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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Case Report
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Lipoma de Laringe - Relato de Um Caso
Laryngeal Lipoma - A Case Report
Author(s):
Leandro Ricardo Mattiola 1, Cludia Ins Guerra de Sousa 2, Ricardo Brando Machado 3, Rogrio Borghi Buhler 4, Arthur Jorge Padilha de Brito 1, Gustavo Pereira da Costa 5
Palavras-chave:
lipoma, laringe, laringoscopia
Resumo:

Introduo: Menos de 100 casos de lipomas da laringe foram relatados na literatura. As manifestaes clnicas tpicas so disfagia, dispnia e disfonia. Visualiza-se endoscopicamente uma massa, pediculada ou no, com baixa densidade na tomografia computadorizada. Ao exame antomo-patolgico revela-se um tumor composto de adipcitos maduros, freqentemente encapsulado. O tratamento geralmente cirrgico, por via endoscpica ou externa, a depender do tamanho e localizao do tumor. Objetivo: Apresentar um caso de lipoma de laringe, fazendo em seguida uma breve reviso da literatura. Relato do Caso: Paciente do sexo masculino com histria de pigarro, engasgos e dispnia. O diagnstico foi feito atravs de laringoscopia e exame de imagem. Foi realizada a exciso endoscpica da leso, sendo a mesma enviada a exame histopatolgico. Concluso: Os lipomas larngeos, apesar de raros e benignos, tm importncia pelo fato de serem potenciais causadores de obstruo larngea e terem como diagnstico diferencial neoplasias malignas.

INTRODUO

As neoplasias lipognicas incluem os lipomas, que so tumores benignos de lipcitos maduros (tecido adiposo branco), e os hibernomas, tumores benignos de tecido adiposo marrom. Destes, os lipomas so os mais comuns (1). Os lipomas larngeos so entidades raras (2). At agora, menos de 100 casos foram relatados, sendo a maioria tumores isolados, no associados a lipomatose sistmica. Menos de 15% de todos os lipomas ocorrem na cabea e pescoo, sendo a laringe uma localizao incomum. A importncia dos lipomas da laringe deve-se possibilidade de causarem obstruo area (3), por vezes fatal, particularmente durante a induo de anestesia geral (4,5).

Apresentamos aqui o relato de um caso de lipoma larngeo mostrando como foi realizado seu diagnstico, tratamento e reviso da literatura. A concluso intra-operatria de que se trata de trs leses distintas, separadas por planos de clivagem.


RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 58 anos de idade, cor branca, professor, natural e procedente de So Paulo, procurou o servio de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo com queixa de pigarro e engasgos com dispnia h dois meses. Ao exame videolaringoscpico foi observada leso submucosa, arredondada, bilobada, a maior com aproximadamente 0,5 cm de dimetro, sobre a topografia da aritenide direita (Figura 1). A leso apresentava movimento de bscula inspirao e expirao profunda, aparentando um componente pediculado e causando obstruo parcial da fenda gltica (Figura 2). As demais estruturas da laringe e hipofaringe apresentavam-se normais.


Figura 1. *Leso submucosa de aspecto lobulado sobre a topografia da aritenide direita. Lipoma larngeo.



Figura 2. Mesma leso da Figura 1, aqui assumindo um posicionamento mais caudal (*) (paciente em inspirao), sugerindo movimentao em bscula.


O paciente foi submetido laringoscopia direta para bipsia e resseco das leses. No intra-operatrio observou-se a existncia de um plano de clivagem entre as leses e as estruturas larngeas e tambm foi encontrada uma terceira leso lobular encoberta pelas outras duas. Aps a resseco sob viso microscpica observou-se aspecto lipomatoso macroscopia.

O exame anatomopatolgico evidenciou leses polipides revestidas por epitlio escamoso composto por tecido adiposo maduro entremeado por traves conjuntivas confirmando o diagnstico de fibrolipoma. O paciente apresentou boa evoluo ps operatria com melhora completa das queixas.


DISCUSSO

O tecido adiposo um componente normal da laringe, particularmente na rea da prega vestibular. Os lipomas da laringe e hipofaringe so raros (2) e primariamente afetam homens adultos (4). A maioria dos pacientes encontra-se entre a terceira e a quinta dcada de vida (5, 6). O paciente do caso relatado, de 58 anos, encontrava-se pouco acima da idade mdia de apresentao encontrada na literatura.

Os lipomas larngeos geralmente so solitrios, surgindo da regio supragltica ou projetando-se dentro da laringe a partir de uma massa hipofarngea (7). Os stios supraglticos mais comuns so a prega ariepigltica, a prega vestibular e a epiglote (7). No caso em questo o lipoma originou-se na supraglote, porm num substio menos frequente, a aritenide (Figura 1). Apresentava tambm conformao lobulada (3 leses lobulares).

Os sintomas caractersticos incluem disfagia, disfonia, obstruo area aguda, pigarro, outras alteraes da voz e sensao de corpo estranho na garganta (7). No caso em questo o paciente queixava-se de senssao pigarro e dispnia. H relato de limitao da mobilidade da prega vocal por efeito de massa (8). A durao dos sintomas pode variar de poucos meses a vrios anos (7).

No caso relatado podemos observar sintomas comuns (pigarro, engasgos, dispnia), com pouco tempo de durao (dois meses).

O aspecto endoscpico dos lipomas larngeos e hipofarngeos varia de uma massa submucosa a uma projeo intraluminal polipide (7). O diagnstico bastante facilitado por exames de imagem (9). O tecido adiposo tem tipicamente um baixo valor de atenuao na Tomografia Computadorizada (TC) e o nico tecido de partes moles com densidade menor que a da gua. Portanto, a TC pode revelar no somente a extenso do tumor, mas tambm estabelece sua natureza lipomatosa.

Quanto aparncia macroscpica destas leses, elas podem ser ssseis ou pediculadas, lisas ou lobuladas como no caso relatado, bem delineadas ou encapsuladas, apresentando-se normalmente como massa solitria. O tamanho varia de poucos milmetros a mais de 6 cm (7). No caso apresentado as leses no ultrapassavam 1 cm no seu maior dimetro, no saindo, portanto, dos padres anteriormente descritos.

Histologicamente, os lipomas so tumores encapsulados compostos de clulas adiposas maduras. As clulas so uniformes, variando discretamente em tamanho e forma. Estes tumores so ricamente vascularizados, porm a trama vascular fica comprimida pelos adipcitos distendidos. Podem apresentar transformaes secundrias como hemorragia, calcificao, formao cstica, necrose gordurosa e infarto (10).

So descritas duas variaes do tipo usual de lipoma na laringe e hipofaringe: mixolipomas e fibrolipomas (11). Os primeiros mostram uma deposio proeminente de substncia mucide. Os fibrolipomas tm um componente de tecido conjuntivo fibroso. Esta foi a variao observada aps estudo microscpico do caso relatado. Foram descritos tambm formas intramusculares, ou infiltrativas (12).

O diagnstico de um lipoma e de suas variantes normalmente no apresenta dificuldades. O principal diagnstico diferencial com o lipossarcoma bem-diferenciado "lipoma-like" (7). A ausncia de lipoblastos e ncleo hipercromtico diferencia os lipomas dos lipossarcomas (13).

A cirurgia o tratamento de escolha para os lipomas de laringe e hipofaringe de todos os tipos histolgicos. Tumores pequenos podem ser removidos atravs de laringoscopia direta sob viso microscpica, como no paciente em questo. Tumores maiores podem requerer uma abordagem externa (faringotomia lateral, laringofissura, faringotomia sub-hiide). Independente do tipo de cirurgia empregada, a remoo deve ser completa para prevenir uma possvel recorrncia do tumor (7). O paciente apresentado neste trabalho encontra-se em acompanhamento e, at agora, em mais de um ano de evoluo ps-operatria, no apresentou sinais clnicos de recorrncia.


CONCLUSO

Os lipomas larngeos so entidades raras e benignas porm tem importncia pelo fato de serem potenciais causadores de obstruo larngea aguda e fazem parte do diagnstico diferencial de neoplasias malignas. O tratamento cirrgico, seja por laringoscopia direta ou por via externa, oferece possibilidade de cura. O estudo antomo-patolgico da leso essencial, diferenciando-a de leses malignas, principalmente o lipossarcoma, cujas caractersticas so facilmente visualizadas microscopia.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Enzinger FM, Weiss SW: Benign lipomatous tumours. In: Enzinger FM, Weiss SW (eds.): Soft Tissue Tumours. 2nd Ed. St Louis: CV Mosby 1998; pp301-45.

2. Singhal SK, Virk RS, Mohan H, et al: Myxolipoma of the epiglottis in an adult: a case report. Ear Nose Throat J 2005; 84(11): 728-34.

3. Taff ML, Schwartz IS, Boglioli LR: Sudden asphyxial death due to a prolapsed esophageal fibrolipoma. Am J Forensic Med Pathol 1991; 12: 85-88.

4. Barnes L, Ferlito A: Soft tissue neoplasms. In: Ferlito A (ed.): Neoplasms of the Larynx. London: Churchill-Livingstone 1993; pp 265-304.

5. Lewin KJ, Appelman HD: Tumors of the esophagus and stomach. In: Atlas of Tumor Pathology. 3rd ed, fascicle 18. Washington, DC: Armed Forces Institute of Pathology 1996.

6. Burdick JS, Seidel R, Lindberg G, et al: Endoscopic removal of an esophageal fibrovascular polyp. Endoscopy 1999; 31: 401-4.

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9. Remacle M, Mazy G, Marbaiz E, et al: Contribution of tomodensitometry to the understanding and diagnosis of benign non-epithelial endolaryngeal tumours. Acta
Oto-Rhino-Laryngologica 1983; 37: 820-9.

10. Napolitano L: The differentiatin of white adipose tissue cells: an electron microscope study. Journal of Cell Biology 1963; 18: 663-79.

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13. Cauchois R, Laccourreye O, Rotenberg M, et al: Intrinsic infiltrating intramuscular laryngeal lipoma. Otolaryngol Head and neck Surg 1995; 112(6): 777-9.











1 Mdico Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo. Especializando em Cirurgia de Cabea e Pescoo no HSPE-SP.
2 Mdica Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo no HSPE-SP (R3).
3 Mdico Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo. Encarregado da Laringologia do Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo do Hospital do Servidor Pblico Estadual de So Paulo.
4 Ps-graduando (Nvel Doutorado) em Otorrinolaringologia pela FMUSP. Mdico Assistente da Cirurgia de Cabea e Pescoo do Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo do Hospital do Servidor Pblico Estadual de So Paulo.
5 Mdico Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo. Mdico Otorrinolaringologista.

Instituio: Hospital do Servidor Pblico Estadual de So Paulo. Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo.

Endereo para correspondncia: Leandro Ricardo Mattiola - Rua Jos de Magalhes, 600 - So Paulo / SP - CEP 04026090 - Fax: (11) 5088-8406 - Email: lmattiola@hotmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 31 de maro de 2007. Cod. 235. Artigo aceito em 12 de outubro de 2007.
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