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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 3  - Jul/Set Print:
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Perfil Audiolgico de Pilotos Agrcolas
Agricultural Pilot's Audiological Profile
Author(s):
Lucas Foltz1, Carla Debus Soares2, Maria Adelaide Kuhl Reichembach3.
Palavras-chave:
perda auditiva provocada por rudo, aviao, agricultura, rudo ocupacional, sade do trabalhador.
Resumo:

Introduo: Os pilotos de avies agrcolas esto diariamente expostos a rudos intensos, estando suscetveis Perda Auditiva Induzida pelo Rudo (PAIR) e seus efeitos auditivos e extra-auditivos. Objetivo: Analisar o perfil audiolgico desta populao, verificando a influncia do trabalho sobre sua audio. Mtodo: Foi realizado um estudo retrospectivo, de corte transversal, individual e observacional, atravs de dados obtidos por meio de questionrio e audiometria tonal liminar de 41 pilotos agrcolas. Para a anlise estatstica foram utilizados os testes Qui-quadrado, Spearman e Wilcoxon, com nvel de significncia de 5%. Resultados: Verificou-se que 95,1% dos pilotos usam EPI durante os vos e 58,5% possuem contato com agrotxicos. Mais da metade dos indivduos referiram ter sintomas auditivos e extra-auditivos, sendo o zumbido o mais frequente (29,1%). Houve a ocorrncia de 29,3% de perda auditiva sugestiva de PAIR e 68,3% de normalidade, tendo, esta, presena de entalhe unilateral em 24,4% e entalhe bilateral em 31,7%. Foi encontrada correlao estatisticamente significativa nas associaes entre tempo de servio e a mdia das frequncias agudas na orelha direita (p=0038) e na orelha esquerda (p=0,010). Houve tendncia estatstica na associao entre configurao audiomtrica e contato com agrotxicos (p=0,088). Concluso: A prevalncia da perda auditiva neste estudo se mostrou elevada. Mais da metade da amostra possui limiares auditivos normais com configurao de entalhe. Tais dados levam a concluso de que os pilotos agrcolas, mesmo com o uso de EPI, ainda sofrem com os danos provocados pelo rudo, carecendo de melhores propostas de preveno da perda auditiva.

INTRODUO

A aviao agrcola chegou ao Brasil pela necessidade de controle de pragas em reas extensas de monocultura, j que os sistemas mecanizados de aplicao de defensivos agrcolas terrestres eram muito lentos e no conseguiam controlar efetivamente toda a plantao. Atualmente, a aviao agrcola tem como atividades a aplicao de fertilizantes, defensivos agrcolas, semeadura, povoamento de guas, combate a incndios e a vetores (1).

Os avies agrcolas possuem a caracterstica de serem, em sua maioria, monomotores, tendo a localizao do motor na parte frontal e acomodando apenas um tripulante. Dessa forma, o rudo produzido pelo motor fica prximo da cabine do piloto, chegando ao cockpit em intensidades elevadas.

O ambiente de aeroportos e aeroclubes possui mltiplas fontes de rudo, tanto em terra quanto no ar. O rudo produzido pelos equipamentos de fora da aeronave, sistemas de transmisso, hlices, rotores, atuadores hidrulicos e eltricos, ar condicionado da cabine e sistemas de pressurizao, sistema de alertas e equipamentos de comunicaes. O rudo pode tambm ser gerado pela interao aerodinmica entre o ar (camada limite) e a superfcie da aeronave, como fuselagem, asas, superfcie de controle e trem de pouso. Estes sons no apenas tornam o ambiente de trabalho mais estressante, mas podem ao longo do tempo causar alteraes auditivas (2).

GEROSTERGIOU et al (3) realizou um estudo envolvendo 15 pilotos de um aeroclube, sendo feitas as avaliaes audiolgicas e do nvel do rudo de avies de pequeno porte e ultra-leves. Os achados demonstraram que 30% dos aviadores possuam alterao auditiva sugestiva de Perda Auditiva Induzida pelo Rudo (PAIR) e o nvel de rudo atingiu o pico de 100-110dB, com mdia de 75dB em ambos os modelos.

As alteraes ou efeitos que o rudo acarreta audio e sade, em geral, so influenciados pelos nveis de presso sonora (NPS), pelo tipo de rudo, pela frequncia, pelo tempo total de exposio e ainda pela suscetibilidade individual. Dessa forma, o rudo pode afetar os sujeitos expostos de formas diferentes pelo mesmo perodo de tempo (4).

Vrios estudos, voltados PAIR, mostraram correlao entre os limiares audiomtricos e os anos de profisso (5,6,7).

O trauma acstico, a mudana temporria do limiar (MTLA) e a PAIR so caracterizadas como alteraes auditivas decorrentes da exposio ao rudo. O trauma acstico caracteriza-se pela exposio nica a NPS muito elevados, resultando em uma leso permanente e imediata, podendo ser unilateral ou bilateral. A MTLA refere-se a uma dificuldade auditiva ocasionada por exposio curta a NPS elevados, podendo estar acompanhada de zumbido. Aps o repouso acstico os limiares retornam ao seu padro inicial. J a PAIR definida como a perda de audio permanente procedida pela exposio prolongada e repetida a nveis de rudo intensos (8).

A Portaria n 19 do Ministrio do Trabalho (9) estabelece que a PAIR determinada pelas alteraes dos limiares auditivos do tipo neurossensorial, decorrente da exposio ocupacional sistemtica a NPS elevados. As caractersticas so definidas pela irreversibilidade, progresso gradual com o tempo de exposio ao risco, queda predominante nas frequncias de 3000Hz, 4000Hz e 6000Hz, e interrupo da progresso da reduo auditiva com a cessao da exposio. Tais caractersticas so decorrentes da destruio das clulas sensoriais do rgo de Corti, produzindo uma deteriorao auditiva lenta, em geral simtrica e tendo seus aspectos clnicos relativamente definidos (10,11).

De acordo com a American College of Occupational and Environmental Medicine (11), o primeiro sinal de perda de audio devido exposio ao rudo um entalhe no audiograma em 3000, 4000 e/ou 6000Hz, com recuperao em 8000Hz. A Norma Regulamentadora n 7 do Ministrio do Trabalho (12), determina que casos sugestivos de desencadeamento da PAIR podem ser verificados pela comparao do exame de referncia e o sequencial, atravs da diferena de 10dBNA na mdia das frequncias de 3000, 4000 e 6000Hz ou piora em uma das frequncias citadas em 15dBNA.

Aps o rebaixamento das frequncias de 3000, 4000 e 6000Hz, a leso estende-se s frequncias de 8000, 2000, 1000, 500 e 250Hz. Na medida em que as frequncias mdias e graves so atingidas, a curva audiomtrica se configura de forma descendente, havendo geralmente recuperao em 8000Hz (13,14).

O rudo o mais frequente dos agentes de exposio ocupacional, podendo desenvolver efeitos auditivos e extra-auditivos. Tais efeitos afetam diretamente a concentrao e as habilidades necessrias para as tarefas gerando desateno, descuido e mascarando sinais de alerta, contribuindo, dessa forma, para o aumento de acidentes de trabalho (8).

Os efeitos auditivos encontrados em trabalhadores portadores da PAIR limitam a funcionalidade auditiva, provocando alterao de sensibilidade auditiva, alteraes na seletividade de frequncias, na resoluo temporal e espacial, recrutamento (aumento da sensao de desconforto) e zumbido. Tais alteraes influenciam diretamente a discriminao auditiva, dificultando a percepo, principalmente, dos sons da fala, podendo, tambm, alterar o padro de fala de acordo com o grau da perda auditiva15, 16.

Vrios estudos referem relao entre PAIR e zumbido, sendo influenciado por fatores como idade e tempo de servio (6,17,18). Um estudo demonstrou que trabalhadores com tempo mdio de servio de 6,8 anos j possuem queixa de zumbido. Tal trabalho indicou, tambm, a ocorrncia deste sintoma em 70% dos indivduos com limiares normais expostos ao rudo ocupacional (18).

Com relao s alteraes extra-auditivas, essas so caracterizadas por distrbios em vrios sistemas. Os distrbios iro depender de fatores como frequncia do rudo, a intensidade, a durao, e o ritmo, assim como o tempo de exposio, a suscetibilidade individual e a atitude de cada indivduo frente ao som. As principais alteraes extra-auditivas encontradas em pacientes portadores de PAIR so: distrbios de comunicao, vestibulares, comportamentais, digestivos, neurolgicos, distrbios do sono, cardiovasculares, hormonais, circulatrios, alteraes nos reflexos respiratrios, na concentrao e habilidade e alteraes no rendimento de trabalho (19,20).

Outro fator de risco que o piloto agrcola est exposto a intoxicao por agrotxico, atravs da inalao. Alguns dos compostos qumicos dos agrotxicos possuem propriedades neurotxicas, sendo seus impactos estudados por diversas reas da sade, sobretudo as repercusses auditivas (21,22), e considerados como responsveis por intoxicaes de trabalhadores que os manuseiam e os aplicam. As formas de intoxicao podem ser por contato com a pele, inalao e via digestiva, sendo a via respiratria a forma de absoro mais rpida (22).

Os compostos qumicos mais utilizados nos agrotxicos lanados por avies agrcolas so os organofosforados, os piretroides sintticos, ambos comumente usados em inseticidas, e os carbamatos, empregados em inseticidas e herbicidas (23).

Em decorrncia do conhecimento dos fatores de risco ao qual o piloto agrcola est exposto, surgiu a necessidade de analisar o perfil audiolgico desta classe trabalhadora, a fim de fornecer dados para pesquisas futuras.


MTODO

A presente pesquisa constitui-se em um estudo de coorte transversal, individual, observacional e contemporneo, onde o fator em estudo so os pilotos agrcolas. O objetivo do estudo foi analisar o perfil audiolgico desta populao. A populao foi constituda de 43 pilotos agrcolas que compareceram inspeo de sade no Hospital da Aeronutica de Canoas (HACO) - Canoas/RS para a renovao do Certificado de Capacidade Fsica (CCF), no perodo de junho a setembro de 2009. Este estudo foi analisado e aprovado pelo Comit de tica em Pesquisa do Centro Universitrio Metodista - IPA, com o protocolo nmero 60/2009. Sendo tambm aprovado pelo diretor do HACO, atravs da assinatura do Termo Institucional.

Foram includos todos os pilotos que compareceram aos exames peridicos e que aceitaram em participar deste estudo, atravs da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Como critrios de excluso, foram desconsiderados os pilotos que possuam perda auditiva condutiva. Dessa forma, foram excludos dois aviadores, sendo a amostra composta de 41 pilotos agrcolas.

Para a coleta dos dados, os indivduos responderam um questionrio (Apndice A) com perguntas referentes sua rotina de trabalho e, posteriormente, foram submetidos meatoscopia e audiometria tonal liminar. Foram pesquisados os limiares audiomtricos de via area das frequncias de 250Hz a 8000Hz e de via ssea de 500Hz a 4000Hz. Foi considerado padro de normalidade limiares audiomtricos iguais ou menores que 25dBNA. Para a execuo da Audiometria Tonal Liminar foram utilizados dois audimetros de dois canais, cada um, da marca Grason-Stadler, modelo GSI 61, com calibrao de 29/09/2008. Para a anlise dos dados audiolgicos por indivduo, foi utilizada a classificao audiomtrica proposta por Fiorini (24), sendo divididos em trs grupos:

Grupo I: Limiares auditivos normais. Tal grupo foi subdividido em:

- Normalidade bilateral (limiares iguais ou inferiores a 25dB).

- Normalidade com entalhe unilateral (correspondendo ao rebaixamento dentro da normalidade nas frequncias de 3000, 4000 e/ou 6000Hz).

- Normalidade com entalhe bilateral (idem ao anterior, porm nas duas orelhas).

A caracterizao do entalhe auditivo utilizada neste trabalho determinada, pela mesma autora (24), como o rebaixamento das frequncias altas (3000Hz e/ou 4000Hz e/ou 6000Hz) de pelo menos 10dB de diferena com a frequncia anterior ou posterior.

Grupo II: Alterao audiomtrica sugestiva de PAIR (perda auditiva nas frequncias de 3000Hz e/ou 4000Hz e/ou 6000Hz). Subdivide-se em:

- PAIR unilateral (apresentando audiograma sugestivo de PAIR em uma orelha e a outra com normalidade).

- PAIR unilateral com entalhe na outra orelha (traado audiomtrico sugestivo de PAIR em uma orelha e presena de entalhe dentro da normalidade na outra).

- PAIR bilateral (em ambas as orelhas).

Grupo III: traado audiomtrico sugestivo de perda descendente bilateralmente ou unilateralmente.

A anlise estatstica foi executada no software Statistical Package for Social Science (SPSS) 10.0 for Windows.

A anlise descritiva das variveis avio, uso de equipamentos de proteo individual (EPI), tipo de EPI utilizado, tempo de vo dirio, contato com agrotxico, tipo de produto agrotxico, repouso auditivo, presena sintomas auditivos e extra-auditivos, tipos de sintomas, configurao audiomtrica foram descritas por meio de frequncias absoluta e relativas; as variveis idade e tempo de servio foram analisadas por meio da observao do clculo da mdia acompanhada pelo desvio padro; e das variveis: mdia dos agudos da orelha direita, mdia dos agudos da orelha esquerda, mdia dos graves da orelha direita, mdia dos graves da orelha esquerda foi realizada por meio da observao do clculo de mdia mediana e intervalo interquartil.

A comparao da mdia dos agudos e graves entre as orelhas foi realizada atravs do teste de Wilcoxon. Para verificar a correlao entre variveis quantitativas com distribuio normal foi utilizado o teste Qui-quadrado e para as sem distribuio normal foi usado o coeficiente de Spearman.

Todos os testes foram realizados na forma bi-caudal, admitindo-se como estatisticamente significativos os valores de P menores ou iguais a 0,05.


RESULTADOS

Resultados do questionrio

A populao estudada foi composta por 41 pilotos agrcolas, todos do sexo masculino, com mdia de idade de 38,1, desvio padro de 10,6 e faixa etria predominante de 31 a 40 anos (46,3%). A mediana do tempo de servio foi de 11 anos, sendo que a maioria dos indivduos (31,7%) so pilotos que possuem 11 a 20 anos de profisso. Quanto ao tempo de vo dirio, mais da metade (51,2%) voam de 5 a 8 horas por dia. Os dados das variveis encontram-se na Tabela 1.

Foram pesquisados os modelos de avies utilizados na aviao agrcola, os mais relatados foram: Ipanema Embraer 202 (43,2%), Ipanema Embraer 201-A (41,5%) e o Cessna AG Truck 188B (29,3%). Os modelos Ipanema Embraer 202-A, 201, 200-A e 200, corresponderam, juntos, a 24,4%.

Quanto ao uso de EPI durante os vos, os dados revelam que 95,3% dos pilotos (39 indivduos) utilizam tais equipamentos e 4,9% (dois indivduos) no o fazem. Com relao ao tipo de EPI (Figura 1), a maioria dos sujeitos (48,7%) relatou a utilizao combinada de abafador e plug de insero.

Mais da metade dos aviadores (58,5%) mencionaram que possuem algum tipo de contato com produtos agrotxicos, enquanto que 41,5% no tm qualquer contato. Dos pilotos que tm contato, 41,7% (n=10) relataram ter contato com todos os tipos de agrotxicos (herbicida, inseticida, fungicida e maturador). O inseticida foi o produto mais citado pela amostra estudada, constituindo 95,8% das respostas, seguido do herbicida 87,5%, logo aps o fungicida com 83,3% e o maturador com 45,9% das respostas.

A grande maioria dos pilotos (70,7%) alegou ter realizado mais de 14 horas de repouso auditivo antes do exame de audiometria, 12,2% citaram ter feito de 11 a 14 horas de repouso, 9,8% fizeram de 9 a 10 horas, 2,4% realizaram 5 a 8 horas e 2,4% relataram menos de 4 horas de repouso auditivo.

Foi pesquisada a presena de sintomas auditivos e extra-auditivos, afirmada por 53,7% dos pilotos (n=22) e negada por 46,3%, sendo o zumbido (54,5%) o sintoma de maior prevalncia entre os 22 indivduos, e constituindo 29,3% de respostas entre a amostra estudada (Tabela 2). Dos indivduos que referiram queixa de zumbido (n=12), 50% pertence ao Grupo I e 50% ao Grupo II.

Resultados da avaliao audiolgica

Com relao aos dados audiolgicos, a mdia das frequncias altas (3000, 4000 e 6000Hz) da orelha direita foi de 12,11dB e a mediana 10dB (intervalo interquartil: 5 a 18,33) e da orelha esquerda 13,05dB com mediana de 8,33dB (intervalo interquartil: 5 a 22,49), a mdia das frequncias de 500, 1000 e 2000Hz, em ambas as orelhas, foi de 6,66dB (OD: 3,33 a 10; OE: 2,50 a 8,33).

Na anlise da avaliao audiomtrica, foi possvel verificar audio dentro dos padres de normalidade (Grupo I) em 28 indivduos (68,3%) e 13 pilotos (31,7%) com audiogramas alterados. Os dados encontram-se na Tabela 3.

Analisando os 28 audiogramas do Grupo I (100,0%), verificamos que 17,9% de indivduos possuem limiares normais sem entalhe, 35,7% denotam presena de entalhe unilateral e 46,4% com presena de entalhe bilateral.

J no Grupo II, dentre os 12 audiogramas avaliados (100,0%), percebemos que 25% dos pilotos apresentam perda auditiva sugestiva de PAIR unilateral, 25% possuem perda auditiva unilateral com entalhe, dentro da normalidade na outra orelha e 50% classificam-se como perda auditiva bilateral.

No Grupo III foi encontrado apenas um sujeito com perda auditiva relacionada a outras causas, sendo esta unilateral.

No encontrou-se relao estatisticamente significante nas comparaes feitas das variveis idade, uso de EPI, tempo de vo dirio e contato com agrotxico, com a classificao audiomtrica segundo Fiorini (24) (Tabela 4).

Atravs do teste de Wilcoxon foram comparadas as mdias dos graves com a mdia dos agudos em cada orelha, encontrando-se diferena estatisticamente significativa (OD: p=0,002; OE: p<0,001). Tal diferena no foi identificada na comparao das frequncias agudas entre as orelhas (p=0,237), indicando simetria das mesmas.

Na Tabela 5 esto as descritas as correlaes realizadas das variveis tempo de servio e repouso auditivo com a mdia dos agudos das orelhas direita e esquerda, mostrando relao estatisticamente significante no tempo de servio com a mdia dos agudos das orelhas.

Verificando a distribuio das variveis idade, tempo de vo dirio e tipo de EPI utilizado, com a classificao dos subgrupos proposta por Fiorini (24) (Tabela 6), observa-se ligeira homogeneidade na varivel idade e maior nmero de indivduos com perda auditiva sugestiva de PAIR que pilotam de 5 a 8 horas por dia. Com relao aos EPIs utilizados, em todos os tipos h presena de perda auditiva e/ou limiares auditivos normais com configurao de entalhe.



Figura 1. Distribuio do tipo de EPI utilizado pelos aviadores.













DISCUSSO

Este estudo teve como limitao a ausncia de literatura nacional e escassez de trabalhos em nvel internacional relacionados aviao civil, principalmente na aviao agrcola, de tal forma que realizamos a maioria das comparaes dos achados com a literatura relacionada PAIR dentro de outras reas de trabalho.

De acordo com os resultados da amostra estudada (n=41), a faixa etria variou entre 25 e 66 anos, com maior nmero de indivduos na faixa dos 31 a 40 anos (n=19), seguido de 18 a 30 anos (n=9), constituindo, assim, uma populao adulta jovem em plena atividade profissional. Outros estudos tambm mencionam possuir mdia e maior concentrao de trabalhadores dentro desta faixa etria (3, 7). Observando a Tabela 6, vemos que em todas as idades h presena de perda auditiva, sendo esta relativamente homognea. Assim, podemos inferir que, na amostra estudada, a varivel idade no se mostrou expressiva, j que correlacionando com a configurao audiomtrica no houve relao estatstica significante (p=0,149).

O tempo de servio demonstrou que 26,8% dos aviadores (n=11) trabalham na aviao agrcola de 1 (um) a 5 anos e 12,2% pilotam de 6 a 10 anos, considerados como um curto espao de tempo de exposio. Porm, trabalhadores que possuem at 10 anos de exposio podero apresentar perda auditiva instalada em um estgio inicial, mas com danos irreversveis (14). O maior agrupamento de indivduos (31,7%) de pilotos agrcolas entre 11 a 20 anos de profisso, sendo um tempo considervel de exposio. Foi possvel verificar dependncia estatstica significante entre o tempo de servio com a mdia dos agudos (OD: p=0,030; OE: p=0,010), indicando que pilotos com maior tempo de profisso tero a mdia das frequncias agudas de maior valor. Esse achado tambm foi encontrado nos estudos de LOPES et al (18), e condiz com a histria natural da PAIR quanto ao agravamento da mesma, se mantida a exposio ao rudo (14).

Um fator preocupante na aviao agrcola o tempo de exposio diria ao rudo, onde verificamos que 36% dos pilotos (n=15) voam de 9 a 12 horas por dia e 56,1% (23 indivduos) trabalham diariamente de 5 a 8 horas. Embora no tenha sido encontrada relao estatstica significante entre o tempo de vo dirio com a configurao audiomtrica (p=0,609), na Tabela 6 podemos verificar que as perdas auditivas concentram-se na faixa de tempo de exposio entre 5 e 12 horas dirias. Percebemos que em todos os grupos h presena de entalhe tanto unilateral quanto bilateral mostrando que o rudo pode afetar a audio mesmo com tempo mnimo de exposio. Um dado curioso que o grupo que mencionou voar de 5 a 8 horas por dia mais afetado pelo rudo do que o grupo que pilota entre 9 a 12 horas. Porm, este dado pode ser explicado pelo fato que, em tempos de safra, o nmero de horas de vo por dia aumenta, uma vez que os prazos para trmino das aplicaes so curtos e neste perodo que o piloto agrcola possui maior demanda de trabalho. Assim, evidenciamos a importncia de verificar as horas de vo neste perodo. Tal fator preocupante, pois no h consenso legal sobre os limites dirios/ mensais de vo na aviao agrcola. A lei que vigora sobre todos os aeronautas a Lei 7.183/84 (25), que estabelece que uma tripulao simples pode voar 9 horas e 30 minutos por dia, com mximo de 11 horas de jornada de trabalho.

Quanto aos avies, os trs modelos mais utilizados (Ipanema Embraer 202, Ipanema Embraer 201-A e Cessna AG Truck 188B), so avies monomotores, com mdia de 300 cavalos de potncia (HP). O avio Ipanema Embraer 201-A e os modelos anteriores a ele (modelos 201, 200-A e 200), possuem seu escapamento nas laterais frontais, direcionados cabine do piloto. O rudo gerado acaba por atingir diretamente o cockpit em intensidades elevadas. Os modelos Ipanema Embraer 202, 202-A e Cessna AG Truck 188B possuem seu escapamento na parte inferior do avio evitando que o rudo, produzido pelo mesmo, alcance diretamente a cabine do aviador (26). KIEFER et al (23), fizeram uma anlise de dois avies agrcolas Rockwell Thrush SR2, sendo monomotores de 600HP. O monitoramento de rudo destes avies demonstrou que o nvel equivalente de rudo (Leq) ficou entre 103dB(A) e 104dB(A). Tais valores ultrapassam os limites de tolerncia fixados pela Norma Regulamentadora no 15 do Ministrio do Trabalho (27), que define 85 dB para 8 horas de trabalho. Assim, fica clara a importncia da avaliao do nvel de rudo destes avies, a fim de proporcionar valores reais para cada avio e, a partir disso, pensar em propostas de preveno.

O Regulamento Brasileiro de Homologao Aeronutica (RBHA) 137 (28) estabelece que qualquer operao aeroagrcola no ser realizada sem que os tripulantes utilizem mscara para respirao com filtro contra inalao de produtos txicos e capacete anti-choque com dispositivos para fixao de viseiras e abafadores de rudo. O uso de EPI para a audio foi confirmado por 95,1% dos pilotos (n=39), embora 4,9% (n=2) no sigam a determinao legal. Tal lei menciona apenas o uso de abafadores, mas mais da metade da populao (51,2%) utiliza o uso combinado de abafador e plug de insero, sendo uma informao positiva quanto ao interesse da preveno de perdas auditivas. No entanto, mesmo com esta medida, as perdas auditivas mantm-se presentes (Tabela 6). Isto ocorreu tambm com o uso isolado do abafador, que aparentemente se mostrou menos eficaz do que a medida anterior. Em todos os tipos de EPI foi vista a presena de entalhe, indicando que a atenuao pode no ser suficiente para o nvel de rudo e/ou o tempo de exposio pode estar contribuindo para o seu aparecimento. KIEFER et al (23) estudou o uso de capacete para vo, tendo o nvel de reduo de rudo (NRR) de 8,3dB. Comparado ao nvel de rudo, concluiu que os capacetes, isoladamente, no oferecem proteo suficiente exposio durante os vos.

Com relao aos agrotxicos, 58,5% dos pilotos mencionaram ter contato com esses produtos, um nmero considervel de indivduos que esto expostos aos seus efeitos nocivos. Os inseticidas seguido dos herbicidas, foram os agrotxicos mais citados pela populao, dado semelhante ao encontrado por outros estudos (21,22). De acordo com MONQUERO et al. (22), as intoxicaes por agrotxicos podem ser agudas ou crnicas. Na primeira, os sintomas so dores de cabea, tonturas, diarreia, fraqueza, perturbao da viso, dores de estmago, sonolncia, salivao e/ou suor excessivos e dificuldades respiratrias. J na crnica, os efeitos podem surgir meses ou anos aps a exposio. Testamos a correlao entre o contato com o agrotxico e a classificao audiomtrica, no sendo encontrada relao estatstica significante. Contudo, verificamos que h uma tendncia estatstica, j que o valor do p (p=0,088) ficou prximo ao nvel de significncia (p=0,050). Por isso, ressaltamos a necessidade de uma investigao mais aprofundada acerca dos efeitos dos produtos agrotxicos audio desta populao, uma vez que a exposio aos agentes ototxicos preocupante.

A Portaria n 19/98 (9) define que at a realizao do exame de audiometria, o trabalhador dever permanecer em repouso auditivo por no mnimo 14 horas, o que foi seguido por 70,7% dos pilotos (n=29). Como 29,3% dos aviadores no fizeram o devido repouso auditivo, verificamos se a mdia dos agudos foi influenciada pelo tempo do repouso (Tabela 5), no sendo encontrada relao estatstica significante (OD: p=0,786; OE: p=0,771).

O zumbido foi o sintoma otolgico de maior referncia pesquisada entre os indivduos que possuam tais sintomas, correspondendo a 54,5% das repostas. A prevalncia do zumbido relacionada ao nmero total de pilotos equivale a 29,3%, sendo o valor encontrado maior do que o estudo feito por STEINMETZ et al. (18), que correspondeu a 22%. A literatura coloca que o zumbido o primeiro sinal de alerta de uma exposio a sons de nveis de presso sonora elevados, podendo ser sintoma de mudana temporria do limiar (10). Para tanto, dos 12 aviadores que referiram queixa de zumbido, metade possuem limiares auditivos dentro da normalidade (quatro com configurao de entalhe bilateral e dois com entalhe unilateral) e metade com perda auditiva sugestiva de PAIR.

A diferena estatstica significativa entre mdia de agudos e graves entre ambas as orelhas (OD: p=0,002; OE: p<0,001), juntamente com a constatao de simetria da mdia das frequncias agudas das mesmas (p=0,237), constituem quadro compatvel com a PAIR, por possuir caracterstica de queda predominante nas frequncias de 3000Hz, 4000Hz e 6000Hz e alterao auditiva simtrica (9,10,20).

Na classificao das audiometrias conforme Fiorini (24) verificamos que 29,3% dos pilotos agrcolas possuem perda auditiva sugestiva de PAIR, nmero maior que vrios estudos em outras reas ocupacionais, porm prximo aos resultados encontrados em pilotos de aeroclube (3) que apresentaram 30% de perda auditiva sugestiva de PAIR. Dentro dos audiogramas sugestivos de PAIR (n=12), metade dos indivduos possuem perda auditiva bilateral. Encontramos normalidade em 68,3% dos aviadores, no entanto, o dado mais surpreendente o nmero de audiogramas com configurao de entalhe, representando 24,4% com entalhe unilateral e 31,7% com entalhe bilateral, totalizando 56,1% da amostra estudada. Pela histria natural da PAIR, sabe-se que estes pilotos tendem a desenvolver perda auditiva com a continuidade da exposio (11,14). Somando os valores dos audiogramas sugestivos de PAIR com os audiogramas com configurao de entalhe, temos um total de 85,4% de pilotos agrcolas que so afetados pelos efeitos do rudo sobre a audio. Este um nmero extremamente relevante e que deve ser considerado no desenvolvimento de polticas de preveno da PAIR.












CONCLUSO

Com este estudo podemos concluir que os aviadores agrcolas esto realmente expostos aos efeitos ocasionados pelo rudo. Tal atividade ocupacional envolve contato com produtos agrotxicos, tempo de exposio ao rudo e ainda o nvel do prprio rudo. Embora haja o uso de EPI, as perdas auditivas apareceram na amostra estudada. A prova disso est na ocorrncia elevada de perdas auditivas sugestivas de PAIR e, ainda, pelo aparecimento de configurao de entalhe em mais da metade da populao.

Pudemos constatar que a idade no foi estatisticamente significante quando comparada com a classificao da audiometria, porm quanto maior o tempo de servio, maior o comprometimento das frequncias agudas. O zumbido foi o sintoma de maior prevalncia, afetando indivduos com perda auditiva e com audio normal.

Este um estudo inicial dentro da aviao agrcola. Esperamos que, com este trabalho, haja um maior direcionamento das equipes de sade e segurana do trabalho e das autoridades competentes para a sade do piloto agrcola, seja na preveno das perdas auditivas e dos demais riscos que esta populao est exposta, seja na promoo de sade. Para isso, so necessrios novos estudos e, talvez, repensar a prpria legislao deste tipo de aviao.


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1 Bacharel. Fonoaudilogo.
2 Mestrado. Professora do Curso de Fonoaudiologia do Centro Universitrio Metodista IPA e Fonoaudiloga Clnica do Me de Deus Center e Hopital Me de Deus de Porto Alegre / RS.
3 Especialista em Voz - CEFAC - POA. Fonoaudiloga militar (Tenente Coronel) - Chefe da Seo de Fonoaudiologia e chefe de Diviso de Ensino e Pesquisa do HACO - RS.

Instituio: Centro Universitrio Metodista IPA. Porto Alegre / RS - Brasil. Endereo para correspondncia: Lucas Foltz - Rua Alexandre da Motta, 943 - Apto 308 -Bairro Centro - Carazinho / RS - Brasil - CEP: 99500-000 - Telefone: (+55 54) 8401-2628 - E-mail: fono.lucasfoltz@hotmail.com

Artigo recebido em 15 de Abril de 2010. Artigo aprovado em 20 de Maio de 2010.
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