Title
Search
All Issues
4
Ano: 2009  Vol. 13   Num. 3  - Jul/Set Print:
Original Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Aspectos Clnicos de Pacientes com Polipose Nasal
Clinical Aspects of Patients with Nasal Polyposis
Author(s):
Juliano Irita Haro1, Fernanda Gavioli2, Valdevino Melo Junior3, Cassio Caldini Crespo4.
Palavras-chave:
sintomas clnicos, plipos nasais, asma, Aspirina, tomografia.
Resumo:

Introduo: A polipose nasal um processo inflamatrio crnico, no neoplsico da mucosa nasal. Apresenta grande impacto na qualidade de vida dos pacientes. Objetivo: Levantar caractersticas de pacientes com polipose nasal de uma amostra da populao brasileira. Mtodo: Foram revisados 50 pronturios de pacientes acompanhados em hospital tercirio e submetidos a tratamento cirrgico para polipose nasal. As seguintes variveis foram analisadas: idade, sexo, tabagismo, presena de asma, presena de intolerncia ao AAS e tambm as manifestaes clnicas: rinorreia anterior e posterior, obstruo nasal, hiposmia, espirros e prurido. O sistema de avaliao tomogrfico adotado foi o de Lund-McKay. Para anlise estatstica foi aplicado teste qui-quadrado com p<0,05. Resultados: Dos 50 pacientes avaliados 28 eram homens e 22 mulheres. A faixa etria mdia foi 40,8 anos A principal manifestao clnica foi obstruo nasal em 100% dos pacientes. Na avaliao tomogrfica, segundo o sistema de Lund-McKay, a pontuao mdia foi de 10,9. Discusso: No foi obtida diferena estatisticamente significativa entre os sintomas dos pacientes em geral quando comparados dos pacientes com asma ou intolerncia ao AAS. Foi estatisticamente significante a diferena entre a pontuao de Lund-McKay entre as populaes estudadas. Os sintomas foram semelhantes frequncia de sintomas de outros trabalhos. Concluso: Conclumos que a principal queixa dos pacientes com polipose nasal a obstruo nasal, a idade mais afetada cerca de 40 anos, sem preferncia de sexo. A severidade dos achados tomogrficos maior em pacientes com asma e intolerncia ao AAS.

INTRODUO

A polipose nasal apresenta grande impacto na qualidade de vida dos pacientes, trazendo limitaes sociais e laborativas. Afetando a vitalidade e a sade geral, sendo a sade mental mais afetada do que a fsica (1).

Apresenta impacto pior na qualidade de vida do que quando comparado a outras doenas crnicas como, por exemplo, artrite reumatoide, diabetes insulino-dependente e doena pulmonar obstrutiva crnica (2).

Estima-se que a incidncia na populao geral seja de cerca de 1 a 4% (3). Sem predisposio por sexo, afetando preferencialmente pessoas de meia idade.

As principais queixas dos pacientes costumam ser obstruo nasal, rinorreia, descarga posterior, cefaleia, hiposmia/anosmia e tosse (4).

Os plipos so geralmente mltiplos, noneoplsicos, moles, brilhantes, no-sangrantes, translcidos, pedunculados e presos a uma base. Sendo muito frequente afetar a regio do meato mdio (5).

Existem evidncias crescentes que a polipose nasal representa uma resposta imunolgica e inflamatria do hospedeiro em adio a uma infeco inicial (6).

H associao com asma no alrgica em cerca de 26% dos pacientes e associao com intolerncia ao cido acetil saliclico(AAS) em 36%. Ainda pode haver associao com outras doenas como fibrose cstica, sinusite fngica alrgica, sndrome de Young, Churg-Strauss e Kartagener (7).

Histologicamente a doena apresenta dano epitelial, com membrana basal espessada, estroma edematoso, com reduo do nmero de vasos e glndulas e infiltrado inflamatrio predominantemente eosinoflico (8).

A maioria dos danos disponveis sobre este tema retrata a realidade americana ou europeia. Este estudo tem como objetivo levantar caractersticas de pacientes com polipose nasal de uma amostra da populao brasileira.


MATERIAL

Para este estudo foi utilizado reviso de 50 pronturios de pacientes acompanhados em hospital de nvel tercirio, de janeiro de 2006 a janeiro de 2008.

Os pacientes foram questionados sobre os principais sintomas, presena ou histria de asma, histria de intolerncia ao cido acetil saliclico e verificados principais sinais. Sendo tambm complementada a avaliao atravs de tomografia de seios paranasais.

Todos os pacientes foram tratados clinicamente com corticoides tpicos por pelo menos 3 meses e em alguns casos com corticoides sistmicos (09 pacientes).

Foi realizado tratamento cirrgico em todos os pacientes, utilizando anestesia geral e videoendoscopia nasal. Realizado tambm septoplastia (16 pacientes) quando necessrio. Em sete pacientes foi realizado concomitantemente acesso ao seio maxilar via Caldwell-Luc.

As seguintes variveis foram analisadas: idade, sexo, tabagismo, presena de asma, presena de intolerncia ao AAS e tambm as seguintes manifestaes clnicas: rinorreia anterior, rinorreia posterior, obstruo nasal, hiposmia, espirros e prurido.

O sistema de avaliao tomogrfico adotado foi o de Lund-McKay (9) (Tabela 1).



Para anlise estatstica foi aplicado teste do quiquadrado com p<0,05.


RESULTADOS

Dos 50 pacientes avaliados 28 eram homens (56%) e 22 eram mulheres (44%). A faixa etria mdia foi de 40,8 anos, variando de 11 a 70 anos.

Nove pacientes apresentaram histria de asma, cinco homens e quatro mulheres.

Trs pacientes apresentaram histria de intolerncia aos salicilatos, dois homens e uma mulher, todos tambm com diagnstico de asma.

Em relao ao tabagismo foram encontrados 17 pacientes que utilizavam, em mdia, 5 cigarros ao dia, dez homens e sete mulheres.

A principal manifestao clnica foi a obstruo nasal em 100% dos pacientes, seguidos de pruridos nasais com 62%, espirros em 60%, rinorreia anterior em 50%, rinorreia posterior em 32% e hiposmia/anosmia em 20% dos pacientes, conforme demonstrado no Grfico 1. No houve diferenas significativas das queixas entre homens e mulheres (p>0,05).

Outras queixas foram menos frequentes, como cefaleia em 6% dos pacientes, hipoacusia em 4%, halitose em 2% e roncos em 2% dos pacientes. Apresentaram celulite periorbitria 4% dos pacientes.

Nos pacientes asmticos os principais achados clnicos foram obstruo nasal, rinorreia anterior, prurido, espirros, rinorreia posterior e hiposmia/anosmia, em ordem decrescente de frequncia.

Nos que apresentavam intolerncia aos salicilatos os principais achados clnicos foram semelhantes aos asmticos.

Na avaliao tomogrfica, segundo o sistema de Lund-McKay, a pontuao mdia foi de 10,9. Na tomografia dos pacientes asmticos, a pontuao mdia foi de 17,6. Os pacientes com intolerncia aos salicilatos obtiveram mdia de 21,3 pontos (Grfico 2).

Em todos os pacientes o exame anatomopatolgico demonstrou cortes histolgicos com fragmentos de mucosa apresentando epitlio colunar epitelizado, espessamento da membrana basal, infiltrado inflamatrio linfoplasmocitrio com edema e vasocongesto, observando 75% de clulas eosinoflicas e o restante predominantemente neutrfilos.

No foi obtido diferena estatisticamente significativa entre os sintomas dos pacientes em geral quando comparados dos pacientes com asma ou intolerncia ao AAS (p>0,05). Mas apresentaram significncia estatstica quando comparados pelo escore de Lund-MacKay (p<0,05).


Grfico 1. Manifestaes clnicas



Grfico 2. Avaliao tomogrfica de Lund-McKay.



DISCUSSO

A polipose nasal uma doena comum na populao, com prevalncia de cerca de 4% (10). A idade mdia, em torno dos 40 anos, encontrada em nosso estudo foi similar de estudos como de Settipane, Larsen e Drake-Lee (11,12,13). Vrios estudos apontam prevalncia aumentada nos homens em relao s mulheres, o que no encontramos em nosso estudo (7,10,11,12,13).

Apesar de a recorrncia no ter sido avaliado em nosso trabalho, acreditamos que os pacientes com asma e intolerncia ao AAS realmente apresentam um maior risco de recorrncia aps a cirurgia, independentemente do tratamento institudo (14,15).

Em nosso levantamento 34% dos pacientes eram tabagistas, na literatura ainda no h consenso em relao ao papel do tabagismo no desenvolvimento da polipose nasal (16,17).

Os sintomas principais encontrados tambm foram condizentes com outros trabalhos publicados, sendo a obstruo nasal o principal sintoma (18), a obstruo geralmente constante, mas pode variar dependendo do tamanho e localizao dos plipos. Alguns estudos tambm apresentam boa relao entre a severidade da obstruo nasal com testes objetivos como rinomanometria e pico de fluxos nasais (19,20).

Outros sintomas, como rinorreia anterior e posterior, prurido nasal, anosmia, hiposmia, dor facial, tambm foram frequentes, porm inferior obstruo nasal, de acordo com outros estudos (15,16,18).

No houve diferenas significativas entre as principais queixas dos pacientes avaliados quando comparados aos pacientes com intolerncia ao AAS ou asma (p>0,05).

Os pacientes que tinham asma ou intolerncia ao AAS apresentaram um maior acometimento dos seios paranasais, vistos pela tomografia, corroborando os dados disponveis na literatura (21). A tomografia se correlaciona bem com achados endoscpicos, mas apresenta uma correlao pobre com a sintomatologia e no um bom exame para o prognstico da doena (22).

Uma possvel explicao do quadro mais grave em pacientes com intolerncia ao AAS a inibio sobre a enzima ciclooxigenase-1, com subsequente ativao de clulas inflamatrias e liberao de mediadores lipdicos e no-lipdicos (24). Tambm apresentam produo aumentada de enzimas como leucotrienos.

J a asma associa-se com polipose quanto mais grave for o estgio da asma, acredita-se que a polipose pode ser devido ao remodelamento das vias areas em consequncia da ao de processos inflamatrios crnicos, assim pode ocorrer hiperplasia epitelial, deposio aumentada da matriz extracelular, degradao e acmulo de protenas plasmticas, alm da falta de reparo adequado das leses crnicas (4).


CONCLUSO

Encontramos em nosso estudo que a principal queixa do paciente com polipose nasal continua sendo a obstruo nasal, a idade mais afetada cerca de 40 anos, sem prevalncia por sexo. E a severidade dos achados tomogrficos maior em pacientes que apresentam intolerncia ao AAS e asma.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Radenne F, Lamblin C, VandezandeLM, Tillie-Leblond I, Darras J, Tonnel AB, ET AL. Quality of life in nasal polyposis. J Allergy Clin Immunol. 1999, 104(1):79-84.

2. Gliklich RE, Metson R. Effect of sinus surgery on quality of life. Otolaryngol Head Neck Surg. 1997, 117(1):12-7.

3. Puwankar R. Nasal Polyposis: An Update. Curr Opin Allergy Immunol 2003, 3:1-6.

4. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, Diretrizes Brasileiras de Rinossinusites (suplemento). 2008, 74 (2):19-20.

5. Bateman ND, Fahy C, Woolford J. Nasal Polyps Still More Questions Than Answers. T J Laring. Otol. 2003, 117(1):1-6.

6. Norlander T, Brnnegard M, Stierna P. The relationship of nasal polyps, infection, and inflammation. Am J Rhinol. 1999, 13 (5):349-355.

7. Settipane GA. Epidemiology of nasal polyps. Allergy Asthma Proc. 1996, 17 (5):231-236.

8. Hellquist HB. Nasal polyps update. Histopathology. Allergy Asthma Proc. 1996, 17 (5): 237-242.

9. Lund VJ, McKay IS. Staging in rhinosinusitis. Rhynology. 1993, 31:183-4.

10. Hedman J, Kaprio J, Poussa T, et al. Prevalence of asthma, aspirin intolerance, nasal polyposis and chronic obstructive pulmonary disease in a population-based study. Int J Epidemiol. 1999, 28:717-22.

11. Settipane G. Epidemiology of nasal polyps. In: Settipane G, Lund VJ, Bernstein JM, Tos M, editor. Nasal polyps: epidemiology, pathogenesis and treatment. Rhode Island: Oceanside Publications; 1997, p. 17-24.

12. Drake-Lee AB, Lowe D, Swanston A, Grace A. Clinical profile and recurrence of nasal polyps. J Laryngol Otol. 1984, 98(8):783-93.

13. Larsen K, Tos M. Clinical course of patients with primary nasal polyps. Acta Otolaryngol. 1994, 114(5):556-9.

14. Caplin I, Haynes JT, Spahn J. Are nasal polyps an allergic phenomenon? Ann Allergy. 1971, 29(12):631-4.

15. Fokkens W, Lund V, Mullol J, et al. European Position Paper Rhinosinusitis and nasal polyps 2007. Rhinology. 2007, 45(20):1-139.

16. ChenY, Dales R, Lin M. The epidemiology of chronic rhinosinusitis in Canadians. Laryngoscope. 2003, 113(7):1199-205.

17. Greisner WA,3rd, Settipane GA. Hereditary factor for nasal polyps. Allergy Asthma Proc. 1996, 17(5): 283-6.

18. Newton JR, Ah-See KW. A review of nasal polyposis. Therapeutics and clinical risk management. 2008, 4 (2) 507

19. Numminen J, Ahtinen M, Huhtala H, Rautiainen M. Comparison of rhinometric measurements methods in intranasal pathology. Rhinology. 2003, 41(2):65-8.

20. Szucs E, Clement PA. Acoustic rhinometry and rhino-manometry in the evaluation of nasal patency of patients with nasal septal deviation. Am J Rhinol. 1998,12(5):345-52.

21.Dalziel K, Stein K, Round A, Garside R, Royle P. Systematic review of endoscopic sinus surgery for nasal polyps. Health Technol Assess. 2003, 7:1-159.

22. Browne JP, Hopkins C, Slack R, Topham J, Reeves B, Lund V, et al. Health-related quality of life after polypectomy with and without additional surgery. Laryngoscope. 2006, 116(2):297-302.

23. Fokkens WJ , Lund VJ, Mullol J, et al., European Position Paper on Nasal Polyps. Rhinology. 2007, 45(suppl. 20):1
139.

24. Stevenson DD, Szczeklik A. Clinical and pathologic perspectives on aspirin sensitivity and asthma. J Allergy Clin Immunol. 2006, 118(4):773-86; quiz 87-8.







1. Mdico Residente do Servio de Otorrinolaringologia da PUC-SP. Mdico Residente R3 ORL PUC-SP.
2. Mdica Residente do Servio de Otorrinolaringologia da PUC-SP. R3 ORL PUC-SP.
3. Mdico Residente do Servio de Otorrinolaringologia da PUC-SP. R2 ORL PUC-SP.
4. Professor Titular do Setor de Otorrinolaringologia da PUC-SP. Professor Mestrando do Setor de ORL da PUC-SP.

Instituio: Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo - Hospital Regional de Sorocaba.
Sorocaba /SP - Brasil.

Endereo para correspondncia: Dr. Juliano Irita Haro - Rua Dinamarca, 245 Apto. 23 - Jardim Europa - Sorocaba / SP - Brasil - CEP: 18045-400 - Telefone: (+55 15) 3232-2009 - E-mail: crespo@otoclinica.com.br

Artigo recebido em 08 de Junho de 2009. Artigo aceito em 04 de Julho de 2009.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2024