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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 3  - Jul/Set Print:
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Escuta de Crianas com Fissura Labiopalatina na Escola
Children's Listening with Cleft Lip and Palate in the School
Author(s):
Rosana Ribeiro Manoel1, Mariza Ribeiro Feniman2, Maria Jos Monteiro Benjamin Buffa3,
Luciana Paula Maximino4, Jos Roberto Pereira Lauris5, Jos Alberto de Souza Freitas6.
Palavras-chave:
criana, fissura palatina, audio, percepo auditiva.
Resumo:

Introduo: Grande similaridade entre o comportamento de pacientes com fissura labiopalatina e aqueles com transtorno de processamento auditivo so relatadas por pais e professores. Objetivo: Verificar a escuta de crianas com fissura labiopalatina em seis condies de escuta. Mtodo: Professores de 224 escolares (7 a 11 anos) com fissura completaram um questionrio, visando julgar a escuta do escolar no rudo, condio ideal, com mltiplos estmulos, no silncio, quando solicitado recordar a informao ouvida e durante longo perodo de escuta, comparando-o ao de outro sem fissura de mesma idade e condio de escuta. Estudo Prospectivo. Resultados: A mdia do julgamento (-0,08, desvio padro de 0,27) dos alunos com fissura, realizado pelo professor, foi aproximadamente ao de "mesma dificuldade" (zero), quando comparado com o escolar sem fissura. No foi encontrada significncia estatstica para qualquer uma das condies, nem para o valor total do questionrio considerando os gneros e as sries escolares. Concluso: As caractersticas de escuta dos escolares com fissura labiopalatina foram similares ao de outro sem esta malformao craniofacial de mesma idade e condio de escuta semelhante. No rudo, quando a memria e a ateno auditiva so requeridas foram as condies mais difceis.

INTRODUO

Grande similaridade entre o comportamento de pacientes com fissura labiopalatina e aqueles com transtorno de processamento auditivo foram relatadas por pesquisadores investigando as habilidades auditivas, por meio da aplicao de um questionrio (1) e de testes comportamentais (2).

Transtorno de processamento auditivo refere s dificuldades no processamento perceptual de informao auditiva no sistema nervoso central. O problema pode ser exacerbado em ambientes acsticos desfavorveis (3,4). Desta forma, crianas com este transtorno so descritas pelos seus pais e professores como tendo dificuldade de escutar na presena de rudo de fundo, em seguir instrues orais, assim como, terem dificuldade de entender a fala distorcida, a fala na presena de dois falantes, como por exemplo, em situao de discusso em grupo (3). Este transtorno apontado como um dos fatores das 50% das crianas brasileiras, segundo dados do Ministrio da Educao (MEC), que chegam ao final do ensino mdio com srios problemas de leitura e escrita (5). Assim, atualmente, a associao entre dificuldades escolares e alteraes no desenvolvimento de habilidades auditivas tem sido enfatizada em estudos realizados com testes de processamento auditivo (6). Pesquisadores (7) relataram que crianas com dislexia apresentam alteraes do processamento neurolgico central que podem ser detectadas tanto em testes especficos de processamento auditivo, quanto em exames funcionais de imagem como SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography).

Uma variedade de procedimentos informais comportamentais, elaborados para pais e/ou professores, tem sido desenvolvido para, sistematicamente, investigar comportamentos que podem ser teis em determinar se uma criana deve ser encaminhada para uma avaliao de processamento auditivo (3,8).

A literatura (9) tem demonstrado que muitas informaes de pais/e ou professores ajudam a identificar alteraes encontradas em suas crianas.

O presente estudo tem como objetivo verificar a escuta de crianas com fissura labiopalatina, por meio do julgamento do professor observando as caractersticas de seus alunos com este tipo de malformao craniofacial no silncio, em situao de escuta ideal, na presena de mltiplos estmulos, no rudo, quando solicitada a recordar a informao ouvida e, em longo perodo de escuta.


MTODO

A fim de se compor casustica desse estudo de coorte contempornea com corte transversal, selecionou-se pacientes com o tipo de fissura de maior ocorrncia em um Hospital especializado nesta malformao craniofacial. Por isso, para o universo de 800 crianas com fissura envolvendo o lbio e palato esquerda, operadas, de ambos os gneros, que se encontravam na faixa etria entre 7 a 11 anos, regularmente matriculadas no Hospital, e, que cursavam classe regular, em nvel de 1 a 4 srie foi enviado, via correio, um questionrio para ser entregue a seus professores, visando o objetivo proposto neste estudo. Um mesmo professor pode ter trabalhado com mais de uma criana em diferentes salas de aula.

Orientaes quanto ao objetivo da pesquisa, ao preenchimento do questionrio foram fornecidas, por escrito, aos professores. Retornaram respondidos 224 questionrios, juntamente com o termo de consentimento livre e esclarecido assinado. Assim, participaram deste estudo prospectivo professores de 141 crianas do gnero masculino e 83 do feminino e idade mdia de 9 anos.

A Tabela 1 apresenta a distribuio das crianas quanto idade e ao gnero.

O questionrio aplicado e respondido foi o CHAPPS-Childrens Auditory Processing Performance Scale (8), (Figura 1a e 1b) que foi desenvolvido para coletar e quantificar sistematicamente as caractersticas de escuta de crianas. um questionrio tipo escala das caractersticas de escuta de crianas. Tem como objetivo verificar o julgamento do professor das caractersticas de escuta de escolares em seis condies/funes de escuta: em ambiente silencioso, no rudo, quando requerido lembrar a informao ouvida (memria auditiva/sequncia) e, em longos perodos de escuta (ateno auditiva).

Este instrumento foi escolhido, por nestas condies de escuta estarem as queixas mais frequentes mencionadas na literatura (8-10), por pais e professores de alunos que apresentam transtorno do processamento auditivo.

Cada uma destas seis condies/funes de escuta possui nmeros de itens diferentes, perfazendo 36 itens em seu total.

Em cada item foi solicitado ao professor julgar graus de dificuldade experenciado pelo escolar com fissura labiopalatina, comparando esta criana com o conhecimento que o professor tem de outras crianas da escola, da mesma idade e similar condio, porm sem esta malformao craniofacial. Para cada grau de dificuldade foi atribuda uma pontuao correspondente: (+1) menos dificuldade, (0) mesma dificuldade e, (-1) mais dificuldade, no qual o professor deveria assinalar a resposta escolhida.

Para analisar as caractersticas de escuta no CHAPPS, considerou-se o valor obtido em cada uma das seis condies de escuta (mdia dos valores ali pontuados) e, o valor obtido no seu total CHAPPS total (soma de todos os itens assinalados divididos por 36). Os resultados obtidos foram analisados verificando-se as respostas separadamente para as variveis gnero e srie escolar, nas seis condies de escuta: no rudo, no silncio, em situao ideal, na presena de mltiplas informaes, quando requerido lembrar a informao ouvida (memria/sequncia auditiva) e em longos perodos de escuta (ateno auditiva).

Este estudo foi submetido Comisso de tica em Pesquisa e obteve parecer favorvel sob o Protocolo
no 041/2003UEPCEP.

Os dados coletados foram digitados em uma planilha do programa Excel (Microsoft Corporation), e posteriormente importados para o Programa Estatstico/Statistica for Window-verso 5.1 Stat Soft. Inc. Alm da estatstica descritiva (mdia e desvio padro), utilizou-se para analisar as diferenas entre gnero, srie e condio de escuta a anlise de varincia a 3 critrios e o Teste de Tukey, sendo adotado nvel de significncia de 5% (p<0,05).


RESULTADOS

Com base nos resultados obtidos no questionrio CHAPPS, elaborou-se a Tabela 2 e 3 demonstrando a distribuio dos valores mdios e desvios-padro para as crianas amostradas, de acordo com cada srie escolar e o gnero, segundo a condio de escuta, respectivamente.

A anlise de varincia a trs critrios no demonstrou diferena estatisticamente significativa entre gneros (p=0,130) nem entre sries (p=0,555), havendo, somente entre as condies de escuta (p<0,001) (Tabela 4).















DISCUSSO

A anlise dos dados deste estudo sugeriu que a mdia do julgamento das caractersticas de escuta dos alunos realizado pelos professores (valor mdio de -0,08, desvio padro de 0,27), foi muito prxima ao valor zero, sinalizando "mesma dificuldade". Assim, por meio deste instrumento utilizado, o professor no identificou diferena entre as caractersticas do aluno com fissura labiopalatina com outro sem esta malformao craniofacial, observando-os nas condies de escuta apontadas no questionrio. Este achado est em concordncia com estudo anteriormente realizado (11), no julgamento realizado pelos pais de crianas com fissura labiopalatina, utilizando o questionrio CHAPPS.

No que se refere ao resultado deste estudo, na comparao entre as condies de escuta observadas, as caractersticas de escuta das crianas amostradas na condio de escuta na presena de rudo, foi o de maior dificuldade.

Uma das queixas mais comuns de sujeitos com transtorno de processamento auditivo o problema de processamento sob condies de difcil escuta. Quando avaliados, muitos desses faro muito bem em uma situao favorvel. Entretanto, quando os sinais esto distorcidos ou degradados, frequentemente demonstram dificuldades significantes, devido retirada de alguma das redundncias intrnsecas do sinal de fala (12).

Um dos mtodos de reduzir a redundncia de um sinal de fala introduzindo um rudo de fundo (rudo) juntamente com este sinal. Desta forma, um ouvinte com transtorno de processamento auditivo apresenta dificuldade de reconhecer a fala na presena de rudo (10).

Neste sentido a escola, encontra-se sob forte impacto de rudos diversos, que se tornam opositores invisveis aprendizagem, em um local onde a situao de escuta deveria ser muito privilegiada. Assim, em uma situao desfavorvel em que h competio entre a fala do professor e os demais rudos, o desempenho escolar pode sofrer interferncia (13). Pesquisadores (14) consideram que o nvel de rudo encontrado nas escolas est acima de valores recomendados, sendo esta uma situao de escuta desfavorvel, levando a criana a necessitar de maior ateno para reter a mensagem falada.

Memria auditiva a habilidade para armazenar e reter o estmulo auditivo. Processo que permite arquivar as informaes para poder recuper-las quando necessrio (15). Algumas tarefas de processamento auditivo requerem que a criana retenha informao para formular uma resposta. Assim, a memria auditiva fundamental para ativar habilidades de escuta (16). A condio de quando solicitada a recordar a informao ouvida (memria auditiva) foi a segunda de maior dificuldade neste estudo.

O estudante com transtorno de processamento auditivo pode demonstrar problemas com compreenso auditiva, discriminao auditiva, memria auditiva, figura-fundo auditiva e ateno auditiva, entre outros (16).

Ateno auditiva definida como um processo cognitivo que permite o ouvinte focar seletivamente no estmulo de interesse, enquanto ignora um estmulo competitivo no relevante, limitando a quantidade de informao processada ao propsito (17). O aprendizado depende da ateno que est associada com aquilo que importante, o significado influenciar no grau de ateno (18). A condio de longos perodos de escuta (ateno auditiva), nesta investigao esteve entre as de mais dificuldade apresentada pelo aluno.

Ao se analisar, neste trabalho, a diferena significativa entre os resultados obtidos dos comportamentos reativos frente s condies de escuta no rudo, de quando requerido lembrar a informao ouvida (memria auditiva) e, em longos perodos de escuta (ateno auditiva), em relao s demais condies, estudos (19) tm demonstrado que a exposio a nveis de rudo elevados pode causar prejuzos, tais como o decrscimo da ateno, porm as crianas podem adaptar-se a interferncia do rudo, durante as atividades pela filtragem do estmulo ruidoso indesejvel. Elas podem utilizar desta estratgia at quando no existe rudo, levando para sua pobre habilidade em sustentar a ateno na sala de aula, que pode com o tempo continuar a afetar a ateno, mesmo na ausncia da exposio ruidosa (Medical Research Council 1997) (20) podendo justificar a dificuldade dos escolares quando tambm na condio de escuta no silncio.

Vrios aspectos importantes foram verificados nos dados obtidos utilizando este instrumento, em relao condio de escuta do aluno com fissura labiopalatina, tendo em vista que quando comparado a outro trabalho realizado, (1) no qual foi aplicado testes especficos, confirma problemas de ateno auditiva, memria verbal, histrico de otites recorrentes, alta taxa de distrbio de aprendizagem, repetio e baixa taxa de aproveitamento escolar nesta populao.

Os dados encontrados neste estudo sustentam os de estudiosos (21, 22) que concluram que as crianas com fissura labiopalatina apresentaram dificuldade nas habilidades auditivas de figura-fundo e ateno seletiva, por meio dos testes aplicados, sugerindo a incluso da avaliao do processamento auditivo na bateria auditiva clnica de rotina para os sujeitos com esta malformao.

O julgamento dos professores a respeito das condies de escuta apresentadas pelo aluno, como tendo mais dificuldades (no rudo, na memria e na ateno auditiva) sugere que as crianas estudadas devam ser submetidas a uma avaliao especializada do processamento auditivo, tendo em vista que as alteraes encontradas so comuns em crianas ou adultos com alterao de processamento auditivo, podendo a criana no conseguir interpretar o som, uma vez que essa interpretao depende das habilidades auditivas organizadas e estruturadas ligadas s funes cerebrais como ateno e memria.

Desta forma, a incluso de procedimentos, tais como, questionrios, checklist na investigao de alteraes do processamento das informaes auditivas, na bateria audiolgica clnica de rotina para os sujeitos com fissura labiopalatina, parece se justificar para uma melhor orientao no processo diagnstico, teraputica e familiar, visando no s melhorias no desempenho acadmico, como tambm uma melhor qualidade de vida. Tais procedimentos podem dar informaes valiosas, em relao ao real impacto das alteraes auditivas, ajudando no processo de diagnstico diferencial, entretanto no devem ser superestimados, nem to pouco utilizados com propsitos de diagnsticos.



Figura 1a. Questionrio CHAPPS - Children's Auditory Processing Performance Scale (8).




Figura 1b. Questionrio CHAPPS - Children's Auditory Processing Performance Scale (8).




CONCLUSO

Neste estudo a escuta de crianas com fissura labiopalatina, segundo o julgamento do professor ao de outra criana de mesma idade e condio de escuta semelhante, no portadora desta malformao craniofacial conforme avalia o CHAPPS, mostrou-se, praticamente, similar. Entretanto apresentaram condio de mais dificuldade no rudo, quando solicitadas a recordarem a informao ouvida (memria auditiva) e durante longo perodo de escuta (ateno auditiva), para qualquer um dos gneros, como para todas as sries escolares frequentadas.


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1 Doutora em Cincias da Reabilitao - rea de Distrbios da Comunicao do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais da Universidade de So Paulo - HRAC-USP. Chefe de Seo do HRAC-USP, Bauru-SP.
2 Ps-Doutorado em Audiology - Univeristy of Cincinnati-Ohio-USA. Chefe de Departamento de Fonoaudiologia-FOB-USP.
3 Mestre em Distrbios da Comunicao Humana pelo HRAC-USP. Pedagoga - HRAC-USP.
4 Doutora pelo Instituto de Biocincias da Universidade Estadual Paulista - UNESP-Botucatu-SP. Professora Doutora do Departamento de Fonoaudiologia da
FOB-USP.
5 Livre-Docncia. Professor Associado do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Sade Coletiva da FOB-USP.
6 Professor Titular do Departamento de Estomatologia da FOB-USP. Superintendente do HRAC-USP.

Instituio: Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais - HRAC-USP. Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Mariza Ribeiro Feniman - Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de So Paulo - FOB-USP - Departamento de Fonoaudiologia/FOB-USP - Alameda Octavio Pinheiro Brisolla 9-75 - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-101 - Telefone: (+55 14) 3225-8533 - E-mail: feniman@usp.br

Artigo recebido em 31 de Maro de 2010. Artigo aprovado em 23 de Abril de 2010.
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