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Ano: 2009  Vol. 13   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Avaliao do Risco de Sndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) nos Pacientes Internados em Spa de Emagrecimento
Evaluation of the Risk of Sleep Obstructive Apnea Syndrome (SOAS) in Patients Admitted in a Slimming Spa
Author(s):
Fabio Tadeu Moura Lorenzetti1, Azis Arruda Chagury2.
Palavras-chave:
apneia do sono tipo obstrutiva, avaliao, questionrios.
Resumo:

Introduo: A associao entre a Sndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) e a obesidade tem sido muito estudada. A SAOS caracterizada pela obstruo repetitiva da via area superior durante o sono, muitas vezes acompanhada de roncos, dessaturao de oxignio, fragmentao do sono e sonolncia excessiva diurna (SED). Tipo do Estudo: Transversal Prospectivo. Objetivo: Analisar os resultados do Questionrio de Berlim (QB) e da Escala de Sonolncia de Epworth(ESE) preenchidos pelos pacientes internados no Spa Med Campus Sorocaba, procurando encontrar quais deles possuem sonolncia diurna e alto risco para SAOS. Mtodo: Os pacientes responderam voluntariamente aos Questionrios de Berlim e ESE. O estudo foi do tipo transversal, com anlise dos questionrios preenchidos durante o ano de 2008. Resultados: Obtivemos um total de 276 pacientes, com um total de 183 mulheres e 93 homens. A prevalncia de obesos foi de 111 pacientes (40,2%). No grupo QB positivo, obtivemos 84 pacientes no total; sendo 34 homens, quanto ao grupo ESE positivo, encontramos no total 67 pacientes, sendo 24 homens. Concluso: A ESE e o QB tm servido atualmente de triagem para os distrbios do sono e pode servir como possvel indicador para a polissonografia. Os resultados dos questionrios nos mostram a alta prevalncia de indivduos internados em SPA com risco de apresentar SAOS, especialmente os obesos.

INTRODUO

O ronco tem sido uma queixa frequente nos consultrios mdicos, sendo que o incmodo causado pelo barulho excessivo pode gerar conflitos matrimoniais e prejuzo nas atividades sociais dos pacientes. Em geral, as queixas de sonolncia diurna, fadiga, alteraes comportamentais e cognitivas so pouco valorizadas pelo prprio paciente que as atribui a desgastes fsicos, emocionais ou envelhecimento (1). No entanto, uma avaliao adequada pode diagnosticar que o ronco est associado a um distrbio do sono mais grave: a sndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS).

A SAOS uma condio caracterizada pela obstruo repetitiva da via area superior, por perodo igual ou maior que 10 segundos, resultando, frequentemente, na dessaturao de oxignio e fragmentao do sono. A manifestao clssica a sonolncia diurna, mas outros sintomas como ronco, sono agitado, baixa concentrao e fadiga so frequentemente relatados (2).

Esta sndrome considerada um problema de sade pblica por causar aumento de acidentes de trnsito e trabalho, bem como da morbi-mortalidade cardiovascular. Nos Estados Unidos, sua prevalncia na populao geral em torno de 9% em homens e 4% em mulheres, entre 30-60 anos, sendo ainda maior na populao de obesos (IMC>30). Porm, esta prevalncia pode estar subestimada, pois alguns autores acreditam que em torno de 95% dos pacientes com distrbio do sono no so diagnosticados (3).

Atualmente, a Polissonografia (PSG) assistida o padro ouro para o diagnstico da SAOS. Nesse exame so fornecidos dados fidedignos da gravidade da doena como, registros de eletroencefalograma, eletrocardiograma, eletromiografia, movimentos corporais, estgio e continuidade do sono, oximetria, fluxo areo e esforo respiratrio. No entanto, um exame oneroso, de difcil acesso e at desconfortvel para alguns pacientes (4). Desse modo, foram criados questionrios com a finalidade de auxiliar no diagnstico de pacientes com alto risco de apresentar a SAOS e de avaliar a sonolncia destes indivduos. Dentre alguns questionrios utilizados para tais fins, podemos citar o Questionrio de Berlim (5,6) (QB) e a Escala de Sonolncia de Epworth (7) (ESE).

Vrios estudos vm evidenciando complicaes associadas aos distrbios respiratrios do sono, tais como: hipertenso arterial sistmica, hipertenso pulmonar, sndrome metablica, aumento de exacerbaes na asma, infarto agudo do miocrdio, arritmias cardacas, acidente vascular cerebral, dentre outras (8,9,10). Tais complicaes salientam a importncia do diagnstico e tratamento precoce da SAOS.

O objetivo deste estudo analisar os resultados do Questionrio de Berlim e da Escala de Sonolncia de Epworth preenchidos pelos pacientes internados no Spa Med Campus Sorocaba, procurando assim encontrar os pacientes que possuem alto risco para sndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) e sonolncia excessiva diurna (SED).


MTODO

Estudo do tipo transversal, realizado no Spa Med Campus em Sorocaba, no estado de So Paulo, durante o ano de 2008. Foram aplicados questionrios para todos os pacientes que passaram por exame mdico inicial no dia de admisso. Os critrios de incluso foram: adultos, ambos os sexos, internados no Spa. Foram excludos os casos de questionrios incompletos. Todos os pacientes foram submetidos de exame fsico geral e otorrinolaringolgico completo.

Os pacientes responderam voluntariamente os Questionrios de Berlim, e as Escalas de Epworth na admisso, havendo interferncia do mdico somente em casos de dvidas. Foi calculado o ndice de Massa Corprea (IMC) de acordo com o peso (Kg) e altura (m) dos pacientes na ocasio.

No Questionrio de Berlim o paciente assinala apenas 1 resposta por questo, e a interpretao final das respostas sugere se ele apresenta alto risco para SAOS (positivo) ou no (negativo).

J na escala de sonolncia de Epworth, o paciente d uma nota de 0 a 3 para a chance de adormecer em cada uma das 8 situaes (Quadro 1). As soma final pode variar entre 0 e 24 pontos, sendo que os pacientes que obtiverem pontuao de 10 ou mais, foram designados positivos, isto , possuem sonolncia excessiva diurna. Os indivduos com resultado final inferior a 10 foram denominados negativos.


RESULTADOS

Obtivemos um total de 276 pacientes, com idades entre 18-86 anos (Mdia= 45 anos), com um total de 183 mulheres (66,3%) e 93 homens (33,7%). A prevalncia de Obesos (IMC>30) foi de 111 pacientes (40,2%), sendo 66 mulheres (59,4%) e 45 homens (40,6%).

Quanto aos resultados dos questionrios, no grupo QB positivo obtivemos 84 pacientes, sendo 34 homens e 50 mulheres. Quanto ESE, considerando como positivo os pacientes com pontuao de 10 ou mais, encontramos no total 67 pacientes, sendo 24 homens e 43 mulheres, conforme a Tabela 1. Desse modo, a associao de Epworth e Berlim positivos, ocorreu em 14 homens e 17 mulheres.

Alm disso, obtivemos tambm a relao entre Obesos e No Obesos, de ambos os sexos, agrupados de acordo com os resultados dos QB e ESE, conforme as Tabelas 2 e 3.

Com relao prevalncia de homens obesos, que possuem alta chance de apresentar SAOS, evidencia-se na Tabela 4.

O coeficiente de concordncia entre os questionrios (QB e ESE) foi Kw=0,19, Teste de McNemar com x2 calc = 2,87. J entre os obesos, o x2=20,02 (P<0,001), demonstrando significncia estatstica com o uso dos questionrios.

Desse modo, comparando-se a proporo de positivos (QB e ESE) de obesos e no obesos (Tabela 5), evidencia-se um x2 =27,679 ( p<0,0005) com alta significncia estatstica.
















DISCUSSO

Nosso estudo apresentou a mesma mdia de idade encontrada na populao em geral da literatura, entretanto foi encontrada uma alta prevalncia de obesos (40,2%), sendo a maior parte do sexo feminino (59,4%).

Desses pacientes, os candidatos mais cotados a realizarem a Polissonografia para confirmao do diagnostico de SAOS seriam os que apresentam QB e ESE positivos (+), totalizando 31 pacientes, pois so os com alto risco para apneia obstrutiva do sono. Desses indivduos, 26 (83,8%) so obesos, sendo 14 do sexo masculino e 12 do sexo feminino, demonstrando a alta correlao entre a obesidade e a SAOS. Dos pacientes masculinos e obesos, todos (100%) apresentaram alto risco para SAOS, j entre as do sexo feminino, obesas, 70% apresentaram ambos os questionrios positivos. Isto pode ser justificado pelo reduzido nmero de homens, em relao s mulheres, na amostra obtida.

Da mesma forma, segundo a literatura mundial, 9% dos homens e 4% das mulheres da populao geral apresentam SAOS. De acordo com nossos dados, os homens parecem ter mais chance de apresentar SAOS, pois foi encontrado que dos 93 homens presentes no estudo, 15% deles apresentam alta chance de ter SAOS, necessitando realizar o exame de Polissonografia para confirmar o diagnstico; ao passo que das 183 mulheres, apenas 7,6% delas precisariam realiz-lo; desse modo, embora o nmero total de mulheres seja maior, a porcentagem final continua sendo menor, assim como da populao geral.

Numa ordem de preferncia, acreditamos que os pacientes com QB (+) e ESE (-) seriam fortes candidatos para PSG. Em seguida viriam os pacientes com Berlim e Epworth (-), que apresentariam baixo risco de apresentar SAOS.

Um dos grandes problemas no diagnstico da SAOS que um dos principais sintomas, a hipersonolncia, subjetivo. Alm disso, existem dificuldades no diagnstico clnico, tais como: 1) Os roncos e sonolncia podem ser minimizados ou negados pelo paciente; 2) Roncos normalmente so percebidos se houver algum para escut-los; 3) Privao do sono esta se tornando comum em nossa sociedade; 4) Sonolncia progressiva pode fazer com que o paciente se acostume com um estado de alerta anormal 5) Pode haver dificuldade em diferenciar a sonolncia com a fadiga e/ou depresso; 6) A obesidade em si esta relacionada com a sonolncia diurna excessiva, mesmo em indivduos sem o diagnstico de SAOS.

Uma das limitaes da avaliao com questionrios que depende da sinceridade dos pacientes nas respostas e subjetividade da auto-avaliao, podendo apresentar incongruncia entre as escalas e a Polissonografia. Entretanto, esses questionrios ainda so ferramentas teis para selecionar os melhores candidatos nos exames de Polissonografia, j que este e um exame oneroso, trabalhoso, e nem todos os pacientes possuem condies de realiz-lo.


CONCLUSO

O progressivo aumento da prevalncia de obesidade na populao contribui para uma maior prevalncia das comorbidades associadas, como a SAOS, que necessita ser diagnosticada e tratada precocemente, para melhorar a qualidade de vida destes pacientes.

A ESE e o QB tm servido atualmente de triagem para distrbios do sono, especialmente a SAOS, e como um indicador para a polissonografia. Os resultados dos nossos questionrios evidenciam a alta prevalncia de indivduos internados em SPA de emagrecimento com chance de apresentar SAOS, sobretudo o grupo dos obesos. A prxima etapa do nosso estudo ser correlacionar os dados obtidos com os resultados polissonogrficos.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Bittencourt LR, Togeiro SMGP, Bagnato MC. Diagnstico da Sndrome da apnia e hipopnia obstrutiva do sono. In: Stamm A. ed. Rinologia. So Paulo: Komedi; 2002: 103-11.

2. Flemons WW, Buysse D et al. The Report of American Academy of Sleep Medicine Task Force. Sleep Related Breathing Disorders in Adults: Recommendations for Syndrome Definition and Measurement Techniques in Clinical Research. Sleep. 1999, 22:667-89.

3. Mercado JC. Identifying Obstructive Sleep Apnea: A Highly Prevalent and Underdiagnosed Disease. Physician Assistant. 2003, 27(2):39-45.

4. Atualizao Otorrinolaringolgica em Cirurgia de Ronco e Apnia. Rev Bras Otorrinolaringol. 2002, 68(5) supl.3.

5. Netzer NC, Stoohs RA, Netzer CM, Clark K, Strohl KP. Using the Berlin Questionnaire to identify patients at risk for the sleep apnea syndrome. Ann Intern Med. 1999 5, 131(7):485-91.

6. Chung F, Yegneswaran B, Liao P, Chung SA, Vairavanathan S, Islam S, Khajehdehi A, Shapiro CM. Validation of the Berlin questionnaire and American Society of Anesthesiologists checklist as screening tools for obstructive sleep apnea in surgical patients. Anesthesiology. 2008, 108(5):822-30.

7. Murray JW. A New Method for Measuring Daytime Sleepiness: The Epworth Sleepiness Scale. Sleep. 1991, 14:540-5.

8. Dart RA, Gregoire JR, Gutterman DD, Woolf SH. The Association of Hipertension and Secondary Cardiovascular Disease With Sleep-Disorder Breathing. Chest. 2003, 123(1):244-60.

9. Alkhalil M, Schulman E, Getsy J. Obstructive sleep apnea syndrome and asthma: what are the links? J Clin Sleep Med. 2009, 5(1):71-8.

10. Wenner JB, Cheema R, Ayas NT. Clinical Manifestations and Consequences of Obstructive Sleep Apnea. J Cardiopulm Rehabil Prev. 2009, 29(2):76-83.









1. Ps-Graduando (Nvel Doutorado) pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (FMUSP). Coordenador do Hospital de Otorrinolaringologia de Sorocaba/BOS. Responsvel pelo Setor de Otorrinolaringologia e Medicina do Sono no Spa Med Sorocaba Campus.
2. Graduando do 6 Ano de Medicina na FCMS PUC-SP Campus Sorocaba. Acadmico.

Instituio: Hospital de Otorrinolaringologia de Sorocaba/BOS e FCMS-PUC SP Campus Sorocaba. Sorocaba / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Azis Arruda Chagury - Rua Martinica, 874 - Jd. Amrica - Sorocaba / SP - Brasil - CEP 18046-805 - Telefone: (+55 15) 8131-7500 - E-mail: azischagury@gmail.com

Artigo recebido em 17 de Outubro de 2009. Artigo aprovado em 30 de Novembro de 2009.
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