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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 2  - Abr/Jun Print:
Case Report
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Labirintite Ossificante. Relato de Um Caso e Reviso da Literatura
Labyrinthitis Ossificans. Report of One Case and Literature Review
Author(s):
Leandro Ricardo Mattiola1, Mark Makowiecky2, Carlos Eduardo Guimares de Salles2, Marcela Pozzi Cardoso3, Samir Cahali4
Palavras-chave:
labirintite, cclea, perda auditiva, osteognes
Resumo:

Introduo: Labirintite ossificante uma patologia caracterizada por surdez neurossensorial, frequentemente secundria a infeco, que gera leso irreversvel na orelha interna. Objetivo: Relatar um caso de labirintite ossificante e realizar uma reviso da literatura. Relato do Caso: apresentado um caso de indivduo do sexo masculino, sete anos de idade, com hipoacusia profunda unilateral na audiometria tonal, ausncia de reposta na audiometria de tronco enceflico e alteraes compatveis na Tomografia Computadorizada. Concluso: A labirintite ossificante resulta na ossificao das estruturas da orelha interna. O paciente apresenta um quadro de hipoacusia profunda irreversvel, acompanhado ou no de desequilbrio, que pode ter implicao importante no desenvolvimento scio-educacional. O diagnstico tem importante papel na indicao de implante coclear para os casos selecionados.

INTRODUO

A ossificao do labirinto membranoso, ou labirintite ossificante (LO), usualmente uma seqela de infeco, frequentemente de labirintite supurativa (1). Esta pode se desenvolver atravs de trs vias de disseminao de infeco: hematognica, meningognica ou timpanognica. A LO o resultado final da labirintite supurativa, independente da origem da infeco (2). Outras causas incomuns incluem tumores, otosclerose avanada, fratura de osso temporal e hemorragia de orelha interna (3). A LO resulta em perda auditiva profunda e devido ao processo de ossificao pode impedir a realizao de implante coclear (IC) (4, 5). A tomografia computadorizada de alta resoluo (TC) tem facilitado o diagnstico de LO (6) e nos permite avaliar a viabilidade do IC (7).


RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, com sete anos de idade queixando-se de hipoacusia em orelha esquerda h um ano e quatro meses, inicialmente percebida pela me e de evoluo lentamente progressiva. O paciente no apresentava histria de infeces otolgicas prvias, apenas um episdio de otite mdia aguda h um ms, que melhorou com o tratamento. No apresentava dificuldade de aprendizado, histria familiar de hipoacusia, infeces gestacionais ou outras doenas.

Observou-se: membrana timpnica de aspecto normal otoscopia bilateralmente, teste de Weber lateralizado para a direita e audiometria tonal com limiares normais direita e perda auditiva profunda esquerda. A audiometria de tronco enceflico (ABR) era normal direita e mostrava ausncia de resposta a 105 dB esquerda. A TC de ossos temporais revelou uma ossificao labirntica esquerda.


DISCUSSO

A injria labirntica que resulta em disacusia profunda, com ossificao coclear ou LO, pode ocorrer aps vrios tipos de dano otolgico (8) sendo usualmente uma sequela de infeces. Estas podem atingir a orelha interna atravs da corrente sangunea (hematognica), da orelha mdia (timpanognica) ou das meninges (meningognica) (1, 9). No caso relatado acreditamos que a LO trata-se de sequela de labirintite timpanognica, embora no existam eventos de infeco otolgica prvios a hipoacusia documentados. A labirintite timpanognica a causa mais comum de LO (6). O caminho pelo qual a infeco da orelha mdia atinge a orelha interna foi estudado por vrios autores. Estes trabalhos identificaram a janela da cclea como principal via de disseminao da infeco para a orelha interna, mas a mesma tambm pode ocorrer pela janela do vestbulo ou por ambas as janelas. PAPARELLA et al. (10). descreveu uma alta incidncia de alteraes histopatolgicas da orelha interna, secundrias a otite mdia. Tais alteraes foram observadas mais frequentemente na escala timpnica, o que corrobora a afirmao de que a janela da cclea seria a principal via de disseminao. Porm a ossificao mais densa e extensa nos casos de meningite meningognica durante a infncia (11). Nestes casos, a infeco atinge a orelha interna atravs do espao subaracnideo, do aqueduto coclear e do meato acstico interno (1, 6, 12). A ossificao geralmente ocorre bilateralmente nestes pacientes, e pode ser constatada em trs a quatro meses aps o quadro de meningite bacteriana. Nosso paciente tambm no apresentava histria de meningite e a ossificao ocorreu de forma unilateral. No que diz respeito labirintite hematognica, a infeco intra-uterina a causa mais comum, estando associada aos vrus do sarampo e da caxumba. A labirintite hematognica ocorrendo a partir de um foco oculto ou a distncia rara (6). Traumatismo, incluindo o trauma cirrgico, uma causa conhecida, porm de mecanismo ainda indefinido. Independente da etiologia, a patognese da LO envolve um estgio agudo inicial, com a presena de bactrias e leuccitos, usualmente nos espaos perilinfticos. Segue-se uma fase caracterizada por proliferao de fibroblastos e fibrose, culminando aps em estgio de ossificao propriamente dito (3). Os fibroblastos so presumivelmente a fonte de formao da substncia de ligao e das fibras da matriz osteide (13). A evoluo da hipoacusia lentamente progressiva e uma disacusia neurossensorial profunda e irreversvel a regra. Tal evoluo foi observada no caso relatado. O paciente pode experimentar tambm tontura de grau variado, seja durante o quadro infeccioso agudo ou durante a evoluo da doena (2). O achado de LO na avaliao radiolgica possui importncia clnica, pois justifica o achado de hipoacusia no exame audiomtrico, assim como eventuais distrbios de equilbrio do lado afetado. A TC pode demonstrar esclerose, irregularidade ou obliterao da cclea, vestbulo e canais semicirculares, com diferentes graus de comprometimento. O estudo tomogrfico da extenso da doena pode tornar mais fcil a identificao de qual paciente ser ou no auxiliado pelo IC (7). A ossificao pode tornar difcil a implantao do eletrodo. Inicialmente, mesmo a LO discreta era considerada contra-indicao para implantao dos aparelhos de multicanal (14). Hoje o cirurgio possui muitas opes. A ossificao moderada do giro basal pode ser perfurada atravs de uma abordagem convencional atravs do recesso facial. Nos casos severos, o eletrodo pode ser inserido parcialmente (15). Em nosso caso no existe indicao de implante coclear, pois a audio contra lateral normal.


Figura 1. Ossificao labirntica a esquerda (seta) e estruturas labirnticas normais a direita.


Figura 2. Tomografia axial computadorizada de osso temporal em corte coronal mostrando ossificao labirntica a esquerda (seta).



COMENTRIOS FINAIS

A inflamao da cpsula tica, de etiologia infecciosa ou no, evento inicial em um processo de destruio do labirinto membranoso que culmina na ossificao das estruturas da orelha interna. Esta, tambm conhecida como LO leva o paciente a experimentar um quadro de hipoacusia profunda, de carter irreversvel, acompanhado ou no de desequilbrio, que pode ter implicao importante no desenvolvimento scio-educacional. O diagnstico facilitado pelos exames de imagem (TC), que tambm tem importante papel na indicao de IC para os casos selecionados.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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1. Mdico Otorrinolaringologista. Especializando em Cirurgia de Cabea e Pescoo no HSPE-SP.
2. Mdico Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo no HSPE-SP (R2).
3. Mdica Especialista em Otorrinolaringologia. Mdica Assistente da Otologia do HSPE-SP.
4. Doutor em Otorrinolaringologia pela UNIFESP. Diretor do do Servio de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo do HSPE-SP.

Instituio: Hospital do Servidor Pblico Estadual de So Paulo - FMO. Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo. So Paulo / SP - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Leandro Ricardo Mattiola
Rua Jos de Magalhes 600 - Vila Clementino
So Paulo / SP - CEP: 04026-090
Telefone / Fax: (11) 5088-8406 - E-mail: lmattiola@hotmail.com

Artigo recebido em 31 de maio de 2007.
Artigo aceito em 8 de novembro de 2007.
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