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Ano: 2009  Vol. 13   Num. 3  - Jul/Set Print:
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A Surdez de Beethoven, o Desafio de um Gnio
Beethoven's Deafness, the Defiance of a Genius
Author(s):
Ricardo Ferreira Bento1.
Palavras-chave:
surdez, historia, zumbido.
Resumo:

Introduo: Ludwig van Beethoven, um dos maiores compositores da histria, foi atormentado em toda sua vida por uma surdez progressiva sem diagnstico definitivo. Muitos autores publicaram estudos sobre as possibilidades etiolgicas da surdez do gnio da msica com diferentes explicaes sobre sua perda auditiva. Neste trabalho o autor discute as implicaes da surdez progressiva de Beethoven na criao de sua obra, bem como consideraes etiolgicas de sua doena. Teria tido Beethoven a mesma genialidade que mostrou em suas sinfonias caso ele no tivesse hipoacusia e zumbido? Qual a influncia que sua surdez teve sobre sua vida e obra? Teria Beethoven possibilidade de diagnstico mais preciso e principalmente tratamento nos nossos dias? Teramos ns o compositor fora de srie se ele apresentasse a surdez nos dias de hoje? Possivelmente, no teramos!

INTRODUO

Os funerais de Ludwig van Beethoven foram realizados no final do dia 29 de maro de 1827 na igreja da rua Alserstrasse em Viena, ustria.

Viena lhe ofereceu todas as honras que lhe havia negado em vida. As escolas foram fechadas e naquele dia os vienenses tiveram a certeza de terem perdido algo de verdadeiramente grande; todavia a imensa e emocionada participao no resgatou aos olhos daqueles que o amaram profundamente, a longa indiferena ao musico nos ltimos anos de sua triste existncia.

Seu devoto companheiro, Nikolaus Zmeskal, poucos dias depois escreveu a Therese von Brunsvik, mais que amiga do maestro: "A sua morte suscitou uma emoo da qual no se tem lembrana... De vinte a trinta mil pessoas acompanharam o funeral. Os compositores mais ilustres entre os quais Franz Schubert (que morreu aos 31 anos 1 ano depois de Beethoven e enterrado ao lado dele) estavam ao lado de sua urna funerria"

Beethoven recebeu a extrema uno na manh do dia 24 de maro, junto a ele estavam a mulher de seu irmo Johann e um jovem msico de Graz de nome Anselm Huettenbrenner vindo a ser dado como morto no dia 26 as
17:45. O jovem escultor Danhauser moldou sua mscara morturia na manh seguinte.

Concluiu-se assim a vida do Maestro, uma vida triste e solitria, no obstante os sucessos artsticos, atormentada nos ltimos 30 anos por uma sade precria e sobre tudo por uma surdez progressiva, angustiante, iniciada precocemente com zumbido e intruses auditivas persecutrias que o vo excluindo gradualmente e inevitavelmente da vida em sociedade.

Ele escreveu ao amigo e mdico Franz Gerhard Wegeler em 21 de junho de 1801, quando tinha 31 anos de idade:

"Voc tem tido notcia da minha situao? Os meus ouvidos nos ltimos 3 anos esto cada vez mais fracos, Frank o diretor do Hospital de Viena procurou retonificar o meu organismo com tnicos e meus ouvidos com leo de Mandorle. No houve nenhum efeito, a surdez ficou ainda pior. Depois um asno de um mdico me aconselhou banhos frios o que me levou a ter dores fortes. Outro mdico me aconselhou banhos rpidos no Danbio, todavia a surdez persiste, as orelhas continuam a rosnar e estalar dia e noite. Te confesso que estou vivendo uma vida bem miservel. H quase 2 anos me afastei de todas as atividades sociais, principalmente porque me impossvel dizer para as pessoas : Sou surdo !... Se minha profisso fosse outra, talvez poderia me adaptar minha doena, mas no meu caso a surdez representa um terrvel obstculo. E se os meus inimigos vierem a saber ? O que falaro por a? Para te dar uma ideia desta estranha surdez, no teatro eu tenho que me colocar pertssimo da orquestra para entender as palavras dos atores e a uma certa distncia no consigo ouvir os sons agudos dos instrumentos e do canto. Surpreendentemente, nas conversas com as pessoas muitos no notaram minha surdez, acreditam que eu sou distrado. Muitas vezes posso ouvir o som da voz mas no entendo as palavras, mas se algum grita eu no suporto ! O doutor Vering me disse que certamente meu ouvido melhorar, se isso no for possvel tenho momentos em que penso que sou a mais infeliz criatura de Deus.

No h dados nos quais se possa estabelecer exatamente o incio de sua surdez. Por alguns manuscritos de Beethoven parece que os sintomas se manifestaram quando tinha 26 anos (em 1796), ano no qual fez sua primeira turn em Berlin, Dresda, Praga, Lipsia, Nuremberg e Budapest. Esta impreciso se deve ao fato de que ele provavelmente no a percebeu ou no dava valor pois no foi sbita e por ser jovem e consciente de suas amplas capacidades artsticas e musicais, no esperava ficar surdo.

Apesar de racional em suas escritas sobre a ineficcia dos tratamentos mdicos sempre procurou esperana em novos tratamentos.

Em 16 de novembro de 1801 o compositor escreveu novamente ao seu amigo Wegeler: "quer saber como estou? E do que preciso? O doutor Vering* me coloca torniquetes nos braos. Este tratamento muito desagradvel, parte da dor, fico privado de usar o brao por 2 ou 3 dias. Devo confessar que o rudo nos ouvidos fica menor, principalmente no esquerdo onde comeou a doena, mas a audio fica na mesma. No gosto de trocar muito de mdico, mas me parece que Vering seja um pouco emprico... O que voc pensa do doutor Schmidt**? Parece ser um outro homem. Me contam maravilhas dele, O que voc acha? Um mdico me disse que viu em Berlin um menino surdo-mudo comear a ouvir e um homem surdo a sete anos se curar totalmente. Mas mesmo o Dr. Schmidt, no fez nada mais do que aconselhar-lo a vida no campo para proteger-se do nervosismo da cidade. Beethoven, seguiu seus conselhos e no fim de abril de 1802 se transferiu a Heiligenstadt, pequeno e tranquilo subrbio aos ps dos bosques de Viena. Aquilo o fez se concentrar por seis meses e atingir a plenitude de seus pensamentos musicais. E foi neste local que se encontrou anos aps sua morte um manuscrito dentro de uma velha escrivaninha seu testamento que entre tantas dizia: Para meus amigos e para aqueles que pensavam que eu era anti-social, distrado e ermito, me julgaram mal. Vocs no conheceram a causa secreta disso tudo. Eu era atormentado de um mal sem esperana, piorado devido a mdicos insensatos. Por anos fui enganado com esperanas de melhora e no final fui constrangido a aceitar a realidade de uma doena incurvel. Nascido com um temperamento ardente e ativo e sensvel s atraes da sociedade, tive que bem cedo me isolar e transcorrer a vida em solido. Se s vezes tentava me esquecer, meu ouvido me trazia de volta realidade. No podia nem pedir para as pessoas : Falem mais alto, gritem, porque sou surdo ! Como poderia admitir uma doena na qual o sentido que para mim mais do que para ningum deveria ser perfeito? Tive que viver sozinho e se estou com algum fico com uma enorme ansiedade do medo de correr o risco de se notar a minha condio. Provei desta humilhao quando um aluno que estava ao meu lado ouvia o som de uma flauta e eu no, ouvia o canto de um pastor e eu nada. Quase coloquei fim minha vida algumas vezes. Foi a msica que me entreteve. Me parecia impossvel abandonar este mundo antes de criar todas as peras que sentia imperiosa necessidade de compor. Esta foi minha vida, angustiosa. Quando lerem estas linhas sabero que aqueles que de mim falaram, cometeram grande injustia. Peam ao Dr. Schmidt para descrever minha doena para que o mundo possa se reconciliar comigo, ao menos aps minha morte (1).

Este documento testemunha perfeitamente o drama psicolgico do grande compositor e justifica plenamente sua involuo de carter. Todavia a surdez no interferiu de modo algum na sua veia criativa que terminou por expressar de modo sublime todo seu mundo interior, todos os sentimentos, todas as paixes, todas as emoes e cada percepo de sua alma e da natureza.

O carter do maestro, fechado, foi em parte reflexo de sua doena, mas evidente que sua formao teve tambm influencia de sua infncia e adolescncia (2).

Beethoven nasceu em 16 de dezembro de 1770 em Bonn, pai era um tenor medocre e com vcio da bebida, sua me Maria Madalena Keverich tinha 19 anos quando ele nasceu era filha de um cozinheiro e j viuva de um camareiro da corte. Sua infncia foi rgida e triste. Como manifestou precocemente o talento para msica, no tinha ainda 8 anos e seu pai, descapacitado de prever um gnio em formao e querendo desfrutar de lucros pessoais o apresentou como prodgio na Academia de Msica de Colnia, mentindo sua idade para seis anos. Com 11 anos fazia parte da orquestra de Bonn e aos 13 era organista. O pai sem dvida atrapalhou seu incio de carreira o obrigando a ganhar a vida. Com 22 anos deixou Bonn e foi para Vienna, capital da msica. Foi em Viena que conquistou rapidamente a notoriedade e sucesso como concertista e compositor. Em 1814 veio o apogeu da vida musical de Beethoven, quando no Congresso de Viena quando estava se fazendo a reestruturao da Europa, aps Napoleo, ele foi aclamado como o maior msico vivo. O Imperador Francisco I da ustria (irmo da Princesa Leopoldina do Brasil) colocou a sua disposio dois sales em seu palcio em Viena e lhe deu a cidadania honorria de Viena. Mas foi neste momento tambm que a o agravamento de sua surdez o fez abandonar a carreira de concertista.


TRATAMENTO DA SURDEZ

Em 1814 Beethoven encontrou o Dr. Weissenbach, que se interessou por seu caso. O mdico era compositor e poeta e tambm ele foi acometido de perda de audio. Os tratamentos que lhe foram impostos eram os mais disparatados, os mais bizarros e curiosos, obviamente empricos e inteis. Suadouros, torniquetes, lavagens, vaporizaes com fumaa, diurticos, temporadas no campo, instilao de vrias substncias nos condutos auditivos, dietas, banhos termais frios e quentes, estimulaes eltricas de corrente contnua. De pouca utilidade foram tambm as cornetas acsticas construdas pelo mecnico da corte Joahann Maelzel. Ele usava seus aparatos acsticos no ouvido esquerdo, pois o direito era completamente surdo. Ele sempre dizia que o som no entrava somente pelo canal e sim por todo o crnio. Ele usava tambm uma baqueta de madeira entre os dentes e apoiava sobre a caixa de ressonncia do piano para sentir as vibraes.

Usou tambm pedaos de algodo nos ouvidos, pois estes modificando a ressonncia do sistema tubular do conduto auditivo externo garantiam sensaes favorveis filtrando algumas frequncias e aliviando um pouco o zumbido.

J entre 1821 e 26 sua sade piorou com outras manifestaes como diarreia epistaxe e outros sinais evidentes de manifestaes hepticas. Se tornou um paciente indisciplinado bebendo muito vinho e caf forte. Teve uma pneumonia, piorou seu estado geral com ascite com vrias punes para aliviar e da para frente no mais se recuperou.

Historiadores, bigrafos, mdicos, estudiosos sempre tentaram chegar a concluses definitivas das causas que levaram surdez de Beethoven e os mecanismos etiopatolgicos de sua caracterstica evolutiva para verificar as possibilidades da interferncia da doena no seu carter, na sua vida e na sua produo musical.


DISCUSSO

Muitas foram as hipteses e interpretaes patognicas propostas, mas a verdadeira natureza da doena e das condies patolgicas que determinaram a surdez so ainda desconhecidas. A referncia mais importante que temos para justificar sua surdez acompanhada de zumbido a autpsia realizada no dia seguinte de sua morte pelo Prof. Johann Wagner e seu discpulo Karl Rokitansi (que depois foi um dos maiores autores de seu tempo). Na parte da descrio das orelhas foi assim descrita (resumidamente):

- "A cartilagem do pavilho grande e irregular. O meato acstico externo prximo ao tmpano mostra descamaes epiteliais. A trompa de Eustquio tem mucosa espessa e a parte ssea estreita. As clulas mastoideas e o parte petrosa do osso temporal principalmente prximo cclea est hipermico. Os nervos acsticos esto atrficos e desmielinizados. As artrias auditivas esto dilatadas e esclerticas".

A presena de esclerose nos vasos auditivos pode levar hiptese de insuficincia vascular da orelha interna. Poderamos saber com preciso se fosse possvel se encontrar os ossos temporais conservados em formalina que Wagner guardou para estudos posteriores. Em 1863, se abriu a sepultura de Beethoven, mas Adam Politzer encontrou somente alguns fragmentos do seu crnio. Os dados de autpsia da orelha mdia s puderam fornecer informaes que excluem patologia inflamatria crnica.

A maioria dos estudiosos a partir de BARATOUX E NATTIER (1905) sustentam a tese de otospongiose progressiva da cpsula labirntica e anquilose do estribo. O que equivale a uma otosclerose clssica. Em um amplo estudo publicado em 1921, chamado a surdez de Beethoven, Guglielmo Bilancioni afirma: " Na sua orelha mdia poderia ter uma leso todavia obscura em sua patognese, a esclerose auricular", otosclerose, que determina uma diminuio de audio progressiva, sem causa avalivel e sem sintomas relevantes, fora um altssimo grau de surdez e zumbido a qual eminentemente familiar e hereditria.

SCHARTER, em outra publicao recorda que existe uma forma particular de otosclerose dita coclear e descrita em 1912 por MANASSE e mais tarde por CARHART em 1963.

Em 1970, STEVENS E HEMENWAY, publicaram que a otosclerose explica bem a perda progressiva e o zumbido tipo chiado comentado por Beethoven, todavia no mbito do diagnstico diferencial deve-se considerar a hiptese de que o ouvido interno pudesse ter sido acometido por uma neurite txica, infecciosa ou lutica.

SALA (1984), MOTTA E GRISSANTI em 2004 publicaram a favor de uma surdez do tipo mista devido a um incio precoce, bilateral mais ou menos simtrica e de evoluo diferente de cada lado, mas algumas descries anamnticas do prprio Beethoven nas cartas de 1801 e 1802 puderam colocar a hiptese de otosclerose em dvida. No h nenhuma descrio de surdez na famlia de Beethoven. Ele no assinala sintomas de paracusia de Willis nem sintomas do fenmeno de Weber. O prprio maestro cita que no incio a perda foi nas frequncias agudas, o que menos comum na otosclerose. Apesar de o zumbido ser sintoma comum na otosclerose, os portadores desta doena no referem a incmodo aos sons de alta intensidade, como ele se refere, sendo isso um clssico fenmeno de recrutamento. Outros autores referiram at possibilidade de uma doena autoimune, obviamente muito difcil de se confirmar naquela poca.

Nos dias de hoje Beethoven provavelmente teria uma qualidade sonora e consequentemente de vida melhor, principalmente pelas possibilidades criadas pela engenharia acstica e mais recentemente de estimulao eltrica (implantes) e de informtica. Mesmo assim muitos casos de surdez sensrio neural apresentam recrutamento e alteraes na discriminao auditiva que torna difcil e as vezes impossvel o uso de aparelhos de amplificao sonora individual. No que diz respeito ao acometimento do estribo por uma otosclerose a possibilidade de um procedimento cirrgico, porm pouca coisa evoluiu no tratamento mdico da otospongiose da cpsula tica, na determinao precisa da etiologia das doenas do ouvido inter-no, em que pese atualmente os sofisticados exames de imagem e laboratoriais e de audiologia que temos em mo. Muitas e muitas vezes ns especialistas no conseguimos determinar a causa de uma surdez sensrio-neural ou de um zumbido e continuamos utilizando de tratamentos empricos, certamente menos agressivos do que os usados em Beethoven, porm ainda assim empricos! Ser que realmente poderamos ter feito algo pela melhora de sua audio?

Muita coisa ainda tem que ser estudada e evoluda no conhecimento de nossa rea para podermos ajudar mais e mais nossos pacientes e continuar sendo um desafio constante aqueles jovens que iniciam na especialidade. Este setor da otorrinolaringologia ser um dos que mais se desenvolver nos prximos anos.

Neste caso devemos pensar, extrapolando para nossos dias, o que ns poderamos ter feito a Beethoven como nosso paciente.

Na poca em que ele viveu a privao auditiva era muito mais importante do que a privao sensorial. HELLEN KELLER em seu livro "O Romance da Vida" publicado em 1900 escreve "Os problemas da surdez so mais profundos e complexos, mais importantes dos que os da cegueira. A surdez um infortnio muito maior. Representa a perda do estmulo mais vital, o som da voz, que veicula a linguagem, agita os pensamentos e nos mantm na companhia intelectual do homem." Hellen Keller teve a infelicidade de ter uma sndrome de USHER (surdez e cegueira progressiva) e se tornou privada destes sentidos ao longo da vida. Ela mais do que ningum poderia testemunhar e comparar o fato de perder estes estmulos sensoriais. Foi somente a partir do descobrimento das artes grficas e a impresso e depois ao longo dos sculos o barateamento dos livros e publicaes e a possibilidade de quase todas as pessoas terem acesso escrita e imagens. Depois da criao da fotografia, da televiso, do computador e de todos os estmulos visuais e principalmente a descoberta e universalizao da luz eltrica (a fraca luz que existia a noite dificultava a viso noite) foi que a viso passou a ter a uma importncia grande na civilizao. Na poca de Beethoven o estmulo auditivo era essencial, sem ele as alteraes psicosomticas e as depresses eram muito maiores no indivduo surdo, principalmente um compositor!

Por outro lado, a terrvel privao para um msico de no ouvir mais os sons da vida e do mundo que o rodeava no o impediu de traduzir em imagens meldicas e figuras musicais tanto as delicadas sensaes como as poderosas interpretaes encontradas em sua obra. E sua concentrao era muito mais facial do que em uma pessoa ouvinte normal.

Assim pensando, de outro modo podemos deduzir de modo paradoxal que sua inata genialidade para a msica pode ter sido exacerbada pela surdez favorecendo uma purificao da melodia encontrada em suas sinfonias e no ter sido condicionada pela moda da poca e pelo rgido sistema e maneirismo de seu tempo. Somente a sinfonia numero 1 anterior a 1796, que foi a poca de evoluo de sua surdez, portanto quase toda sua produo musical foi concebida durante seu perodo de surdez importante.

Sua perda auditiva fez com que ele abandonasse sua carreira de concertista e diretor musical, mas no influiu em sua obra sendo inclusive sua maior criao a nona sinfonia criada entre 1822 e 24, j na sua fase completamente surda.

Em resumo, indiretamente e quase paradoxalmente se pode afirmar que o isolamento e fuga dos confrontos com o mundo exterior tenha de algum modo favorecido seu talento e sua genialidade musical. Enquanto o artista vivia internamente o seu mundo ideal feito de imagens sonoras o levando a um nvel de puro pensamento que em se escutando suas obras se pode presumir.

Em concluso, tudo leva a crer que graas a esta inevitvel solido, Beethoven alcanou gradualmente uma linguagem musical cheia de emoes, abstrada de seu isolamento que provavelmente nunca teria conseguido em condies fsicas normais. Sua surdez acabou sendo uma das principais colaboradoras de sua genial obra. Sem ela teria sido Beethoven o grande compositor de todas as pocas?


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1.* Verning foi diretor do Instituto de Sade de Viena de 1797 a 1809, mdico conselheiro do Imperador Jos II.
** Foi Professor de Anatomia, conselheiro real, mdico renomado particularmente em oftalmologia. Publicou vrios artigos mdicos. Beethoven confiou muito nele, seguiu seus conselhos de 1801 at sua morte. No seu testamento, Beethoven convidou a Schmidt a descrever sua doena. Beethoven dedicou a ele o Trio para piano, violino e violoncelo em b-maior op. 38.

2. Ascherson, N. Beethoven's deafness and saga of the stapes. Trans Hunterian Soc. 1965-1966; 24:7-34.

3. Baratoux G, Natier M. A propos de la surdit de Beethoven. Cron. Med. 1905, 12:492-496.

4. Keller H. O Romance da Vida 1900.
5. Liston SL. Beethoven's Deafness. Laryngoscope. 1989, 99:1301-1304.
6. McCabe,BF. Beethoven Deafness. Ann. Otol. Rhinol. Laringol. 1958, 67:192-206.
7. Mallardi V. Beethoven, la sordit di un genio tra vita e mito - Acta Oto Rhinolayngol Ital.1999, 19:166-177.
8. Felisati D, Sperati G. Pazienti Celebri- Malati ORL nella storia e nell'arte. Societ Italiana de Otorrinolaringologia e Chirurgia Cervico-Facciale. 2008, 127-147.

9. Stevens HM, Hemenway WG. Beethoven's Deafness JAMA, 1970, 213: 434-437.








1. Professor Titular da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP. Presidente da Associao Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Crvico Facial.

Instituio: Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.
So Paulo / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Ricardo Ferreira Bento - Rua Major Paladino, 464 - So Paulo - SP - Brasil - CEP: 05307-000 - E-mail: rbento@gmail.com Arigo recebido em 27 de Agosto de 2008.

Artigo aceito em 10 de Agosto de 2009.
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