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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Sintomatologia Depressiva em Deficientes Auditivos Adultos e Idosos: Importncia do Uso de Prteses
Depressive Symptomatology in Hearing Impaired Adults and Elders: Importance of the Use of Hearing Aids
Author(s):
Adriane Ribeiro Teixeira1, Roberta Barcelos Thedy2, Geraldo Jotz3, Marion Cristine de Barba4
Palavras-chave:
Depresso. Prtese auditiva. Envelhecimento.
Resumo:

Introduo: A deficincia auditiva tem como conseqncia uma srie de alteraes na vida social e familiar dos indivduos por ela afetados. Entre tais alteraes est o incio ou o agravamento da sintomatologia depressiva, o que pode ser provocado pelo afastamento das situaes de inter-relao devido s dificuldades de comunicao provocadas pela diminuio da audio. Objetivo: O objetivo deste trabalho foi verificar se o uso de prtese auditiva auxilia a reduo da sintomatologia depressiva em adultos e idosos com deficincia auditiva neurossensorial. Casustica e Mtodo: A amostra foi composta por 20 sujeitos, com idades entre 44 e 81 anos de idade (mdia 65,30 10,16 anos), usurios de prtese auditiva pela primeira vez. A avaliao da sintomatologia depressiva foi feita por meio da aplicao da Escala de Depresso Geritrica, em dois momentos, pr e ps adaptao. Resultados: Os dados obtidos evidenciaram diminuio significativa da sintomatologia depressiva, comparandose os dois momentos. Concluso: Estes resultados confirmam a importncia da adaptao de prteses auditivas para a reduo ou eliminao da sintomatologia depressiva, uma vez que a deficincia auditiva pode ser a causar isolamento, o qual pode originar ou agravar quadros depressivos.

INTRODUO

A comunicao necessidade vital para qualquer indivduo. Ela permite aquisio de conhecimentos e experincias e mantm a pessoa ativa no meio social e familiar. Quando a comunicao prejudicada pode ocorrer frustrao diante da situao de inter-relao, levando o indivduo ao isolamento e depresso (1,2).

De acordo com dados do Censo de 2002 (3), 5,7 milhes de brasileiros declararam apresentar deficincia auditiva. Este nmero, provavelmente, muito maior, pois muitas vezes, a presena do problema no percebida ou ento negada pelos indivduos. A no aceitao origina a ausncia de tratamento, o que pode agravar a frustrao de no ouvir e levar ao o isolamento.

A perda auditiva que ocorre em funo do processo de envelhecimento conhecida como presbiacusia (4,5,6). Ela um fenmeno biolgico ao qual todos esto predispostos. Seu incio ocorre por volta dos 30 anos de idade e, a partir dos 40 ou 50 anos, os sinais e sintomas tornam-se evidentes (7,8). Vrios fatores podem anteceder ou estar associados presbiacusia, tais como problemas metablicos, hipertenso arterial, doenas cardiovasculares, problemas sseos (otosclerose), infeces de orelha mdia, medicaes ototxicas, exposio prolongada ao rudo e hereditariedade (9,10).

A deficincia auditiva uma das trs doenas mais comuns encontradas em idosos. Ela provoca diversos efeitos nas habilidades funcionais e na sade, afetando a realizao de atividades de vida diria, origina ou agrava quadros depressivos (2,6,11,12,13).

A depresso definida como um distrbio de humor ou afetivo, geralmente de natureza multifatorial, que pode ser diagnosticado em qualquer faixa etria (14).

Nos casos de depresso e deficincia auditiva associados, de extrema importncia o aconselhamento mdico e fonoaudiolgico, para fornecer apoio ao idoso e a seus familiares, no que se refere aos tratamentos existentes e aos aspectos psicossociais. Para minimizar as dificuldades auditivas uma das possveis solues o uso de prtese auditiva (5,6,10,13,14,15).

Medo, ansiedade, solido e dificuldade em se adaptar prtese auditiva so freqentemente observados em portadores de deficincia auditiva. Nota-se, no entanto, que, aps o uso constante do dispositivo, estas reaes mudam (16,17,18).

Assim como a deficincia auditiva pode acarretar uma srie de problemas, a reabilitao faz com que o idoso tenha melhor relacionamento com seus familiares, sentimentos positivos com relao a si prprio e aos outros, sade mental, independncia e segurana no desempenho de suas atividades (12).

A seleo da prtese auditiva , porm, somente o incio do processo de reabilitao, que tambm abrange sua adaptao, acompanhada por aconselhamento e orientao, fatores importantes para a boa reabilitao. A finalidade do processo fazer com que a capacidade comunicativa do idoso melhore tanto social como pessoalmente (19). Alm disso, a realizao de treinamento auditivo para a situao de comunicao imprescindvel para a continuidade do uso do dispositivo (16,17,18,19).

Considerando-se que a deficincia auditiva no idoso pode originar ou agravar quadros depressivos, optou-se por realizar este estudo, que tem como objetivo verificar se uso de prteses auditivas auxilia a melhora da depresso em indivduos com deficincia auditiva.


CASUSTICA E MTODO

A amostra deste estudo foi composta por 20 adultos e idosos portadores de deficincia auditiva, que tinham indicao mdica para uso de prteses auditivas.

Foram considerados como critrios de incluso:

- participao dos mesmos sujeitos nas duas fases do estudo (pr e ps-seleo e adaptao de prtese auditiva);

- idade igual ou superior a 40 anos;

- realizao de avaliao audiolgica completa (audiometria tonal liminar, audiometria vocal, imitanciometria);

- presena de perda auditiva neurossensorial com indicao de uso de prtese auditiva;

- realizao de teste de prtese auditiva (seleo) e acompanhamento de uso (adaptao) nos locais em que a pesquisa foi desenvolvida;

- ser candidato ao uso de prtese auditiva e iniciar o uso, pela primeira vez, no Servio de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo (Diviso de Sade Auditiva) do Hospital Universitrio da Universidade;

- no iniciar tratamento com antidepressivos no perodo de realizao da pesquisa.

Quando o indivduo comparecia para a avaliao audiolgica e que era confirmada a presena de perda auditiva e a necessidade do uso de prtese auditiva, explicava-se a ele o objetivo do presente estudo e era feito o convite para sua participao na pesquisa.

Nos casos de aceite, foi preenchido e assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e um questionrio elaborado especialmente para este estudo, visando obteno de dados sobre os indivduos participantes na pesquisa. Eles eram questionados sobre: idade, estado civil, escolaridade, endereo, telefone, doenas, medicaes.

Para a verificao da presena de sintomatologia depressiva foi utilizada a Geriatric Depression Scale (GDS) verso reduzida (15 itens). Optou-se pelo uso deste instrumento por ser confivel, validado para a lngua portuguesa e ter ampla aplicao nas reas de Geriatria e Gerontologia (20,21). A aplicao foi feita individualmente, em uma sala de atendimento da Clnica de Fonoaudiologia.

Foi atribudo 01 ponto a cada resposta que evidenciasse tendncia depressiva. A avaliao da pontuao foi feita da seguinte maneira (22):

- menos de 05 pontos - ausncia da sintomatologia depressiva;
- entre 05 e 10 pontos - sintomatologia depressiva leve a moderada;
- mais de 10 pontos - sintomatologia depressiva grave.

Aproximadamente um ms aps o incio do uso da prtese auditiva e de quatro sesses de treinamento auditivo, o sujeito retornava ao servio, para que as regulagens e orientaes de uso fossem revisadas. Neste momento ele era reavaliado, utilizando-se o mesmo instrumento.

A anlise estatstica desta pesquisa foi executada no software Statistical Package for Social Science (SPSS) 10.0 for Windows. Todos os testes foram realizados na forma bicaudal, admitindo-se como estatisticamente significativos os valores de p menores ou iguais a 0,05.

A anlise descritiva das variveis quantitativas foi realizada por meio da observao do clculo de mdias e desvio-padro. Para as variveis qualitativas, foi calculada a freqncia absoluta.

A comparao entre o GDS nos momentos pr e ps protetizao foi realizada atravs do teste de McNemar.

Essa pesquisa fez parte do projeto de pesquisa intitulado 'Cognio e depresso em adultos e idosos: efeitos do uso de prteses auditivas', aprovado no Comit de tica em Pesquisa da Universidade onde o estudo foi realizado (protocolo 223/2006).


RESULTADOS

Foram avaliados 20 sujeitos, com mdia de idade de 65,3010,16 anos. Em relao ao gnero, a distribuio foi semelhante, sendo 55% do gnero masculino e 45% do gnero feminino. A maioria dos sujeitos da amostra era casada (65%), tendo o 1 grau como escolaridade mxima (70%).

Na Tabela 1, so apresentados os dados da perda auditiva. A maioria das orelhas (60%) apresentava deficincia auditiva moderada, seguida pela severa (35%). O clculo do grau de deficincia auditiva foi realizado segundo a classificao da Organizao Mundial da Sade (23).




Os dados e a comparao entre o resultado do GDS, nos momentos pr e ps protetizao, so apresentados na Tabela 2.




Dos 20 sujeitos da amostra, 5 (25%) no apresentavam sintomatologia depressiva. Os demais apresentavam sintomatologia depressiva leve-moderada (55%) ou grave (20%). Aps o uso de prtese auditiva, a inexistncia dos sintomas foi constatada em 65% dos indivduos. Os dados evidenciaram que, comparando os resultados pr e ps adaptao, houve diminuio estatisticamente significante de sujeitos com sintomatologia depressiva.


DISCUSSO

A perda auditiva neurossensorial a mais encontrada em idosos como conseqncia do processo de envelhecimento (8). Este tipo de perda auditiva, em que a leso encontra-se na cclea e/ou nervo auditivo, atinge cerca de 30% das pessoas acima de 65 anos e 50% daquelas acima de 75 anos. Os resultados desta pesquisa, no que se refere ao grau de deficincia auditiva, foram semelhantes aos obtidos na literatura especializada, pois o comprometimento auditivo bilateral, de grau moderado o comprometimento mais comum que se encontra nos idosos (18,24).

No que se refere questo sintomatologia depressiva e deficincia auditiva, verificou-se que, no perodo pr-protetizao, a maior parte dos sujeitos avaliados apresentavam este sintoma. Este resultado era esperado, uma vez que a deficincia auditiva est freqentemente associada a casos depressivos, pois a dificuldade de compreenso afasta a pessoa da famlia e da sociedade (1,2,6,11,12,13). Quando comparados os resultados da presena da sintomatologia depressiva no perodo pr e ps-adaptao, verificou-se mudana significativa. Os dados evidenciam que a maior parte dos sujeitos deixou de apresentar tais sintomas ou ento apresentou diminuio na gravidade destes sintomas.

A constatao deste resposta positiva ao uso de prtese auditiva extremamente importante, uma vez que confirma a importncia da reabilitao auditiva na melhora da qualidade de vida dos indivduos.

Os dados encontrados reforam o que descreve a literatura internacional, segundo a qual idosos com deficincia auditiva no usurios de prtese auditiva apresentam sintomas de depresso e ansiedade, ocorrendo reverso do quadro quando se tornam usurios dos dispositivos. O tratamento da deficincia auditiva faz com que os indivduos mantenham-se envolvidos em atividades sociais. Este benefcio no constatado somente pelos usurios, pois os familiares tambm so beneficiados, uma vez que as relaes familiares parecem ser mais preservadas (11,25).

A diferena estatisticamente significante entre o nmero de indivduos com sintomatologia depressiva no perodo pr e ps-adaptao de prtese auditiva refora a importncia do tratamento e demonstra o quanto vlida a interveno. Este resultado difere, porm, do obtido por alguns autores, que afirmam que o uso de prtese auditiva traz pequena contribuio para a melhora da depresso, principalmente em idosos, nos quais existe, freqentemente, associao entre demncia e depresso (26).

Dentre os sintomas de depresso mais freqentemente encontrados e que foram superados com o incio do uso de prtese auditiva esto: abandono de atividades, sentimentos de vida vazia, aborrecimento, mau humor, infelicidade, desinteresse em novas atividades, problemas de memria e desesperana.

Considerando-se que tais sintomas so caractersticos da depresso, acredita-se que possam ser acentuados pela deficincia auditiva, principalmente em funo do desengajamento de atividades sociais, o que acentua a excluso social. Destaca-se, ainda, que a falta ou a perda de contatos sociais so consideradas fatores de risco para a depresso (27).

Sabe-se que a depresso uma patologia de origem multifatorial, que pode ser causada por distrbios biolgicos e/ou sociais (14,22). Acredita-se que a deficincia auditiva contribui substancialmente para a instalao e a manuteno de quadros depressivos, uma vez que impossibilita indivduo, total ou parcialmente, de desempenhar suas atividades sociais e limita a interao em funo do isolamento que pode provocar. Neste caso, a precocidade da interveno fundamental para a reduo da sintomatologia descrita. O tratamento depende, no entanto, da aceitao do indivduo afetado, pois sua colaborao essencial para a tomada de decises e o acompanhamento do caso.

Vrios motivos podem levar no aceitao da deficincia auditiva e da reabilitao, tais como falta de motivao, ansiedade, expectativas no reais e aspecto esttico da prtese auditiva. Nestes casos imprescindvel o trabalho fonoaudiolgico junto ao indivduo e famlia. Este tipo de atendimento promove, na maior parte dos casos, a aceitao da reabilitao, sendo constatada melhora da funo cognitiva e do aspecto emocional (5,8,16,17,18,24,28,29).

Outro aspecto a ser destacado que os resultados evidenciaram a melhora nos sintomas aps um curto perodo de tempo, pois o intervalo mdio entre as duas avaliaes foi de trinta dias. Neste perodo, os indivduos avaliados passaram por treinamento auditivo, quando foram trabalhados aspectos relativos ao manuseio da prtese auditiva, leitura oro-facial e reconhecimento de fala, por exemplo. Este tipo de trabalho certamente influenciou os resultados obtidos, pois fez com que os indivduos obtivessem independncia quanto ao uso da prtese auditiva e conseguissem melhor desempenho em situaes de conversao, facilitando seu retorno ao convvio familiar e social.

O objetivo da reabilitao auditiva deve ser a promoo da independncia e da autonomia, pois o handicap provocado pela presena de deficincia auditiva impede o adequado funcionamento social e funcional do indivduo, e o leva a depender de familiares e cuidadores (30).

A depresso uma patologia muito comum na atualidade, especialmente em indivduos idosos ou em perodo de pr-aposentadoria, em funo da idia de inutilidade que pode acompanhar este perodo da vida. A presena de deficincia auditiva pode agravar este quadro, fazendo com que o indivduo sinta-se distante do mundo com o qual conviveu e para o qual contribuiu ao longo de sua vida produtiva.

A interveno mdica e fonoaudiolgica, visando reinserir o idoso no mundo da comunicao imprescindvel. inegvel a evoluo tecnolgica no que se refere s prteses auditivas, bem como seus conseqentes benefcios. Visto que a populao idosa no mundo, em geral, e no Brasil, em particular, vem apresentando significativo crescimento, tornam-se necessrios, cada vez mais, profissionais tecnicamente habilitados para o atendimento a estes grupos e a seus familiares (15).

Considerando-se que o estudo confirmou a importncia do uso de prteses auditivas para a melhora da depresso em adultos e idosos, em um grupo restrito de novos usurios, sugere-se a realizao de novas pesquisas envolvendo uma amostra maior, o que permitiria a generalizao dos resultados.


CONCLUSO

O objetivo do trabalho aqui relatado foi analisar o efeito do uso de prteses auditivas na sintomatologia depressiva de adultos e idosos com perda auditiva.

Aps a coleta e a anlise de dados, confirmou-se que a hiptese do estudo, ou seja, houve reduo ou eliminao da sintomatologia depressiva nos indivduos avaliados, comparando-se os resultados dos testes na pr e ps-adaptao da prtese auditiva.

Os dados obtidos so extremamente significativos e importantes para as reas de Fonoaudiologia, Otorrinolaringologia, Geriatria e Gerontologia, uma vez que se confirmaram a importncia da reabilitao auditiva para a integrao do indivduo na sociedade e a conseqente melhora em sua qualidade de vida.


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1. Doutora em Gerontologia Biomdica (PUCRS). Fonoaudiloga e Gerontloga, Professora do Curso de Fonoaudiologia - ULBRA.
2. Fonoaudiloga.
3. Ps Doutor em Otorrinolaringologia - Universidade de Pittsburg - USA. Professor Adjunto da Disciplina de Otorrinolaringologia do Curso de Medicina da ULBRA e do Departamento de Cincias Morfolgicas da UFRGS. Chefe do Servio de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo do Hospital Universitrio da ULBRA.
4. Mestre em Distrbios da Comunicao (UTP). Fonoaudiloga do Servio de Alta Complexidad em Sade Auditiva do Hospital Universitrio da ULBRA.

Instituio: Universidade Luterana do Brasil (ULBRA - Canoas / RS).

Endereo para correspondncia:
Adriane Ribeiro Teixeira
Rua Alberto Rangel, 315/911 - Parque Santa F
Porto Alegre/RS - CEP 91180-840
Fax: (51) 3211-2058
E-mail: adriteixeira@yahoo.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 1 de novembro de 2007. Cod. 351. Artigo aceito em 20 de novembro de 2007.
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