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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Relao entre Deficincia Auditiva, Idade, Gnero e Qualidade de Vida de Idosos
Relationship Among Hearing Loss, Age, Gender, and Quality of Life in Older Individuals
Author(s):
Adriane Ribeiro Teixeira 1, Cintia de La Rocha Freitas 2, Luzia Fernandes Millo 3, Andra Kruger Gonalves 4, Benno Becker Junior 5, Aline Ferreira Vieira 6, Eduardo Machado Farias 7, Cristiane Rodrigues Martins 8, Ana Maria Pujol Vieira dos Santos 8, Paulo Tadeu Campos Lopes 9, Isabel Amaral Martins 10, Doralice Orrigo da Cunha Pol 11, Clzio Jos dos Santos Gonalves 12
Palavras-chave:
deficincia auditiva, envelhecimento, qualidade de vida
Resumo:

Introduo: A deficincia auditiva em idosos considerada um problema de sade pblica, em funo de sua alta prevalncia e das dificuldades que acarreta, o que afeta a comunicao e interfere na adequada vida social dos indivduos. Objetivo: Verificar a existncia de relao entre deficincia auditiva, idade, gnero e qualidade de vida de idosos residentes em um bairro da cidade de Canoas / RS. Casustica e Mtodo: Foram realizadas visitas aos domiclios de um bairro da cidade de Canoas, RS, verificando em quais deles residiam idosos. Dos 72 sujeitos identificados, 51 participaram do estudo. Pesquisaram-se os limiares audiomtricos para tom puro e realizou-se a avaliao da qualidade de vida, com utilizao do instrumento da Organizao Mundial da Sade, o World Health Organization Quality of Life, verso abreviada. Resultados: A maior parte dos idosos (64,7%) apresentou deficincia auditiva, principalmente de grau leve (29,4%) ou moderado (19,6%). A qualidade de vida foi considerada regular, sendo os menores escores observados no domnio psicolgico (58,33) e os maiores no domnio relaes sociais (75,00). Foi constatada influncia da idade na presena da deficincia auditiva e nos domnios fsico e social da qualidade de vida. No houve correlao entre o gnero e as demais variveis avaliadas. Concluso: No foi constatada relao entre a presena e o grau de deficincia auditiva e a qualidade de vida. O aumento da idade determinou o aumento no nmero de idosos com deficincia auditivas e menores escores nos domnios fsico e social da qualidade de vida. O gnero no influenciou nas variveis estudadas.

INTRODUO

A populao brasileira, nos ltimos anos, sofreu, de forma veloz, profunda transformao, devido ao aumento da expectativa de vida e diminuio das taxas de natalidade, o que ocasionou o aumento no nmero de idosos (1,2). Se at a dcada de 60, do sculo XX, houve estabilidade populacional, a partir deste perodo aconteceram mudanas. As pesquisas demonstram que, a cada ano, 650 mil pessoas ingressam na faixa etria dos idosos, representando aumento de 600%, neste segmento populacional, em menos de 50 anos (3). Tal crescimento far com que, em 2025, o Brasil ocupe o sexto lugar entre os pases com maior nmero de idosos, ultrapassando a marca de 30 milhes de indivduos (1).

Este aumento se refletir em maior demanda de polticas pblicas de sade, especialmente em relao ao diagnstico e ao tratamento, situao intensificada pelo fato de que muitas pessoas nunca tiveram nem tm acesso a programas preventivos e sofrem atualmente as conseqncias das agresses sade.

Dentre as alteraes que acometem a maior parte dos idosos, est a presbiacusia, que a perda auditiva decorrente do envelhecimento. Estudos evidenciam que a deficincia auditiva inicia por volta dos 30 anos de idade, aumentando progressivamente com o passar dos anos. Apesar de haver semelhana na configurao audiomtrica (perda auditiva neurossensorial, bilateral, simtrica e com curvas descendentes, na maior parte dos casos), os homens so afetados mais precocemente e de forma mais intensa do que as mulheres (4,5,6). Juntamente com a deficincia auditiva encontrada distoro do sinal de fala, zumbido e vertigem (6).

Considerado um problema de sade pblica, devido sua alta prevalncia, a presbiacusia o terceiro acometimento mais comum em indivduos idosos (7,8). Estudos internacionais referem que 25% a 83% dos idosos so afetados (8,9,10). As pesquisas nacionais destacam prevalncias de 63% (11), 81,2% (12) e 89,23% (13). O aumento da idade determina o incremento no nmero de pessoas afetadas (10,14).

No que se refere ao grau de deficincia auditiva, os idosos podem apresentar comprometimento de leve a profundo, com piora acentuada nas freqncias altas. So mais comuns as deficincias de grau leve (11,12); leve a moderado (13) ou moderado (15,16).

A deteriorao do sistema auditivo origina dficits na compreenso de fala (17), acarretando uma srie de problemas sociais, dentre eles: afastamento das atividades sociais e familiares; baixa auto-estima; isolamento; solido; depresso; irritabilidade (8,14). Todos estes problemas afetam de forma determinante a qualidade de vida dos indivduos (7,18), uma vez que, entre outros fatores, ela abrange sua socializao e sua participao no grupo no qual est inserido. Para que a integrao ocorra de forma efetiva, necessria uma adequada capacidade de comunicao (19).

Muitas vezes, porm, a deficincia auditiva tem seus efeitos subestimados(20), especialmente por profissionais no ligados rea audiolgica. Assim, os encaminhamentos para avaliao no so realizados e o idoso, que muitas vezes no aceita o problema ou considera a deficincia auditiva como algo inerente ao envelhecimento, no tem acesso reabilitao, o que afeta ainda mais sua qualidade de vida (19).

O termo qualidade de vida envolve significados diversos, de origem cultural, social, econmica, histrica (21). Neste artigo considerada a definio da Organizao Mundial da Sade (OMS), ou seja, "a percepo do indivduo de sua posio na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores em que vive e em relao a seus objetivos, expectativas, padres e preocupaes" (22).

Devido multiplicidade de vises, conceitos e definies, a avaliao da qualidade de vida algo extremamente complexo. Entre os diversos instrumentos desenvolvidos para este tipo de avaliao, um dos que se destacam o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), criado a partir da definio de qualidade de vida da OMS, sob enfoque transcultural (23). Existem vrias verses do instrumento, muitas delas j traduzidas e validadas para a Lngua Portuguesa. Entre tais verses, est o WHOQOL-bref, verso abreviada do instrumento original, composto por 26 questes, sendo duas gerais e 24 referentes facetas que avaliam 4 domnios: fsico, psicolgico, relaes social e meio ambiente (22). Devido fidedignidade, confiabilidade, extenso e praticidade de aplicao (instrumento auto-aplicvel), ele uma das escalas genricas de avaliao de qualidade de vida mais utilizadas.

Apesar de haver destaques sobre a influncia da deficincia auditiva na qualidade de vida e alguns estudos sobre a importncia da reabilitao auditiva para a melhora da qualidade de vida (15,19,24), no se obteve, especialmente na literatura nacional, estudos de base populacional que relacionassem estes temas.

Considerando-se o impacto da deficincia auditiva na vida dos indivduos afetados e o aumento no nmero de idosos na populao brasileira, optou-se por realizar este estudo, que teve como objetivo verificar a existncia de relao entre a deficincia auditiva e a qualidade de vida de idosos residentes em um bairro da cidade de Canoas, RS. Objetivou-se tambm verificar a influncia das variveis idade e gnero nos aspectos estudados.


CASUSTICA E MTODO

Este estudo foi desenvolvido no bairro So Lus, na cidade de Canoas, RS. A escolha foi feita por convenincia, em funo da proximidade com a Universidade e a possibilidade de deslocamento dos idosos at ela, caso fossem encaminhados para outras avaliaes.

Esta pesquisa de corte transversal, de carter interdisciplinar e envolveu profissionais e alunos dos cursos de Fonoaudiologia, Educao Fsica e Enfermagem. O grupo foi formado a partir do interesse comum na rea da gerontologia. Foram realizadas reunies para a elaborao do projeto de pesquisa, o qual tinha como objetivos identificar as caractersticas demogrficas dos idosos residentes no bairro e coletar dados sobre audio, qualidade de vida, sono, dor, fora e equilbrio. O projeto foi aprovado no comit de tica em pesquisa da Universidade (protocolo 2006 035H).

O bairro So Lus, com populao de aproximadamente 4500 habitantes, situa-se s margens da BR 116, em Canoas / RS. No incio do estudo, foram identificados os limites geogrficos do bairro e nmero de ruas existentes. A seguir, foram realizadas visitas aos domiclios, buscando detectar em quais residiam idosos, a fim de convid-los para participarem voluntariamente da pesquisa. Aqueles que aceitaram assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foram submetidos s avaliaes. Foi considerado idoso o indivduo com idade igual ou superior a 60 anos (25).

Devido ao nmero de avaliaes a serem realizadas, tornou-se necessria, em muitos casos, a segunda visita ao domiclio, para finalizao da aplicao dos protocolos.

A amostra foi constituda, inicialmente, por 72 idosos, de ambos os sexos. Desta amostra inicial, 21 idosos foram excludos por no concordarem em realizar o procedimento ou no serem encontrados em suas residncias no momento em que a avaliao auditiva seria realizada, mesmo aps a tentativa de agendamento, por telefone, da data e do horrio. O reduzido nmero de idosos encontrados no bairro pode ser explicado pela proximidade entre o bairro e a universidade, o que faz com que as residncias sejam predominantemente habitadas por jovens.

O primeiro passo da pesquisa consistia em medir o rudo ambiental dos vrios cmodos do domiclio (decibelmetro MSL-1351C - MINIPA), visando identificar qual deles tinha o menor nvel de rudo. Aps a seleo do local de realizao, os idosos eram orientados sobre o procedimento que seria feito e passavam por meatoscopia (otoscpio Welch Allyn). A pesquisa de limiares auditivos para tom puro foram realizadas com utilizao de um audimetro porttil modelo AS-208 (Interacoustics), mtodo descendente e tom puro modulado (warble). Os idosos foram posicionados de costas para o examinador e orientados a levantar a mo correspondente ao lado em que estivessem escutando o som. O exame sempre iniciava pela orelha em que o indivduo referia escutar melhor. Caso ele no percebesse diferena, o exame era iniciado pelo lado direito. Para o clculo do grau de deficincia auditiva, foi utilizada a classificao da OMS (26), ou seja, considerou-se a mdia das freqncias de 500Hz, 1000Hz, 2000Hz e 4000Hz:

0-25 decibel nvel de audio (dBNA) - limiares auditivos normais;
26 - 40 dBNA - deficincia auditiva leve;
41 - 60 dBNA - deficincia auditiva moderada;
61 - 80 dBNA - deficincia auditiva severa;
+ 80 dBNA - deficincia auditiva profunda.

Para a anlise dos dados, foram considerados somente os resultados da melhor orelha (26).

A avaliao da qualidade de vida foi realizada, utilizando-se a avaliao da qualidade de vida da Organizao Mundial da Sade, o WHOQOL-bref. Optou-se pela verso abreviada, por sua praticidade e confiabilidade, uma vez que os idosos teriam de responder a uma srie de outros questionrios (demogrfico, sono, dor) e a verso completa, neste caso, ficaria extremamente longa (100 itens).

A aplicao do WHOQOL-bref foi feita de acordo com as instrues dos tradutores, ou seja, era solicitado que o indivduo pensasse em sua vida nas duas ltimas semanas e assinalasse a coluna que contivesse a resposta mais adequada ao seu caso. O instrumento auto-aplicvel, ou seja, o indivduo l a questo e assinala a resposta. Caso no entenda a questo, tenha dificuldades de leitura ou analfabetismo, o examinador l a questo como est escrita, evitando explic-la para no influenciar a resposta. Alm disso, deve ser respondido em somente um encontro (22).

Foi utilizada a verso ampliada do instrumento, uma vez que, pela idade dos indivduos avaliados, a letra em tamanho normal (fonte 12) poderia acarretar dificuldades de leitura(27).

Aps ler cada uma das 26 questes, o sujeito deveria assinalar o nmero cuja resposta mais se adequasse a sua situao (1 a 5). Nem sempre o nmero maior corresponde a uma melhor qualidade de vida. Por exemplo, na pergunta "Com que freqncia voc tem sentimentos negativos tais como mau humor, desespero, ansiedade, depresso?", se o indivduo assinalasse o nmero 1 afirmaria nunca tem tais sentimentos. O nmero 5, ao contrrio, indica que ele sempre tem os sentimentos citados. J na pergunta "O quanto voc consegue se concentrar?", ao assinalar o nmero 5 o indivduo declara consegue concentrar-se extremamente, o que no ocorre se assinalar o nmero 1 (dificuldade extrema de concentrao).

O questionrio foi elaborado com quatro tipos de escalas de resposta: intensidade, capacidade, avaliao e freqncia, e as sendo que em cada uma delas existem duas palavras ncora e trs palavras intermedirias para resposta. Por exemplo, na escala de avaliao da freqncia ("com que freqncia voc..."), as palavras ncora so nunca e sempre. As palavras intermedirias so raramente, s vezes e repetidamente (27).

Aps ter o questionrio preenchido, devem ser calculados os valores gerais e por domnio (fsico, psicolgico, meio ambiente e relaes sociais), permitindo a avaliao da qualidade de vida do indivduo. Esta anlise deve ser feita segundo a sintaxe descrita pelos tradutores, com auxlio do software Statistical Package for Social Science (SPSS) 10.0 for Windows, sendo desaconselhada a realizao de contagem e anlise manual pela maior probabilidade de erros (27).

O WHOQOL-bref pode ser obtido no site do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (27).

Para a anlise dos resultados, a comparao entre os grupos foi realizada por meio dos testes de Mann-Whitney (variveis quantitativas sem distribuio normal), exato de Fisher (variveis qualitativas) e de Kruskal-Wallis. Para verificar a existncia de correlao, foram utilizados os coeficientes de Spearman.

1) Teste de Mann-Whitney: foi utilizado para testar a homogeneidade das variveis idade e do WHOQOL-bref - nos aspectos fsico, psicolgico, social, e do meio - entre os gneros.
2) Teste Exato de Fisher: foi utilizado para testar a relao entre gnero e limiares auditivos normais ou alterados.
3) Teste de Kruskal-Wallis: foi utilizado para testar a homogeneidade dos limiares auditivos quanto ao escore do WHOQOL-bref nos aspectos fsico, psicolgico, social e do meio, bem como quanto idade.
4) Coeficiente de correlao de Spearman: foi utilizado para o estudo das correlaes entre duas variveis contnuas, quando elas, ou uma delas, no apresentam distribuio normal. Foi utilizado para verificar a existncia de correlao entre o escore do WHOQOL-bref - nos aspectos fsico, psicolgico, social e do meio - com a idade e com os limiares auditivos.

A anlise descritiva da idade foi realizada por meio da observao do clculo de mdias e desvio padro. Para o escore do WHOQOL-bref foi utilizada mediana acompanhada do intervalo interquartil. Para as demais variveis qualitativas foi calculada a freqncia absoluta.

A anlise estatstica foi executada no SPSS 10.0 for Windows. Todos os testes foram realizados na forma bi-caudal, admitindo-se como estatisticamente significativos os valores de p menores que 0,05.


RESULTADOS

Foram avaliados 51 sujeitos, de ambos os sexos, residentes em bairro da cidade de Canoas, RS. A mdia de idade foi de 69,73 7,00 anos. Dos 51 idosos, 36 (70,6%) eram do gnero feminino e 15 (29,4%) do gnero masculino. Os dados relativos audio encontram-se na Tabela 1. Verificou-se que 64,3% dos idosos avaliados apresentava deficincia auditiva, de grau leve a profundo. A maior parte apresentou perda auditiva de grau leve (29,4%) e moderado (19,6%).



Os resultados da avaliao da qualidade de vida (WHOQOL-bref) encontram-se na Tabela 2. Os valores obtidos demonstram que os menores escores foram obtidos no domnio psicolgico e os melhores no domnio relaes sociais.



Na Tabela 3, so apresentados os dados estratificados por gnero, sendo comparadas as variveis idade, grau de deficincia auditiva e escore do WHOQOL-bref nos aspectos fsico, psicolgico, social e do meio ambiente. Nenhuma das variveis analisadas apresentou diferena estatisticamente significante.



Quando foram comparadas as alteraes audiomtricas (com ou sem alterao), entre os gneros, atravs do teste exato de Fischer, no foi encontrada diferena estatisticamente significante (p=0,527).

A amostra tambm foi estratificada quanto s alteraes audiomtricas (com ou sem alterao), sendo comparadas as variveis idade e ao escore do WHOQOL-bref nos aspectos fsico, psicolgico, relaes sociais e meio ambiente (Tabela 4). Apesar da qualidade de vida estar inferior nos indivduos com alterao auditiva, excetuando-se o domnio fsico, as diferenas obtidas no foram estatisticamente significantes. A nica diferena significante foi constatada na varivel idade dos idosos com e sem alterao auditiva.



A amostra tambm foi comparada pela presena e grau de deficincia auditiva (limiares auditivos normais, deficincias auditivas leve, moderada, severa e profunda). Apenas as variveis idade (p=0,007) e o escore do WHOQOL-bref, no aspecto fsico (p=0,029), apresentaram diferena estatisticamente significante. As demais variveis no apresentaram diferena estatisticamente significante: domnio psicolgico (p=0,103), domnio relaes sociais (p=0,090) e domnio meio ambiente (p=0,065).

Foi testada, ainda, a correlao entre os escores do WHOQOL-bref - nos domnios fsico, psicolgico, relaes sociais e do meio ambiente - e a idade e os resultados da audiometria. Foi encontrada correlao moderada e inversa entre a idade e o WHOQOL-bref no aspecto social. As demais variveis no mostraram correlao (Tabela 5).




DISCUSSO

Os dados referentes caracterizao geral da amostra evidenciam que houve predomnio de idosos do gnero feminino. Isto pode ser explicado pelo fenmeno da feminizao do envelhimento, pois as mulheres apresentam maior expectativa de vida e so mais longevas do que os homens (28).

No que se refere deficincia auditiva, a prevalncia obtida (64,7%) foi inferior descrita na maior parte dos estudos consultados na literatura nacional e internacional (8,9,10,12,13) e semelhante a um estudo nacional (11). Sabe-se que os estudos de prevalncia so muito influenciados pela seleo dos sujeitos que compem a amostra. A variabilidade apresentada pelos diversos estudos pode ser explicada pelas caractersticas dos idosos avaliados em cada um deles. A exposio a diferentes fatores de risco para a deficincia auditiva (medicaes, exposio a rudo, infeces otolgicas, doenas), por exemplo, pode determinar maior ou menor prevalncia de indivduos afetados. Alm disso, valores de de 70% a 80% so encontrados em indivduos com idades superiores a 70 anos (8) e a mdia de idade da amostra deste estudo foi de 69,73 anos.

Esperava-se, contudo, maior concordncia com os dados obtidos em um estudo de base populacional realizado na mesma cidade em que esta pesquisa foi desenvolvida (12), o que no foi constatado. Talvez isto possa ser explicado pelo fato de que, no estudo citado, foram verificados os limiares audiomtricos de idosos de vrios bairros da cidade, sendo apontada a mdia da prevalncia de deficincia auditiva.

Ressalta-se tambm a perda de 21 idosos, os quais no foram encontrados para a realizao da audiometria ou no quiseram realizar o exame. A literatura evidencia que muitos indivduos negam-se a assumir o problema, mesmo quando existe sua percepo por familiares e amigos. Isto ocorre por terem eles medo de dependncia ou por acreditarem que a deficincia auditiva uma conseqncia natural da idade. Para alguns indivduos, assumir que tem este problema pode lev-los a se perceberem como idosos, o que nem sempre bem aceito, em funo das caractersticas negativas associadas a esta faixa etria. Por tais motivos, muitos se negam a realizar as avaliaes necessrias, preferindo conviver com todas as dificuldades que a deficincia auditiva acarreta (19).

Quanto ao grau, a maior parte dos idosos apresentou deficincia auditiva leve ou moderada, o que concorda com os estudos nacionais realizados (11,12,13). Ainda com relao avaliao geral da amostra, o WHOQOL-bref evidenciou escores semelhantes entre os domnios avaliados, sendo os melhores escores no domnio relaes sociais. Este dado surpreendeu os pesquisadores, uma vez que o envelhecimento uma fase de afastamento da vida social (29) e que a maior parte dos idosos apresentava deficincia auditiva.

Os menores escores foram obtidos no domnio fsico. As questes referem-se a sono, dor, atividades de vida diria, dependncia de medicamentos e/ou tratamentos e capacidade de trabalho (22) e j se esperava que os valores fossem inferiores, pois os idosos freqentemente tm sua sade afetada, o que provoca a auto-avaliao negativa.

Quando considerados os dados por gnero, verificou-se que no houve diferena estatisticamente significante entre os sexos, em nenhum dos itens avaliados (idade, grau de deficincia auditiva e resultados do WHOQOL-bref).

Apesar da semelhana na mdia de idade, acreditava-se que os resultados audiomtrico nos homens seriam inferiores, principalmente em funo dos resultados descritos na literatura especializada, cujos autores revelam que a deficincia auditiva ocorre mais cedo e de forma duas vezes mais acentuada nos indivduos do sexo masculino (4,5,6).

No que se refere qualidade de vida e ao gnero, os escores obtidos nos quatro domnios do WHOQOL-bref tambm foram semelhantes, diferindo do relatado em outros estudos (28,30).

As pesquisas sobre gnero e qualidade de vida so controversas, devido reduzida literatura comparativa sobre o tema e aos instrumentos utilizados para a avaliao. Em alguns casos, porm, o que se percebe que a maior parte das mulheres tem pior qualidade de vida percebida, especialmente no que se refere questo sade e vida social, devido ao alto ndice de morbidade e isolamento, talvez por serem mais longevas (30).

Considerando-se idade, escores do WHOQOL-bref e resultados normais ou alterados na audiometria, novamente no houve diferena estatisticamente significante no que se refere avaliao da qualidade de vida, contrariando o descrito na literatura especializada (7,8,14,18,19).

Verificou-se, contudo, diferena significante entre a mdia de idade dos indivduos com audio normal e com alterao na audiometria. A piora dos limiares audiomtricos com o aumento da idade j foi descrita por outros autores (11,12), corroborando os achados desta pesquisa.

Quando comparados os escores do WHOQOL-bref em cada um dos domnios e com a presena e o grau de deficincia auditiva, no foram encontradas diferenas estatisticamente significantes, o que tambm contrrio ao esperado pelos pesquisadores e descrito na literatura consultada (7,8,14,18,19). Este achado provavelmente tenha ocorrido porque, conforme descrito anteriormente, muitos idosos avaliados (29,4%) apresentavam deficincias auditivas de grau leve. De acordo com a OMS (26), este grau de deficincia auditiva no considerado incapacitante, ou seja, no impede que o indivduo afetado tenha problemas no desempenho de suas atividades. Nos indivduos que apresentavam deficincia auditiva moderada (19,6%), constatou-se que a mdia dos limiares ficava, muitas vezes, no limite entre leve/moderada. Provavelmente por isto, os avaliados, apesar de apresentarem deficincia auditiva incapacitante (a partir de deficincia auditiva moderada), ainda no estavam experimentando os efeitos negativos do handicap auditivo.

Novamente foram observadas diferenas estatisticamente significantes somente quando se comparou a idade com o domnio fsico. Sabe-se que a idade determinante da capacidade funcional do indivduo, uma vez que a proporo de pessoas com problemas fsicos que requerem auxlio parcial ou total para desempenhar suas atividades de vida diria maior em grupos etrios mais velhos (29).

Constatou-se, ainda, que no houve correlao entre os resultados dos escores do WHOQOL-bref, a idade e os resultados da audiometria. A nica correlao existente, inversa e de magnitude moderada, foi observada entre a idade e as relaes sociais, ou seja, quanto maior a idade, menor a participao dos idosos em atividades sociais e menores os suportes sociais e os relacionamentos pessoais que eles apresentam. Isto tambm referido na literatura especializada (29). As relaes humanas esto dentro de um conceito mais amplo - o desempenho social - que abrange a interao da pessoa com as demais e com o meio. Idosos precisariam de uma rede social ampla, tanto em funo da manuteno de suas atividades sociais como da criao de sistemas de suporte, com redes de apoio que pudessem permanecer na comunidade. Ocorre, porm, que neste perodo da vida, o grupo social comea a diminuir, em funo da morte de parentes e amigos e da fase de vida adulta em que esto os filhos, os quais, muitas vezes, no proporcionam ao idoso o suporte social que deveria ter e que permitiria sua integrao na comunidade, aumentando a capacidade de recuperao de doenas e diminuindo os riscos de morbi/mortalidade (29).


CONCLUSO

O presente estudo permitiu verificar que, no grupo estudado, no foram constatadas relaes entre qualidade de vida e deficincia auditiva. A varivel idade influenciou a presena ou ausncia da deficincia auditiva e os aspectos fsico e social da qualidade de vida. No foi constatada influncia do gnero na audio e na qualidade de vida dos indivduos avaliados.


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1 Doutora em Gerontologia Biomdica. Fonoaudiloga. Professora dos Cursos de Graduao em Fonoaudiologia e Ps-Graduao em Audiologia e Educao Fsica. Professora Colaboradora do Programa de Ps-Graduao em Sade Coletiva - ULBRA - Canoas / RS.
2 Doutora em Cincias do Movimento Humano - UFRGS. Professora de Educao Fsica. Professora dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS.
3 Doutora em Psicologia - Universidade Pontifcia de Salamanca. Enfermeira. Professora dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Enfermagem. Professora Colaboradora do Programa de Ps-Graduao em Sade Coletiva - ULBRA - Canoas / RS.
4 Doutora em Psicologia Social - USP. Professora de Educao Fsica. Professora dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica. Professora Colaboradora do Programa de Ps-Graduao em Sade Coletiva - ULBRA - Canoas / RS.
5 Doutor em Psicologia - Universidade de Barcelona. Professor de Educao Fsica e Psiclogo. Professor dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS.
6 Acadmica do Curso de Fonoaudiologia da ULBRA - Canoas / RS. Bolsista de Iniciao Cientfica - ULBRA - Canoas / RS.
7 Acadmico do Curso de Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS. Pesquisador voluntrio.
8 Acadmica do Curso de Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS. Bolsista de Iniciao Cientfica - ULBRA - Canoas / RS.
9 Doutor (a) em Fitotecnia - UFRGS. Bilogo (a). Professor (a) dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS.
10 Doutora em Cincias Biolgicas (Neurocincias) - UFRGS. Biloga. Professora dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS.
11 Doutora em Cincias da Atividade Fsica e do Esporte - Universidad de Len. Professora de Educao Fsica. Professora dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica - ULBRA - Canoas / RS.
12 Doutor em Educao. Universidade Metodista de Piracicaba. Professor de Educao Fsica. Professor dos Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Educao Fsica na Universidade Luterana do Brasil - ULBRA - Canoas / RS.

Instituio: Universidade Luterana do Brasil - ULBRA - Canoas / RS.

Endereo para correspondncia: Dra. Adriane Ribeiro Teixeira - Rua Alberto Rangel, 315 - Apto. 911 - Parque Santa F - Porto Alegre / RS - CEP 91180-840 - Fax: (51) 3211-2058 - E-mail: adriteixeira@yahoo.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 12 de dezembro de 2007. Cd. 390. Artigo aceito em 10 de fevereiro de 2008.
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