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Ano: 2010  Vol. 14   Num. 4  - Out/Dez Print:
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Influncia do Zumbido no ndice Percentual de Reconhecimento de Fala em Pacientes Normo-ouvintes
Influence of Tinnitus Percentage Index of Speech Recognition in Patients with Normal Hearing
Author(s):
Daila Urnau1, Paula Andreta Barros da Silva1, Llian Seligman2.
Palavras-chave:
Audio, Zumbido, Inteligibilidade da fala, Audiometria da fala, Grupos etrios, Distribuio por sexo.
Resumo:

Introduo: A compreenso da fala um dos aspectos mensurveis mais importantes da funo auditiva humana. O zumbido prejudica a qualidade de vida, prejudicando a comunicao. Objetivo: Investigar possveis alteraes no ndice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF) em indivduos portadores de zumbido que apresentem audio normal e analisar a relao entre zumbido, gnero e idade. Mtodo: Estudo retrospectivo, atravs da anlise de pronturios de 82 indivduos de ambos os gneros, com idade entre 21 a 70 anos, totalizando 128 orelhas com audio normal. As orelhas foram analisadas separadamente, e divididas em grupo controle, sem queixas de zumbido, e grupo estudo, com queixas de zumbido. Foram analisadas as variveis gnero e faixa etria dos grupos e verificada a influncia do zumbido no IPRF. Considerou-se normal, o percentual de 100% de acertos, e alterado, o valor entre 88 a 96%. Foram adotados estes critrios, j que o percentual inferior a 88% de acertos encontrado em indivduos com perdas auditivas neurossensoriais. Resultados: No se observou diferena estatisticamente significante entre as variveis faixa etria e zumbido, IPRF e zumbido, somente entre gnero e zumbido. Encontrou-se prevalncia de zumbido no gnero feminino (56%), maior ocorrncia de zumbido na faixa etria de 31 a 40 anos (41,67%) e menor ocorrncia entre 41 a 50 anos (18,75%) e quanto ao IPRF, houve maior percentual de alterado em indivduos portadores de zumbido (61,11%). Concluso: O zumbido no interfere no IPRF e no h relao entre zumbido e idade, somente entre zumbido e gnero.

INTRODUO

Existe uma forte correlao entre zumbido e perda auditiva (1), sendo que o zumbido encontrado em 65% das perdas auditivas neurossensoriais, 5% das perdas mistas e 4% das perdas condutivas, porm h dados que mostram a presena de zumbido tambm em indivduos com audio normal (2). No ltimo caso, a presena isolada do zumbido pode ser o primeiro sintoma de alguma patologia que somente ser diagnosticada depois do aparecimento da perda auditiva.

O zumbido no caracterizado como uma doena, e sim como um sintoma, no entanto, afeta milhares de pessoas no mundo inteiro (3).

A compreenso da fala um dos aspectos mensurveis mais importantes da funo auditiva humana (4). O zumbido prejudica a qualidade de vida, causando prejuzo na comunicao (5).

Para um diagnstico audiolgico completo, imprescindvel a realizao das medidas de reconhecimento de fala (4). O ndice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF) tem por objetivo medir a inteligibilidade da fala, sendo realizado em uma intensidade fixa e confortvel ao paciente, o qual deve repetir o maior nmero de palavras monossilbicas corretamente (6,7). Pela anlise do IPRF, pode-se observar o grau de dificuldade para a compreenso da fala. considerado resultado dentro do esperado, quando o percentual for de 88 a 100% de acertos, sendo a intensidade apresentada a 40 dB acima da mdia tritonal (500, 1000 e 2000 Hz) (6).

A presena do zumbido e o baixo IPRF podem gerar alteraes significativas na comunicao do indivduo e consequentemente na qualidade de vida. O objetivo desse estudo investigar possveis alteraes no IPRF em indivduos portadores de zumbido que apresentem audio normal e analisar a relao entre zumbido, gnero e idade.


MTODO

Foi realizada uma pesquisa de natureza exploratria, com abordagem do problema de forma quantitativa, abrangendo atividades bibliogrficas e anlise de 480 avaliaes audiolgicas do banco de dados do Ambulatrio de Audiologia do Hospital Universitrio de Santa Maria (HUSM) atendidos nos anos de 2005, 2006, 2007 e de janeiro a agosto de 2008.

Os critrios de incluso para esta pesquisa foram: apresentar avaliao audiolgica normal, com presena ou ausncia de queixas de zumbido referidas na anamnese audiolgica e integridade do sistema tmpano-ossicular verificada atravs da imitanciometria (timpanograma de curva tipo A e reflexos acsticos presentes). Foi considerada avaliao audiolgica normal as que apresentaram limiares auditivos iguais ou inferiores a 25 dB nas frequncias de 250 a 8000 Hz (8).

A avaliao audiolgica foi constituda por:

 Audiometria tonal limiar (ATL);

 Logoaudiometria (Limiar de Recepo de Fala - LRF e ndice Percentual de Reconhecimento de Fala - IPRF);

 Imitanciometria (Timpanometria e Reflexos Acsticos).

O ndice Percentual de Reconhecimento de Fala (IPRF) a medida da inteligibilidade da fala em uma intensidade fixa na qual o indivduo consegue repetir corretamente o maior nmero de palavras. Utiliza-se uma lista de 50 palavras monosslabicas, sendo apresentadas 25 palavras em cada orelha, com intensidade de 40 dBNS. Espera-se que indivduos com audio normal apresentem entre 92 a 100%, ou seja, o individuo poder apresentar at dois erros (7).

Das 480 avaliaes audiolgicas analisadas, somente 82 estavam de acordo com os critrios de incluso. Essas avaliaes foram divididas em: Grupo Controle (GC), composto por indivduos sem queixa de zumbido e Grupo Estudo (GE), composto por indivduos com queixa de zumbido, porm, nesse estudo, foram analisadas as orelhas separadamente dentro dos critrios supracitados. Os dois grupos foram compostos por indivduos de ambos os sexos.

A idade da amostra variou entre 21 a 70 anos de idade. Os pacientes foram classificados em cinco faixas etrias:

 Faixa 1: entre 21 a 30 anos;

 Faixa 2: entre 31 a 40 anos;

 Faixa 3: entre 41 a 50 anos;

 Faixa 4: entre 51 a 60 anos;

 Faixa 5: entre 61 a 70 anos.

Foram analisadas estatisticamente as variveis gnero e zumbido, faixa etria e zumbido, assim como a influncia do zumbido no IPRF do Grupo Estudo.

Para anlise estatstica, esse estudo classificou os resultados do IPRF como, IPRF sem influncia, quando o percentual obtido foi de 100% de acertos e como IPRF com influncia, quando o valor encontrado foi 92 e 96%. Foram adotados estes critrios, j que o estudo foi composto apenas de indivduos normo-ouvintes, ou seja, que apresentaram IPRF acima de 88%. O percentual inferior a 88% de acertos encontrado em indivduos com perdas auditivas neurossensoriais (7).

Os grupos foram analisados estatisticamente atravs dos testes no-paramtricos qui-quadrado e teste de diferena entre duas propores, sendo o valor de significncia de 0,05 (5%), o que estatisticamente significante quando o valor de significncia calculada (p) for menor do que o nvel de significncia adotado.

O presente estudo est vinculado ao Projeto "Pesquisa e base de dados em sade auditiva", estando devidamente registrado no Comit de tica em Pesquisa, sob o nmero 0138.0.243.246-06.


RESULTADOS

Pelos critrios de incluso, foram selecionados 82 indivduos, totalizando 128 orelhas com audio normal. Para este estudo foram analisadas as orelhas separadamente, dentro dos critrios de incluso, pois cada orelha apresenta comportamento estatisticamente independente.

O grupo controle (GC) foi composto por 56 orelhas, de pacientes com idade entre 22 e 66 anos, 42 do sexo feminino e 14 do sexo masculino.

O grupo estudo (GE) foi composto de 72 orelhas, de pacientes com idade de 21 a 70 anos, 40 orelhas do sexo feminino e 32 do sexo masculino.

Dos 480 pronturios, 17,08% apresentaram audio normal e 7,5% apresentaram queixas de zumbido, sendo ambos analisados neste estudo.

Houve prevalncia do gnero feminino em ambos os grupos, com percentual de 56% no grupo estudo e 75% no grupo controle (Grfico 1). Com relao ao gnero e a presena ou ausncia de zumbido, foi encontrada diferena significativa, atravs do teste qui-quadrado (p=0,023). Esta diferena encontrada deve-se ao elevado nmero de indivduos do sexo feminino no grupo controle.

Foi utilizado o teste qui-quadrado para comparar a varivel gnero com IPRF sem influncia e IPRF com influncia, porm no houve diferena significante (p=0,787), no entanto, nota-se que houve maior nmero de IPRF com influncia no gnero feminino (Tabela 1).

Entre os indivduos do GE (com queixas de zumbido), observou-se que a faixa etria de 31 a 40 anos (faixa 2) apresentou maior ocorrncia de zumbido (41,67%) (Grfico 2), porm, a mdia de idade dos indivduos com IPRF sem influncia (41,43 anos) e IPRF com influncia (41,57 anos) encontra-se na faixa etria de 41 a 50 anos (faixa 3).

Comparando as faixas etrias da amostra, observou-se que a faixa etria que menos apresentou queixa de zumbido foi a de 41 a 50 anos (faixa 3), com 18,75%. A que apresentou mais queixas de zumbido, foi a faixa 2 (de 31 a 40 anos), com 23,44%, concordando com o grfico anterior (Grfico 2). A faixa etria 5 (de 61 a 70 anos) foi a que apresentou menor nmero de orelhas em ambos os grupos (Grfico 3).

Analisando as variveis zumbido e IPRF de ambos os grupos, no se observou diferena estatisticamente significante, quando aplicado o teste do qui-quadrado
(p = 0,20). Porm, verificou-se que h maior percentual de IPRF com influncia em pacientes portadores de zumbido (61,11%) em relao a no-portadores (50%). Comparando ainda, os IPRF com influncia de ambos os grupos, atravs do teste para diferena entre duas propores (p=0,21) no se observou diferena estatisticamente significante (Grfico 4).






Grfico 1. Indivduos distribudos quanto varivel gnero.




Grfico 2. Amostra de indivduos com zumbido distribudos quanto varivel faixa etria.




DISCUSSO

De acordo com o National Institute of Health, o zumbido um sintoma muito frequente, afetando cerca de 15% dos americanos (9). Um estudo (10) a respeito da prevalncia do zumbido em uma amostra aleatria de uma capital brasileira, concluiu que 25% dos pesquisados apresentaram essa queixa, independente da configurao audiomtrica apresentada. Porm, neste estudo, com apenas indivduos com audio normal, 7,5% do total de indivduos atendidos no perodo estudado, apresentaram queixas de zumbido. Este achado concorda com a literatura, que refere (1, 11) percentual muito prximo a este (7,4% e 8 a 10%).

O gnero feminino prevaleceu nos dois grupos (Grfico 1), sendo encontrada diferena estatisticamente significante entre os grupos. Estes achados corroboram com outro estudo (1) semelhante, no qual a proporo de mulheres tambm foi maior em ambos os grupos, (67,3% no grupo de estudo e 55,6% no grupo controle), porm no houve diferena significante entre os grupos.

O estudo abrangeu uma extensa faixa etria (21 a 66 anos). Para alguns autores (12) o zumbido pode acometer todas as faixas etrias. A faixa etria que apresentou maior nmero de indivduos portadores de zumbido foi a de 31 a 40 anos (41,67%). Resultado semelhante a esse foi encontrado na literatura (13), a qual refere maior nmero de indivduos com idade abaixo de 40 anos (46,6%).

Algumas pesquisas (1,14) afirmam que o zumbido aparece aps os 40 anos e outro estudo referiu mdia de idade do grupo com queixa de zumbido de 45,62 anos (14). Contrariando esses estudos, verificou-se que indivduos entre 41 a 50 anos (faixa 3) apresentaram menos queixas de zumbido.

Com relao idade, encontraram-se poucos indivduos na faixa de 61 a 70 anos em ambos os grupos. Acredita-se que este nmero reduzido de indivduos deve-se alta incidncia de perda auditiva nesta faixa etria, a qual no se inclui nos objetivos desse estudo. H predomnio de perda auditiva em pacientes idosos, geralmente com mdia de idade igual a 65 anos (2). A literatura (15) ainda aponta o aumento do zumbido com o aumento da idade.

Cerca de 95% da populao normal j sentiu zumbido, mas ele considerado importante quando se torna contnuo e incomodativo (16). Os casos de zumbido em indivduos com audio normal constituem uma amostra muito importante, pois suas caractersticas podem ser atribudas exclusivamente ao zumbido, e no perda auditiva (17). Nesses casos, o impacto maior, causando ansiedade, irritao, tenso, insnia e, algumas vezes, at depresso (18,19).

O paciente portador de zumbido deve sempre ser submetido avaliao mdica para diagnstico e tratamento de possvel patologia de base (20). Acredita-se que nos indivduos acometidos, ocorra uma perda da modulao das clulas ciliadas externas com as clulas ciliadas internas normais, gerando uma atividade anormal das vias auditivas, interpretadas de forma errnea como um som. As clulas ciliadas externas mais susceptveis leso so aquelas localizadas na regio mais basal da cclea. Outra hiptese para a ocorrncia de zumbido em indivduos sem perda auditiva, poderia ser explicada pelo dano difuso de at 30% das clulas ciliadas externas em toda a espiral da cclea, sem haver o comprometimento do limiar auditivo (3).

Em vista disso e considerando que, o zumbido na maioria dos casos, um problema debilitante (21) podendo levar at o portador tentativa de suicdio (22), ressalta-se a importncia da investigao sobre o zumbido.

Sua causa ainda indefinida, porm existem inmeras hipteses. Pode ser um sintoma de algumas patologias, tais como: otolgicas, metablicas, psiquitricas, odontolgicas, traumticas, cardiovasculares, neoplsicas, neurolgicas e farmacolgicas (9, 23,24).

Sabe-se que o zumbido um transtorno que produz incmodo na vida social, no desempenho profissional e at mesmo na relao familiar (25). Na maioria das vezes, pode tornar-se intolervel, passando a interferir no sono, na concentrao e no equilbrio emocional (26).

Houve maior nmero de IPRF com influncia no gnero feminino, provavelmente devido a prevalncia desde gnero nos dois grupos estudados. A idade mdia dos indivduos de IPRF com influncia encontrou-se na faixa etria de 41 a 50 anos (faixa 3). Uma das possveis explicaes para esta piora no reconhecimento da fala, principalmente nessa faixa etria, seria o incio do efeito do envelhecimento, alm da influncia do zumbido. Um estudo (27) sobre envelhecimento e reconhecimento de fala em indivduos normo-ouvintes, pela anlise dos limiares de sentenas no silncio e no rudo, constatou que o reconhecimento de fala de indivduos com mais de 50 anos foi significativamente inferior a de adultos jovens.

No se encontraram estudos que relacionam zumbido e os testes de fala. No estudo realizado, no foi encontrada relao significativa entre a presena de zumbido e a diminuio do IPRF em pacientes com audio normal.

H na literatura relatos (28) correlacionando zumbido e dificuldade de compreenso de fala em indivduos com queixa de perda auditiva, sendo escassos os estudos em indivduos normo-ouvintes.



Grfico 3. Faixa etria x Nmero de pacientes.




Grfico 4. Percentual de pacientes x IPRF.




CONCLUSO

Concluiu-se que a presena de zumbido no interfere na inteligibilidade da fala, analisada atravs do IPRF, bem como no h relao entre zumbido e idade. Encontrou-se relao entre zumbido e o gnero feminino.

Devido aos resultados encontrados nessa pesquisa e da pouca literatura encontrada, sugerem-se mais estudos com amostras maiores sobre o presente assunto.


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1 Ps-graduanda em Distrbios da Comunicao Humana da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria / RS, Brasil. Fonoaudiloga.
2 Doutora Professora Adjunta do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria / RS, Brasil.

Instituio: Universidade Federal de Santa Maria / RS. Santa Maria / RS - Brasil. Endereo para correspondncia: Daila Urnau - Rua Vale Machado, 1605- Apto. 405 - Centro - Santa Maria / RS - Brasil - CEP: 97010-530 - Telefone: (+55 55) 3028-4070 / (+55 54) 9135-5594 - E-mail: daila_urnau@yahoo.com.br

Artigo recebido em 2 de Agosto de 2010. Artigo aprovado em 1 de Setembro de 2010.
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