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Ano: 2009  Vol. 13   Num. 3  - Jul/Set Print:
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Achados Bacterianos Encontrados na Secreo da Otite Mdia Cronica: Estudo Comparativo Entre o Colesteatoma (OMCC) e a Otite Mdia Cronica Simples (OMCS)
Bacterial Findings Found in the Chronic Otitis Media Secretion: Comparative Study Between Cholesteatoma (OMCC) and Simple Chronic Otitis Media (SCOM)
Author(s):
Jose Evandro Andrade Prudente de Aquino1, Salomo H. Pererira2, Julia Negro Prudente de Aquino3, Roberto Gaya Neto2, Maria Rosa Carvalho4, Nelson Alvares Cruz Filho5
Palavras-chave:
colesteatoma da orelha mdia, bacteriologia, bacilos gram-negativos anaerbios facultativos.
Resumo:

Introduo: Foi feita uma comparao na frequencia com que os patogenos infectantes foram detectados na supurao causada pelo colesteatoma e pela otite crnica simples no perodo de 2006 a 2008. Objetivo: Fazer um estudo comparativo entre os achados bacterianos encontrados na secreo da otite crnica simples e a colesteatomatosa. Mtodo: Foram estudados a bacterioscopia de 83 pacientes (125 orelhas) portadores de otite mdia crnica, sendo 43 (52 orelhas) com colesteatoma e 40 (73 orelhas) com otite crnica simples, com predominncia de idade dos 16 aos 20 anos. A durao da otorreia variou entre 2 meses e 10 anos. Para a colheita do material utilizamos um equipamento bastante pratico com caldo de tioglicolato dentro e fora enviados ao laboratrio por um perodo mximo de at 18 horas. Resultados: O S. aureus foi mais frequente na otite crnica simples, enquanto que os anaerbios foram mais frequentes no colesteatoma. A P. aeruginosa foi mais frequente na otite crnica simples e o Corynebacterium sp. apresentou maior frequencia no colesteatoma. o S. epidermidis apareceu com frequencias iguais em ambas as doenas otolgicas. Concluso: No encontramos mudanas notveis na bacteriologia dessas duas doenas. Na otite crnica simples os achados mais frequentes foram S. aureus, Pseudomonas sp. e fungos. No colesteatoma os achados mais frequentes foram os Anaerbios e o Corynibacterium sp. A frequencia de aparecimento para S. epidermidis, Klebisiela sp. e Streptococcus sp. foi igual em nosso estudo.

INTRODUO

A necessidade de um conhecimento mais exato da flora nas otites media crnica ponto fundamental no diaa-dia do especialista, tanto pela grande frequncia de casos, como pelo fato de cura da supurao ser condio indispensvel para uma cirurgia funcional posterior.

A otite media crnica (OMC) uma doena que ainda prevalece em nosso meio e que tende a ser persistente e destrutiva, podendo levar a produo de sequelas irreversveis. Sua etiopatogenia multifatorial tendo as infeces respiratrias recidivantes importante papel na manuteno deste quadro. O processo infeccioso caracterizado como polimicrobiano, geralmente evoluindo com associao de bactrias facultativas, aerbio e anaerbio estrito estando este ultima presentes em 30 a 60% dos casos (1).

Segundo JAHN (2), aps a introduo dos antibiticos, a partir da dcada de quarenta, as complicaes decorrentes das otites medias crnicas desapareceram quase que por completo da clinica otolgica. Entretanto, o uso indiscriminado de antibiticos na medicina tem contribudo nestes ltimos anos, para o aparecimento de amostras multiresistentes e para o retorno das complicaes nesta doena.

Os principais estudos bacteriolgicos so devidos a PALVA, KARJA e RAUNIO (3); LANG col (4); HARKER e KOONTZ (5); KARMA, JOKIPH e OJALA (6); MELON e GORET (7); ITZHAK BROOK e BETHESDA (8); FEDERSPIL e col (9).

Temos que considerar por um lado, os tipos de germes mais detectados em culturas de secrees do ouvido e por outro o papel dos germes e de seus produtos metablicos na evoluo da otite crnica.

A mudana da populao bacteriana em infeco crnica com o decorrer dos anos fato constatado na literatura (1,2).

Este trabalho tem como objetivo fazer um estudo comparativo entre os achados bacterianos encontrados na secreo da otite mdia crnica simples e colesteatomatosa.


MTODO

No perodo de janeiro de 2006 a setembro de 2008, realizamos um estudo retrospectivo bacterioscpico de 83 pacientes (125 orelhas) portadores de OMC, sendo 43 pacientes (52 orelhas) com otite mdia crnica colesteatomatosa (OMCC) e 40 pacientes (73 orelhas) com otite mdia crnica simples (OMCS), atendidos no Ambulatrio de ORL da Universidade de Santo Amaro - SP (UNISA).

Dados do paciente como durao de doena, exames laboratoriais realizados anteriormente, foi anotada e o espcime clnico e/ou cirrgico s foi colhido daqueles que no estavam fazendo uso de antimicrobianos no perodo de ate 15 dias antes da consulta. Estudo devidamente cadastrado no SISNEP e com autorizao no 077/2008 do comit de tica da Universidade de Santo Amaro (UNISA - SP).

De um total de 125 orelhas infectadas, 52 com OMCC e 73 com OMCS foram submetidas ao exame bacterioscpico da secreo. A idade variou de 2 a 75 anos com predominncia da faixa etria dos 16 aos 20 anos. Havia 42 pacientes do sexo masculino e 41 do sexo feminino, desses 64 eram adultos 19 eram crianas. A durao da otorreia variou de um mnimo de 2 meses at um tempo superior a 10 anos.

Para a colheita do material da orelha realizamos primeiro a limpeza do conduto auditivo externo com soluo salina estril. Em seguida a secreo colhida atravs de um aspirador bastante prtico e simplificado, possibilitando prevenir a contaminao do material coletado. Este equipamento consiste em um vidro coletor estril, no qual est conectado a uma tampa de borracha com dois orifcios. Um orifcio de entrada para adaptar um sistema de aspirao, que ser conectado a uma ponta de aspirador, usada para aspirar a orelha media, atravs do conduto auditivo externo, para se obter o contedo da aspirao.

No outro orifcio (de sada) adaptamos um dispositivo que ser conectado a uma borracha que ser diretamente ligada a um motor de aspirao cuja partida controle ser feita atravs de um pedal (Figura 1). O operador poder trabalhar sob viso otoscpica/ microscpica e o fluido da orelha media ser coletado no frasco estril e enviado o mais rpido possvel ao laboratrio, no mais que 24 horas, para exame da amostra colhida. Isso possibilita ter uma

No Quadro 1 mostramos a prevalncia da bactria detectada na secreo das orelhas. Na OMCC quando comparada com OMCS, o S. aureus, fungo e aP. aeruginosa foram significativamente menos frequentes, considerando os anaerbios mais frequentes. O S.aureus foi mais frequente na OMCS, enquanto os anaerbios foram mais frequentes na OMCC. A P.aeruginosa foi mais frequente na OMCS e o Corynebacterium sp. apresentou maior frequncia na OMCC.

O S. epidermidis apareceu com frequncias iguais tanto na OMCS quanto na OMCC.


Figura 1. Vidro coletor estril, no qual est conectado a umatampa de borracha com dois orificios.Direitos Autorais reservados em nome de Professor Dr. J.Evandro A. P. de Aquino.












DISCUSSO

So poucas as exploraes sistemticas com relao microbiologia de otite media crnica na literatura pesquisada nos ltimos anos. Estudos de BARRETO & SERNADA (10) e SWARTZ & BARON (11) mostram o desenvolvimento das bactrias e as enzimas por elas secretadas na evoluo das otites crnicas. A incidncia da otite media crnica esta sujeita a grandes variaes regionais, e sua frequncia baixa em reas com equipe medica treinada, boa higiene, facilidade da populao para acesso ao tratamento medico. Em regies onde as condies so menos favorveis, as orelhas crnicas continuam a aumentar a sua incidncia.

Na secreo da OMCC em nossa pesquisa o S. epidermidis e Corynebacterium sp., que so bactrias nativas da pele humana, foram encontradas mais frequentemente e a taxa de aparecimento de S. aureus, P. aeruginosa e fungo, foram significativamente mais baixas que as da OMCS. Para IBEKWE e col (12) o S. aureus e a P. aeruginosa propem maiores problemas clnicos no gerenciamento da OMC e doenas infecciosas ou em muitos outros rgos. Estes fatos sugerem que a infeco bacteriana deve ser no uma essencial causa de secreo, mas um dos fatores de agravamento do colesteatoma, isto , uma mudana inflamatria causada pela queratina ou citoquina, onde deva ser o maior fator no colesteatoma, enquanto a secreo na OMCS e muitas vezes resultante da infeco bacteriana. Concluram que isto pode prolongar uma secreo aural no colesteatoma mais do que na OMCS, apesar do uso de antibiticos.

A incidncia de P. aeruginosa na secreo (13,7%) tende a decrescer tanto no colesteatoma quanto na OMCS. Este decrscimo pode ser relatado com o uso de novas quinolonas usadas atualmente, como tratamento. A incidncia de Corynebacterium sp. nesse estudo foi de 17,5% dos casos, ficando por conta da infeco mista. Em alguns casos houve possibilidade do crescimento de Corinebacterium sp proveniente do canal auditivo externo umedecido pela secreo com outros organismos causais.

IBEKWE & col (12) encontraram no estudo de 102 orelhas com OMC anaerbios, aerbios e fungos. Quarenta e quatro por cento eram culturas puras, 33,3% mistas e 18,6% no tiveram crescimento. Setenta e quatro por cento eram aerbios, 25% fungos e somente 0,9% anaerbios P. aeruginosa (22,5%) foi o microrganismo mais isolado, seguido por S.aureus e Aspergillus sp. Em confronto, os nossos resultados se aproximam dos trabalhos de Ibekwe e col. e estes fatos apontam para a necessidade de promover investigao da ao do Corynebacterium sp. no desenvolvimento das leses da OMC.

Comparando tambm aos nossos resultados , encontramos o trabalho de SWEENEY e col (13) que isolaram anaerbios em 52 de 130 pacientes (44,0%) onde acreditam que o uso de tioglicato nos primeiros 73 pacientes inibiram o crescimento de anaerbios.

CONSTABLE & BUTLER (14) encontraram anaerbios em 20 de 100 aspirados, onde o tempo de processamento entre o aspirado ate o laboratrio foi de uma hora, porem o meio usado no foi enriquecido e as amostras foram incubadas somente 24 horas antes da exposio ao ar do laboratrio. Por isso, todos estes fatores devem levar a reduo do numero de anaerbios isolados nestes estudos.

Os estudos de BROOK (15, 16) em confronto com o nosso mostrou alguns pontos divergentes. Este autor encontrou bactrias anaerbias em 51,0% dos aspirados de orelhas de crianas com OMC. Estes aspirados foram inoculados em meio enriquecido onde reportam o crescimento de anaerbios num perodo de 14 dias, suficiente para o crescimento.

As bactrias aerbias isoladas foram GRAM -, principalmente S. aureus, P.aeruginosa e os anaerbios isolados estavam em culturas mistas com outros anaerbios ou com bactrias aerbias e o numero de anaerbios isolados estavam entre 2 e 4 por espcie demonstrando assim a etiologia polimicrobiana da OMC. Fez tambm um estudo comparativo entre as bactrias encontradas na orelha media e externa. Somente 50,0% das bactrias encontradas na orelha media estavam tambm presentes no conduto auditivo externo. Estes achados demonstram que as culturas coletadas do CAE antes da sua esterilizao pode ser mascarada. Isto particularmente importante em relao a P.aeruginosa, que mais encontrada no CAE do que na orelha media, embora este organismo seja habitante do CAE, ele tambm pode ser encontrado na orelha media, onde pode participar do processo inflamatrio.

Aspirados diretos da orelha media atravs da perfurao de membrana timpnica so bem mais seguros no estabelecimento da bacteriologia da OMC e elas podem assistir a seleo da prpria terapia antimicrobiana.

A taxa de bactria anaerbias nesta infeco sugestiva por sua alta taxa de achados na orelha media, comparado com seu achado no CAE, 38 espcies anaerbias foram encontradas na orelha media, pelo mesmo autor, comparados com somente 7 encontradas no CAE. Em nossos achados os germes anaerbios foram encontrados com mais frequncia na OMCC (8,3%).

No encontramos na literatura nenhum autor que tenha distribudo seus pacientes quanto durao da otorreia. Podemos notar que na OMCS a otorreia teve a maior frequncia de durao entre 0 e 5anos enquanto que na OMCC essa frequncia teve durao entre 6 e 10 anos ou mais.

Esse tempo de evoluo desde o seu primeiro sintoma varia muito para cada doente, e mesmo no encontrando um grupo no negligente de doentes que ultrapasse 10,0% com uma evoluo com mais de 30 anos de doena, 30,0% desses doentes, esperam entre 6 e 10 anos ou mais para procurar a primeira consulta, chegando a ter sintomas por muitos anos.


CONCLUSO

No encontramos mudanas notveis na bacteriologia da otite media crnica supurativa em comparao com a otite colesteatomatosa.

Na otite media crnica supurativa os achados mais frequentes foram os S. aureus, Pseudmonas sp. e fungos.

Na otite media crnica colesteatomatosa os achados mais frequentes foram os anaerbios e Corynebacterium sp.

A frequncia de aparecimento para S. epidermidis, Klebsiela sp. e Streptococcus sp foi igual no nosso estudo.


REFERENCIAS BIBLIOGRFICAS

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1. Doutorado - UNIFESP. Professor Titular.
2. Mdico Otorrinolaringologista.
3. Residente 2 Ano do Cema.
4. Professora Titular da UNISA. Professora Doutora em Otorrinolaringologia.
5. Professor de Otologia do Hospital Beneficncia Portuguesa. Professor Titular.

Instituio: Universidade Santo Amaro (UNISA). So Paulo / SP - Brasil.

Endereo para correspondncia: Jos Evandro A. P. Aquino - Alameda Ribeiro Preto 410 - Apto 1106 - Bela Vista / SP - Brasil - CEP: 01331-000 - Telefone: (+55 11) 8183-9729 - E-mail: clinicaorlsp@uol.com.br

Artigo recebido em 14 de Agosto de 2009. Artigo aceito em 31 de Agosto de 2009.
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