Title
Search
All Issues
9
Ano: 2008  Vol. 12   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Original Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Avaliao Otorrinolaringolgica na Hansenase Protocolo de um Centro de Refrncia
Otorhinolaryngologic Evaluation of Leprosy Patients Protocol of a National Reference Center
Author(s):
Giselle Mateus da Silva 1, Lucas Gomes Patrocinio 2, Jos Antonio Patrocinio 3, Isabela Maria Bernardes Goulart 4
Palavras-chave:
hansenase, otorrinolaringologia, deformidades adquiridas nasais, diagnstico precoce
Resumo:

Introduo: O diagnstico precoce da Hansenase importante principalmente para prevenir a inaptido. O exame otorrinolaringolgico auxilia nesse diagnstico, assim a doena deve ser tratada eficientemente antes que se estabelea alterao na face tornando o paciente estigmatizado. Objetivos: Demonstrar os achados otorrinolaringolgicos em pacientes portadores de hansenase virgens de tratamento e apresentar o protocolo de um Centro de Referncia Nacional em Dermatologia Sanitria e Hansenase. Casustica e Mtodos: Foi realizada avaliao otorrinolaringolgica em 80 pacientes portadores de Hansenase. Os protocolos foram lanados em um Software de Estudo e Controle da Hansenase do Centro de Referncia e avaliados retrospectivamente quanto aos dados clnicos dos pacientes. Resultados: As queixas e achados fsicos alterados mais freqentes foram referentes ao nariz, principalmente obstruo nasal e hipertrofia de cornetos. A forma clnica virchowiana foi a que apresentou maior ndice de alteraes, porm as formas dimorfas tambm apresentaram quantidade significante de alteraes. Tanto na regio buco-faringo-larngea e quanto no ouvido, as queixas foram menos comuns. Concluso: Demonstrou-se, assim como na literatura, que os sintomas e sinais nasais so os mais freqentes em hansenase. Reafirma-se a importncia do otorrinolaringologista na avaliao multidisciplinar desse paciente.

INTRODUO

A hansenase uma doena infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae. Representa srio problema de sade pblica, visto que o Brasil configura a segunda maior endemicidade do mundo (1).

A infeco inicial da hansenase ocorre na mucosa nasal (2,3). O achado de baciloscopia positiva na mucosa nasal foi publicado pela primeira vez em 1973 (4). Desde ento, tem se demonstrado que a via area superior a principal forma de transmisso atravs do convvio com os doentes sem tratamento (1).

O diagnstico precoce importante pelo controle epidemiolgico, manejo do caso e preveno das deficincias (5). Alm disso, a doena deve ser diagnosticada e tratada eficientemente antes que se estabelea alterao na face tornando o paciente estigmatizado (6).

Com isso, o exame otorrinolaringolgico importante no diagnstico precoce da hansenase devido ao acometimento freqente das vias area superiores. Apresenta carter descendente, ou seja, inicia pelas fossas nasais e, a seguir boca, laringe (1).

Portanto, o presente estudo tem como objetivo demonstrar os achados otorrinolaringolgicos em pacientes portadores de hansenase virgens de tratamento e apresentar o protocolo de um Centro de Referncia Nacional em Dermatologia Sanitria e Hansenase (CREDESH).


CASUSTICA E MTODO

De janeiro de 2005 a julho de 2007, oitenta pacientes com diagnstico de hansenase, virgens de tratamento, foram encaminhados ao Servio de Otorrinolaringologia do CREDESH, conforme protocolo de avaliao no diagnstico.

Estes pacientes foram avaliados por meio de histria clnica, exame fsico e exames complementares (nasofibroscopia, laringoscopia, audiometria, etc.) quando necessrio. Foi preenchido um protocolo padro (Figura 1) que constava as queixas, sinais e sintomas otorrinolaringolgicos, exame fsico e exames complementares.



Na avaliao do nariz, o paciente foi questionado quanto aos principais sintomas como obstruo nasal, epistaxe, formao de crostas, dentre outros sintomas que apareceram ou se acentuaram aps o incio da doena. Foi realizada rinoscopia anterior e nasofibroscopia quando necessrio e descritas as alteraes mucosas e estruturais encontradas.

Na avaliao da regio buco-faringo-larngea, o paciente foi questionado quanto a sintomas como disfonia, globus farngeo. Foi realizada oroscopia e descritas as alteraes. Quando havia queixas larngeas era realizada videolaringoscopia.

Na avaliao otolgica, o paciente foi avaliado quanto s queixas otolgicas e foi realizada otoscopia. Exames complementares como audiometria e imitanciometria foram realizados quando necessrio.

Os protocolos foram lanados em um Software de Estudo e Controle da Hansenase (SECH) do CREDESH e avaliados retrospectivamente quanto aos dados clnicos dos pacientes. Esta investigao foi aprovada pelo Comit de tica em Pesquisa da instituio sob nmero 025/2000.


RESULTADOS

Dos 80 pacientes, 31 eram do sexo feminino (38,75%) e 49 do masculino (61,25%). Quanto s formas clnicas da doena, 4 pacientes (5%) eram tuberculides (T), 23 (28,75%) dimorfos-tuberculides (DT), 10 (12,5%) dimorfos-dimorfos (DD), 14 (17,5%) dimorfos-virchowianos (DV), 26 (32,5%) virchowianos (V) e 3 apresentaram (3,75%) a forma neural pura (HNP).

As queixas e alteraes otorrinolaringolgicas mais freqentes foram relacionadas ao nariz (Tabela 1), principalmente obstruo nasal (36,25%) e formao de crostas (30%). Os sinais mais freqentes foram hipertrofia de conchas (36,25%), hiperemia de mucosa (22,5%) e atrofia de conchas (22,5%). Perfurao de septo e nariz em sela foram encontrados em 16,25% dos casos (Tabela 2).





Com relao forma clnica, a virchowiana foi a que apresentou maiores sinais e sintomas clnicos, sendo responsvel por 64% das queixas (Figura 2). As formas do grupo dimorfo tambm apresentaram queixas em nmero significativo, representando 30% destas. O mesmo ocorreu nas alteraes do exame fsico nasal em que a forma clnica virchowiana representou 49% das alteraes encontradas e as formas dimorfas, 39% destas.


Figura 2. Tomografia computadorizada dos seios da face em corte coronal demonstrando rinite atrfica, edema de mucosa nasal e perfurao septal, achados tpicos de hansenase, forma virchowiana.


Na regio buco-faringo-larngea, as principais alteraes foram: globus farngeo (7,5%) e dor cervical (5%). A oroscopia foi encontrada alterao como vegetao, ulceraes ou nodulaes em 4 pacientes (3,75%).

As otolgicas foram menos comuns, sendo as mais comuns: otalgia (8,75%), hipoacusia (8,75%), zumbido (6,25%) e vertigem (3,75%).


DISCUSSO

A hansenase pode ser diagnosticada precocemente com o auxlio do exame otorrinolaringolgico, j que na suspeita pelas leses dermatolgicas, a associao com alteraes nasais torna o diagnstico altamente suspeito (1). Como foi visto nesse trabalho, a estrutura da regio de cabea e pescoo mais acometida do paciente com hansenase foi o nariz. O exame fsico do nariz e a avaliao das alteraes causadas so de fcil execuo e possibilita o tratamento precoce evitando assim deformidades, j que o nariz representa elemento de indiscutvel importncia na aceitao social do indivduo (7).

Das estruturas nasais, as mais acometidas so o septo, as conchas e a espinha nasal anterior, por apresentarem revestimento mucoso em suas duas faces (7).

No nariz h trs grupos de manifestaes: precoces, intermedirias e tardias. No primeiro grupo h infiltrao da mucosa e ressecamento anormal. Nas intermedirias, a infiltrao aumenta acarretando obstruo nasal, com aumento da secreo nasal originando crostas. E no grupo das manifestaes tardias, ocorre ulcerao, infeco secundria, diminuio da irrigao sangunea do pericndrio podendo produzir perfurao do septo nasal cartilaginoso, alterao da sensibilidade e perturbaes do olfato. Com a destruio do septo nasal o nariz pode se tornar em sela (1).

No presente estudo, as principais queixas foram obstruo nasal (36,25%) e formao de crostas (30%). Outra queixa tambm comum foi a epistaxe recorrente (15%). O sangramento severo, porm, raro (6). Tais alteraes so intermedirias e auxiliariam no diagnstico precoce. Em outro estudo, mais de 90% dos pacientes com hansenase virchowiana admitiram sintomas nasais quando foram diretamente questionados (8). No estudo presente, onze pacientes apresentavam queixa de hiposmia/anosmia. Entretanto, BARTON (1974b) refere que esse sintoma no normalmente mencionado pelos pacientes (9).

Dez pacientes apresentavam perfurao de septo nasal sendo que trs desses evoluram para nariz em sela. Essa importante deformidade poderia ter sido evitada com o diagnstico e tratamento mais precoce. FARINA (1991) ao descrever correes cirrgicas do nariz em sela de variadas etiologias mostraram que a maior porcentagem de complicaes se relaciona com doentes com hansenase (10).

Dezoito pacientes apresentaram atrofia de conchas nasais com importante palidez de mucosa em 16 casos. BARTON (1973) refere que cerca de metade dos pacientes com rinite atrfica apresentam algum grau de perda de sensibilidade do nariz (11).

Outras estruturas acometidas pela hansenase e que fazem parte do exame otorrinolaringolgico so a cavidade oral e a laringe. Porm, as leses da orofaringe so secundrias s nasais e presentes apenas em pacientes de longa evoluo. Apresentam-se como infiltrados e ndulos (1). Na histria natural da doena, as leses larngeas so graves. Elas podem ser fibrticas, com imobilizao das pregas vocais e conseqente disfonia, ou ulcerativas, que so mais graves e levam dor, disfonia e dispnia (1). Com a introduo do tratamento poliquimioterpico mais precoce, essas leses no tem sido observadas.

No presente estudo encontramos as seguintes alteraes buco-faringo-larngeas: 5% dor na cavidade oral, 7,5% globus farngeo e 1,5% com hiperemia em cavidade oral. Porm, a videolaringoscopia no foi realizada nesses pacientes. BARTON (1974c) avaliou 34 pacientes selecionados, e neles no foi observado envolvimento das pregas vocais e em dois pacientes havia envolvimento da epiglote (12).

Quanto orelha, a hansenase parece acometer apenas o pavilho auricular (1). Nos pacientes examinados apenas um apresentou edema do conduto auditivo externo. Sete pacientes apresentavam hipoacusia e demais queixas que provavelmente j existiam antes da doena e que no apresentam relao com a hansenase. BARTON (1989) tambm encontrou, ocasionalmente, pacientes com significativa perda auditiva e outros sintomas na avaliao otolgica de pacientes com hansenase (6).

Enfatiza-se tambm que foram encontrados sinais e sintomas clnicos e alteraes no exame fsico em grande parte das formas do grupo dimorfo, o que sugere um comprometimento precoce do nariz na hansenase e o destaque do papel deste no diagnstico e transmisso da doena.
Portanto, este estudo mostra os achados otorrinolaringolgicos de pacientes com hansenase e refora, uma vez mais, a importncia do diagnstico precoce a fim de prevenir complicaes definitivas.


CONCLUSO

O presente estudo demonstrou o protocolo utilizado na avaliao dos pacientes com hansenase, virgens de tratamento, no Servio de Otorrinolaringologia do CREDESH. Demonstrou, assim como na literatura, que os sintomas e sinais nasais so os mais freqentes, sendo estes: obstruo nasal (36,25%), formao de crostas (30%) e epistaxe recorrente (15%). Reafirma-se a importncia do otorrinolaringologista na avaliao multidisciplinar desse paciente.


AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem equipe do CREDESH e FAPEMIG, CNPq, CAPES, FINEP e Ministrio da Sade pelo suporte financeiro.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Talhari S, Neves RG. Hansenase. 3. ed. Manaus: Tropical; 1997.

2. McDougall AC, Rees RJ, Weddel AG, Kanan MW. The histopathology of lepromatous leprosy in the nose. J Pathol 1975; 115:215-26.

3. Job CK. Nasal mucosa and abraded skin are the two routes of entry of Mycobacterium leprae. Star 1990; 49:1.

4. Pedley JC. The nasal mucus in leprosy. 10th International Leprosy Congress Paper 1973; 6:45.

5. International Leprosy Association Technical Forum. The diagnosis and classification of leprosy. Int J Lepr Other Mycobact Dis 2002; 1:S23-S31.

6. Barton RPE. Ear, nose and throat involvement en leprosy. Leprosy, Medicine in the Tropics 1989; 243-52.

7. Duerksen F, Virmond M. Nariz; Cirurgia reparadora e reabilitao em hansenase. Bauru: ALM Internacional. Centro de Estudos Dr. Reinaldo Quagliato, Instituto Lauro de Souza Lima; 1997.

8. Barton RPE. A clinical study of the nose in lepromatous leprosy. Lepr Rev 1974a; 45:135-44.

9. Barton RPE. Olfaction in leprosy. J Laryngol Otol 1974b; 80:355-61.

10. Farina R, Farina G, Cury E. Os enxertos sseos na correo das deformidades do dorso osteocartilaginoso do nariz. Folha Md 1991; 103(1):27-36.

11. Barton RPE. The management of leprous rhinitis. Lepr Rev 1973; 44:186-91.

12. Barton RPE. Lesions of the mouth, pharynx and larynx in lepromatous leprosy. Lepr India 1974c; 46:130-34.











1 Mdica, Residente do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
2 Otorrinolaringologista. Chefe da Diviso de Cirurgia Crnio-Maxilo-facial do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
3 Professor Titular. Chefe do Servio de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.
4 Professora Doutora. Chefe do Servio de Hansenologia do Departamento de Clnica Mdica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlndia.

Instituio: Centro de Referncia Nacional em Dermatologia Sanitria e Hansenase, Hospital de Clnicas, Faculdade de Medicina, Universidade

Federal de Uberlndia, Uberlndia, Minas Gerais, Brasil.

Endereo para correspondncia: Isabela Maria Bernardes Goulart - Avenida Aspirante Mega, 77 - Bairro Jaragu - Uberlndia / MG - CEP 38413-018 - Telefone: (34) 3216-7872 / 3238-1530 - E-mail: credsh@hc.ufu.br - Suporte Financeiro: FAPEMIG, CNPq, CAPES, FINEP e Ministrio da Sade.

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 4 de janeiro de 2008. Cod. 401. Artigo aceito em 16 de janeiro de 2008.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2024