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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Perfil dos Pacientes Atendidos em um Sistema de Alta Complexidade
Profile of the Patients Serviced in a High Complexity System
Author(s):
Maria Fernanda Capoani Garcia Mondelli1, Letcia de Sousa Lobo Silva2.
Palavras-chave:
perda auditiva, sistemas de sade, classificao.
Resumo:

Introduo: A deficincia auditiva (DA) pode acarretar srias consequncias para o desenvolvimento de fala e aprendizagem. Um recurso para a reabilitao do deficiente auditivo o AASI (Aparelho de Amplificao Sonora Individual). Medidas de informao a populao e aos profissionais da sade, e aprovao de legislao que garanta o acesso do deficiente auditivo ao acompanhamento para diagnstico e interveno precoces apresentam-se como medidas necessrias. Estes aspectos foram contemplados pelo Ministrio da Sade (MS) na publicao das Portarias GM n 2.073, de 28 de setembro de 2004 e 587, de 07 de outubro de 2004. A Clnica de Fonoaudiologia do Curso de Fonoaudiologia da FOB/USP est credenciada Portaria GM/MS n 2073 de setembro de 2004. Objetivo: traar o perfil do paciente atendido num sistema de alta complexidade com o objetivo de utilizar os resultados encontrados como ponto de partida para aquisio de AASI, planejamento de reabilitao auditiva e estruturao de grupos de acompanhamento para pacientes adaptados. Mtodo: estudo retrospectivo. Anlise dos pronturios de 185 pacientes regularmente matriculados no perodo de agosto de 2003 a agosto de 2009. Os dados levantados foram: gnero, idade, classificao social, procedncia, tipo e grau da DA, etiologia da DA, e tipo de AASI indicado. Resultados: houve prevalncia de pacientes idosos de classe baixa, do gnero masculino, com perda auditiva sensorioneural, bilateral e de grau moderado. Concluso: Predomnio da perda auditiva neurossensorial bilateral de grau moderado com maior ndice de pacientes idosos com uso de tecnologia digital em maior proporo.

INTRODUO

A presena de uma deficincia auditiva (DA) pode acarretar srias consequncias para o desenvolvimento de fala e aprendizagem. O impacto da DA na qualidade de vida do indivduo determinado pela idade da aquisio da perda, natureza, grau da perda, estilo de vida, ocupao profissional e percepo das consequentes desvantagens sociais e emocionais (1).

No mundo, a DA continua sendo um dos mais frequentes dficits sensoriais presentes na populao. Segundo dados do estudo Global Burdenof Disease (2), foi estimado que 278 milhes de indivduos no planeta tivessem algum tipo de deficincia auditiva de moderada a profunda em ambas as orelhas. Desta populao, 80% moram em pases em desenvolvimento, e cerca de 50% das perdas auditivas observadas poderiam ser evitadas com a preveno, diagnstico precoce e tratamento.

Um recurso de extrema importncia para a reabilitao do deficiente auditivo o AASI (Aparelho de Amplificao Sonora Individual). O AASI tem como funo captar os sons amplific-los e conduzi-los ao orelha do portador de DA (3). O uso do AASI representa uma grande chance de se modificar os rumos da relao do DA com o meio em que vive (4).

Medidas de informao a populao e aos profissionais da rea da sade, bem como, a aprovao de legislao que garanta o acesso do deficiente auditivo ao acompanhamento para diagnstico e interveno precoces apresentam-se como medidas necessrias. Estes aspectos foram contemplados pelo Ministrio da Sade (MS) na publicao das Portarias GM n 2.073, de 28 de setembro de 2004 e 587, de 07 de outubro de 2004 (5,6).

Com a adoo de polticas pblicas voltadas sade auditiva, a Portaria 587 responsabilizou a ateno bsica nas aes de promoo sade auditiva, de preveno, identificao precoce e aes informativas e educativas, orientao familiar e encaminhamentos quando necessrio para o Servio de Ateno Sade Auditiva na Mdia e na Alta Complexidade que assegura a assistncia especializada s pessoas com doenas otolgicas e em especial s pessoas com DA.

A Clnica de Fonoaudiologia do Curso de Fonoaudiologia da USP/ Campus Bauru est credenciada Portaria GM/MS n 2073 de setembro de 2004, que institui a poltica nacional de ateno sade auditiva a ser implantada em todas as unidades federadas, respeitadas as competncias das trs esferas de gesto, e consequentemente oferece conhecimento relacionado ao deficiente auditivo e a forma de reabilitao do mesmo.

Os atendimentos populao se iniciaram no ms de agosto de 2003, a clnica atende at a presente data aproximadamente 1640 pacientes da cidade de Bauru e regio, sendo que semanalmente novos pacientes so encaminhados pela Diviso Regional de Sade (DRS). So prestados servios como encaminhamento ao Otorrinolaringologista, diagnstico, seleo e adaptao do AASI assim como a reabilitao auditiva.

Os servios de ateno Sade Auditiva oferecidos pela Clinica de Fonoaudiologia de Bauru, sendo esta de Alta Complexidade, encontram-se submetidos regulao, fiscalizao, controle e avaliao do gestor estadual e municipal, conforme as atribuies estabelecidas nas respectivas condies de gesto.

Nosso objetivo caracterizar os pacientes atendidos em um servio de alta complexidade em sade auditiva com relao ao gnero, tipo e grau de perda auditiva, classe scio econmica e aparelho de amplificao sonora individual.


MTODO

Este projeto de pesquisa foi aprovada pelo Comit de tica em Pesquisa em Seres Humanos da FOB/USP, sob o parecer no. 051/2009.

A populao da pesquisa foi constituda por indivduos deficientes auditivos regularmente matriculados na Clinica de Fonoaudiologia da FOB/USP no perodo de agosto de 2003 a agosto de 2009, que totaliza 1640 pacientes. O tamanho da amostra foi calculado partindo de uma significncia estimada de 10% com preciso de 1,4%, intervalo de confiana e efeito de delineamento de 2,0. O clculo amostral foi realizado no programa EPI-INFO 6 e para determinar quantos sujeitos deveriam ser avaliados, sendo sorteados 10% destes como amostragem aleatria sistemtica.

Com base nesta metodologia, os pesquisadores avaliaram 185 pronturios

Os dados pontuados foram: gnero, idade, classificao social, procedncia, tipo e grau da DA, etiologia da DA, e tipo de AASI indicado.

Para consecuo do estudo proposto o pronturio deveria conter avaliao otorrinolaringolgica, audiometria tonal limiar completa, classificao scio - econmica segundo critrios de GRACIANO (7) e diagnstico etiolgico definido quando este estiver presente no pronturio, referido por um dos mdicos da equipe.

Para classificao da perda auditiva foram utilizados os limiares audiomtricos das frequncias de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, caracterizando como perda auditiva leve (mdia de 26 a 40 dBNA), moderada (mdia de 41 a 60 dBNA), severa (mdia de 61 a 80 dBNA) e profunda (mdia acima de 81 dBNA), segundo a WHO (8), com analise da melhor orelha para incluso dos dados no estudo.

A classificao scio-econmica dos pacientes foi baseada em critrios: na escolaridade dos membros da famlia, destacado o maior nvel declarado, do responsvel ou do prprio paciente: Superior (S), Superior Incompleto (SI), Ginsio Completo (GC), Ginsio Incompleto (GI), Primrio Completo (GC), Ginsio Incompleto (GI), Sem escolaridade/ analfabeto (S). Esta classificao foi utilizada para definir a escolaridade dos sujeitos do estudo ou dos responsveis no caso de crianas, quando entraram no servio. A classificao social foi assim caracterizada: Baixa Inferior (BI), Baixa Superior (BS), Mdia Inferior (MI), Mdia (M), Mdia Superior (MS) e Alta (A). Toda a classificao caracteriza-se por um sistema de pontuao.

Para a anlise dos resultados foram aplicados os testes do Qui-quadrado e exato de Fisher.


RESULTADOS

Foram analisados 185 pronturios sendo constatados: 54% do gnero masculino e 46% do feminino, com faixa etria de 7 a 96 anos, sendo em sua maioria idosos (48%), dentre eles 44% do gnero masculino (mdia de 77 anos) e 53% do gnero feminino (mdia de 78 anos). Os indivduos foram diagnosticados com perda auditiva: 18% unilateral e 82% bilateral.

Os Grficos 1 e 2 representam os valores encontrados para o tipo e o grau da perda auditiva, por gnero.

Todos os pacientes fazem uso de AASI, sendo em sua grande maioria digital. O Grfico 3 apresenta os dados encontrados quanto tecnologia utilizada. Sendo 71% retroauricular, 16% intra-canal, 10% micro-canal e 3% intra-auricular.

Os pronturios analisados evidenciaram que 36% dos pacientes eram da cidade de Bauru, 97% de outras cidades do estado de So Paulo e 3% de outros estados. Dentre os 185 pronturios analisados apenas quatro pacientes apresentam laudo diagnstico sendo: 2 presbiacusia, 1 otosclerose e 1 traumatismo cranioenceflico, no sendo possvel considerar os dados coletados como estatsticos.

O Grfico 4 apresenta os dados relacionados classificao social.



Grfico 1. Tipos de deficincia auditiva.




Grfico 2. Grau de deficincia auditiva.




DISCUSSO

A partir dos dados coletados, pode-se concluir a predominncia da perda neurossensorial moderada bilateral em ambos os gneros. A prevalncia da surdez neurossensorial bilateral foi encontrada em outros estudos realizados com populaes diversas (9 10).

Segundo pesquisas (11, 12), de uma forma geral, h um consenso no s sobre o declnio da funo auditiva relacionado ao processo natural de envelhecimento humano, como tambm em relao ao maior prejuzo auditivo nos homens do que nas mulheres. Tais dados corroboram com os resultados da amostra utilizada nesta pesquisa, que constatou 54% de pacientes do gnero masculino e 46% do gnero feminino.

O Brasil um pas com significante crescimento da populao idosa. Atualmente, 16.8 milhes de pessoas no Brasil tm 60 anos de idade ou mais, numa populao total de 183 milhes de pessoas (13). Espera-se alcanar um total de 32 milhes de idosos at o ano de 2024. Consequentemente, o Brasil est includo no panorama mundial do aumento da longevidade humana (14). Devido ao referido aumento, observa-se um maior empenho dos profissionais da rea de sade no atendimento aos problemas inerentes ao envelhecimento, no sentido de ajudar a preservar suas funes ou adaptarem-se as modificaes que ocorrem durante o processo (15). Foi observado que 48% da populao so de indivduos com mais de 65 anos de idade

A Poltica Nacional de Sade da Pessoa Portadora de Deficincia (16) faz referncia literatura internacional, provavelmente pela falta de estudos de base populacional em mbito nacional, definindo como presbiacusia a perda auditiva devido idade, que vem sendo apontada como a principal causa de deficincia auditiva nos idosos, com uma prevalncia de cerca de 30% na populao com mais de 65 anos de idade. A presbiacusia acarreta uma reduo na compreenso da fala, o que compromete o processo de comunicao e interfere no convvio social, na vida psicolgica e profissional trazendo tambm sentimentos de insegurana, medo, depresso e isolamento (17 18).

O sistema pblico de sade no Brasil oferece conforme a Portaria 587 o processo de reabilitao, indo desde o diagnstico da deficincia auditiva at o aconselhamento ao indivduo usurio de AASI (6). H a realidade de que nos pases em desenvolvimento, com alta prevalncia de deficincia auditiva, os AASI digitais podem representar uma barreira ao tratamento, em funo do custo. Acredita-se que, no futuro, no muito distante, a maioria, se no todos os AASI sero de tecnologia digital, com maior flexibilidade de tecnologia resultando em melhores estratgias de adaptao, aumentando o benefcio dos usurios e diminuindo os custos tanto para os servios de sade (19). Tal afirmativa pode ser constatada nos resultados encontrados, onde 73% dos AASI adaptados so de tecnologia digital.

A tecnologia digital permite que tenhamos muito mais informao com relao ao sinal amplificado, seja este de fala ou rudo ambiental, a fim de que possamos suprir as necessidades auditivas individuais. A habilidade em manipular vrios parmetros de desempenho, juntamente com a habilidade para modific-los separadamente, torna-se um argumento forte para que a tecnologia digital continue a ser empregada para suprir as necessidades acsticas das pessoas com deficincia auditiva (20).

A maior flexibilidade da nova tecnologia deve resultar em melhores estratgias de adaptao, aumentando o benefcio dos usurios e diminuindo os custos tanto para os servios de sade como para os prprios consumidores, que ainda em sua maioria pagam pelos seus AASI (19).

Os aparelhos de amplificao sonora de tecnologia digital utilizam dezenas a milhares de transistores que possibilitam um processamento do sinal acstico muito superior ao da tecnologia analgica. O aparelho consiste de circuitos eletrnicos e transdutores, que chamamos de hardware e de um software, que permitem controlar tais circuitos digitalmente e com refinada preciso (20). Na literatura, possvel encontrar referncias a muitas vantagens dos aparelhos digitais sobre os analgicos, como, por exemplo, a capacidade de programao, maior preciso no ajuste dos parmetros eletroacsticos, controle da realimentao acstica, reduo de rudo, melhor reprodutibilidade, alm de controle automtico do sinal e menor rudo interno.

Os aparelhos mais indicados foram os retroauriculares (71%). Tal dado pode ser justificado por diversos fatores vivenciados em um programa de ateno a sade auditiva, como por exemplo, as cotas de compras dos aparelhos onde muitas vezes nas licitaes no h compras de aparelhos auditivos intracanais, a habilidade motora dos pacientes, em grande parte idosos (48%) e finalmente podemos sugerir o custo das pilhas que apresentam menor durabilidade nos intracanais, porm com custo semelhante ao aparelhos retroauriculares. Este dado vai de encontro pesquisa realizada em Tocantins (21), onde a totalidade dos sujeitos avaliados eram usurios de AASI retroauricular concedidos pelo Ministrio da Sade.

Estudo (22) refere que a prevalncia da etiologia desconhecida para a perda auditiva aponta para a necessidade do aprofundamento no diagnstico etiopatolgico (estudos genticos, de imagens e laboratoriais) como rotina para se obter as causas da mesma. Observou-se que neste estudo, dos 185 pronturios analisados apenas quatro apresentaram diagnstico etiolgico.

De acordo com as estratgias desta nova poltica, o processo de reabilitao audiolgica passa a envolver um trabalho muito mais amplo que prev a adaptao de AASI de fluxo contnuo, com acompanhamento mdico e fonoaudiolgico, tanto para ajustes como para verificaes peridicas das condies tcnicas e do benefcio obtido com o uso desses equipamentos, e quando necessrio de terapia fonoaudiolgica, alm de assistncia social e psicolgica (23).

Enquanto profissionais que atuam na rea dos distrbios da comunicao humana, importante sinalizar a importncia da audio para a manuteno das relaes interpessoais na sociedade, a qual deve ser o objetivo principal de um eficiente programa de reabilitao auditiva (24) e aquisio de AASI pertinente ao perfil da populao atendida.



Grfico 3. Tecnologias utilizadas nos aparelhos adaptados.




Grfico 4. Estudo da classificao social.




CONCLUSES

- Predomnio da perda auditiva neurossensorial bilateral de grau moderado com maior ndice de pacientes idosos.

- Avano tecnolgico com adaptao de AASI digitais em numero significativo de pacientes.

- Dificuldade do servio em esclarecer a etiologia da DA

- Predomnio de pacientes de classe baixa superior.

- Alto nmero de atendimentos de pacientes de outras cidades.


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1 Doutora em Distrbios da Comunicao pelo HRAC/USP. Professora Doutora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo.
2 Graduanda do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo.

Instituio: Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo. Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Maria Fernanda Capoani Garcia Mondelli - Alameda Octavio Pinheiro Brizola, 9-75 - Vila Universitria - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-901 - Telefone: (+55 14) 3235-8232 - E-mail: mfernandamondelli@hotmail.com

Bolsa de Iniciao Cientfica com fomento CNPq.

Artigo recebido em 28 de Agosto de 2010. Artigo aprovado em 20 de Novembro de 2010.
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