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Ano: 1998  Vol. 2   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Um Panorama Sobre a Prescrio Leiga de Medicamentos para o Tratamento de Afeces Otorrinolaringolgicas
Author(s):
1Aracy Pereira Silveira Balbani, 2Tanit Ganz Sanchez, 3Ossamu Butugan
Palavras-chave:
INTRODUO

Vai longe o tempo em que havia um balconista, conhecido como o "Z da Farmcia", conselheiro da populao do bairro de Santo Amaro, na capital paulista, que recebeu como homenagem a denominao da Avenida Vereador Jos de Oliveira Almeida Diniz. Naquela poca, em que os mdicos e os medicamentos eram escassos, cabia ao balconista atuar como agente de sade, no apenas tratando, mas tambm educando a populao de sua comunidade.

Por outro lado, a prescrio de medicamentos pelos balconistas de farmcias, jocosamente denominada "empurroterapia", problema crnico no Brasil. Muitas vezes, esse tipo de prescrio leiga ocorre como nica alternativa entre populaes que no tm acesso aos servios pblicos de sade, muitos dos quais sequer contam com atendimento mdico especializado. Contudo, a motivao puramente comercial de alguns balconistas, a desinformao da populao e a falta de fiscalizao governamental acabam por tornar as "consultas de balco" perigoso meio de mercantilizao da sade, com "receitas" inadequadas para o tratamento das mais diversas doenas, colocando em risco a sade do prprio paciente. Nessa conjuntura, temos que o Brasil o 9o maior mercado consumidor mundial de medicamentos.

Outro ponto a ser considerado pelos otorrinolaringologistas que muitas medicaes ototxicas (sobretudo aminoglicosdeos e outros antimicrobianos) ainda esto sendo vendidas indiscriminadamente, sem que os balconistas tenham conhecimento desse efeito colateral. Estudos revelam que a segunda causa de disacusia severa ou profunda, em crianas, no Brasil, o uso de drogas ototxicas (Bento e cols., 1986), s perdendo para as doenas infecciosas.

A Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo realizou quatro estudos com o objetivo de investigar as caractersticas da prescrio dos balconistas de farmcias para o tratamento de afeces comuns das vias areas superiores: A) otite mdia aguda, B) sinusite aguda e C) rinite alrgica em crianas. Para tanto, os pesquisadores percorreram diversas farmcias, escolhidas aleatoriamente, apresentando aos balconistas o caso fictcio de uma criana com sintomas tpicos dessas doenas, pedindo conselhos quanto conduta em cada caso e tomando cuidado para no induzir respostas.

Nesta resenha, apresentamos alguns dos resultados obtidos, alertando os otorrinolaringologistas para que intervenham junto populao e aos agentes de sade de suas comunidades, no sentido de esclarecer sobre os riscos da prescrio leiga de medicamentos.

SINUSITE AGUDA EM CRIANAS

Estudo realizado em 30 farmcias da capital e outro em 25 farmcias do interior paulista mostraram resultados bastante semelhantes. A minoria dos balconistas aconselhou os pesquisadores a levar a "criana" ao mdico (36.67% das farmcias da capital e 16% das do interior), enquanto boa parte preferiu prescrever algum medicamento no momento da "consulta" (70% na capital e 84% no interior).

Chamou nossa ateno a negligncia dos balconistas quanto a dados importantes para a prescrio de medicamentos, como o peso do paciente e alergias a medicamentos utilizados previamente. Em nenhuma, das 25 farmcias do interior consultadas, os balconistas perguntaram aos pesquisadores se a "criana" era alrgica a algum tipo de droga, e apenas 15% perguntaram quanto o paciente fictcio pesava para calcular a dose da medicao prescrita. Com relao ao contedo das prescries, foi ntida a ineficcia da maioria dos tratamentos propostos (e cabe lembrar que a sinusite passvel de complicaes graves -orbitrias ou intracranianas - quando no tratada de forma correta!). As razes da ineficcia foram:

a) a falta de antimicrobianos (predominaram os tratamentos com uso exclusivo de analgsicos, descongestionantes sistmicos e vasoconstritores nasais);

b) a escolha de antimicrobianos considerados ineficazes no tratamento da sinusite aguda (penicilina V oral, por exemplo);

c) a posologia incorreta (em apenas 1 das 20 prescries feitas no interior, a posologia era adequada) ou

d) o tempo de tratamento inadequado (a imensa maioria dos tratamentos tinha durao indeterminada, devendo ocorrer "at acabar o frasco do remdio" ou "at melhorar").

Alguns episdios ocorridos durante a pesquisa demonstraram a falta de informao dos balconistas quanto sinusite aguda. Em uma farmcia da capital, o balconista afirmou categoricamente que "criana no tem sinusite", mas, mesmo assim, prescreveu vasoconstritor tpico para o paciente fictcio. Em outra, o balconista explicou pesquisadora que "o catarro da sinusite vem do pulmo", e o paciente necessitava de "muita inalao".

RINITE ALRGICA EM CRIANAS

Um caso fictcio de rinite alrgica em criana de 4 anos de idade foi apresentado aos balconistas de 40 farmcias da capital. Apenas 35% dos balconistas consultados orientaram para o encaminhamento da criana ao mdico, enquanto 65% instituram algum tipo de tratamento. Os medicamentos mais utilizados foram: anti-histamnicos (34.61%), gotas nasais (30.77%) e descongestionantes sistmicos (19.23%). Foram encontrados erros de posologia e durao do tratamento em todos os casos, e apenas 7.7% dos balconistas orientaram os pesquisadores quanto aos possveis efeitos colaterais das medicaes que estavam sendo prescritas. Fato curioso que um dos balconistas fez questo de perguntar se a pesquisadora possua algum animal de plo em casa, e concluiu: "Coitado do cachorro, a senhora vai ter que se livrar dele".

Complementando esse estudo, os autores buscaram, junto ao Centro de Assistncia Toxicolgica (CEATOX) do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo, informaes sobre a ocorrncia de intoxicaes por medicamentos utilizados no tratamento das rinites. Foram encontrados resultados assustadores: no perodo de 5 anos, 84% das intoxicaes por anti-histamnicos, 65.5% das intoxicaes por descongestionantes sistmicos e 100% das intoxicaes por vasoconstritores tpicos ocorreram em crianas de zero a 12 anos, na sua maioria causadas por ingesto acidental dos medicamentos, havendo participao das prescries leigas em cerca de 3% dos casos de intoxicao. Assim, temos mais uma forte razo para coibir as prticas da automedicao e prescrio leiga nas farmcias.

OTITE MDIA AGUDA EM CRIANAS

Novamente, atravs de "consultas" a balconistas de 41 farmcias da capital, foi avaliada a conduta dos mesmos em mais 2 casos fictcios: A) de uma criana de 3 anos, com febre de 39oC h 2 dias, acompanhada de otalgia e B) de uma criana de 3 anos, com febre de 39oC h 2 dias, com otalgia e otorria direita.

No caso de otite mdia aguda, apenas 16% dos balconistas orientaram os pesquisadores a levar a "criana" a algum servio mdico, enquanto 32% prescreveram antibiticos para uso oral (88% dos quais por tempo insuficiente e metade em dosagem incorreta) e 52% em gotas otolgicas. No caso de otite mdia aguda supurada, apenas 19% dos vendedores orientaram sobre a necessidade de procurar auxlio mdico, enquanto a metade recomendou o uso de antimicrobianos, 25% prescreveram apenas gotas otolgicas e 6% apenas analgsicos.

Atualmente, encontramos resqucio do comportamento solidrio dos balconistas em algumas farmcias do interior do estado, numa das quais, o balconista insistiu para que a pesquisadora levasse o medicamento prescrito por ele para tratar a sinusite de seu "sobrinho" fictcio, e pagasse quando pudesse; afinal, o importante era comear logo o tratamento da "criana" para evitar complicaes. Os resultados obtidos nos nossos trabalhos, porm, apontam para a deteriorao do sistema de comercializao de medicamentos no Estado de So Paulo, predominando a prescrio leiga para medicamentos destinados venda exclusiva sob prescrio mdica, com tratamentos ineficazes e dosagens incorretas das medicaes, expondo a populao (e as crianas em especial) aos riscos das intoxicaes.

Fica, portanto, reiterado o alerta aos especialistas, aos balconistas, aos Servios de Vigilncia Sanitria, aos educadores e populao, em geral, quanto aos riscos da prescrio de medicamentos nos balces das farmcias. Somente com esse esforo conjunto que alguns balconistas deixaro de ser levados pelo interesse comercial, e mais "Zs da Farmcia" teremos a homenagear.

BIBLIOGRAFIA

1. Estudo sobre a prescrio de medicamentos em farmcias: sinusites. Balbani APS, Santos Jr. RC, Sanchez TG, Butugan O. Rev Bras Otorrinolaringol 1996; 62(3): 241-244.

2. Tratamento da sinusite aguda em crianas nas farmcias do interior de So Paulo. Balbani APS, Sanchez TG, Butugan O. Rev Paul Pediatria 1996; 14(4): 158-162.

3. Tratamento da rinite alrgica em crianas: prescrio leiga de medicamentos e intoxicaes. Balbani APS, Nascimento EV, Sanchez TG, Mello Jr. JF, Butugan O, Duarte JG. Rev Pediatria (So Paulo) 1997; 17(4): 249-256.

4. Utilizao de medicamentos para otalgia sem prescrio mdica: estudo em farmcias. Bento RF, Di Francesco RC, Granizo AC, Voegels RL, Miniti A. Rev Bras Otorrinolaringol1997; 63(5): 461-4.

1- Doutoranda do Curso de Ps-Graduao da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
2- Mdica Assistente Doutora da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
3- Professor Associado da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
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