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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.7162/S1809-48722010000200005
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Ateno Auditiva: Perodo do Dia e Tipo de Escola
Auditory Attention: Time of Day and Type of School
Author(s):
Mirela Machado Picolini1, Damiane Stivanin2, Ariane Risatto Sampaio3, Karina Krahembuhl Salvador1, Jos Roberto Pereira Lauris4, Mariza Ribeiro Feniman5.
Palavras-chave:
ateno, audio, criana, avaliao.
Resumo:

Introduo: A ateno auditiva sustentada fundamental para o desenvolvimento de algumas habilidades comunicativas e aprendizagem. Objetivo: Verificar o efeito do perodo do dia e o tipo de escola frequentada pela criana, em sua habilidade de ateno auditiva sustentada. Mtodo: Foi realizado um estudo prospectivo com 50 crianas voluntrias de ambos os gneros, na faixa etria de 7 anos, com audio normal, sem queixas escolares e/ou comportamentais e sem queixas de dificuldades de ateno. Estes participantes foram submetidos ao Teste da Habilidade de Ateno Auditiva Sustentada (THAAS). O desempenho foi avaliado pela pontuao total e pelo decrscimo de vigilncia. Para a anlise estatstica foi utilizada a anlise de varincia (ANOVA), com nvel de significncia de 5% (p<0,05). Resultados: O resultado normativo estabelecido pelo teste para a faixa etria avaliada demonstrou haver diferena estatisticamente significante para os erros de desateno (p=0,041; p=0,027) e pontuao total de erros (p=0,033; p=0,024), nos diferentes perodos de avaliao e tipos de escola, respectivamente. Concluso: As crianas avaliadas no perodo da tarde e as crianas que estudavam em escolas pblicas apresentaram pior desempenho na habilidade de ateno auditiva sustentada.

INTRODUO

A ateno um processo multimodal, essencial para o desenvolvimento e aprendizado(1) e para a aquisio da linguagem, no s nos aspectos relativos ao domnio das estruturas lingusticas, como tambm no desenvolvimento das habilidades comunicativas que permitam criana participar de uma conversa, falar sobre um assunto ou contar uma histria(2).

A literatura tem mostrado que a ateno sustentada e a vigilncia so alguns dos processos que caracterizam as habilidades de ateno. Mediada pelo crtex pr-frontal a ateno sustentada voluntria e controlada pelo sujeito (3,4). definida como a habilidade de manter um nvel eficiente de resposta a um alvo durante um determinado perodo de tempo (1,5,6), a organizao de respostas apropriadas aos sinais e a inibio de respostas inadequadas. A falha em detectar o estmulo alvo (erros de omisso) reflete uma falta de ateno (7-9) assim como a presena de respostas a um estmulo no-alvo, reflete a falta de inibio (9). Crianas que tem problema em sustentar a ateno, frequentemente, tm dificuldade em inibir respostas para estmulos inadequados (10,11).

Pesquisas tm mostrado que o efeito da idade so maiores que o gnero na ateno sustentada (12-14). No entanto, a literatura especfica demonstra que quando a habilidade de sustentar a ateno tem sido estudada, o perodo do dia um fator que tem sido muito pouco explorado. Nesse sentido, alguns autores relataram dados da ateno sustentada enfatizando as horas escolares (11,12). Outro estudo (15) verificou que o perodo do dia pode ser uma possvel fonte de variao na habilidade da criana para sustentar a ateno.

Outras variveis, tais como o nvel socioeconmico e o tipo de escola que a criana frequenta, seja ela da rede pblica ou privada de ensino, podem influenciar diretamente nas habilidades de ateno, pois crianas com baixo nvel socioeconmico e que estudam em escolas pblicas apresentam pior desempenho nas tarefas que requerem estas habilidades (16,17).

Para os profissionais da rea da sade e da educao essencial entender os efeitos dessas variveis nas habilidades de ateno, uma vez que a ateno sustentada e a vigilncia, quando alteradas, causam dificuldade de concentrao na tarefa com prejuzo do desenvolvimento e da aprendizagem (2,18-22). Diante deste contexto, os objetivos deste estudo foram verificar o efeito do perodo do dia e do tipo de escola frequentada pela criana, em sua habilidade de ateno auditiva sustentada.


MTODO

O estudo prospectivo foi desenvolvido aps aprovao pelo Comit de tica em Pesquisa em Seres Humanos sob parecer no. 011/2007, no ano de 2007.

Para compor a casustica, foi realizado contato aleatrio com escolas da rede pblica e particular da cidade de Bauru (SP), e com os funcionrios e profissionais da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), a fim de convidar seus filhos pertencentes faixa etria de 7 anos a 7 anos e 11 meses a participarem deste estudo.

Aps a leitura e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido os pais e/ou responsveis pela criana foram submetidos a uma entrevista dirigida, visando obter dados pessoais da criana, informaes sobre a sade auditiva, no que se refere presena de histria de otites, queixas auditivas e de desateno, bem como aspectos comportamentais e acadmicos.

Participaram desde estudo 50 crianas voluntrias, de ambos os gneros, sendo 23 do gnero masculino e 27 do gnero feminino, na faixa etria de 7 anos a 7 anos e 11 meses, matriculados na 1 srie do ensino fundamental. Como critrios de incluso, as crianas no deveriam apresentar queixas escolares e/ou comportamentais, histrico ou dificuldades de ateno, problemas de compreenso, assim como queixas e/ou alteraes auditivas.

Para excluir presena de qualquer alterao audiolgica e alteraes da orelha mdia na situao de avaliao, anteriormente foi realizada inspeo visual do conduto auditivo externo, com um otoscpio de marca Missouri, modelo TK007, entrevista especfica, audiometria tonal liminar e timpanometria.

A audiometria tonal liminar foi realizada em cabina acstica, utilizando-se o audimetro modelo Siemens SD 50 com fone TDH-39. Foi realizada a pesquisa dos limiares areos auditivos nas frequncias entre 250, 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 6000 e 8000 Hz. Os resultados das audiometrias foram analisados de acordo com a classificao proposta por NORTHERN e DOWNS (1991) (23), em que crianas que possuem limiares de audibilidade melhores ou iguais a 15 dBNA, apresentam audio normal. A imitanciometria foi realizada por meio do aparelho GSI Tympstar. Foram inclusos na amostra os sujeitos com curva timpanomtrica tipo A, de acordo com a classificao proposta por JERGER (1970) (24).

Os participantes foram divididos em dois grupos (Grupo M e Grupo T). Cada grupo foi composto por 25 crianas, levando-se em considerao o perodo do dia em que foi realizada a avaliao proposta. Assim, o Grupo M, foi constitudo por crianas que realizaram a avaliao no perodo da manh, entre 09h00min e 11h30min, e o Grupo T por crianas que realizaram a avaliao no perodo da tarde, entre 15h00min e 17h30min.

A Tabela 1 apresenta a distribuio das crianas amostradas.

Todo o grupo amostrado foi submetido ao Teste da Habilidade de Ateno Auditiva Sustentada - THAAS (13,14). O THAAS utilizado para avaliar a ateno auditiva sustentada, no qual a criana deve responder para apenas um estmulo auditivo especfico (palavra alvo), mantendo a ateno e concentrao na tarefa por um perodo de tempo. Consiste na apresentao binaural e ditica por meio de fones auriculares, de uma lista de 100 palavras monossilbicas (contendo 20 ocorrncias da palavra alvo "no"). Esta lista (gravada em CD padronizado) apresentada seis vezes sem interrupo. Ao ser ouvida a palavra alvo, a criana deveria levantar a mo. O teste foi realizado em cabina acstica, com auxlio de um CD player acoplado a um audimetro de dois canais (Siemens SD 50), a uma intensidade de 50 dBNS, considerando a mdia dos limiares areos auditivos das frequncias de 500, 1000 e 2000Hz, para cada orelha. O teste tem uma durao mdia de 10 minutos. Quanto ao resultado normativo estabelecido pelo THAAS, espera-se que uma criana de 7 anos apresente um escore de 24,7 (DP=11,0) para a pontuao total e um decrscimo de vigilncia < 8,0 (14).

Foi realizado tratamento estatstico utilizando anlise de varincia (ANOVA) a trs critrios com modelo fixo. Foi adotado 5% (p<0,05) o valor para rejeio da hiptese de nulidade (Ho).


RESULTADOS

Com base nos resultados obtidos no THAAS, elaborou-se a Tabela 2 mostrando a distribuio dos valores mdios e desvios-padro para as crianas amostradas, nos diferentes perodos de avaliao.

A Tabela 3 mostra os valores mdios e desvios-padro para os resultados obtidos na aplicao do THAAS, nos diferentes tipos de escolas (pblica e privada) frequentadas pelas crianas.

Com base nos valores descritos na Tabela 4, a anlise de varincia (ANOVA), com nvel de significncia de 5% (p<0,05) mostrou haver diferena estatisticamente significante para os erros de desateno (p=0,041 e p=0,027) e pontuao total de erros (p=0,033 e p=0,024) nos diferentes perodos de avaliao e tipos de escola, respectivamente. Diante destas evidncias, nota-se que as crianas avaliadas no perodo da tarde e as crianas que estudavam em escolas pblicas, apresentaram pior desempenho na habilidade de ateno auditiva sustentada.














DISCUSSO

A habilidade de ateno auditiva um processo cognitivo que permite o ouvinte focar seletivamente no estmulo de interesse, enquanto ignora um estmulo irrelevante competindo, assim o ouvinte conscientemente seleciona a qual estmulo ele prestar ateno e processar sua resposta (1,5).

A ateno auditiva de escolares pode ser influenciada por alteraes auditivas, causando prejuzo nas habilidades de ateno e compreenso, e consequentemente, comprometendo o desempenho e aprendizado escolar destas crianas. Desta forma, tornou-se imprescindvel a realizao da avaliao audiolgica convencional e imitanciometria previamente aplicao do THAAS (19).

Ao confrontar os resultados do presente estudo, descritos na Tabela 4, com a literatura especfica consultada (13,14,20,25,26), a diferena no estatisticamente significativa verificada na comparao entre os gneros encontra-se concordante. No entanto, estes dados contrariam outro estudo (27), no qual o gnero demonstrou ser uma varivel importante nas habilidades de ateno.

Em relao ao tipo de escola (pblica ou privada), as crianas que frequentam escola pblica apresentaram um valor de escore aumentado para a pontuao total de erros. A diferena estatisticamente significante encontrada na comparao entre escola pblica e privada est evidente tambm em outros estudos (16,17), pois foi verificado um desempenho inferior das habilidades de ateno em crianas que estudavam em escolas pblicas, visto que estas vivem em ambientes de comunicao menos estimulantes.

Conforme descrito nas Tabelas 2 e 3, possvel observar um maior nmero de erros de desateno quando comparados aos de impulsividade, tanto no perodo do dia, quanto no tipo de escola. Esses dados corroboram com resultados encontrados em outros estudos (20,25). A observao deste dado importante para o planejamento da interveno teraputica, j que a estratgia compensatria utilizada na interveno deve ser dependente do tipo de erro apresentado pela criana.

A habilidade de ateno, de acordo com os dados deste estudo, parece ser influenciada pelo perodo do dia, pois as crianas avaliadas no perodo da tarde (Grupo T) apresentaram escore acima do resultado esperado para a pontuao total de erros. Quanto ao decrscimo de vigilncia, a pontuao obtida est dentro dos parmetros de normalidade, para ambos os grupos (20). Desta forma, estas crianas apresentaram desempenho inferior, mostrando-se mais desatentas quando comparadas aquelas avaliadas no perodo da manh. A desateno exibida pelas crianas que apresentam dificuldade de decodificao lxica, que frequentemente demoram no processamento do estmulo e perdem a palavra completamente ou exibem uma resposta demorada (5).

O processamento auditivo constitui uma srie de processos envolvidos nas habilidades auditivas, incluindo ateno, memria, deteco do som, localizao, figura-fundo, entre outras (28). A literatura consultada (21,29) relata que crianas com dificuldades escolares, apresentam pior desempenho na capacidade de ateno, sugerindo atraso na maturao das habilidades do processamento auditivo.

A associao entre a habilidade de ateno e aprendizagem levantada por alguns autores (1,2,18,21,29), evidencia que o desempenho acadmico altamente prejudicado quando a criana no possui capacidade de concentrao a um estmulo-alvo, por um determinado perodo de tempo. Este dficit de ateno afetar estas crianas nas habilidades comunicativas necessrias para a aquisio da linguagem oral, bem como na aquisio da linguagem escrita (2,22).

importante ressaltar que a identificao de dificuldades no processamento auditivo verbal e no verbal em crianas pr-escolares e escolares tem sua importncia afirmada em bases acadmicas, maturacionais, psicolgicas, e econmicas. A identificao precoce de crianas com limitaes nas habilidades de processamento da informao auditiva reduz o tempo e os custos da interveno (30).

Assim, considerando que uma das maiores causas do fracasso escolar entre as crianas a falta de ateno (20), j que esta essencial para o aprendizado de novas habilidades, comunicao oral e escrita, e de aprendizagem, como descrito anteriormente, avaliar a habilidade de ateno auditiva sustentada de extrema importncia.

Neste estudo, a avaliao comparativa dos diferentes perodos do dia permite ao fonoaudilogo, estabelecer o perodo que a criana apresenta maior nvel de ateno auditiva sustentada, possibilitando um melhor delineamento do planejamento teraputico, para que o processo de reabilitao seja potencializado. Neste contexto, cabe ainda ao profissional orientar os pais e responsveis quanto ao perodo escolar frequentado pelos seus filhos, pois o mesmo poder favorecer o desempenho acadmico de crianas com alteraes nesta habilidade.

O fonoaudilogo tambm deve se atentar ao tipo de escola frequentada pela criana, pblica ou privada, j que esta varivel tambm pode influenciar na habilidade de ateno auditiva sustentada. necessrio que sejam realizadas orientaes aos professores e educadores sobre a habilidade de ateno auditiva, bem como atividades que possam estimular o desenvolvimento e manuteno desta habilidade durante o perodo de aula, visando ao favorecimento do desenvolvimento da linguagem oral, escrita e aprendizagem destes escolares.


CONCLUSO

As crianas avaliadas no perodo da tarde e as que estudam em escolas pblicas apresentaram pior desempenho na habilidade de ateno auditiva sustentada, evidenciando que o perodo do dia e o tipo de escola, pode ser uma possvel fonte de variao na habilidade da criana para sustentar a ateno auditiva.


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1 Fonoaudiloga. Aluna de Ps-graduao da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo.
2 Fonoaudiloga. Especializanda em Distrbios da Comunicao Humana pela Universidade Federal de So Paulo, UNIFESP.
3 Mestre em Fonoaudiologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo, FOB/USP. Fonoaudiloga.
4 Doutor. Professor Livre Docente do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Sade Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo, FOB/USP.
5 Doutora. Professora Livre Docente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo, FOB/USP.

Instituio: Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo - FOB/USP.Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Mariza Ribeiro Feniman - Faculdade de Odontologia de Bauru - Departamento de Fonoaudiologia - Alameda Dr. Octvio Pinheiro Brisola, 9-75 - Vila Universitria - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-900 - Caixa-Postal: 73 - Telefone: (+55 14) 3235-8256 - E-mail: feniman@usp.br

Suporte Financeiro: FAPESP - Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo.

Artigo recebido em 3 de Janeiro de 2010. Artigo aprovado em 21 de Maro de 2010.
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