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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 2  - Abr/Jun Print:
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Antonio Maria Valsalva - Perfil Biogrfico de um Pioneiro da Otologia
Antonio Maria Valsalva - Biographical Profile of A Pioneer of Otology
Author(s):
Roberto Campos Meirelles1, Roberto Machado Neves-Pinto2, Alfredo Antonio Potsch3
Palavras-chave:
manobra de Valsalva, histria da medicina, tuba auditiva, seio artico
Resumo:

Introduo: Os autores apresentam o perfil biogrfico de Antonio Maria Valsalva e suas realizaes, relatando a vida do ilustre mdico e suas descobertas na medicina, destacando sua contribuio para a otorrinolaringologia e, em especial, a otologia, da qual considerado um pioneiro. Reviso/Discusso: Valsalva nasceu em 1666, em Imola, Itlia. Dedicou-se ao estudo da anatomia, patologia e cirurgia. Prestou enorme colaborao ao estudo da anatomia patolgica, deixando inmeras peas dissecadas, em autpsias das mais variadas doenas. Props inovaes como a nefrectomia em ces para extirpao de tumores, assim como na fisiopatologia do acidente vascular cerebral, na oftalmologia, na cirurgia dos tumores e psiquiatria. Identificou estruturas anatmicas como os seios relacionados artria aorta, os ligamentos e o msculo de Valsalva. Na otorrinolaringologia foi pioneiro no estudo da anatomia do ouvido, dividindo-o em externo, mdio e interno, com particular interesse nos msculos da tuba auditiva e da faringe. Verificou pela primeira vez a anquilose do estapdio na identificao da otosclerose. Criou a conhecida manobra de Valsalva, ainda hoje utilizada no diagnstico e teraputica em diversas situaes clnicas. Faleceu em 1723, vtima de acidente vascular cerebral. Comentrios Finais: Valsalva foi um notvel anatomista, fisiologista, cirurgio e patologista. Forneceu valiosas contribuies para a otorrinolaringologia e para outras reas. Seus feitos esto presentes na atualidade. interessante que os mdicos de hoje conheam um pouco de sua histria e valorizem suas descobertas, lembrando-se deste grande homem na prxima vez que usarem a manobra de Valsalva.

INTRODUO

Em torno da segunda metade do sculo XVII e primeira do XVIII, transcorria a poca correspondente ao barroco (1). Nesse tempo, a arte, a poesia e a msica tiveram um lugar privilegiado. Em conseqncia do pensamento renascentista formado nos sculos anteriores, especialmente no sculo XVII, houve tambm grandes avanos cientficos, ficando esta poca conhecida como a "era cientfica" (1,2). Existiam duas formas distintas de enfrentar os problemas: - o racionalismo e a experimentao - ambas levando a desenvolver o pensamento cientfico moderno ou mtodo cientfico que hoje conhecemos (1). O sculo XVII poderia ser considerado como uma convergncia das mudanas que ocorreram no Renascimento e na poca Moderna. Figuras expressivas como Bach, Coprnico, Galileu, Newton e Descartes enriqueceram a poca com seu intelecto e arte (2,3).

Apesar do formidvel progresso verificado, o prestigio dos mdicos estava muito deteriorado. Eram alvo de deboches e gozaes at de personagens importantes como o dramaturgo francs Molire, que ridicularizava os mdicos contestando os mtodos teraputicos rsticos e quase selvagens usados (4). Na realidade o mdico vivia modestamente e era obrigado a acordar cedo para atender o maior nmero possvel de pacientes e conseguir o seu sustento, face aos valores irrisrios que cobravam. No era permitido anunciar seus servios, pois isto era indigno de um homem de cincia. Trabalho havia e em demasia, pois a varola, peste, sfilis, lepra, febre puerperal e o sarampo causavam vtimas, sem discriminao social (3).

Dentro desse ambiente nasceu e viveu o ilustre mdico italiano Antonio Maria Valsalva. O objetivo do presente trabalho o breve relato de sua vida e seu legado para a medicina, com nfase nas contribuies para a otorrinolaringologia.


REVISO E DISCUSSO

Antonio Maria Valsalva nasceu em 17 de junho de 1666, em Imola, Itlia. Foi o terceiro de oito irmos. Seu pai, Pompeo Pini, era joalheiro e graas ao seu trabalho a famlia pode viver de forma cmoda e satisfatria. Sua me chamava-se Catarina Tosi. O sobrenome Valsalva foi adotado por seu pai e veio do castelo pertencente famlia (5, 6, 7).

Em sua formao o jovem Antonio recebeu suas noes bsicas de humanidade, matemtica e cincias naturais dos religiosos jesutas, que lhes despertaram o interesse pela morfologia de animais e insetos (5). Ao estudar essas matrias, descobre a vocao para a medicina, decidindo mudar de cidade para tentar o ingresso na Universidade de Bologna.

Valsalva estudou na tradicional Universidade de Bologna, onde aprendeu filosofia com Llio Trionfetti (Giovanni Battista Trionfetti, 1656-1708), matemtica com Pietro Mengoli (1625-1686) e geometria com Rodelli, todos notrios da poca (8). Considerado um discpulo da escola de Galileu pelo aprendizado com Giovanni Alfonso Borelli (1608-1679). A Universidade reconhecida como a mais antiga do mundo, sendo referida como Alma Mater Studiorum (9). A fundao da Escola Mdica da Universidade de Bologna se deu em um processo longo e arrastado. O incio foi por volta de 1063. O ttulo de professor surge aps o ano de 1170. Este ttulo era obtido por concesso dada pelas autoridades da igreja a partir de 1179. Os estatutos da cidade para a faculdade de medicina datam de 1378 (9). Professores clebres fizeram parte de seu quadro docente no perodo ureo, destacando-se Marcello Malpighi (1628-1694), fundador da histologia e que se valia de mtodos experimentais. Usou o microscpio para estudar os capilares dos alvolos pulmonares, corpsculos do rim, do bao, corpos mucosos e folculos epidermides, alm de contribuies no estudo de animais e plantas (9,10). Na Faculdade de Medicina da Universidade de Bologna, Valsalva teve a fortuna de receber lies de eminentes professores, entre eles o prprio Malpighi, que o introduziu na anatomia. Interessante ressaltar que cedo surgiu grande afinidade entre os dois (9). Desde o princpio Malpighi notou o brilho do jovem Antonio que se tornou seu aluno predileto, e este, por sua vez apreciava a forma clara e objetiva de ensinar do mestre (6,10).

Diplomado em medicina e filosofia em 10 de junho de 1687, aos 21 anos (7). Coerente aos seus princpios e idias, escreveu e apresentou a dissertao versando sobre a superioridade da doutrina experimental (Sulla superiorit delle dottrine sperimentali) (5). Nos seus primeiros anos de trabalho, a peste assolava a cidade de Bologna. Em decorrncia das honras e louvores obtidos na sua graduao, as autoridades resolveram nome-lo Inspetor Pblico de Sade. Aplicando medidas justas e apropriadas se destacou no cargo, logo ficando conhecido pela competncia. Tamanho foi o prestgio alcanado que, anos mais tarde, quando uma epidemia alcanou o castelo do rei, o senado decidiu envi-lo como encarregado de cont-la (6, 7, 11,12).

Dotado de grande rigor e fervor nas suas pesquisas, sua paixo no tinha limites e, portanto, experimentava a fundo para certificar-se da verdade. Dessa forma, aps prov-lo constatou o sabor cido e desagradvel do soro produzido pela gangrena, o que deixou suas papilas gustativas extremamente irritadas pelo resto do dia (6).

Seu nome entrou para a galeria dos doutores da cidade de Bologna e, junto com Santi Giorgio, Domenico Guglielmi (1655-1710), Ippolito Francesco Albertini (1662- 1746) e Giacomo Beccari (1682-1766), passou a freqentar encontros cientficos na casa de Eustachio Manfredi (1674-1739), local onde se fundou a Academia degli Inquiti (Academia da Enquete) (11,13). Destacando-se nas reunies mdicas locais, ganhou prestgio pelas suas observaes e conhecimento, que o levou a conquistar em 1694, a nomeao para Professor de Anatomia da Universidade de Bologna (14) e, dez anos aps, foi eleito Presidente da Academia de Cincias (7).

Sua obra mais conhecida e famosa intitula-se De aure humana tractatus (Tratado sobre o ouvido humano), publicada em 1704 (15,16,17). Nele relata sua experincia de 16 anos com mais de mil cadveres dissecados, principalmente o ouvido, sendo um precursor e o primeiro otologista. Foi o mais exmio anatomista de sua poca. A obra teve sucessivas edies em italiano e alemo nas universidades e faculdades das principais cidades europias.(8,11,12,13). Foi o primeiro a descrever de forma to minuciosa a anatomia, fisiologia e patologia do ouvido, sendo o pioneiro em estabelecer a diviso do ouvido nos seus segmentos externo, mdio e interno, conforme usamos at hoje (13,14,16,17). Tinha interesse primordial nos ouvidos mdio e interno e nos msculos da tuba auditiva e da faringe (17). Na realidade, Valsalva foi o fundador da anatomia e da fisiologia do ouvido, o primeiro ao qual se devem investigaes minuciosas sobre as funes do tmpano, dos ossculos do ouvido mdio e dos canais semicirculares. Estudou em detalhe os msculos do ouvido externo, at ento ignorados por todos os estudiosos que o antecederam. Nele descreveu um mtodo para inflar ar nos ouvidos, com o intuito de aliviar a surdez e curar as supuraes (17), que deu lugar a conhecida manobra que leva seu nome. De aure humana tractatus foi dedicado ao Senado, que, satisfeito e em troca, facilitou todo o auxlio, cooperao e fundos para suas pesquisas (17). Esse livro foi considerado um texto clssico sobre o assunto por mais de um sculo (18).

A manobra de Valsalva consiste em que, atravs da coordenao dos movimentos musculares, se faa uma expirao forada, mantendo o nariz e a boca fechados, cerrando as pregas vocais e, portanto, a glote, por 10 a 20 segundos. Desta forma aumenta a presso nas tubas auditivas. Se as tubas esto permeveis, o ar entrar foradamente sob presso na orelha mdia (15,17). Esta manobra pode ser espontnea, como ocorre ao tossir ou defecar ou ento provocada (19). Esta manobra foi utilizada originalmente para remover corpos estranhos desde o ouvido e para melhorar a hipoacusia. Curiosamente, parece que j era conhecida e utilizada pelos mdicos rabes do sculo XI (13, 20). Sem dvida, amplamente aplicada na medicina moderna, para testar a permeabilidade da tuba auditiva. Tambm se utiliza na investigao de hrnias da parede abdominal ou de anomalias vasculares venosas, como a varicocele. Em cardiologia, a resposta fisiolgica normal manobra de Valsalva pode ser dividida em quatro fases. A fase I se associa com elevao transitria da presso arterial sistmica. Precoce e fugaz, dificilmente percebida no exame e no tem importncia clnica. A fase II ocorre no tempo tardio da expirao forada, ocorrendo reduo do retorno venoso, da presso arterial, presso de pulso e leve taquicardia reflexa. Nesta fase reduz-se a intensidade das bulhas cardacas anormais (terceira e quarta) e dos sopros sistlicos artico e pulmonar. Aumenta o sopro sistlico da cardiomiopatia hipertrfica. Na fase III, logo aps o cessar do esforo expiratrio, ocorre queda abrupta e transitria da presso arterial com aumento do retorno venoso. Aumenta a intensidade dos sopros do trio e ventrculo direitos. Na fase IV, aps 10 a 20 segundos do cessar do esforo expiratrio, observada a elevao da presso arterial sistmica (rebote) e a bradicardia reflexa pode aumentar transitoriamente os sopros e bulhas cardacas anormais (21). Embora ainda hoje auxilie o exame clnico no consultrio, com a riqueza de detalhes e informaes que pode proporcionar, a manobra de Valsalva como instrumento diagnstico perdeu sua importncia na prtica cardiolgica contempornea com o advento da ecodopplercardiografia. Como forma teraputica durante surtos de taquiarritmias, a manobra de Valsava ou a massagem do seio carotdeo, por aumentarem o tnus vagal (fase IV), podem auxiliar no diagnstico e mesmo fazer cessar taquicardias atriais focais (22).

Por sua utilidade, j suplantou o ambiente da medicina tradicional e atualmente tambm muito importante em outras reas de atuao, como no mergulho aqutico, onde se usa para contrabalanar um aumento progressivo da presso de gua desde o exterior e evitar o barotrauma. Os aeronavegantes, civis e militares tambm deveriam reverenciar Valsalva pela criao desta manobra to til e praticada na aviao para equalizar a presso no ouvido mdio com a atmosfrica, forando a passagem de ar atravs da tuba auditiva, principalmente na descida do aeroplano quando a presso atmosfrica crescer e ser muito maior do que a presso no ouvido mdio, o que certamente produzir um barotrauma, se no lograrmos infl-lo para equaliz-las. Poderia valsalva imaginar tamanha longevidade para um mtodo to simples e que ficaria conhecido pelo seu prprio nome e assim perpetuado?

Ainda no campo da otorrinolaringologia, nomeou a trompa de Eustquio e descreveu sua funo e dos seus msculos (6, 17). Cabe aqui um parnteses para citar alguns fatos referentes a figura do anatomista italiano Bartolomeo Eustachio (1513 - 1574) (23). Dentre seus escritos, o segundo tratado sobre o rgo auditivo contm referncias sobre a tuba auditiva e a descrio dos msculos tensor do tmpano e estapdio. Foi a primeira publicao acurada sobre a anatomia da tuba auditiva, embora esta j tenha sido citada por Alcmeon de Crotona em 400 AC (23). Tinha a crena que a trompa de Eustquio permitia s cabras respirar atravs dos ouvidos como pelo prprio nariz (21). A descoberta de Eustachio da conexo entre o ouvido mdio e a faringe mais tarde teria inspirado Shakespeare a escrever em sua pea Hamlet, que o rei seu pai teria sido assassinado por envenenamento atravs do ouvido, conforme explica a Hamlet o fantasma do pai, na cena 5 do Ato 1, como seu tio, instilando suco de meimendro negro nos ouvidos, tirou-lhe a vida e usurpou o trono. Outra possibilidade de envenenamento via auricular foi conhecida no decorrer do sculo XVI, na Itlia - baseada no conhecimento da poca que mostrava possibilidade da absoro direta de algumas substncias pelo ouvido (6). Valsalva tambm demonstrou a conexo entre as clulas mastideas e a cavidade timpnica e fez observaes sobre a fisiologia e patologia dos processos do ouvido (6, 17). Na rinologia, Valsalva mostrou que a epistaxe poderia ser controlada pela presso digital na poro caudal do septo nasal (24).

Tambm praticou disseces para estudo da artria aorta, glndula supra-renal e colon. Foi anatomista, patologista, mdico conceituado e excelente cirurgio, tendo atuado por mais de 25 anos nos hospitais de Bologna. Ainda jovem, pode perceber a importncia da nefrectomia quando a praticou em um co com tumor e obteve xito na cura do mesmo. Opunha-se cauterizao das feridas, achando ser melhor deix-las evoluir e cicatrizar por segunda inteno. Verstil, realizou ainda trabalhos em oftalmologia, cirurgia vascular e em tumores. particularmente lembrado pelo manuseio e tratamento cirrgico dos aneurismas (25). Tambm inventou instrumentos muito usados durante e aps seu tempo (12). Nas suas observaes, notou que a paralisia motora, aps traumatismo craniano ocorria no lado contra-lateral ao da leso cerebral (6).

Trabalhou em reas to dspares como por exemplo a psiquiatria (5). Foi dos primeiros a defender que os pacientes psiquitricos requeriam um tratamento humanitrio para auxiliar na cura (7), observao verificada muito antes das de Vincenzo Chiarugi (1759-1820) e Philippe Pinel (1745 - 1826) (26). Considerava a loucura e a demncia semelhantes s doenas orgnicas (263).

Em 1714, teve participao decisiva na histria da otosclerose, pois pela primeira vez algum observou e descreveu o estapdio anquilosado em uma disseco cadavrica, relacionando-o surdez do paciente falecido (16, 27).

Tal como Malpighi, Valsalva tambm foi muito apreciado por seus alunos. Suas aulas de anatomia eram ansiosamente aguardadas. Como seu antigo professor, tambm aproveitava sua posio privilegiada para observar e determinar quais eram as mentes que ajudariam no desenvolvimento da medicina. Dentre seus pupilos prediletos encontrava-se Giovanni Batista Morgagni (1682-1771) (8).

Valsalva deixou sem editar diversos trabalhos que Morgagni posteriormente publicou em 1740. Entre eles uma extensa casustica anatomoclnica, que constitui parte fundamental do tratado De sebidus et causis morborum de Morgagni (28). Sem dvida, a influncia de Valsalva foi decisiva na carreira cientfica de Morgagni. Esse trabalho tem valiosas e numerosas contribuies de Valsalva. Extremamente rgido, demonstrou isto ao ser escolhido pela Universidade para ser um dos julgadores e avaliar o primeiro trabalho de Morgagni intitulado Adversria Anatmica. Interrogou-o exaustivamente para chegar a uma concluso precisa. Quando surgia qualquer objeo ou contradio, pois o trabalho estava sendo analisado para ser editado como livro, dizia: - eu sou assim mesmo, gosto demais de Morgagni, mas gosto muito mais da verdade (28).

Outro seguidor de suas teorias, embora no tenham se conhecido pessoalmente, foi Domenico Felice Antonio Cotugno (1736-1822), mdico italiano, que no ano de 1761 faz dissertao anatmica intitulada De aquaeductibus auris humane internae, baseando-se e dando seqncia aos trabalhos de Duverney e Valsalva e antecipando-se aos de Helmholtz, no qual descreveu o vestbulo, canais semicirculares e a cclea mostrando a existncia de fludo labirntico e formulando a teoria da ressonncia e audio. Cotugno tambm descobriu o lquido cefalorraquidiano em 1774 (25).

Alm de suas investigaes sobre anatomia descritiva, Valsalva reuniu, ao longo de sua vida, os achados patolgicos encontrados nos enfermos que chegavam sala de autpsias. Quando morreu, em 1723, este farto e valioso material foi confiado pela Universidade de Bologna ao seu fiel discpulo Morgagni e foi a base do futuro De sebidus, com metade dos casos procedendo de Valsalva. A casustica de Valsalva era predominantemente cirrgica, diferente da de Morgagni, cujos casos provinham da medicina interna (25).

Morgagni tambm deixou importantes contribuies atravs da observao das disseces cadavricas. A mtua admirao entre Valsalva e Morgagni era conhecida por todos e o selo do mestre est presente nos trabalhos e tratados de Giovanni. Sobre Antonio, Giovanni afirmou: "No h nada nem algum destes tempos que esteja adiante dele, muitos poucos so os seus iguais" (7, 28).

Dedicado, constante no estudo e na pesquisa, perseverante e inteligente, deixou muitas outras observaes importantes. Entre elas citamos (6, 17, 29):

- Seios de Peter, tambm conhecido como seios de Morgagni ou de Valsalva, que acrescentaram contribuies ao estudo anatmico inicial de Franois Pourfour du Petit (1664-1741), anatomista, fisiologista e cirurgio francs, em Paris (6). o espao compreendido entre o aspecto superior de cada uma das cspides semilunares da vlvula artica e a poro dilatada da parede da aorta ascendente. As artrias coronrias tm origem em dois destes seios.

- Antro de Valsalva ou antro mastideo - uma cavidade na poro petrosa do osso temporal.

- Disfagia de Valsalva - descrita na obra De aure humana tractatus, Bologna, 1704.

- Ligamentos de Valsalva - ligamentos que fixam a aurcula no lado da cabea.

- Msculo de Valsalva - corresponde a uma banda de fibras musculares verticais na superfcie externa do tragus da orelha, inervadas pelo ramo temporal do nervo facial.

Em 22 de abril de 1709, aos 43 anos, se casa j em idade muito avanada para a poca. Talvez a dedicao ferrenha na carreira o tenha feito protelar tal ato. Desposou a jovem Elena Lisi, com apenas 17 anos, filha de uma tradicional famlia de nobres e senadores de Bologna. Tiveram seis filhos, trs dos quais morreram muito jovens (8, 11, 12, 13, 19, 30).

Apresentou problemas de sade precocemente, logo perdeu seu olfato e em uma tarde de 1721 em Veneza, Valsalva e Morgagni discutiam sobre seus temas prediletos. Subitamente, Antonio comeou falar de forma estranha, enrolando a lngua, apresentando quadro provvel de dislalia e Giovanni no podia entender nada do que dizia (5, 30). Este episdio durou somente algumas horas e em sua anlise posterior, Valsalva teve claramente a idia do que havia sucedido, baseado em seus estudos sobre a fisiopatologia dos acidentes vasculares enceflicos e, de fato, no se equivocou. Dois anos aps, em 2 de fevereiro de 1723, aos 56 anos, Antonio Mara Valsalva sofreu um acidente vascular enceflico massivo, ou apoplexia como se conhecia na poca, e morreu (6, 30).

Atualmente, encontra-se localizado no hall da Universidade de Bologna o retrato em forma de medalho oval esculpido em pedra do perfil do mdico Valsalva com ampla peruca, feito por Angelo Pi (690 - 1770) e por um annimo e rstico campons, obedecendo fielmente ao estilo austero e solene do artista, tpico do barroco da poca (9).

O corpo de Valsalva encontra-se sepultado na igreja de San Giovanni em Monte, Bologna. A famlia de Valsalva doou a coleo de espcimes anatmicos para serem usados com propsitos educacionais no Instituto de Cincias, fundado em 1711. Esse material possivelmente forneceu inspirao para os trabalhos da escola Bolognesa de modelagem em cera dos artistas Ercole Lelli e da famlia Manzolini. Esta nova coleo anatmica inclui modelos de corao e pulmes e est hoje exposta no Museu de Anatomia (5).


COMENTRIOS FINAIS

Notvel anatomista, fisiologista, cirurgio e patologista, Valsalva foi um mdico insigne, um pesquisador infatigvel e um mestre eloqente. Porm sua principal atividade foi dedicada anatomia. At o final da vida, mesmo j muito enfermo no deixou de trabalhar com fervor apaixonado. Para o grande mestre da otologia Politzer, em sua obra se encontra o principio de uma teraputica racional que abre novos caminhos e perspectivas (Castiglioni). Forneceu valiosas contribuies para a medicina, sobretudo para a otorrinolaringologia. Seus feitos esto presentes em nosso tempo. interessante que os mdicos de hoje conheam um pouco de sua histria e valorizem suas descobertas. Esperamos que se lembrem deste grande homem na prxima vez que usarem a manobra de Valsalva.


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1. Doutor em ORL / USP. Coordenador da Disciplina ORL - FCM - UERJ.
2. Livre Docente em ORL pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor Visitante da UERJ.
3. Doutor em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do Comit de tica em Pesquisa do Hospital Pr-Cardaco, Rio de Janeiro.

Instituio: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro / RJ - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Roberto Campos Meirelles
Rua Sorocaba, 706 - Botafogo
Rio de Janeiro / RJ - Brasil - CEP: 22271-110
Telefone: (21) 2103-1500 - Fax: (21) 2579-3713
E-mail: rcmeirelles@gmail.com

Artigo recebido em 28 de abril de 2008.
Artigo aceito em 20 de maio de 2008.
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