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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 4  - Out/Dez Print:
Case Report
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Cisto Epidermide de Orelha Externa e Hipoacusia: Relato de Caso
Epidermoid Cyst of the External Ear and Hearing Loss: Case Report
Author(s):
Evelyn Lazaridis1, Marcelo Mendes Tepedino2, David Esquenazi3
Palavras-chave:
Cisto epidermide. Perda auditiva. Orelha externa.
Resumo:

Introduo: O cisto epidermide um raro tumor benigno que pode desenvolver-se em qualquer regio do corpo humano. Cerca de 7% destes cistos ocorrem em regio de cabea e pescoo. Mais frequentemente apresentam sintomatologia em pacientes entre 15 e 35 anos, mas podem desenvolver em qualquer idade. O envolvimento retroauricular, frequentemente cursa com estenose de conduto auditivo externo e hipoacusia condutiva, comprovada por audiometria tonal. Exames de imagem pr-operatrios como tomografia computadorizada podem fornecer informaes diagnsticas e anatmicas importantes para programao da abordagem cirrgica. A remoo cirrgica o tratamento de escolha e deve ser curativa. Objetivos: Propusemos a relatar um caso de hipoacusia condutiva em consequencia, da extenso para o interior do conduto auditivo externo, de um cisto epidermide de orelha externa. Uma leso rara que foi ressecada cirurgicamente para restaurar a acuidade auditiva do paciente. Relato do Caso: Paciente de 41 anos de idade, com queixa de hipoacusia leve progressiva h 5 anos evoluindo com estenose de conduto audito externo, tratada com remoo cirrgica, por via retroauricular, apresentandose no terceiro ms ps-operatrio com melhora auditiva e sem sinais de recidiva. Comentrios: O cisto epidermide de orelha externa uma leso de rara incidncia. No seu tratamento deve-se garantir a exrese completa da leso, evitando assim a sua recorrncia.

INTRODUO

Os cistos dermides esto freqentemente presentes ao nascimento, so assintomticos, acometendo predominantemente o sexo masculino (1). Apresentam crescimento lento, uniloculado, podendo as massas csticas produzir apenas sintomas mnimos, que decorrem das dimenses atingidas pelo seu crescimento. Localizam-se mais freqentemente nos ovrios e testculos, sendo que menos de sete porcento podem acometer a regio da cabea e do pescoo (2). Acredita-se que patognese destes cistos, embora ainda incerta, esteja associada presena de remanescentes de tecido embrionrio pluripotente durante a fuso dos primeiro e segundo arcos branquiais, na terceira e quarta semanas de vida intra-uterina (3). O crescimento e a diferenciao desorganizados destas clulas seqestradas originam o cisto dermide.

O cisto dermide pode ser dividido em trs tipos histolgicos: epidermide (sem anexos drmicos em seu epitlio de revestimento), dermide (presena de anexos cutneos como glndulas sudorparas e folculo piloso) e teratide (revestimento contendo estruturas derivadas das trs camadas germinativas).

Quando presentes na cabea e no pescoo, os cistos dermides apresentam como localizao mais comum a regio fronto-orbital, no quadrante superior externo da rbita (4). Outras localizaes so linha mdia do nariz ou pescoo e regio sublingual.

O diagnstico diferencial de um cisto retroauricular deve ser feito com: cisto de incluso epidrmica, cisto triquilemal, lipoma e hemangioma.

Propusemos relatar um caso de cisto epidermide em regio retro auricular, avaliando a sintomatologia secundria (hipoacusia condutiva) relacionada a sua extenso para o interior do conduto auditivo externo. A exrese cirrgica foi proposta com o bjetivo de restaurar a acuidade auditiva do paciente, uma vez que no havia outra alterao que justificasse a perda auditiva.


RELATO DE CASO

C.S.C.V, 41 anos, sexo feminino, branca, casada, natural do Rio de Janeiro. Procurou o Servio de Otorrinolaringologia queixando-se de hipoacusia esquerda, no acompanhada de otorria ou otalgia. Os sintomas surgiram h aproximadamente 5 anos, com a percepo de um pequeno ndulo retroauricular, sem sinais flogsticos associados, o qual regrediu gradualmente, em 2 meses, havendo remisso completa dos sinais e sintomas. Nos meses que se seguiram, notou recidiva da hipoacusia, sendo esta de carter progressivo. Procurou atendimento otorrinolaringolgico por duas vezes, obtendo diagnstico de tampo de cermen que ocluia o meato acstico externo, sendo submetida duas lavagens com instilao de gua morna, sem apresentar melhora dos sintomas. Evoluiu h dois meses com prurido intenso e dor de carter latejante espordicos. Avaliada pelos autores com exame clnico otorrinolaringolgico, apresentava otoscopia estenose de conduto auditivo externo (CAE) esquerdo, impedindo a observao da membrana timpnica ipsilateral. A audiometria tonal evidenciou limiares auditivos dentro dos limites da normalidade direita e perda condutiva leve esquerda (Figura 1); a imitanciometria revelou curva A e reflexos estapedianos presentes bilateralmente. Solicitada uma tomografia computadorizada de mastides sem contraste que demonstrou formao ovalada (Figura 2A), com densidade de gordura, medindo cerca de 1,5 x 1,2cm em seus maiores eixos (Figura 2B), de permeio aos tecidos moles que revestem internamente a parede superior do CAE, podendo o aspecto corresponder a um lipoma. De acordo com a hiptese diagnstica, foi indicada a resseco cirrgica, com remoo completa da leso por acesso retroauricular e, posterior, exame anatomopatolgico da pea cirrgica. Durante o procedimento cirrgico encontrou-se massa de aproximadamente 2 cm de dimetro com contedo lquido citrino (Figura 2C), de superfcie irregular, consistncia amolecida e colorao avermelhada, inserida na regio posterior do CAE, estendendo-se para mastide (Figura 2D). O resultado histopatolgico final foi de cisto epidrmico rto com reao giganto-celular.


Figura 1. - Audiometria tonal evidenciando hipoacusia condutiva leve esquerda.


Figura 2. A,B. Tomografia computadorizada de mastide - coronal. Formao ovalada com densidade de gordura medindo 1,5 x 1,2 cm de permeio aos tecidos moles. C. Inciso retroauricular com pavilho auricular rebatido anteriormente (seta amarela), aspecto intra operatrio do contedo citrino. D. Aspecto macroscpico da pea cirrgica.



Evoluiu com melhora clnica e audiomtrica no ps-operatrio no apresentando recorrncia at a presente data (3 meses de acompanhamento).


DISCUSSO

Um ndulo de orelha raramente passa desapercebido e representa um motivo de consulta mdica freqente nos consultrios de otorrinolaringologia e dermatologia. Trata-se de uma leso fechada, saliente, palpvel, profunda, situada na derme ou cartilagem podendo perfurar com umalcera cutnea secundria. O contexto clnico, a localizao exata no pavilho, o aspecto dermatolgico e histolgico, permitem fazer o diagnstico etiolgico.

Cistos dermides da orelha externa so extremamente raros. Existem trs casos descritos na literatura de cisto dermide retroauricular (4,5), emboracinco casos de cisto dermide em orelha externa tenham sido descritos na literatura japonesa, sendo que todos ocorreram no plo superior da orelha (2).

Os cistos triquilemais ou sebceos possuem apresentao clnica semelhante ao cisto epidermide. O exame histopatolgico confirma o diagnstico com uma cpsula composta por todas as camadas de epiderme e contedo composto por material crneo (queratina). Os lipomas so neoplasias benignas originadas do tecido adiposo e podem apresentar o mesmo aspecto que os cistos dermides. Os hemangiomas freqentemente esto presentes ao nascimento e so tumores benignos do endotlio vascular que podem involuir espontaneamente.

Em nosso relato, a anamnese e o exame fsico revelaram queixa de hipoacusia lentamente progressiva nos ltimos 5 anos e um ndulo em parede posterior do conduto auditivo externo, entretanto, diante da vasta possibilidade de diagnsticos diferenciais, optou-se pela bipsia excisional para confirmao diagnstica pelo exame histopatolgico da pea. Foram realizados, como exames pr-operatrios, a audiometria tonal para avaliao do grau da perda auditiva e a tomografia computadorizada para melhor avaliao anatmica da leso e o possvel comprometimento de extruturas adjacentes. A remoo cirrgica o tratamento de escolha para o cisto epidermide, sendo sua a localizao um fator determinante na abordagem cirrgica, e deve ser curativa.

Sendo assim, para completo alvio do sintoma, e diante de uma leso localizada na parede posterior do conduto auditivo externo, junto a mastide, optamos pelo acesso retroauricular devido a maior acessibilidade cirrgica, a facilidade na identificao e resseco do processo patolgico. Foi necessrio o tamponamento do conduto auditivo externo com pastilhas de Gelfoam e pomada de antibitico, com o intuito de reposicionar a pele do conduto, anteriormente deslocada pelo cisto.


COMENTRIOS FINAIS

O cisto epidermide de regio retroauricular uma leso de rara incidncia. So leses do desenvolvimento e no neoplasias verdadeiras. So tumores de origem ectodrmica, raros, surgindo de restos celulares epiblsticos fetais, benignos, encapsulados, de crescimento lento. O aumento de tamanho ocorre por descamao de clulas normais dentro de uma cavidade cstica, gerando sintomatologia secundria a sua localizao e acometimento de estruturas vizinhas. No tratamento deve-se garantir a exrese completa da leso, evitando assim a sua recorrncia.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. De Souza BA, Dey C, Carver N: A rare case of dermoid cyst behind the ear. Plast. Reconstr. Surg. 2003; 112:1972.

2. Ikeda M, Muto J, Omachi S: Dermoid cyst of the auricle: report of two cases. Auris Nasus Larynx 1990; 16:193.

3. Freitas CEOLP, Siqueira BMS, Silva Junior AF, Botelho TL, Pereira CM: Cisto epidermide em regio submentoniana: relato de caso clnico. Rev. Bras. de Patologia Oral 2005; 4(2):90-93.

4. Samper A: Dermoid cyst on the auriculotemporal area. Plast. Reconstr. Surg. 2000;106:947.

5. Bauer DJ, Diwan R, Honig BK, Yokel B: Large asymptomatic mass on the ear: Dermoid cyst of the auricle. Arch. Dermathol. 1994; 130:913.













1. Mdica Residente 3 ano do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro.
2. Mdico do Servio de Otorrinolaringologia do do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro.
3. Mestre em Medicina rea de Otorrinolaringologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutorando da Santa Casa de So Paulo. Mdico do Servio de Otorrinolaringologia do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro.

Endereo para correspondncia:
Marcelo Mendes Tepedino
Avenida Pasteur, 72 - 2 andar
Botafogo - Rio de Janeiro/RJ - CEP 22290-240
Telefone: (21) 2543-1909
E-mail: zozote@ig.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 27 de dezembro de 2006 . Cod. 204. Artigo aceito em 11 de fevereiro de 2007.
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