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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Relao entre as Condies de Trabalho e a Autoavaliao em Professores do Ensino Fundamental
Relationship between Working Conditions and Grade School Teachers Vocal Self-evaluation
Author(s):
Francisco Xavier Palheta Neto1, Osvaldo Barros Rebelo Neto2, Jos Svio Santos Ferreira Filho2, Anglica Cristina Pezzin Palheta3, Lorena Gonalves Rodrigues4, Felipe Arajo da Silva5
Palavras-chave:
rouquido, fatores de risco, distrbios da voz, sade do trabalhador, educao, qualidade de vida
Resumo:

Introduo: Entre os vrios profissionais que utilizam a voz como sua principal "ferramenta de trabalho", sem dvida tem-se os professores como o grupo mais freqentemente acometido por alteraes vocais, seja pelo uso indevido,seja pelo uso abusivo da funo fonatria. Objetivo: Avaliar as caractersticas do trabalho e correlacionar com a ocorrncia de rouquido em professores do ensino fundamental de escolas pblicas e particulares na cidade de Belm do Par. Mtodo: Foram coletadas informaes clnicas,pessoais e profissionais atravs de questionrio prprio, referentes a 120 professores do ensino fundamental de escolas pblicas e privadas da cidade de Belm do Par. Resultados: Observou-se que dos professores que apresentaram rouquido 53,84% davam aulas exclusivamente em salas com ventilador e 6,16% em salas com ar condicionado. Daqueles que utilizavam somente pincel atmico, 48,86% queixaram-se de rouquido enquanto entre os que utilizavam apenas giz, 50% referiram a sintomatologia. Cuidados vocais,carga horria diria e semanal,tempo de profisso e nmero de alunos foram tambm discutidos. Discusso: Na amostra estudada, os resultados indicaram no haver diferena estatisticamente significante na prevalncia da rouquido em relao utilizao de ventilador ou ar condicionado e entre o grupo que se servia de giz ou pincel. No entanto, houve relao significante entre a ausncia de cuidados vocais e a rouquido. No se constatou clara associao do aparecimento do sintoma pesquisado com a carga horria diria de trabalho, assim como no se evidenciou forte influncia da carga horria semanal. Concluso: No grupo de professores que lecionavam h menos de quinze anos houve uma maior prevalncia da rouquido e, para este sintoma,o nmero de alunos por sala de aula mostrou-se como potencial fator de risco.

INTRODUO

Entre os vrios profissionais que utilizam a voz como sua principal "ferramenta de trabalho", sem dvida tem-se os professores como o grupo mais freqentemente acometido por alteraes vocais, seja pelo uso indevido, seja pelo uso abusivo da funo fonatria. Isso se deve pela necessidade de adaptao dos rgos da fonao, sob a pena do surgimento de sintomas disfnicos, mais ou menos precoces, prejudiciais ao prosseguimento do magistrio (1 2, 3).

No Brasil, as estatsticas oficiais mostram que 25% da populao economicamente ativa depende da voz para exercer algum tipo de ocupao. Estima-se que 2% dos professores brasileiros, cerca de 25 mil profissionais, sero afastados de suas funes por problemas na laringe e nas pregas vocais (3, 4, 5).

O Instituto de Previdncia e Assistncia do Municpio de Belm (IPAMB) em 2005 registrou 182 casos de doenas ocupacionais no servio pblico do municpio. Desses, 47% so da Secretaria Municipal de Educao, dentre esses, 30% sofrem de disfonia e rouquido aguda, sendo que dessa parcela 19% so professores (6).

Tem por objetivo avaliar as caractersticas do trabalho e correlacionar com a ocorrncia de rouquido em professores do ensino fundamental de escolas pblicas e particulares na cidade de Belm do Par.


REVISO DA LITERATURA

A voz a reflexo fsica do pensamento, fundamental para que o ser humano possa se comunicar, transmitindo seus pensamentos e idias. Constitui uma das extenses mais fortes da personalidade e um instrumento fundamental na vida profissional do professor, pois atravs dela que ele deve convencer e influenciar seus ouvintes. Esse instrumento requer uma adaptao precisa dos rgos da fonao sob pena do surgimento de sintomas disfnicos, mais ou menos precoces, prejudiciais ao prosseguimento da carreira profissional (2, 7, 8,9).

A importncia da voz na comunicao humana inquestionvel. visvel nos dias atuais um aumento progressivo dos profissionais que dependem da voz como instrumento de trabalho. Grande parte dessas atividades decorre das mudanas tecnolgicas, que permitem uma comunicao mais ampliada, como o telemarketing (9). No entanto, outros profissionais tambm utilizam a voz como ferramenta de trabalho: professores, cantores, professores de canto, radialistas, apresentadores de televiso, atores, recepcionistas e polticos (10).

A voz profissional foi conceituada como uma "forma de comunicao oral utilizada por indivduos que dela dependem para exercer sua atividade ocupacional". A caracterizao do uso profissional da voz prescinde da necessidade de que o indivduo ganhe seu sustento por meio dela (9).

De acordo com pesquisas dos dados do Ncleo de Sade do Trabalhador, na cidade de Belo Horizonte, feita no ano de 2002, nos ltimos 10 anos teve-se um aumento de 7.000 para 35.000 casos de disfonias em trabalhadores (11).

Com isso, os profissionais da voz, dentre eles os professores, so candidatos em potencial a desenvolver alteraes vocais (12). Pesquisadores sugerem que a docncia uma das profisses com maior incidncia de alteraes vocais e envolve alto risco de desenvolvimento de desordens na fala, causando o que se conhece como disfonia ocupacional (13). Todavia, segundo o Consenso Sobre Voz Profissional, realizado no Rio de Janeiro, em agosto de 2004, a expresso "disfonia ocupacional" deve ser substituda por "doena ocupacional" ou "decorrente do trabalho", por representar apenas um dos muitos sintomas que podem compor uma Sndrome de Laringopatia Relacionada ao Trabalho (14).

A disfonia, pouco valorizada durante muito tempo, considerada hoje um distrbio importante, com conseqncias que influenciam diretamente a vida profissional e social dos profissionais da voz, principalmente dos professores. Considerada ultimamente como um problema ocupacional, uma vez que diminui a produtividade e regularidade no trabalho desses profissionais (15), representa qualquer dificuldade na emisso vocal que impea a produo natural da voz (5,12).

Essas alteraes vocais so classificadas como: primrias, por uso incorreto da voz; e secundrias, por inadaptao vocal ao ambiente ou atividade, ou de ordem psicognica resultante de um processo complexo de influncia das emoes vivenciadas pelo indivduo na sua voz (16). As manifestaes podem ser de esforo emisso; dificuldade de manter a voz; variao na freqncia fundamental, habitual ou na intensidade; rouquido; falta de volume e projeo; perda da eficincia vocal e pouca resistncia ao falar (12).

Os principais tipos de leses orgnicas resultantes das disfonias funcionais so: ndulos e plipos das pregas vocais. Os ndulos vocais so protuberncias bilaterais quase sempre simtricos e localizados na transio dos teros mdios e anteriores das pregas vocais. So leses ssseis e avermelhadas na maioria dos casos. Os plipos so leses exofticas, freqentemente unilaterais, que se localizam predominantemente na borda livre da metade anterior da poro membranosa da prega vocal. Estas duas alteraes da mucosa da prega vocal tm como caracterstica comum, o fato de representarem uma resposta inflamatria da tnica mucosa a agentes agressivos, quer sejam de natureza externa (reaes alrgicas crnicas ou inalao crnica de irritantes como gases industriais, giz ou fumaa de cigarro), quer sejam decorrente do prprio comportamento vocal (uso abusivo crnico da voz) (5).

Estudos revelaram que as queixas mais comuns dos professores incluem fadiga e rouquido, definida como qualquer mudana no carter vocal (17).

Alguns profissionais utilizam o termo rouquido como sinnimo de disfonia. No entanto diferentes tipos de disfonias so caracterizados por diferentes padres acsticos, diversas localizaes anatmicas e etiologias variadas, sendo a rouquido apenas um sintoma de um envolvimento maior (16).

Para caracterizar os fatores de risco para as alteraes vocais, devem-se considerar aspectos como a intensidade, o tempo de exposio a esses fatores e a organizao temporal da atividade, bem como a durao do ciclo de trabalho e a distribuio dos intervalos (9).

Para tanto, podem-se agrupar esses riscos como: a) fatores organizacionais do processo de trabalho: jornada prolongada, excesso de nmero de alunos nas salas de aula, acmulo de atividades ou de funes, demanda vocal excessiva, ausncia de pausas e de locais de descanso durante a jornada, falta de autonomia, ritmo de trabalho estressante, trabalho sob forte presso e insatisfao com o trabalho e/ou com a remunerao; b) fatores ambientais, os quais se dividem em: b.1) riscos fsicos: como nvel de presso sonora acima de 65 dB, falta de planejamento em relao ao mobilirio e aos recursos materiais, desconforto e choque trmico, ventilao inadequada do ambiente e utilizao de aparelhos de ar condicionado; b.2) riscos qumicos: como exposies a produtos qumicos irritativos de vias areas superiores e exposio a ambientes de trabalho velhos, sujos com poeiras de giz e/ou fumaa (9,17,18).

Alm disso, a ocorrncia do estresse ocupacional, como fator de risco para alteraes vocais, tem sido observado em todas as partes do mundo. O impacto dos fatores estressantes sobre profisses que requerem grau elevado de contato com o pblico recebe o nome de Sndrome de Burnout, que se caracteriza por uma resposta ao estresse emocional crnico. Dentre os inmeros tipos de reaes que se pode esperar frente a esta Sndrome, tem-se o uso inadequado e abusivo da voz que geram esforos e adaptaes do aparelho fonador, deixando o profissional mais propenso ao desenvolvimento de uma desordem vocal (5).

Estudos realizados em escolas de diferentes localidades, dos Estados Unidos, demonstraram que um nmero significante de professores, especialmente aqueles com mltiplos sintomas, relataram que os distrbios da voz afetam negativamente suas habilidades profissionais e que suas vozes so uma fonte crnica de estresse e frustrao (19).

Alm dos riscos diretamente relacionados ao trabalho, outros podem estar presentes e devem ser considerados. Os principais inimigos biolgicos da voz so as alteraes advindas da idade, alergias, infeces de vias areas superiores, influncias hormonais, medicaes, etilismo, tabagismo e falta de hidratao. Alm dessas, h a necessidade de investigar a presena de sinais de refluxo gastroesofgico (9).

Os fatores infecciosos, incluindo as sinusites, diminuem a ressonncia e alteram a funo respiratria, produzindo modificaes na voz. O efeito primrio das infeces das vias areas superiores agir diretamente sobre a faringe e a laringe, provocando irritao e edema das pregas vocais. Estes processos infecciosos podem gerar condutas danosas, como o pigarro e a tosse que, por sua vez, podem provocar traumatismos nas pregas vocais (5).

Nos Estados Unidos existem mais de trs milhes de professores em atividade. No Brasil, eles representam aproximadamente dois milhes de trabalhadores; sendo que este grupo de profissionais considerado o de maior risco para apresentar problemas relacionados a desordens ocupacionais da voz quando comparados com a populao em geral (9,18).

Estudos recentes demonstraram que cerca de 20% dos professores j faltaram ao trabalho em algum momento de sua vida profissional devido a problemas vocais (20). Diversas pesquisas, realizadas em So Paulo e em outros estados, observaram que 97% das readaptaes funcionais por distrbios da voz esto concentrados entre as profisses relacionadas ao ensino (9).

Em 2001, na 1 Reunio Pr-Consenso Nacional sobre Voz Profissional, considerou-se que as enfermidades relacionadas ao aparelho fonador, decorrentes ou prejudiciais ao trabalho tm importante impacto social, econmico, profissional e pessoal, representando prejuzo estimado superior a duzentos milhes de reais ao ano, em nosso Pas (14).

O tema "voz profissional" vem ganhando espao. Uma iniciativa brasileira de sucesso a "Campanha da Voz", que hoje um dos mais importantes acontecimentos internacionais na rea da otorrinolaringologia (3).

Tendo em vista o crescente enfoque ocupacional dado a disfonia, torna-se necessrio, ao otorrinolaringologista, atualizar a abordagem clnica dos trabalhadores que usam a voz como instrumento de trabalho (15). Para melhor avaliar estes profissionais e garantir um atendimento com respaldo cientfico adequado, estabeleceu-se um protocolo multidisciplinar, que consiste em anamnese dirigida, exame fsico, endoscopia larngea, anlise perceptiva da voz e aplicao do Voice Handicap Index (VHI), que um questionrio de auto-avaliao da capacidade vocal, criado com a finalidade de mensurar as dificuldades experimentadas por indivduos com distrbios vocais (15).

Depois de diagnosticada a doena, o tratamento combinado o que oferece melhores condies ao paciente, utilizando recursos de orientao vocal, reabilitao vocal, teraputica medicamentosa e procedimentos cirrgicos conforme necessidade.

A preveno essencial devido ao contnuo uso da voz, os professores necessitam preserv-la com tcnicas de higiene vocal, grupos de terapia vocal e exerccios vocais (21).

A notificao da doena fundamental para que seja possvel dimensionar e qualificar sua distribuio, viabilizando um planejamento eficaz das aes preventivas e de assistncia. Portanto, recomenda-se que havendo suspeita de distrbio de voz relacionado ao trabalho, deva ser emitida a Comunicao de Acidente do Trabalho (CAT) (9).

Por mais que surjam novas tecnologias pedaggicas, como vdeos educativos, o instrumento de trabalho mais importante de um professor ainda a sua voz (14). Por ser uma valiosa "ferramenta de trabalho", alm de reflexo de nossa sade fsica e mental, a voz merece ateno e cuidados especiais (22).

Sendo o educador um slido modelo para seus alunos, um verdadeiro formador de opinies, a preocupao com a voz e as repercusses negativas que a mesma traz, tanto para o docente quanto para os alunos tem sido motivo para diversos trabalhos nesta rea.


MTODO

Aprovao do Comit de tica e Autorizaes Institucionais


Todos os professores envolvidos na presente pesquisa foram entrevistados segundo os preceitos da declarao de Helsinque e Cdigo de Nuremberg, respeitadas as Normas de Pesquisas envolvendo Seres Humanos (Res. CNS 196/96) do Conselho Nacional de Sade aps aprovao pelo Comit de tica em Pesquisa da UEPA e autorizao dos diretores das Escolas pesquisadas na cidade de Belm do Par. Os professores entrevistados concordaram em fazer parte da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para este estudo foram coletadas informaes clnicas, pessoais e profissionais atravs de questionrio prprio adaptado daquele utilizado para a auto-avaliao dos professores pela Comisso Tripartite de Normatizao para a Voz Profissional do Ministrio do Trabalho e Emprego, Subdelegacia do Trabalho SDT 1 Norte/SP.

Foram entrevistados 120 professores do ensino fundamental (1 a 8 srie) de escolas pblicas e privadas, em seus locais de trabalho.

Caracterizao do Estudo

Este estudo caracteriza-se como prospectivo, individuado, observacional e transversal sendo definido como um inqurito epidemiolgico. estatisticamente no-conclusivo.

A escolha dos professores analisados nesse estudo foi feita de forma aleatria e conforme aceitao das instituies em que lecionavam e dos prprios professores.

Foram includos nesta pesquisa 120 professores da 1 a 8 srie do ensino fundamental, de escolas pblicas e privadas, que desempenhassem suas atividades docentes h pelo menos um ano; e que assinassem o termo de consentimento livre e esclarecido, concordando com a metodologia da pesquisa. Foram excludos desta pesquisa todos os professores que estavam na vigncia de tratamento fonoterpico.

Coleta de Informaes Clnicas, Pessoais e Profissionais

Os dados coletados, a partir de questionrio prprio consistiram em: sintomatologia apresentada ao longo de suas vidas profissionais na ocasio da entrevista (rouquido), tempo de magistrio, nmero mdio de alunos por sala de aula, carga horria mxima durante um dia de trabalho, carga horria mdia durante uma semana de trabalho, condies de climatizao das salas de aula (ventilador ou ar condicionado), material utilizado para a escrita (giz ou pincel atmico) e cuidados vocais ao longo da carreira. Ressalta-se que por motivos ticos, foi preservada a identidade de todos os professores. Os dados coletados foram armazenados no BD.

Testes Estatsticos

As anlises foram realizadas no programa Epi Info 6.04d, empregando para as variveis categricas o teste Qui-quadrado ou exato de Fisher. A significncia foi avaliada segundo Risco Relativo (RR), considerando-se intervalo de confiana de 95% e p < 0,05.


RESULTADOS

Obteve-se resultado similar quanto a presena ou no de rouquido nos professores expostos a ventilador ou ar condicionado em suas salas de aula. Quinze professores no foram includos nesta avaliao por atuarem em ambientes com ambas as formas de ventilao (Tabela 1).




Conforme podemos constatar na Tabela 2, a grande maioria dos professores no mais fazia uso de giz.




Inesperadamente, constatou-se que possuir cuidados especficos com o trato vocal no foi condio de proteo (Tabela 3).




Os professores foram separados em dois grupos, tomando-se oito horas de atividade diria como divisor. Obteve-se relato de professores com 16h de carga horria em seu principal dia de trabalho (Tabelas 4 e 5).






Procurou-se uma amostra homogenia quanto ao tempo de efetiva atividade profissional.

O elevado nmero de alunos por sala de aula ficou bem evidente, conforme exposto na Tabela 7.






DISCUSSO

A importncia da voz e da comunicao humana inquestionvel. notrio, atualmente, o nmero crescente de profissionais que dependem da voz como instrumento de trabalho. No entanto, vale ressaltar, que as alteraes vocais ocasionadas pelo uso excessivo e muitas vezes inadequado da voz, tm levado diversas categorias, como professores, operadores de telemarketing e radialistas, a situaes de afastamento do trabalho e incapacidade para o desempenho de suas funes, implicando assim em custos financeiros e sociais (9).

Atualmente os professores representam o grupo com maior incidncia de alteraes vocais (1). Em pesquisas realizadas no Brasil e no mundo, as queixas mais citadas pelos professores foram: rouquido, cansao vocal, dor ou irritao e pigarro, sendo que entre os brasileiros e os norteamericanos, a rouquido o sintoma mais freqente (17, 22).

Neste estudo, foram entrevistados 120 professores do Ensino Fundamental de Escolas Pblicas e Privadas, onde 60 (50%) apresentaram rouquido em algum momento de suas vidas profissionais.

Dos 105 professores avaliados quanto relao entre rouquido e utilizao de ventilador ou ar condicionado (Grfico 1), 52 apresentaram rouquido, sendo que 28 (53,84%) davam aulas exclusivamente em salas com ventilador e 24 (46,16%) em salas com ar condicionado. Dessa forma, constatamos que no houve influncia significativa do ar condicionado e do ventilador como fatores de risco.


Grfico 1. Relao entre rouquido dos professores e utilizao de ventilador ou ar condicionado em sala de aula. Fonte: Questionrio do estudo.



No entanto, de acordo com a literatura, o ar condicionado o principal fator de risco para o desenvolvimento de alteraes vocais, visto que agride a mucosa das pregas vocais, dificultando sua vibrao, o que propicia a formao de secrees e irritaes nasais e larngeas, alm de provocar o ressecamento da orofaringe (13,21).

Dos 120 professores entrevistados, 22 foram excludos da anlise da relao entre rouquido e utilizao de giz ou pincel atmico (Grfico 2), por servirem-se de ambos os materiais de escrita. Dessa forma, foram analisados 88 docentes que utilizavam somente pincel atmico. Destes, 43 (48,86%) queixaram-se de rouquido. Em relao aos que utilizavam apenas giz, cinco (50%) dos dez professores referiram a sintomatologia.


Grfico 2. Relao entre rouquido dos professores e a utilizao de giz e pincel em sala de aula. Fonte: Questionrio do estudo.



Neste resultado, no se observou diferena entre os grupos de forma significativa, o que no condiz com a maioria dos trabalhos pesquisados, os quais referem que os professores que utilizam giz esto mais propensos a alteraes vocais, pois o hbito de falar voltado para a lousa irrita excessivamente a laringe por facilitar a inspirao de p de giz, provocando secura e rouquido na garganta. Alm disso, o acmulo de poeira e p de giz dentro da sala de aula aumenta a possibilidade do professor desenvolver doenas do aparelho respiratrio, como rinopatia alrgica. Contudo, o pincel atmico age como fator de proteo, pois evita que o professor se exponha ao contato com o p de giz (13). Em virtude destas concluses, OLIVEIRA (1998) sugerem a troca do giz convencional por pincel atmico.

Com relao rouquido e o uso ou no de cuidados vocais (Grfico 3), metade da amostra geral dessa pesquisa apresentou rouquido, sendo que destes 45 (75%) no apresentam cuidados vocais, enquanto que 15 (25%) realizam algum tipo de cuidado, como evitar a ingesto de lquidos em temperaturas extremas e evitar falar demasiadamente alto. Este achado est em concordncia com ALVES e CAVALCANTI (1998) que relataram ser significante o nmero de professores que desconhecem e no fazem uso de cuidados vocais. Assim como MENEZES (1996) observaram tambm que a maioria dos professores apresentou nvel de informaes insuficiente com relao ao aparelho fonador e aos cuidados especficos com o uso da voz, ficando ento mais expostos aos riscos de alteraes vocais.


Grfico 3. Relao entre rouquido dos professores e a presena ou no de cuidados vocais. Fonte: Questionrio do estudo.



Portanto, COSTA (1988) ressaltaram que os professores deveriam ter conscincia da importncia da higiene vocal, bem como DAMBRSIO (2001) defendeu que desde o incio da carreira, o professor deveria ser alertado sobre os cuidados vocais necessrios como estratgia preventiva para alteraes vocais.

Esses cuidados vocais implicam, por exemplo, em no gritar em sala de aula; no fumar; no consumir bebidas alcolicas; ingerir bastante gua; alimentar-se de maneira leve antes do uso profissional da voz, evitar choques trmicos; e no permanecer muitas horas em ambiente com ar condicionado (3,21).

A relao entre rouquido e carga horria diria de trabalho (Grfico 4), mostrou que do total dos profissionais avaliados, 60 apresentaram rouquido, sendo que destes, 31 (51,7%) possuam carga horria maior que oito horas de trabalho dirio e 29 (48,3%) apresentaram carga horria de at oito horas dirias. Tendo em vista esses resultados, a carga horria diria de trabalho no apresentou associao significativa com o desgaste vocal, nessa amostra estudada. Fato este, que est em conformidade com estudos realizados por URRUTIKOETXEA (1995), que no encontraram clara relao entre carga horria e presena de alterao larngea nos professores.


Grfico 4. Relao entre rouquido dos professores e a carga horria diria de trabalho. Fonte: Questionrio do estudo.



No entanto, tem-se uma divergncia com o trabalho de SOUZA e FERREIRA (2000), que identificaram a carga horria como um fator de risco para agravos voz, uma vez que apresentou associao estatstica significante.

Quanto rouquido e a sua relao com a carga horria semanal (Grfico 5), 60 professores relataram o sintoma. Destes, 39 (65%) trabalhavam at 40 horas semanais e 21 (35%) trabalhavam mais de 40 horas semanais.


Grfico 5. Relao entre rouquido dos professores e a carga horria semanal de trabalho. Fonte: Questionrio do estudo.



Este dado diverge daqueles do trabalho de PENTEADO (1996), que encontraram associao estatisticamente significante entre carga horria maior que 40 horas e alterao vocal. Diverge tambm da pesquisa de FUESS e LORENZ (2003) que observaram relao direta entre a freqncia de disfonia e a carga horria semanal.

SOUZA e FERREIRA (2000) observaram que os professores que tm a carga-horria semanal de trabalho acima de 25 horas apresentaram maior prevalncia de alteraes vocais em comparao com os que tinham uma carga-horria semanal igual ou inferior a 25 horas. Contudo h diferena nos parmetros de horas de trabalho adotados entre esta pesquisa e o presente trabalho.

Esta relao significativa entre distrbios da voz e carga horria pode-se dever ao fato do abuso e mau uso da voz concorrer para o aparecimento de uma resposta inflamatria da tnica mucosa das pregas vocais, possibilitando assim o surgimento de leses orgnicas como ndulos, plipos e edemas.

Entretanto, o resultado desta avaliao concorda com os trabalhos de ORTIZ (2004) e SAPIR (1993), os quais observaram que a ocorrncia de disfonia no sofre influencia direta da carga horria semanal. Nota-se ento, que a relao entre alteraes vocais e carga horria diria ou semanal motivo de controvrsia entre pesquisas. Por conseguinte, a relao entre rouquido e carga horria de aula dos professores fica como um tpico para ser melhor explorado por estudos futuros.

Dos 120 docentes avaliados quanto relao entre rouquido e tempo de profisso (Grfico 6), 60 apresentaram sintomatologia. Desses professores, 39 (65%) referiram ter menos de 15 anos de profisso enquanto 21 (35%) tinham mais de 15 anos.


Grfico 6. Relao entre rouquido dos professores e o tempo de profisso. Fonte: Questionrio do estudo.



Essa diferena de prevalncia concordante com o trabalho de PENTEADO (1996), o qual verificou que a maioria dos professores disfnicos tinha de 6 a 15 anos de profisso como docente (52,4%). Tambm condiz com o estudo elaborado por DRAGONE (1999), que constatou que a voz dos professores sofre um desgaste significativo aps dois anos de uso profissional no magistrio.

Estes resultados possivelmente so explicados pelo fato de que quanto mais novo o docente, menos experincia e conhecimento este possui em relao s medidas de preveno aos distrbios vocais, alm de possuir menor capacidade de adaptao frente s inmeras adversidades encontradas dentro de uma sala de aula, como por exemplo, a competio sonora.

Todavia, estes achados discordam daqueles realizados por ANJOS (1999), a qual observou que a freqncia de ocorrncia desses sintomas cresce medida que aumenta os anos de magistrio, provavelmente devido a uma maior exposio fadiga vocal.

Sob a anlise da relao entre rouquido dos professores e o nmero de alunos por sala de aula (Grfico 7), 60 apresentaram rouquido. Desses, 46 (76,7%) lecionavam para mais de 30 alunos e 14 (23,3%) para menos de 30 alunos.


Grfico 7. Relao entre rouquido dos professores e o nmero de alunos nas salas de aula. Fonte: Questionrio do estudo.



Este levantamento concordante com a maioria dos trabalhos j publicados como, por exemplo, a pesquisa de FUESS e LORENZ (2003), que observou relao direta entre a freqncia de desordens vocais e o nmero de alunos por classe.

Porm, h trabalhos como o de ORTIZ (2004), que no encontraram diferena significativa entre a ocorrncia das alteraes vocais e o nmero de alunos por classe.

Baseando-se nas referncias citadas nesse estudo, compreende-se que um nmero adequado de alunos por classe deve situar-se entre 20 e 30 no mximo, uma vez que o nmero reduzido de alunos por sala de aula favorece a diminuio do barulho e, portanto, a diminuio da competio vocal entre professor e aluno, alm de reduzir a tenso e a intensidade da tarefa do professor.


CONCLUSO

Na amostra estudada, os resultados indicaram no haver diferena estatisticamente significante na prevalncia da rouquido em relao utilizao de ventilador ou ar condicionado e entre o grupo que se servia de giz ou pincel. No entanto, houve relao significante entre a ausncia de cuidados vocais e a rouquido. No se constatou clara associao do aparecimento do sintoma pesquisado com a carga horria diria de trabalho, assim como no se evidenciou forte influncia da carga horria semanal. No grupo de professores que lecionavam h menos de quinze anos houve uma maior prevalncia da rouquido e, para este sintoma, o nmero de alunos por sala de aula mostrouse como potencial fator de risco.


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1. Mestrado em Otorrinolaringologia. Doutorando em Neurocincias. Preceptor da Residncia Mdica em Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio Bettina Ferro de Souza da Universidade Federal do Par. Professor Assistente da Universidade Federal do Par e da Universidade do Estado do Par.
2. Mdico Graduado pela Universidade do Estado do Par.
3. Mestrado em Otorrinolaringologia. Preceptora da Residncia Mdica em Otorrinolaringologia do Hospital Universitrio Bettina Ferro de Souza da Universidade Federal do Par. Mdica do Trabalho e Professora Assistente da Universidade do Estado do Par.
4. Graduao. Mdica graduada pela Universidade Federal do Par.
5. Graduao. Aluno do Segundo Ano do Curso de Graduao em Medicina da Universidade do Estado do Par.

Instituio: Universidade do Estado do Par. Belm / PA - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Francisco Xavier Palheta Neto
Centro de Otorrinolaringologia do Par
Avenida Conselheiro Furtado, 2391, Sala 1608
Cremao - Belm / PA - CEP: 66040-100
Telefones: (91) 3249-9977 / 3249-7161 / 9116-0508
E-mail: franciscopalheta@hotmail.com

Artigo recebido em 15 de abril de 2008.
Artigo aceito em 12 de junho de 2008.
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