Title
Search
All Issues
14
Ano: 2008  Vol. 12   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Original Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Imagens Estereoscpicas Tridimensionais da Anatomia do Osso Temporal: Aquisio e Demonstrao
Stereoscopic Tridimensional Images of the Anatomy of the Temporal Bone: Acquisition and Demonstration
Author(s):
Joo Flvio Nogueira Jnior 1, Iulo Srgio Barana Filho 2, Diego Rodrigo Hermann 3, Raquel Garcia Stamm 4, Maria Laura Solferini Silva 5, Aldo Cassol Stamm 6
Palavras-chave:
osso temporal, tridimensional, anatomia, estereoscpico
Resumo:

Introduo: A anatomia do osso temporal humano considerada uma das mais complexas do organismo. Estruturas nervosas, vasculares e outras esto em relao ntima, s vezes separadas apenas por alguns milmetros. Longos perodos de treinamento atravs de disseces de ossos temporais e observaes cirrgicas tm tradicionalmente formado a base da educao. Mdicos residentes geralmente, em algum estgio da educao, tm alguma dificuldade na compreenso da anatomia, que na maioria das vezes ensinada em aulas tericas bidimensionais. As imagens tridimensionais estereoscpicas podem permitir um melhor conhecimento das importantes relaes entre as estruturas do osso temporal. Objetivo: Os objetivos do trabalho so: 1) mostrar imagens estereoscpicas tridimensionais do osso temporal; 2) demonstrar como obter e gerar estas imagens tridimensionais com equipamentos simples como mquina fotogrfica digital e programa prprio de computador, discutindo as dificuldades tcnicas encontradas na aquisio e edio. Mtodo: Quatorze ossos temporais conservados em formol foram dissecados no laboratrio de anatomia do Hospital Professor Edmundo Vasconcelos, So Paulo-Brasil. Quatro foram selecionados para obteno de imagens de marcos anatmicos do osso temporal. Resultados: Conseguimos imagens estereoscpicas tridimensionais do osso temporal humano com boa qualidade Concluses: As imagens estereoscpicas tridimensionais foram obtidas com pouco custo e discretas dificuldades tcnicas e seu uso pode vir a melhorar o conhecimento anatmico de mdicos residentes nas cirurgias otolgicas.

INTRODUO E OBJETIVOS

Vivemos em um mundo fisicamente tridimensional, mas nossas tcnicas de ensino e de documentao baseiam-se fundamentalmente no emprego da linguagem oral e escrita em reprodues bidimensionais (1).

A complexidade e a riqueza de detalhes tridimensionais da anatomia cirrgica do osso temporal humano faz com que o otologista necessite conhec-lo profundamente antes de iniciar sua prtica cirrgica (1,2). Estruturas nervosas, vasculares e outras esto em relao ntima, s vezes separadas apenas por alguns milmetros.

As estruturas microscpicas interrelacionadas, os inmeros planos e profundidades tornam o ensino anatmico do ouvido de difcil compreenso, principalmente quando demonstrado da forma clssica em livros anatmicos ou aulas tericas bidimensionais (3,4,5,6,7,8).

A compreenso da anatomia e fisiologia de mecanismos complexos, como por exemplo, o transporte do som, o trajeto intratemporal do nervo facial e as estruturas da cpsula tica (vestbulo, canais semicirculares, cclea e seus recessos) uma parte importante para a segura realizao de cirurgias otolgicas.

Habitualmente so necessrios longos perodos de treinamento atravs de disseces de ossos temporais na formao de mdicos otorrinolaringologistas e atualmente este processo tem sido prejudicado j que a obteno de peas anatmicas junto aos Servios de Verificao de bito (SVO) em nosso pas tem se tornado cada vez mais difcil.

Neste nterim, programas de computador simulando disseces virtuais tm sido criados em diversos pases, onde a obteno de peas anatmicas ainda mais difcil, para o treinamento de mdicos residentes.

Mdicos em treinamento geralmente, em algum estgio da educao, tm alguma dificuldade na compreenso das estruturas anatmicas apresentadas em livros, manuais de disseco e em aulas, que na maioria das vezes so apresentadas com ilustraes bidimensionais.

As imagens estereoscpicas tridimensionais, por possibilitarem percepo de profundidade, podem permitir um melhor conhecimento e entendimento das importantes relaes entre as estruturas do osso temporal (3, 4, 7, 8).

Tradicionalmente imagens estereoscpicas tridimensionais, ou seja, aquelas em que h ntida percepo de profundidade, podem ser obtidas por trs mtodos bsicos: paralelo, polarizado ou anaglfico.

Cada mtodo tem suas peculiaridades, vantagens e desvantagens, mas todos basicamente necessitam de equipamentos especiais de captura e projeo/demonstrao: como cmeras prprias, suportes especficos, culos, projetores ou telas especiais.

Estes equipamentos muitas vezes so inascessveis maioria das instituies brasileiras devido ao alto custo financeiro, sendo tambm equipamentos de difcil manuseio e manuteno (8).

Os objetivos desse trabalho so: 1) mostrar imagens estereoscpicas tridimensionais do osso temporal; 2) demonstrar como obter e gerar estas imagens tridimensionais com equipamentos simples como mquina fotogrfica digital e programa prprio gratuito de computador, discutindo as dificuldades tcnicas encontradas na aquisio e edio destas imagens.


MATERIAL E MTODO

Dentre 14 ossos temporais conservados em formol e dissecados sob superviso no laboratrio de Anatomia do Hospital Professor Edmundo Vasconcelos, em So Paulo, quatro foram selecionados por mdicos com experincia comprovada em cirurgia otolgica para obteno de imagens de marcos anatmicos do osso temporal.

Duas imagens digitais de cada marco anatmico foram capturadas utilizando-se uma mquina fotogrfica digital (SONY Cyber-Shot DSC-W50 com resoluo de 6.0 megapixels). Os marcos anatmicos foram escolhidos baseados:

1) Importncia anatmica e funcional.
2) Seqncia habitualmente encontrada em Mastoidectomias at a chegada ao antro da poro mastidea do osso temporal.

Os procedimentos seqenciais realizados foram os seguintes: (Tabela 1)



Duas fotos diferentes da mesma imagem foram capturadas para formao estereoscpica movendo-se a camera em plano horizontal, sem suportes especficos. Foi utilizada uma distncia entre fotos variando de 62 - 66 mm.

A cmera foi conectada diretamente ocular do microscpio utilizado para a aquisio das imagens (DF Vasconcelos). Esta adaptao no necessitou de aparelhos, suportes ou instrumentos especiais.

As figuras foram editadas com o programa de computador: Adobe Photoshop verso 8.0.

Aps edio, as imagens obtidas foram utilizadas para confeco de figuras estereoscpicas tridimensionais (anaglficas) em programa de computador prprio Callipygian 3D verso 2.9., que pode ser encontrado de forma gratuita na Internet no seguinte endereo eletrnico: http://www.callipygian.com/3D


RESULTADOS

Utilizamos equipamentos bsicos de disseco anatmica do osso temporal (Figura 1). Obtivemos imagens digitais bidimensionais de alta qualidade com 6 megapixels de resoluo. Aps edio e utilizao de programa de computador prprio, criamos excelentes imagens estereoscpicas tridimensionais (Figuras 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8).

As figuras necessitam de culos especficos que podem ser encotrados no mercado, confeccionados com baixo custo.


Figura 1. Imagem estereoscpica do material bsico utilizado para disseco anatmica.



Figura 2. Anatomia de superfcie: osso temporal preparado para disseco. Pontos anatmicos: arco zigomtico, ponta da mastide, conduto auditivo externo.



Figura 3. Mastoidectomia cortical: crtex mastodeo. Ponta da mastide, conduto auditivo externo.



Figura 4. Mastoidectomia sub-cortical: viso trans-canal. Ossculos: martelo, bigorna e estribo. Nervo corda do tmpano.



Figura 5. Mastoidectomia cavidade fechada: ramo curto da bigorna, canal semi-circular lateral, dura mter da fossa mdia, seio sigmide, conduto auditivo externo.



Figura 6. Mastoidectomia cavidade fechada: timpanotomia posterior realizada. Ramo curto da bigorna, eminncia piramidal, janela redonda, dura-mter da fossa mdia, seio sigmide, conduto auditivo externo.



Figura 7. Acesso translabirntico: canais semi-circulares, nervo facial, bigorna, martelo, estribo, janela redonda, seio sigmide, dura-mter da fossa mdia.



Figura 8. Acesso translabirntico: canais semi-circulares, nervo facial, bigorna, martelo, estribo, janela redonda, seio sigmide, dura-mter da fossa mdia.



DISCUSSO

Os mtodos de reproduo estereoscpica j foram descritos nos meados do sculo XIX (9). A partir da segunda metade do sculo passado vrias tcnicas de reprodues estereoscpicas foram desenvolvidas para projeo e impresso.

No entanto, o avano nas reas de fotografia digital e informtica dos ltimos anos veio em muito facilitar e otimizar a realizao e divulgao de imagens estereoscpicas tridimensionais.

Em nossa rea, o emprego de imagens estereoscpicas tridimensionais, que possibilitam uma percepo real de profundidade, pode ser extremamente til para uma melhor demonstrao das estruturas anatmicas nos seus diversos nveis de observao macro e microscpicos, constituindo-se em importante ferramenta de ensino e de documentao.

Apesar de j terem sido feitas colees de imagens anatmicas tridimensionais h algumas dcadas, o seu uso at hoje tem sido pouco difundido, provavelmente devido dificuldade de confeco, reproduo e custo (5,6,7,8).

Existem basicamente trs mtidos de gerao de imagens estereoscpicas tridimensionais: anaglfico, paralelo e polarizado. Cada mtodo apresenta vantagens e desvantagens.

Entre estes, o mais simples e difundido o mtodo denominado de anaglfico (1), que consiste em sobrepor duas imagens levemente distintas da mesma estrutura colorindo cada uma delas com uma cor bsica. Estas imagens so interpostas e visualizadas de forma estereoscpica com o emprego de culos constitudos por filtros das mesmas cores, o que faz com que cada olho seja capaz de visualizar apenas a imagem tingida com a cor do respectivo filtro. Os filtros mais utilizados so os de cores vermelho e azul (1,2).

A imagem anaglfica final pode ser produzida tanto em escala de cinza, quanto em cores, porm com um discreto prejuzo da visualizao das cores bsicas, em particular do vermelho.

Neste mtodo, ps ns empregado, observamos que as imagens devem ser capturadas com fundo evidente para uma melhor visualizao da profundidade das estruturas 1.


CONCLUSES

Com mquina fotogrfica digital simples e programa gratuito de computador conseguimos imagens estereoscpicas tridimensionais do osso temporal humano com boa qualidade.

Estas imagens foram obtidas com pouco custo e discretas dificuldades tcnicas e seu uso pode vir a melhorar o conhecimento anatmico de mdicos residentes nas cirurgias otolgicas.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Ribas GC, Bento RF, Rodrigues Jr AJ. Reprodues impressas de imagens tridimensionais estereoscpicas para ensino, demonstraes e documentaes. Arq Int Otorrinolaringol. 2000, 4(2): 48-54.

2. Bento, RF; Ribas, GC; Sanchez, TG; et al. Demosntrao Tridimensional da Anatomia Cirrgica do Osso Temporal. Arq Int Otorrinolaringol. 2000, 4(2): 43-47.

3. Trelease RB. Toward Virtual Anatomy: A Stereoscopic 3D Interactive Multimedia Computer Program for Cranial Osteology. Clin Anat. 1996, 9:269-272.

4.Trelease RB. The Virtual Anatomy Practical: A Stereoscopic 3D Interative Multimedia Computer Examination Program. Clin Anat. 1998, 11: 89-94.

5. Bassett DL. A Stereoscopic Atlas of Human Anatomy. Portland: Sawyer's Inc., 1961;

6. Chase RA. A Stereoscopic Atlas of Human Anatomy, The Bassett and Gruber Legacy, 3D Book Productions, Borger, 1994.

7. Kraus GE, Bailey GJ. Microsurgical Anatomy of the Brain: A Stereo Atlas. Baltimore: Williams and Wilkins, 1994;

8. Poletti CE, Ojemann RG. Stereo Atlas of Operative Microneurosurgery. St. Louis: CU Mosby Co., 1985.











1 Graduao em Medicina. Mdico Residente do 3 ano de Otorrinolaringologia - Hospital Prof. Edmundo Vasconcelos.
2 Fellow - Cirurgia Otolgica e Base de Crnio - Universidade de So Paulo. Otorrinolaringologista.
3 Otorrinolaringologista, Hospital Prof. Edmundo Vasconcelos.
4 Mdica. Residente de Otorrinolaringologia - UNIFESP/EPM.
5 Mdica. Residente de Otorrinolaringologia.
6 Doutor. Chefe do Centro de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia de So Paulo - Hospital Prof. Edmundo Vasconcelos

Trabalho apresentado e premiado com "President's Award" na 2007 American Academy of Otolaryngology, Head and Neck Surgery Annual Meeting, realizado em setembro de 2007, em Washington, DC, Estados Unidos.

Instituio: Centro de Otorrinolaringologia de So Paulo - Hospital Professor Edmundo Vasconcelos. Rua Borges Lagoa, 1450 - 3 andar - Prdio dos Ambulatrios - Vila Clementino - So Paulo / SP - CEP: 04038-905 - www.centrodeorl.com.br

Endereo para correspondncia: Joo Flvio Nogueira Jnior - Rua Martiniano de Carvalho, 1049 - Apto. 195 C - Bela Vista - So Paulo / SP - CEP: 01321-001 - Telefone: (11) 9957-9249 - E-mail: joaoflavioce@hotmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 23 de maro de 2008. Cod. 434. Artigo aceito em 24 de maro de 2008.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2024