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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.7162/S1809-48722010000200012
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Habilidades de Sequencializao Temporal em Msicos Violinistas e No-Msicos
Temporal Sequencing Abilities in Musicians Violinists and Non-Musicians
Author(s):
Franklin Martins Nascimento1, Ricardo Alexandre Martinez Monteiro1, Carla Debus Soares2,
Maria Ins Dornelles da Costa Ferreira3.
Palavras-chave:
msica, limiar auditivo, testes auditivos, percepo auditiva.
Resumo:

Introduo: A habilidade de sequencializao temporal, refere-se ao processamento de dois ou mais estmulos auditivos na ordem de ocorrncia no tempo. Objetivo: Comparar a habilidade de sequencializao entre msicos violinistas e no-msicos a partir do teste de padro de frequncia (TPF). Mtodo: O estudo, prospectivo, constituiu-se num grupo de 20 msicos violinistas e 20 participantes no msicos, semi pareados por idade e escolaridade, todos do gnero masculino que foram submetidos avaliao audiolgica bsica e TPF. Resultados: Ao comparar o desempenho no TPF entre os grupos verificou-se relao estatisticamente significativa para o grupo de msicos em ambas as orelhas; (p=0,003) para a orelha direita (OD) e (p=0,002) para a orelha esquerda (OE). Os resultados do TPF foram correlacionados com a mdia das frequncias graves, mdia tritonal e mdia das frequncias agudas obtendo relao estatisticamente significativa apenas para OD sendo (p= 0,0047) para as frequncias graves, (p= 0,011) para a mdia tritonal e (p= 0,02) para a mdia das frequncias agudas. Na anlise comparativa entre as orelhas, por grupo a nica varivel estatisticamente significativa foi a mdia das frequncias graves no grupo de msicos (p<0,001). Concluso: O desempenho do grupo de msicos no TPF foi superior ao grupo de no msicos. Destaca-se a relevncia dos limiares auditivos para as frequncias graves, agudas e mdia tritonal no desempenho do TPF na OD.

INTRODUO

O processamento auditivo (central) (PA(C)) refere-se eficincia e a efetividade com que o sistema nervoso central (SNC) utiliza a informao auditiva. Envolve os mecanismos e processos do sistema auditivo responsveis pela: lateralizao e localizao do som, discriminao auditiva e o reconhecimento de padres e aspectos temporais da audio (1).

J o processamento auditivo temporal (PAT) pode ser definido como a percepo do som ou a alterao do som dentro de um domnio de tempo restringido ou definido sendo um componente fundamental para uma maior capacidade de processamento auditivo. Isto fortemente apoiado pelo fato de que muitas caractersticas da informao auditiva esto, de algum modo, sob o efeito do tempo, sendo subdividida em reas de estudo como resoluo, mascaramento, integrao e ordenao temporal. Dentre essas o presente estudo abordar a ordenao temporal (2).

A codificao sensorial da informao temporal como durao, intervalo e ordem de diferentes padres de estmulo prov informaes vitais para o sistema nervoso. Todas estas pistas, que regem o processamento temporal, so importantes para a percepo da fala e da msica, uma vez que a estrutura destes dois eventos apresenta-se como rpidas mudanas do sinal acstico. Nos testes que delineiam a integrao ou somao temporal os sujeitos devem detectar sinais fracos em um rudo de fundo ou no silncio. O mascaramento temporal caracterizado pela mudana do limiar de um som na presena de outro estmulo subsequente. Isto ocorre quando um estmulo apresentado com durao e intensidade suficientes para reduzir a sensibilidade de outro estmulo apresentado antes ou depois do estmulo inicial (3).

A resoluo temporal ou discriminao referem-se durao mais curta do tempo no qual um indivduo pode discriminar entre dois sinais auditivos. O limiar de resoluo temporal conhecido como acuidade auditiva temporal ou tempo de integrao mnimo (2).

A ordenao temporal, ou sequencializao, refere-se ao processamento de dois ou mais estmulos auditivos na sua ordem de ocorrncia no tempo. Isto foi um fenmeno altamente investigado, em particular por causa da sua importncia na percepo de discurso. Tal processo no restringido a um hemisfrio apenas, mas necessita de integrao da informao de ambos os hemisfrios atravs do corpo caloso. O teste de padro de frequncia (TPF) visa investigar a ordenao temporal diante de trs estmulos apresentados, que diferem em frequncias, contribuindo para investigao das possveis alteraes no PAT (4).

Muitas evidencias sugerem que as habilidades do PAT traduzem-se na base do processamento auditivo, especificamente no que concerne percepo de fala, pois as caractersticas da informao auditiva influenciadas pelo tempo, chegam ao sistema auditivo de maneira conjunta e sucessiva (5, 6).

Sabe-se, tambm, que a memria auditiva um processo que permite armazenar e arquivar informaes auditivas recuperando-as posteriormente. Tal memria essencial para que o processamento auditivo possa se comportar em pleno exerccio de suas capacidades. Sendo assim, a capacidade de ordenao temporal dos estmulos sonoros uma das mais bsicas e importantes funes do sistema auditivo nervoso central (7).

Um estudo realizado comparou um grupo de msicos e no-msicos em diversas tarefas auditivas temporais e constatou que o desempenho dos msicos foi superior ao desempenho dos no-msicos (8).

Um estudo de ordenao temporal entre cantores profissionais e amadores afinados e desafinados mostrou a superioridade no TPF dos msicos que receberam teoria musical adequada ao longo dos anos diante daqueles que no receberam nenhum tipo de orientao terica da msica, ficando evidente que o tempo de exposio teoria musical um fator importante no PAT (9).

Outro estudo foi realizado com o TPF e teste de padro de durao (TPD) em msicos e no-msicos. Os resultados mostraram melhor desempenho no TPD quando comparado ao TPF, porm o estudo teve uma amostra pequena sendo necessrio uma amostra mais significativa para a confirmao dos resultados (10).

O objetivo do presente estudo realizar a comparao das habilidades de sequencializao entre msicos violinistas e no-msicos a partir do TPF e a comparao dos limiares audiomtricos entre orelhas do grupo de msicos.


MTODO

O estudo foi realizado no laboratrio de audiologia da Instituio em que o estudo foi realizado, e recebeu a aprovao do Comit de tica em Pesquisa, sob o protocolo 123/2008, caracterizando-se por ser um estudo prospectivo, transversal, individual, observacional, contemporneo e comparativo.

Aps os esclarecimentos dos objetivos da pesquisa os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido, (TCLE) e o responsvel pela Instituio da qual pertencia o grupo estudo assinou o Termo de autorizao Institucional (TAI).

Os critrios estabelecidos para a incluso dos participantes na pesquisa, foram indivduos msicos violinistas da Congregao Crist no Brasil (CCB) que constituram o grupo em estudo. Os referidos msicos no exerciam nenhuma outra atividade musical fora dos padres da orquestra da CCB. A principal padronizao da orquestra da CCB constitui-se de expor os msicos a um padro de 450 hinos orquestrados via partitura musical. Os mesmos, antes de constiturem-se como msicos oficiais na orquestra realizaram uma formao musical na prpria instituio em que se prioriza inicialmente a teoria musical e aps passar por avaliao interna inicia-se o contato com o Instrumento. Os msicos participantes dessa pesquisa j encontravam-se no nvel de execuo dos hinos aps a passagem pelos processos iniciais de aprendizado.

Para o grupo controle foram includos participantes no-msicos emparelhados com o grupo em estudo de acordo com a idade e com o grau de escolaridade, subdividindo-se em ensino fundamental incompleto, ensino fundamental completo, ensino mdio incompleto, ensino mdio completo, ensino superior incompleto e ensino superior completo. Como critrio de excluso estabeleceu-se aqueles que apresentassem alterao nos limiares auditivos tonais.

Como critrios de excluso para ambos os grupos destacam-se os indivduos que no aceitaram participar da pesquisa, aqueles que apresentaram timpanometria representativa de alteraes na orelha mdia, bem como os usurios de medicao psicotrpica ou neurolgica. Tais critrios foram obtidos por meio de um questionrio especfico para msicos e no-msicos e atravs das medidas de imitncia acstica.

Convm ressaltar que as possveis alteraes na audiometria tonal limiar configuraram critrio de excluso para o grupo de no-msicos e varivel a ser analisada para o grupo de msicos. A coleta foi realizada pela manh para garantir o repouso auditivo do grupo de msicos.

Aps encaixarem-se nos critrios de incluso todos os participantes realizaram inspeo do meato acstico externo para verificar as condies de realizao dos exames subsequentes. Dessa forma, participaram da pesquisa 20 msicos violinistas do gnero masculino e 20 indivduos no msicos semi-pareados em idade e escolaridade.

As medidas de imitncia acstica foram realizadas com o equipamento AT22t da marca Interacoustics e constituram-se de timpanometria e pesquisa dos reflexos acsticos em ambas as orelhas.

A audiometria tonal liminar foi o segundo exame realizado atravs dos equipamentos AC30 e AC33 ambos, da marca Interacoustics.

Todos os equipamentos encontraram-se devidamente calibrados na data em que as avaliaes foram realizadas.

O terceiro e ltimo teste aplicado foi o TPF, realizado atravs da conexo dos audimetros AC30 ou AC33 com CD player da marca Philips modelo AX2420/78. O teste consiste na identificao de trs tons que diferem entre si em duas frequncias: 1430 Hz (alto) e 880 Hz (baixo) Cada tom tem a durao de 500 ms, com diferena de 10 ms. O intervalo entre os trs tons de 300 ms e o intervalo entre cada sequncia de tons de 10 seg. Os tons so combinados em seis diferentes padres de frequncia: alto-alto-baixo, alto-baixo-baixo, alto-baixo-alto, baixo-alto-alto, baixo-alto-baixo e baixo-baixo-alto e foram apresentados estmulos sonoros em uma intensidade de 50dBNS acima da mdia tritonal do individuo pesquisado que reproduziu a sequncia ouvida murmurando os sons apresentados monoauralmente (11).

Para descrever o perfil da amostra segundo as variveis em estudo, foram realizadas tabelas de frequncia das variveis categricas, com valores de frequncia absoluta (n) e percentual (%), e estatsticas descritivas das variveis contnuas com valores de mdia, desvio padro, valores mnimo e mximo, e mediana.

Para a comparao das variveis categricas entre os grupos foi utilizado o teste exato de Fisher. Para comparar as variveis numricas entre 2 grupos foi utilizado o teste de Mann-Whitney, e para comparar as variveis numricas entre 3 ou mais grupos foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis.

Para comparar as variveis numricas entre as orelhas direita (OD) e orelha esquerda (OE) foi utilizado o teste de Wilcoxon para amostras relacionadas.

Para analisar a relao entre as variveis numricas foi utilizado o coeficiente de correlao de Spearman.

O nvel de significncia adotado para os testes estatsticos foi de 5%.


RESULTADOS

O presente estudo constitui-se num grupo de 20 msicos violinistas e 20 participantes no-msicos semi pareados por idade e escolaridade, todos do gnero masculino.

Em relao a idade participaram do estudo 10 (50%) msicos com idade inferior a 20 anos; 3 (15%), com idade entre 20 e 29 anos de idade e 7 (35%), com idade igual ou superior 30 anos.

J no grupo controle 9 (45%) participantes tinham idade inferior a 20 anos; 4 (20%), com idade entre 20 e 29 anos de idade e 7 (35%) com idade igual ou superior a 30 anos.

Do grupo de msicos 3 (15%) cursaram o ensino fundamental incompleto; 6 (30%) possuam o ensino mdio incompleto, 7 (35%), o ensino mdio completo, 2 (10%), o ensino superior incompleto e 2 (10%) possuam o ensino superior completo. No grupo controle, por sua vez 5 (25%) dos participantes cursaram o ensino fundamental incompleto; 3 (15%) possuam o ensino mdio incompleto; 7 (35%), o ensino mdio completo; 2 (10%), o ensino superior incompleto e 3 (15%) possuam o ensino superior completo.

A Figura 1 mostra o desempenho do TPF para ambas as orelhas na comparao entre os grupos em que se verifica relao estatisticamente significativa para a OD (p=0,003) e para a OE (p=0,002) no grupo de msicos.

Na sequncia, a anlise entre os resultados do TPF foram comparadas as variveis faixa etria e escolaridade em cada grupo no apresentando relao estatisticamente significativa.

A anlise de correlao dos resultados obtidos no TPF com as variveis idade, mdia das frequncias graves, mdia tritonal e mdia das frequncias agudas, por orelha, foram realizadas atravs do teste de correlao de Spearman considerando os grupos separadamente.

A Figura 2 mostra os resultados do TPF obtidos na OD quando correlacionados s variveis mdia das frequncias graves (r= -0,604; p= 0,0047), mdia tritonal
(r= -0,553; p= 0,011) e mdia das frequncias agudas
(r= -0,499; p= 0,02) da mesma orelha. Os resultados apontam que quanto menor os valores das mdias das frequncias graves, agudas e mdia tritonal, maiores os valores do TPF.

O mesmo resultado no ocorreu para a correlao do TPF realizado na OE para as mesmas variveis permitindo a constatao de que os limiares audiomtricos na OD interferem no desempenho do TPF para a orelha homolateral.

Por fim, a anlise comparativa entre as OD e OE foi realizada por grupo. A nica varivel estatisticamente significativa foi a mdia das frequncias graves ao comparar ambas as orelhas no grupo de msicos, sendo que a OD apresentou valores maiores (p<0,001). Atravs deste resultado possvel constatar que o grupo de msicos apresenta limiares audiomtricos na OD piores que a orelha contralateral para as frequncias graves.



Figura 1. Desempenho do TPF para OD e OE na comparao entre os grupos - OD: orelha direita OE: orelha esquerda PPS: Pitch Pattern Sequence (teste de padro de frequncia TPF).




Figura 2. Correlao do TPF com a mdia das frequncias graves, agudas e mdia tritonal para a OD. - OD: orelha direita PPS: Pitch Pattern Sequence (teste de padro de frequncia TPF).




Figura 3. Anlise comparativa da mdia das frequncias graves para OD e OE no grupo de msicos. - OD: orelha direita OE: orelha esquerda.



DISCUSSO

A iniciativa do presente estudo deve-se experincia do primeiro autor como msico violinista mediante a questionamentos relacionados acuidade auditiva e ao PAT.

O resultado apresentado na Figura 1 aponta que os msicos violinistas apresentaram melhor desempenho nos TPF em relao aos no-msicos. O treinamento musical possibilita uma maior percepo na discriminao das frequncias visto que a prtica musical propicia essa habilidade.

Durante a realizao do TPF observou-se no grupo de msicos que o murmrio aproximou-se muito do tom do estimulo sonoro realizando a repetio do som de maneira muito precisa. Tal constatao foi percebida nos msicos mais experientes com maior tempo de teoria musical (9).

Outro ponto a ressaltar que a capacidade de orientao temporal avaliada no TPF considerada como uma habilidade bsica do sistema auditivo central (7).

Dessa forma o resultado do presente estudo corrobora com outros trabalhos com delineamentos semelhantes em que o desempenho do grupo de msicos foi superior ao grupo de no-msicos (8, 9, 10, 12).

Estudos que envolveram exames de neuroimagem em msicos identificaram maior ativao da regio temporal em relao aos no-msicos devido a utilizao de regies especializadas na memria de curto prazo (13).

Alm disso, a msica considerada como fator ambiental externo pode contribuir como plasticidade neural aumentando as habilidades de reconhecimento de padres de frequncia (14).

Em relao ao mesmo resultado, outra considerao importante encontra-se relacionada ao ambiente scio lingustico, visto que, no Brasil, as crianas no so expostas ao aprendizado musical formal, ao contrrio das crianas norte americanas (12).

Essa falta de exposio msica numa fase anterior pode ter contribudo para os resultados em relao do grupo de no-msicos.

Os resultados apresentados na Figura 2 mostram que no grupo de msicos quanto menor os valores das mdias das frequncias graves, agudas e mdia tritonal da orelha direita, maiores os valores do TPF.

Este estudo difere dos resultados encontrados por CORAZZA (15) que em seus achados no encontrou diferenas estatisticamente significantes entre as OD e OE no TPF, talvez pelo falto de no serem msicos ou at mesmo por serem uma populao homogeneizada composta por uma populao de 80 adultos jovens que no apresentavam perda auditiva.

Outro estudo encontrou diferena significativa na comparao entre as OD e OE esquerda em uma populao de 211 crianas Brasileiras, porm somente na resposta verbal, o murmrio neste estudo no apresentou diferena significativa, o estudo sugere que as crianas brasileiras por estarem mais habituadas a verbalizar os sons do que murmurar, desempenharam um melhor resultado nas respostas verbais (16).

Tal resultado ressalta a importncia da integridade dos limiares tonais para a discriminao das frequncias. J o TPD por no depender exclusivamente da discriminao de frequncias, mostra-se mais resistente a perda auditiva perifrica, pois leses na cclea interferem na identificao das frequncias devido sua organizao tonotpica (2).

Outro aspecto a ressaltar, a diferena entre orelhas, cujo resultado foi estatisticamente significativo para a OD apenas para o grupo de msicos. Dessa forma, estudos realizados com crianas e adultos jovens no-msicos no encontraram diferenas significativas entre as orelhas ao considerar o TPF na condio murmurando (15, 16).

A habilidade de reconhecer, identificar e sequencializar o padro de frequncia envolve vrios processos perceptuais e cognitivos que envolvem a integrao de ambos os hemisfrios, sendo o hemisfrio esquerdo responsvel pela sequencializao temporal e o direito pelo reconhecimento do contorno acstico (17).

Assim, possvel hipotetizar que a significncia estatstica para a OD no grupo de msicos deve-se a posio do violino no lado esquerdo cujo som no verbal gerado percorre os dois teros da via auditiva desse lado para ser reconhecido pelo hemisfrio direito.

Por fim, a Figura 3 apresenta a anlise comparativa da mdia das frequncias graves entre as orelhas no grupo de msicos apontando que os limiares da OD do referido grupo so piores quando comparados aos limiares da OE.

Ao considerar a posio dos msicos na orquestra a OD encontra-se exposta a outros violinos e demais instrumentos, a um nvel de presso sonora elevado o que poderia contribuir para a elevao do limiar.

Um estudo realizado com 30 msicos que ficaram expostos a nveis de presso sonora superiores a 85 dBNPS identificou alterao nos limiares auditivos em ambas as orelhas (18).

Em contra partida outras pesquisas voltadas trabalhadores expostos ao rudo ocupacional encontraram piores limiares na OD sem motivo aparente (19).

Um estudo mostrou uma maior perda auditiva na OE da populao pesquisada, constituda por msicos da orquestra sinfnica de Minas Gerais, apresentando uma maior perda nas frequncias agudas e no na mdia de frequncias graves como nos achados deste estudo (20).

Convm ressaltar os aspectos fsicos do violino, cujo som resulta da forma de onda originada pela excitao das cordas pelo arco modulada pelas vibraes e ressonncias do corpo do violino, seus tampos e o cavalete sendo as duas ressonncias principais geradas por esse complexo instrumento, observadas entre 3000 Hz e 6000 Hz.

A vibrao gerada assimtrica em funo da alma do violino, que uma espcie de palito colocado entre o tampo superior e inferior, parte que gera a propagao sonora, isso torna a radiao sonora omnidirecional apenas entre as frequncias de 200 a 500 Hz. J entre 350 e 1000 Hz ela se torna parcialmente omnidirecional e entre 1000 a 5000 Hz bastante direcional, o que pode propiciar um risco de aparecimento de PAIR devido a exposio direcionada em altas frequncias e a alta intensidade. Assim, estudos mostram que uma pessoa ouvinte a 3 metros do instrumento percebe um som com nvel de intensidade de aproximadamente 76 dB ao tocar forte a corda Mi do violino, prtica, essa, habitual entre os msicos (21).

A elevao dos limiares auditivos mais acentuados na OD no grupo de msicos tambm pode ser explicada pelo acompanhamento dos demais instrumentos. O nvel de presso sonora aumenta mais com o violino prximo a orelha, pois ao tocar, os msicos violinistas inclinam a cabea para o lado esquerdo e a rotacionam para baixo, a fim de acomodar o instrumento aumentando a exposio da OD ao som omnidirecional que chega de toda a orquestra.

De acordo com os resultados encontrados, a prtica musical pode ser considerada como uma forma de treinamento auditivo para indivduos com alterao do PAT por aumentar a atividade sinptica atravs das mudanas comportamentais (22).

Alm disso, a msica por ser considerada uma atividade prazerosa capaz de expressar os sentimentos (9), pode motivar os pacientes no processo de reabilitao.


CONCLUSO

O objetivo do presente estudo foi realizar a comparao da habilidade de sequencializao temporal entre msicos violinistas e no-msicos a partir do TPF.

O desempenho do grupo de msicos no TPF foi estatisticamente significativo, demonstrando melhor desempenho em comparao ao grupo controle, permitindo a identificao da relevncia dos limiares auditivos para as frequncias graves, agudas e mdia tritonal no referido teste na OD.

Tambm foi possvel constatar a diferena entre a mdia dos limiares das frequncias graves entre as orelhas no grupo de msicos.


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1 Bacharel em Fonoaudiologia. Fonoaudilogo.
2 Mestrado. Professora do curso de Fonoaudiologia do Centro Universitrio Metodista - IPA e Fonoaudiloga do Setor de Audiologia do Me de Deus Center.
3 Doutorado. Professora do Curso de Fonoaudiologia do Centro Universitrio Metodista - IPA (Porto Alegre) e da Faculdade Nossa Senhora de Ftima (Caxias do Sul).

Instituio: Centro Universitrio Metodista - IPA. Porto Alegre / RS - Brasil. Endereo para correspondncia: Maria Ins Dornelles da Costa Ferreira - Rua Luiz Afonso 158/702 - Bairro: Cidade Baixa - Porto Alegre / RS - Brasil - CEP:
90050-310 - Telefone: (+55 51) 9823-0198 - E-mail: costa.ferreira@terra.com.br

Artigo recebido em 5 de Maro de 2010. Artigo aprovado em 23 de Abril de 2010.
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