e cervicais, que em pacientes apnicos podem estar comprometidas. Objetivo: Com o objetivo de relatar a eficcia da interveno fonoaudiolgica - terapia miofuncional oral - dois pacientes com sndrome da apnia obstrutiva do sono grave foram submetidos terapia miofuncional por um perodo de 16 semanas em razo da inadaptao ao aparelho de presso positiva nas vias areas e ao aparelho intraoral. Aps o perodo de tratamento foram realizados exames, aplicao de questionrios e escalas de controle. Relato dos Pacientes: So relatados dois pacientes com diagnstico clnico e polissonogrfico de sndrome da apnia obstrutiva do sono grave. Paciente 1, masculino, 37 anos, ndice de massa corporal 26,29 kg/m2, queixa de roncos, paradas respiratrias em sono, despertares freqentes, alteraes do humor, dificuldade de concentrao e dficit de memria. Paciente 2, feminina, 55 anos, ndice de massa corporal 22,2 kg/m2, queixa de roncos intensos, dificuldade respiratria durante o sono, lapsos de memria freqentes. Consideraes finais: Os resultados obtidos mostram remisso do quadro e melhora ou normalizao dos parmetros analisados, como ndice de apnia/hipopnia, saturao de oxignio, ndice de microdespertares, sonolncia diurna e roncos, sugerindo a eficcia do tratamento nos casos estudados.

INTRODUO E REVISO DE LITERATURA

A sndrome da apnia obstrutiva do sono (SAOS) uma condio patolgica que implica em srias repercusses negativas sade e funcionalidade do indivduo como, sonolncia excessiva diurna (SED), arritmias cardacas, hipertenso arterial, alm de conseqncias comportamentais e sociais. A alta prevalncia e amplo espectro de comprometimento impem o tratamento dessa condio (1).

Dentre as condutas existentes para o tratamento da SAOS destacam-se a presso positiva em vias areas superiores (CPAP) que reconhecidamente eficaz e, usualmente, o mtodo de primeira escolha, as dietas, os aparelhos ortodnticos intra-orais e as cirurgias que tm indicao em casos especiais (2, 3). A terapia miofuncional oral fonoaudiolgica pode representar uma nova opo teraputica para pacientes roncadores com ou sem SAOS como ser referenciado mais adiante (4, 5).

O CPAP, idealizado por SULLIVAN et al. (6), o tratamento de presso positiva contnua nas vias areas superiores (VAS) por meio de uma mscara nasal ou oronasal. Esta modalidade teraputica considerada a mais eficaz nos casos de pacientes portadores de SAOS, principalmente aqueles que apresentam queda expressiva da saturao de oxignio (SaO2), SAOS moderada e SAOS grave. Algumas limitaes sua utilizao esto ligadas mscara que pode causar desconforto, rejeio pelo cnjuge, vazamento de ar gerando alergias e irritaes cutneas que ocorrem em pacientes respiradores orais em decorrncia de obstruo nasal o que pode culminar com a baixa adeso.

A perda de peso corporal por meio de dietas ou cirurgias outra opo teraputica. Redues ponderais de 10% do peso corporal podem levar reduo de at 50% do ndice de apnia/hipopnia (IAH), e com 20% de perda do peso corporal, o paciente pode tornar-se assintomtico. Esse fato explicado pela perda de tecido adiposo em todo o corpo, incluindo na regio orofarngea. Entretanto, as taxas de sucesso a longo prazo so desanimadoras com recuperao do peso e reaparecimento ou agravamento da SAOS (7).

Os aparelhos intra-orais, retentores linguais e posicionadores mandibulares, so indicados para pacientes portadores de SAOS leve a moderada e retrognatas que no estejam acima do peso ideal e que no tenham grave dessaturao da oxihemoglobina. Alm dessas contra-indicaes, pacientes com nmero insuficiente de dentes para ancorar o aparelho, uso de prteses extensas, problemas periodontais, disfuno aguda da articulao temporomandibular (ATM) e portadores de alteraes anatmicas importantes nas VAS, no devem ser tratados com o aparelho intra-oral por no alcanarem bons resultados (8).

As tcnicas cirrgicas variam desde cirurgias otorrinolaringolgicas a cirurgias ortopdicas funcionais dos maxilares, que apresentam resultados variveis. Os procedimentos mais comuns atingem entre 40% e 50% de eficincia (9), e muitas vezes devem ser combinadas mais de uma tcnica no mesmo tempo cirrgico ou em dois tempos separados para que os resultados possam ser mais satisfatrios (10).

As modalidades de tratamento descritas anteriormente podem atuar apenas de maneira paliativa, uma vez que podem no tratar efetivamente o fator que principiou a instalao da SAOS ou so de difcil adeso pelos pacientes (alto custo, difcil manuteno a longo prazo, etc.). Assim, na busca de outros mtodos teraputicos, levantou-se a hiptese da interveno fonoaudiolgica em pacientes roncadores com e sem SAOS por meio da terapia miofuncional oral trazer benefcios para estes pacientes.

A terapia miofuncional constitui-se, inicialmente, da conscientizao do problema e da necessidade de sua correo, da melhora da postura corporal, da realizao dos exerccios bsicos e, por fim, de um perodo de reforo visando a manuteno dos novos padres alcanados nas etapas anteriores. Divide-se em exerccios de relaxamento e respirao, exerccios especficos para estimular e adequar as funes do sistema estomatogntico e exerccios orofaciais e articulatrios (11).

A contribuio da fonoaudiologia nesses casos fundamenta-se no fato de que pacientes roncadores e apneicos apresentam um comprometimento neuromuscular e/ou estrutural de suas VAS, culminando em uma reduo significativa do tnus muscular e aumento da resistncia das VAS durante o sono (12, 13). Acredita-se tambm que a fora dilatadora dos msculos das VAS a nica fora responsvel por contrabalanar as foras que promovem o colapso, representadas pela presso negativa transmural da faringe e pelo peso das estruturas formadoras das VAS (14, 15), fato que justifica a reabilitao da musculatura orofacial e farngea desses indivduos.

Portanto, a terapia miofuncional oral direcionada a pacientes roncadores com e sem SAOS visa adequao da postura, da sensibilidade e propriocepo e do tnus e mobilidade da musculatura orofacial e farngea. As estruturas priorizadas nesse trabalho so aquelas que podem estar relacionadas com a obstruo pelo colapso das VAS durante o sono: assoalho da cavidade oral, lngua, especialmente o msculo genioglosso; msculos mastigatrios, bucinador, masseter, pterigideo lateral e medial, digstrico; palato mole e vula; msculos supra-hiideos e infra-hiideos; musculatura farngea e as funes de respirao, mastigao e deglutio (4, 5).

O objetivo desse estudo foi relatar a eficcia da terapia miofuncional oral em 2 pacientes com SAOS grave a partir da anlise das variveis da polissonografia (PSG) antes e aps a interveno fonoaudiolgica como a reduo do IAH, normalizao ou melhora da oxigenao sangunea, da arquitetura do sono bem como da avaliao da pontuao na Escala de Sonolncia de Epworth (ESE) e Escala de Roncos (ER).


RELATO DOS CASOS


Caso Clnico 1

Paciente masculino, 37 anos, ndice de massa corporal (IMC) 26,29 kg/m com queixa de roncos, paradas respiratrias em sono, despertares freqentes, alteraes do humor, dificuldade de concentrao e dficit de memria. Ao exame polissonogrfico o paciente apresentava IAH de 48,5 eventos por hora (e/h), saturao de oxignio (SaO2) mdia de 92%, SaO2 mnima de 79%, com T 90 (tempo percentual em que a SaO2 situa-se abaixo de 90%) de 5,9%. O paciente apresentava ndice de microdespertares (MD) de 32/h, ESE = 12 e ER = 3. A ER graduada de 0 a 4, sendo 0 = ausncia de roncos, 1= ressonar (respirao forte), 2 = ronco leve, 3 = ronco que incomoda o cnjuge, 4 = ronco que incomoda os familiares (extrapola o quarto). Na avaliao otorrinolaringolgica foi verificado apenas discreto aumento de conchas nasais inferiores e na avaliao fonoaudiolgica foi observada crepitao na regio da ATM direita, assimetria de bochechas com maior volume esquerda, discreta reduo de mobilidade de bochechas, lngua e lbios e marcas internas nas bochechas e na lngua.

A partir do diagnstico de SAOS grave foi indicado o tratamento com o uso do CPAP nasal. Entretanto, o paciente no se adaptou e recusou o tratamento inclusive pelo seu elevado custo. Dessa forma, o paciente foi encaminhado ao servio de Fonoaudiologia do Hospital Universitrio de Braslia. A interveno fonoaudiolgica consistiu em 16 sesses de terapia miofuncional realizadas pela mesma fonoaudiloga quando o paciente foi orientado a realizar diariamente exerccios isomtricos, para o aumento do tnus muscular, isotnicos, para a melhora da mobilidade, e isocinticos, indicados para o relaxamento e coordenao especficos para a musculatura do assoalho da cavidade oral, lngua, bucinador, masseter, pterigideo lateral e medial, digstrico, palato mole e vula; msculos supra e infra-hiideos e musculatura farngea. O paciente recebeu, ainda, orientaes quanto importncia da respirao nasal. Aps a terapia miofuncional, foram realizadas nova polissonografia (PSG), avaliao fonoaudiolgica, aplicao da ESE e ER.

O paciente relatou, avaliao subjetiva, melhora do sono, da memria e melhor desempenho no trabalho. Houve reduo dos roncos e das paradas respiratrias durante o sono, segundo o relato da esposa, muito embora, o paciente no tenha referido reduo significativa da intensidade dos roncos, ER = 2 (Tabela 1). Na PSG de controle foi constatada uma reduo do IAH (8,6 /h); SaO2 mdia (94%); SaO2 mnima (87%) e T90 (0%) (Tabela 2). Quanto fragmentao do sono, foi verificada uma reduo do ndice de microdespertares/h para 18 /h. Na ESE, o paciente apresentou reduo da pontuao para 10 pontos (Tabela 1). vlido fazer referncia ao IMC ps-tratamento, fator considerado preditivo para SAOS, que aumentou para 27,68 kg/m2 em razo de um ganho ponderal de 4 kg. Na avaliao fonoaudiolgica constatou-se de forma subjetiva reduo discreta da assimetria de bochechas, melhora do tnus e mobilidade das estruturas orofaciais e no foram mais observadas crepitaes na ATM, apesar de no ter sido realizado nenhum exerccio especfico direcionado ATM.







Caso Clnico 2

Paciente feminina, 55 anos, IMC 22,2 kg/m com queixa de roncos intensos, dificuldade respiratria durante o sono, lapsos de memria freqentes e SED. A PSG inicial mostrava: IAH = 40,4/h, SaO2M = 88%, SaO2m = 77%, T90 = 86,7%, MD = 25,5/h. Os questionrios subjetivos aplicados evidenciaram: ESE = 13 e ER = 3. Em razo da inadaptao ao CPAP e ao aparelho intra-oral, a paciente foi encaminhada avaliao e interveno fonoaudiolgica, no ambulatrio de fonoaudiologia do Hospital Universitrio de Braslia. O exame otorrinolaringolgico evidenciou discreto desvio de septo nasal, aumento da base da lngua e leve retrognatia. Na avaliao fonoaudiolgica, a paciente apresentava reduo de tnus e mobilidade de bochechas, lngua, lbios e palato mole, bem como, incoordenao fonoarticulatria e respirao nasal e superficial.

A interveno fonoaudiolgica consistiu em 16 sesses de terapia miofuncional realizada pela mesma fonoaudiloga, quando foram abordados os padres inadequados e os padres corretos de postura e movimentao dos rgos fonoarticulatrios objetivando a conscientizao das alteraes apresentadas pelos pacientes e foram propostos exerccios especficos que deveriam ser realizados diariamente pela paciente. Os exerccios foram divididos em isomtricos, isotnicos e isocinticos. A paciente recebeu, ainda, orientaes quanto importncia da respirao nasal.

Aps as 16 semanas de terapia miofuncional realizou-se nova PSG, avaliao fonoaudiolgica e aplicao da ESE e da ER. No houve variao no IMC. A paciente reduziu a pontuao na ESE para 7 e na ER para 2 (Tabela 1). A comparao dos resultados da primeira e da segunda PSG demonstra clara melhora das variveis estudadas: IAH 3,3/ h, SaO2M 94%, SaO2m 83%, T90 1,6%, MD 6,9/h (Tabela 2). A avaliao fonoaudiolgica subjetiva constatou melhora do tnus e mobilidade das estruturas orofaciais, assim como melhora da coordenao fonoarticulatria. Subjetivamente, a paciente relatou melhora dos lapsos de memria e da SED, que eram queixas importantes anterior ao tratamento.


DISCUSSO

O uso da terapia de motricidade orofacial voltada para pacientes roncadores com e sem SAOS ainda incipiente, entretanto, alguns autores demonstraram resultados favorveis como os apresentados por GUIMARES (3) e PITTA (4). Existe uma estreita relao entre a fisiopatologia da SAOS e o objeto de estudo da motricidade orofacial, especialidade da fonoaudiologia, que so os aspectos estruturais e funcionais das regies orofacial e cervical usualmente comprometidos em pacientes com SAOS. No entanto, essa afirmativa merece ressalvas e necessita de maior investigao objetivando comprovar a eficcia da terapia miofuncional nessa populao.

vlido salientar que os dois pacientes que participaram deste estudo foram informados quanto indicao do tratamento de primeira escolha, o CPAP, e quanto ao aparelho intra-oral, teraputicas j consolidadas cientificamente, mas por questes financeiras e de inadaptao optaram por realizar a terapia miofuncional oral, a partir da assinatura de um termo de consentimento livre e informado.

Nos casos estudados foi constatada uma reduo expressiva do IAH retornando a valores considerados dentro dos padres de normalidade, tendncia ou efetiva normalizao da saturao de oxignio, reduo do ndice de microdespertares, e subjetivamente, verificou-se reduo da sonolncia excessiva diurna e dos roncos, entretanto no houve variao ou melhora significativa na arquitetura do sono. A melhora das variveis respiratrias analisadas objetivamente por meio da PSG sugere algum grau de eficcia da terapia miofuncional oral proposta. necessrio ressaltar que a terapia miofuncional oral foi aplicada como monoterapia, isto , os pacientes no realizaram outro tratamento concomitante, nem apresentaram mudanas nas atividades cotidianas que pudessem comprometer os resultados obtidos.

Os resultados pr e ps-terapia miofuncional oral corroboraram com a hiptese da existncia de uma hipotonia da musculatura das VAS em pacientes com SAOS favorecendo ao colapso da orofaringe e obstruo do fluxo areo. O prefil retrognata da paciente do caso 2 configura mais um fator de risco para o desenvolvimento da SAOS, uma vez que reduz o espao das VAS e projeta a lngua, nesse caso com uma base aumentada, para uma posio mais posterior. Entretanto, a terapia miofuncional no possui nenhuma interferncia na mudana do perfil craniofacial da paciente, salvo a musculatura orofacial e farngea que foram trabalhadas.


CONSIDERAES FINAIS

A Fonoaudiologia uma cincia da rea da sade relativamente nova, que vem expandindo suas possibilidades teraputicas de forma a alcanar reas at ento inusitadas. Este o caso da inter-relao entre Fonoaudiologia e Medicina do Sono, mais especificamente, os distrbios respiratrios do sono.

Essa relao remonta ao fato de que as estruturas envolvidas nos distrbios respiratrios obstrutivos, como a SAOS e os roncos, so unidades neuromusculares, ou seja, o objeto de estudo e interveno da rea de Motricidade Orofacial.

Por fim, os resultados obtidos nesse estudo de caso sugerem que a terapia miofuncional oral pode representar uma alternativa no tratamento de pacientes portadores da SAOS grave que no aderiram ao CPAP, tratamento de primeira escolha j consolidado na comunidade cientfica. Entretanto, conclumos ser necessrio dar prosseguimento a essa pesquisa aumentando o nmero de casos estudados e acompanhando-os de forma longitudinal.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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1. Mestre. Docente Fonoaudiloga Clnica.
2. Doutor. Docente Fonoaudilogo Clnico.
3. Doutor. Otorrinolaringologista.
4. Doutor. Neurologista Sonologista.
5. Mestre. Psicloga.
6. Doutor. Professor Titular de Pneumologia da Universidade de Braslia.

Instituio: Laboratrio do Sono do Hospital Universitrio da Universidade de Braslia, Braslia / DF.

Endereo para correspondncia: Danielle Barreto e Silva Pitta
SHIN QI 06 - Conj 11 - Casa 06 - Braslia / DF - CEP 71520-110
Telefone: (61) 8445-2184 / 3468-3853 - E-mail:danielle.pitta@hotmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 22 de outubro de 2006 . Cod. 175. Artigo aceito em 26 de fevereiro de 2007.
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