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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Alteraes Funcionais do Sistema Estomatogntico em Pacientes com Rinite Alrgica
Functional Alterations of the Stomatognathic System in Pacients with Allergic Rhinitis
Author(s):
Catiane Maaira de Lemos1, Joo Ferreira de Mello Jnior2, Olavo Mion3
Palavras-chave:
Sistema estomatogntico. Respirao bucal. Obstruo nasal. Mastigao. Deglutio.
Resumo:

Introduo: A respirao oral pode acarretar alteraes estruturais e funcionais do sistema estomatogntico. As causas mais freqentes da respirao oral so as obstrues nasais e/ou farngeas. Dentre as obstrues nasais, a rinite alrgica uma doena cuja incidncia vem aumentando. Apesar de haver uma relao direta entre a rinite e a obstruo nasal e desta com alteraes funcionais do sistema estomatogntico, so poucos os estudos que observaram tais alteraes em pacientes com rinite. Objetivo: Verificar as alteraes de respirao, mastigao e deglutio presentes em pacientes com rinite alrgica e relacion-las com a intensidade dos sintomas da rinite. Material e Mtodos: Foram avaliados 85 pacientes entre 4 e 60 anos de idade. Todos passaram por avaliao otorrinolaringolgica e fonoaudiolgica. Foram colhidos os dados referentes s funes de respirao, mastigao e deglutio e dados da consulta mdica. Os dados foram comparados e analisados estatisticamente. Resultados: Os adolescentes apresentaram uma freqncia maior de modo de respirao oral diurno e noturno. Foi observado 20% de padro normal de deglutio nas crianas, 23,3% nos adolescentes e 20% nos adultos. A funo mastigatria apresentou-se alterada com mais freqncia no grupo de crianas. Observamos correlao significante entre o grau de obstruo nasal e a intensidade de alterao das funes avaliadas. Concluso: O paciente com rinite alrgica apresenta alteraes funcionais do sistema estomatogntico.

INTRODUO

A funo respiratria um dos objetivos principais da reabilitao fonoaudiolgica na rea da motricidade oral (1-4).

A respirao nasal fundamental para o crescimento e desenvolvimento adequados do complexo craniofacial, promovendo, assim, o bom funcionamento das demais funes estomatognticas (1,2,4,5,6).

O indivduo que, por algum motivo, adquire um padro oral ou oronasal de respirao, poder apresentar alteraes craniofaciais e dentrias, alteraes dos rgos fonoarticulatrios e das funes orais e em alguns casos, alteraes corporais (1,4-11).

As causas mais freqentes da respirao oral so as obstrues nasais e/ou farngeas (1). Dentre as obstrues nasais, as rinites so doenas de prevalncias elevadas, tendo alguns estudos demonstrado aumentos gradativos (12).

Existem vrios tipos de rinite, divididos em dois grandes grupos, alrgica e no-alrgica, sendo este ltimo subdividido em infecciosa, eosinoflica no-alrgica, idioptica, irritativa, gustativa, hormonal etc (12).

A rinite alrgica definida como uma inflamao da mucosa nasal, mediada por IgE, aps exposio a antgenos e caracterizada por obstruo nasal, prurido, espirros e coriza, sendo a obstruo nasal, algumas vezes, o sintoma predominante (13-17).

Apesar de haver, segundo a literatura, uma relao direta entre as rinites e a obstruo nasal (14, 15, 16, 17, 20) e desta com alteraes morfo-funcionais do sistema estomatogntico (7,8,10,18,19), so poucos os estudos que observaram tais alteraes em pacientes com rinite (21).

Tendo em vista os aspectos acima citados, o objetivo deste trabalho foi verificar as alteraes das funes de respirao, mastigao e deglutio presentes em pacientes com rinite alrgica em diferentes faixas etrias e relacionlas com a intensidade dos sintomas da rinite.


CASUSTICA E MTODO

A Comisso de tica para Anlise de Projetos - CAPPesq da Diretoria Clnica do HC-FMUSP aprovou o Protocolo de Pesquisa 355/06 referente ao presente estudo.

Esta pesquisa baseou-se em um estudo de coorte transversal no qual foram avaliados 85 pacientes, de ambos os sexos, com faixa etria entre 4 e 60 anos de idade, com diagnstico de rinite alrgica e atendidos no Grupo de Alergia da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

No foram includos na amostra, pacientes com alteraes neurolgicas, neuromusculares, motoras ou esquelticas, pacientes portadores de sndromes ou qualquer outra doena, a no ser a rinite alrgica, que tenha a obstruo nasal como sintoma associado.

Todos os pacientes foram avaliados por mdico otorrinolaringologista e nesta avaliao foram coletados os dados referentes idade, sexo e escores de sinais e sintomas nasais (14,15) (Tabela 1).




Em seguida, os pacientes foram avaliados por uma fonoaudiloga que determinou os dados referentes s funes orais de respirao, mastigao e deglutio e coletou informaes sobre a consistncia alimentar preferencial dos pacientes.

O modo de respirao foi definido observando-se o paciente durante a avaliao fonoaudiolgica e de acordo com as informaes fornecidas por ele mesmo e seu acompanhante. Atravs destas informaes, o modo de respirao foi classificado como:
0) Nasal diurno e noturno
1) Oronasal diurno e noturno
2) Oronasal diurno e oral noturno
3) Oral diurno e noturno.

A funo mastigatria, avaliada atravs da mastigao de uma bolacha, foi classificada em:
0) Normal, quando ocorreu com os lbios fechados e bilateralmente
1) Boca aberta
2) Boca aberta acompanhada de amassamento do alimento com a lngua
3) Ausncia de mastigao.

O padro de deglutio, avaliado atravs da observao direta da deglutio de gua em copo, foi classificado como:
0) Normal, quando a funo ocorreu com os lbios fechados, a lngua posicionada na papila palatina e ausncia de participao da musculatura periorbicular
1) Projeo anterior de lngua
2) Projeo anterior de lngua acompanhada de tenso da musculatura periorbicular ou
3) Interposio.

Como complementao da avaliao do padro mastigatrio, foi determinada a consistncia alimentar preferencial do paciente atravs de informaes fornecidas por ele mesmo e seu acompanhante. Estas informaes foram classificadas de acordo com os dados abaixo:
1) Preferencialmente slida.
2) Preferencialmente slida com triturao ineficiente do alimento (engole pedaos).
3) Preferencialmente pastosa.
4) Preferencialmente pastosa com presena de engasgos.

Por fim, os pacientes foram distribudos em trs grupos, de acordo com a faixa etria: G1- crianas ( 4 a 11 anos); G2- adolescentes (12 a 18 anos) e G3- adultos (19 a 60 anos).

Os dados referentes s funes de respirao, mastigao e deglutio foram comparados entre os trs grupos de diferentes faixas etrias atravs do teste de Razo de Verossimilhana para verificar-se a diferena da distribuio das variveis de cada funo entre os grupos.

Os valores de sinais e sintomas foram comparados entre os trs grupos atravs do teste Kruskal-Wallis para observao de diferena estatisticamente significante entre as mdias destes escores.

Para verificar-se a relao entre a intensidade dos sintomas da rinite alrgica e o grau de alterao das funes, foi utilizado o teste de correlao Spearman's rho.


RESULTADOS

Dos 85 pacientes estudados, observamos a mdia de idade de 7,6 anos (+/- 2,3 anos) para o grupo de crianas, 13,2 anos (+/- 1,6 anos) para o grupo de adolescentes e a mdia de 29,2 anos (+/- 10,2 anos) para o grupo de adultos.

A distribuio de gnero nos trs grupos estudados encontra-se descrita na Tabela 2.




Os Grficos 1 e 2 mostram a comparao das mdias dos escores obtidos durante a avaliao otorrinolaringolgica,referentes aos sinais e sintomas decorrentes da rinite alrgica nos trs grupos estudados.


Grfico 1. Distribuio do escore de sinais e sintomas - Sinais: p = 0,910 Sintomas: p= 0,236.



Grfico 2. Distribuio do escore total - p = 0,399.



Observando-se a Tabela 3, verificamos uma maior freqncia da ausncia de obstruo nasal no grupo de crianas e uma freqncia estatisticamente maior de adolescentes com escore 3 para obstruo nasal.




Quanto ao modo respiratrio, observamos um comportamento compatvel com o escore de obstruo nasal nos trs grupos. Pode-se observar uma maior freqncia de respirao nasal diurna e noturna no grupo de crianas, enquanto, no grupo de adolescentes, observa-se uma freqncia estatisticamente maior de modo respiratrio oral diurno e noturno (Grfico 4).


Grfico 3. Distribuio do modo respiratrio - p = 0,014*.


O padro de deglutio normal foi observado em 20% das crianas, 23,3% dos adolescentes e 20% dos adultos. A presena de projeo anterior leve durante a deglutio foi observada em 43,3% das crianas, 36,7% dos adolescentes e 52% dos adultos. A projeo anterior associada participao excessiva da musculatura periorbicular foi observada em 23,3% das crianas, 30% dos adolescentes e 24% dos adultos. J a presena de interposio anterior foi observada em 13,3% das crianas, 10% dos adolescentes e 4% dos adultos. No houve diferena estatisticamente significante quando comparados os dados descritos acima (p = 0,861).

Os grficos 4 e 5 mostram a funo mastigatria e a consistncia alimentar preferencial nos trs grupos estudados. Podemos observar uma alta freqncia de padro mastigatrio de boca aberta com amassamento no grupo de crianas e uma diferena estatisticamente significante de crianas com consistncia alimentar preferencialmente pastosa.


Grfico 4. Distribuio do padro mastigatrio - p = 0,173.



Grfico 5. Distribuio da consistncia alimentar preferencial
- p = 0,042*.



Por fim, estudamos a correlao existente entre o aumento do escore de obstruo nasal e a intensidade de alterao das funes de respirao, mastigao e deglutio. Foi observada correlao significante (p < 0,001) para as funes de respirao e mastigao.


DISCUSSO

Observando-se a distribuio de sexo da amostra estudada (Tabela 2), podemos notar uma maioria masculina nos grupos de crianas e adolescentes. Este mesmo dado foi encontrado por DI FRANCESCO e col. (22) em um estudo com 142 pacientes de 2 a 16 anos com respirao oral. J no grupo de adultos, a minoria masculina poderia ser explicada pelo menor valor atribudo aos sintomas da rinite alrgica pelos homens e pela pouca disponibilidade de tempo para a procura de atendimento ambulatorial.

Pelo fato de a rinite alrgica ser definida clinicamente como o somatrio de diversos sinais e sintomas, a observao e mensurao destes de grande importncia na prtica clnica (12, 16). No presente estudo, pudemos observar que a freqncia e intensidade destes sinais e sintomas no apresentaram diferena estatisticamente significante quando comparadas as mdias dos escores entre os trs grupos estudados (Grficos 1 e 2), mostrando que independentemente da idade, o paciente pode apresentar sinais e sintomas de mesma intensidade decorrentes da rinite alrgica.

Na anlise da distribuio do escore de obstruo nasal (Tabela 3), observamos que o grupo de adolescentes apresentou porcentagem estatisticamente maior de escore 3 para este sintoma. Este mesmo comportamento foi observado no estudo do modo respiratrio (Grfico 3), onde os pacientes desta mesma faixa etria apresentaram porcentagem estatisticamente maior de modo respiratrio exclusivamente oral. Acreditamos que estes resultados possam refletir a falta de assiduidade dos pacientes desta faixa etria no tratamento proposto pelo mdico otorrinolaringologista, no proporcionado, assim, a melhora esperada da aerao nasal e conseqente predomnio do padro oral de respirao. No encontramos na literatura pesquisada, estudos que tenham observado este mesmo resultado.

Diversos estudos relatam as implicaes clnicas e as alteraes orofaciais presentes em pacientes com respirao oral (8, 16, 23, 24, 25), portanto, a alta porcentagem de pacientes com modo oronasal e oral de respirao nos trs grupos estudados, os predispe s alteraes funcionais que avaliamos em nosso trabalho.

JUNQUEIRA e col. (2002) em um estudo com pacientes de 2 a 13 anos com hipertrofia adenoamigdaliana, encontraram 88,5% de alteraes da funo mastigatria e 78,1% de alteraes do padro de deglutio. Em nosso estudo, apesar da diferena existente com relao ao quadro obstrutivo dos pacientes do trabalho descrito anteriormente, encontramos 40% de alteraes da funo mastigatria no grupo de crianas (Grfico 4) e 80% de alteraes do padro de deglutio. No foram encontrados estudos que verificaram a existncia destas alteraes em pacientes com rinite alrgica.

A anlise da consistncia alimentar preferencial de grande importncia em pacientes respiradores orais (4-6,26) visto que, pela alterao do padro mastigatrio, muitos destes pacientes apresentam dificuldade na mastigao de alimentos slidos. Estes dados concordam com os achados deste estudo principalmente no grupo de crianas, no qual encontramos uma maior porcentagem de alimentao preferencialmente pastosa (Grfico 5).

Quando comparados os dados das alteraes de mastigao e deglutio entre os trs grupos estudados (Grficos 3 e 4), no foram encontradas diferenas estatisticamente significantes, confirmando a semelhana encontrada entre os escores de sinais e sintomas dos trs grupos e mostrando que as alteraes funcionais esto presentes no paciente com rinite alrgica, independentemente de sua idade. Este dado foi reforado pela correlao significante encontrada entre o escore de obstruo nasal e o grau de alteraes do modo respiratrio e do padro mastigatrio tanto no grupo de crianas, como nos de adolescentes e adultos.


CONCLUSO

De acordo com a anlise dos resultados obtidos neste estudo, concluiu-se que:
- o paciente com rinite alrgica apresenta alteraes das funes de respirao, mastigao e deglutio.
- o aumento da intensidade do sintoma de obstruo nasal est relacionado presena de alteraes funcionais.


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1. Fonoaudiloga Mestranda do Departamento de Otorrinolaringologia do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
2. Cirurgio Dentista Doutor em Cincias rea de Concentrao Otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
3. Doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. Assistente do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
4. Professor livre docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. Assistente do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

Instituio: Trabalho realizado na Diviso da Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da USP.

Endereo para correspondncia: Fga. Catiane Maaira de Lemos
Rua Padre Estevo Pernet, 783 - Tatuap - So Paulo / SP - Telefone: (11) 2294-2725
E-mail: catianemacaira@terra.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 24 de junho de 2007. Cod. 273. Artigo aceito em 8 de outubro de 2007.
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