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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Perfil dos Pacientes do Programa de Sade Auditiva do Estado de Santa Catarina Atendidos no HU-UFSC
Profile of Patients of the Auditory Health of the State of Santa Catarina Served at HU-UFSC
Author(s):
Oscar Cardoso Dimatos1, Cludio Mrcio Yudi Ikino2, Paulo Arlindo Philippi3, Spyros Cardoso Dimatos4, Marlia Susane Birck1, Paulo Fontoura Freitas5.
Palavras-chave:
audio, perda auditiva neurosensorial, prtese auditiva.
Resumo:

Introduo: A audio uma das funes essenciais para o desenvolvimento da linguagem e sua deficincia pode levar a diversas consequncias. Objetivo: Descrever o perfil dos pacientes do Programa de Sade Auditiva do Estado de Santa Catarina atendidos no Hospital Universitrio da Universidade Federal de Santa Catarina. Mtodo: Realizou-se um estudo retrospectivo com os pacientes com indicao de protetizao auditiva atendidos nos anos de 2007 e 2008. Dividiram-se os pacientes em 2 grupos: peditrico (< 18 anos) e adulto (> 18 anos). Avaliou-se: idade, sexo, tipo e grau de perda, durao, comorbidades e etiologia provvel. Resultados: Analisaram-se 304 pronturios, sendo 10,2% do grupo peditrico e 89,8% do grupo adulto. No grupo peditrico, a idade mdia foi de 7,75,4 anos, com 58,06% meninos e 41,94% meninas, e no grupo adulto a idade mdia foi de 6116 anos, com 52,38% mulheres e 47,62% homens. Perda auditiva neurossensorial foi a mais encontrada nos 2 grupos. No grupo peditrico, perda de grau profundo foi o mais frequente e no grupo adulto, graus moderado e moderado-severo. As principais etiologias foram causas genticas/desconhecidas no grupo peditrico e presbiacusia no grupo adulto. Concluso: No grupo peditrico, a maioria de meninos, com perda neurossensorial, de graus leve e profundo, durao > 1 ano e sem comorbidades. No grupo adulto, a maioria de mulheres, com perda neurossensorial, de graus moderado e moderado-severo, durao > 5 anos e comorbidades.

INTRODUO

Conforme a Organizao Mundial da Sade (OMS), a deficincia auditiva o mais frequente dficit sensorial na populao humana, afetando mais de 250 milhes de pessoas no mundo (1). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), 3,37% da populao brasileira (estimada pelo censo de 2000 em 169.872.856 pessoas) apresenta deficincia auditiva. Dados divulgados pelo IBGE de 2000 mostram que 0,8% (406.588) dos brasileiros com idade at 14 anos apresentam perda auditiva, enquanto que 2,95% (3.240.263) dos brasileiros com idade de 15 a 64 anos e 21% (2.088.247) dos brasileiros com 65 anos ou mais apresentam deficincia auditiva. Na populao com perda auditiva e idade at 14 anos, 54,5% so homens; j no grupo com idade entre 15 e 64 anos, a proporo de 54,2%; e no grupo com 65 anos ou mais, 49,75% (2).

A audio uma das funes mais importantes para o desenvolvimento da linguagem e, portanto, para a comunicao. Entretanto, o impacto causado pela perda auditiva vem recebendo pouca ateno por parte da sociedade, governo e profissionais da sade (3). A deficincia auditiva leva a diversas consequncias, como a dificuldade para assimilar discursos, reduo da capacidade para comunicao, atraso na aquisio da linguagem nas crianas, isolamento social, desvantagem educacional e econmica, e estigmatizao (1,3).

As perdas auditivas tm etiologias diversas e podem ser classificadas quanto ao tipo, ao grau e idade de instalao. Quanto ao tipo, podem ser condutivas, neurossensoriais ou mistas. O grau pode ser leve, moderado, moderado-severo, severo, profundo. Quanto idade de instalao, distinguem-se as pr-natais, as perinatais e as ps-natais (3,4).

As causas pr-natais atuam durante a gestao, afetando o embrio, podendo ter como etiologias a rubola materna, os medicamentos ototxicos, alteraes genticas, a sfilis, a toxoplasmose e as infeces bacterianas. As causas perinatais comprometem o recm-nascido desde o incio do trabalho de parto at cerca de 8 dias aps o nascimento e os principais exemplos incluem o parto prolongado, a prematuridade, a anxia e o kernicterus. As causas ps-natais so adquiridas no decorrer do desenvolvimento. Podem afetar a orelha externa, como o cerume, as infeces e os traumatismos. As alteraes da orelha mdia podem ser: traumatismos, obstruo tubria, otites mdias. Quando ocorrem prejuzos orelha interna, a deficincia auditiva dita neurossensorial e, dentre as principais etiologias, esto as infeces, as drogas ototxicas e os tumores (4). Na idade adulta, ressalta-se a importncia do diagnstico de doenas como a presbiacusia e a perda auditiva induzida por rudo (5).

Devido alta prevalncia de disacusia e as consequncias prejudiciais que ela pode causar, a preveno assume um papel imprescindvel na reduo desse problema (5). Alm disso, a preveno da surdez comprovadamente custa muito menos do que o seu tratamento (protetizao ou implante coclear) (6). Com a finalidade de aperfeioar programas de preveno e de diagnstico de perda auditiva, o presente estudo realizou uma anlise de 2 anos de atuao do Programa de Sade Auditiva do Estado de Santa Catarina, buscando determinar o perfil do paciente atendido no Hospital Universitrio da Universidade Federal de Santa Catarina, que referncia em alta complexidade deste programa, sendo responsvel pela seleo e adaptao de prteses auditivas, e comparar os pacientes peditricos com os adultos. Dessa forma, espera-se contribuir na melhoria do atendimento a este tipo de paciente.


MTODO

O projeto deste trabalho foi aprovado pelo Comit de tica em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC (projeto n 336/08).

A presente pesquisa constitui-se em um estudo transversal. Foram selecionados aleatoriamente pacientes encaminhados para atendimento no Hospital Universitrio da Universidade Federal de Santa Catarina, do Programa de Sade Auditiva do Estado de Santa Catarina, atendidos no ambulatrio de Otorrinolaringologia no perodo de janeiro de 2007 a dezembro de 2008. Foram includos no estudo os pacientes com perda de audio e indicao de protetizao auditiva.

Os pacientes foram classificados em dois grupos: peditrico, com idade inferior a 18 anos, e adulto, com idade igual ou superior a 18 anos. Foram avaliados segundo a idade, sexo, tipo de perda, grau de perda, durao segundo quatro categorias (menor de 1 ano, maior ou igual a 1 ano e menor que 5 anos, maior ou igual a 5 anos e menor que 10 anos, maior ou igual a 10 anos), doenas associadas e etiologia provvel. Para avaliao do tipo e grau de perda, foram coletados os dados de ambas as orelhas por paciente e avaliaram-se os exames de audiometria tonal e/ou potencial evocado auditivo do tronco enceflico (PEATE).

Na classificao do grau de perda auditiva, quando a mdia dos limiares tonais de 500 a 3000 Hz fosse normal e houvesse perda auditiva em alguma outra frequncia, adotou-se o clculo da mdia dos limares tonais destas frequncias alteradas para classificao. Nos pacientes em que a avaliao da audio foi realizada apenas com PEATE, utilizou-se o limiar eletrofisiolgico para classificao.

A audiometria foi realizada com os aparelhos modelos SIBELMED AC-50D, INTERACOUSTICS AC33 e AD 229e, em cabine acstica, com o uso de fone de ouvido e vibrador sseo, avaliando-se os limiares auditivos por via area nas frequncias de 250, 500, 1.000, 2.000, 3.000, 4.000, 6.000 e 8.000 Hz. A via ssea foi testada nas frequncias de 500, 1.000, 2.000, 3.000 e 4.000 Hz. O potencial evocado auditivo do tronco enceflico foi realizado com o aparelho Smart Box Jr., com a utilizao de estmulo sonoro tipo clique.

A anlise estatstica foi executada com auxlio de dois softwares: Statcalc em Epiinfo 6, utilizado para o clculo das razes de prevalncia e significncia das associaes calculada pelo teste do qui-quadrado no nvel de confiana de 95% (p < 0,05) e EpiCalc 2000, utilizado para o clculo dos intervalos de confiana.


RESULTADOS

Foram analisados 304 pronturios de pacientes, sendo 31 (10,2%) do grupo peditrico e 273 (89,8%) do grupo adulto. No grupo peditrico, as idades variaram de 4 meses a 16 anos, com mdia de 7,75,4 anos. No grupo adulto, as idades variaram de 19 a 93 anos, com mdia de 6116 anos. A frequncia por sexo ficou distribuda da seguinte forma: no grupo peditrico, foram observados 18 (58,06%) pacientes do sexo masculino e 13 (41,94%) do sexo feminino, enquanto no grupo adulto foram 130 (47,62%) pacientes do sexo masculino e 143 (52,38%) do sexo feminino.

Com relao ao tipo de perda, no grupo peditrico foram 46 perdas neurossensoriais (74,19%, IC95%: 61,26-84,10), 3 mistas (4,83%, IC95%: 1,26-14,38) e 1 condutiva (1,61%, IC95%: 0,08-9,83). Observaram-se 2 casos com audio normal (3,22%, IC95%: 0,56-12,17) e em 10 ocasies os dados no estavam preenchidos (16,12%, IC95%: 8,41-28,13). No grupo adulto, foram 387 perdas neurossensoriais (70,87%, IC95%: 66,84-74,62), 145 mistas (26,55%, IC95%: 22,94-30,51) e 13 condutivas (2,38%, IC95%: 1,33-4,14). Houve 1 caso com audio normal (0,18%, IC95%: 0,01-1,18). O resultado da anlise estatstica mostrou que no h diferena significativa quanto prevalncia das perdas neurossensorial e condutiva entre os dois grupos (p=0,58 e p=0,70, respectivamente). Comprovou-se estatisticamente a maior prevalncia de perda mista no grupo adulto (RP=5,49; p<0,001).

A distribuio dos pacientes quanto ao grau de perda apresentada nas Figuras 1 e 2. O resultado da anlise estatstica mostrou que no houve diferena significativa quanto prevalncia de perdas de graus leve e severo entre os dois grupos (p=0,49 e p=0,68, respectivamente). Comprovou-se estatisticamente a maior prevalncia de perdas de graus moderado (RP=3,13; p<0,001) e moderado-severo (RP=1,84; p=0,036) no grupo adulto e a maior prevalncia de perda de grau profundo no grupo peditrico (RP=4,24; p<0,001).

Quanto durao da perda, no grupo peditrico houve 3 (9,57%) casos com tempo de perda auditiva inferior a 1 ano, 10 (32,25%) casos com durao igual ou maior que 1 ano e menor que 5 anos, 4 (12,90%) casos com tempo de perda igual ou maior que 5 anos e menor que 10 anos, 7 (22,58%) ocorrncias de durao igual ou maior que 10 anos, sendo que, em 7 (22,58%) pacientes, no foi possvel determinar o tempo de perda. No grupo adulto, houve 1 (0,36%) caso com tempo de perda auditiva inferior a 1 ano, 46 (16,84%) casos com durao igual ou maior que 1 ano e menor que 5 anos, 39 (14,28%) pacientes com tempo de perda igual ou maior que 5 anos e menor que 10 anos, 126 (46,15%) ocorrncias com durao igual ou maior que 10 anos, sendo que, em 61 (22,34%) ocasies, no foi determinado a durao da perda.

Com relao s doenas associadas, no grupo peditrico houve 8 (22,22%) casos de doenas neurolgicas e mais outras 6 comorbidades (nefropatia, rinite, cardiopatia, diminuio da acuidade visual, hiperatividade e leucemia) com 1 (2,77%) ocorrncia para cada uma delas, sendo que, em 22 (61,11%) ocasies, os pacientes no apresentavam doenas associadas. No grupo adulto, foram 105 (30,43%) ocorrncias de hipertenso arterial sistmica, 30 (8,69%) de diabetes mellitus, 27 (7,82%) de cardiopatia, 12 (3,47%) de doenas neurolgicas, 8 (2,31%) de distrbios psiquitricos, 6 (1,73%) de dislipidemia, 6 (1,73%) de hipotireoidismo, 5 (1,44%) de deficincia visual, 3 (0,86%) de pneumopatias, 3 (0,86%) de hiperplasia prosttica benigna, 2 (0,57%) de doenas dermatolgicas, 2 (0,57%) de doenas gastrointestinais, 2 (0,57%) de cncer, e mais 4 outras doenas associadas (labirintopatia, osteognese imperfeita, gota e dificuldade de locomoo) com 1 (0,28%) ocorrncia para cada, sendo que, em 130 (37,68%) ocasies, no foi relatada comorbidades.

A distribuio dos pacientes quanto etiologia provvel da perda auditiva apresentada nas Figuras 3 e 4.



Figura 1. Grau de perda auditiva do grupo peditrico (n=62).
* Intervalo de Confiana de 95%.




Figura 2. Grau de perda auditiva do grupo adulto (n=546).
* Intervalo de Confiana de 95%.




DISCUSSO

Nos estudos de NBREGA et al (7). para o perodo de 1994-2000, DEREKY (8), KITTRELL e ARJMAND (9) demonstraram que as crianas com perda auditiva do sexo masculino predominaram sobre as do sexo feminino, respectivamente, na proporo de 1,2:1, 1,54:1 e 1,27:1. Em nosso estudo, no grupo peditrico o sexo masculino predominou em relao ao sexo feminino na proporo de 1,38:1, em concordncia com os estudos mencionados.

No estudo de FORTES et al. (5), a proporo de pacientes com hipoacusia, considerando todas as faixas etrias e os 277 pacientes atendidos (273 com hipoacusia e 4 com paralisia facial perifrica), foi semelhante, com discreto predomnio para os homens (1,06:1). No estudo de ABDEL-HAMID et al. (10), a proporo de homens e mulheres com perda auditiva com idade igual ou superior a 15 anos foi semelhante, com leve predomnio das mulheres (1,08:1). Em nosso levantamento, a proporo de mulheres no grupo adulto foi levemente maior do que a dos homens (1,1:1).

CECATTO et al. (6) constataram, atravs da anlise de 131 pronturios de alunos frequentadores de uma escola para surdos, que a perda auditiva neurossensorial foi a mais comum, representando 99% dos casos. LEE et al. (11) avaliaram 234 pacientes que pleitearam prteses auditivas e, das 468 orelhas analisadas, 77,56% apresentavam perda auditiva neurossensorial, sendo esse tipo de perda a mais encontrada em todas as faixas etrias. Tambm em nossa amostra a deficincia auditiva neurossensorial foi a mais comum, representando 74,19% e 70,87% nos grupos peditrico e adulto, respectivamente.

No levantamento de KITTRELL e ARJMAND (9), que avaliaram 291 deficientes auditivos com idades variando de 4 a 20 anos, a perda auditiva de grau profundo representou 82% dos casos. No estudo de CECATTO et al. (6), a deficincia de grau profundo ocorreu em 65%. Em nosso trabalho, comprovamos estatisticamente a maior prevalncia de perda de grau profundo no grupo peditrico.

No estudo de VERAS e MATTOS (12), 69,6% dos idosos com perda auditiva apresentaram perda de grau leve considerando a melhor orelha. WILSON et al. (13) estimaram a prevalncia de deficincia auditiva em pessoas com 15 anos ou mais e observaram, considerando a melhor orelha, que a perda de grau leve tambm foi a mais frequente. Em nossa pesquisa, diferentemente dos estudos citados, os graus moderado e moderado-severo prevaleceram no grupo adulto, provavelmente pelo fato de os pacientes terem indicao do uso de prtese auditiva, o que significa maior gravidade da deficincia apresentada.

O diagnstico precoce das deficincias auditivas na criana exige uma anamnese detalhada (4). Assim como no protocolo utilizado no presente estudo, deveria ser includo na histria questes sobre infeces, uso de drogas ototxicas, dados a respeito do nascimento (prematuridade, anxia, hiperbilirrubinemia), pesquisa de deformidades gerais e de casos de deficincia auditiva na famlia (4).

Em muitas situaes, mesmo com uma investigao minuciosa, a etiologia precisa da perda auditiva no pode ser definida. Nos estudos de CECATTO et al. (6), DEREKY (8) e WALCH et al. (14) no apresentaram etiologia definida respectivamente 33(25,2%) pacientes, 34(26,1%) crianas e 47(44%) crianas.

A alta incidncia de etiologia desconhecida no grupo peditrico nesse levantamento corrobora com os estudos descritos e demonstra que a aplicao de questionrio padronizado falhou na determinao da etiologia. A confirmao do diagnstico etiolgico de perda auditiva ainda constitui um grande desafio para a maioria dos pesquisadores (7). Em nosso trabalho, essas dificuldades na identificao da etiologia tambm foram encontradas no grupo adulto, j que as causas desconhecidas representaram a segunda causa mais comum de deficincia auditiva nesse grupo.

As causas genticas de perda auditiva esto presentes na maior parte dos estudos (7). No estudo de NBREGA et al. (7), a perda gentica ocorreu em 15,73% dos pacientes no perodo de 1990-1994, e em 8,33% das crianas nos anos de 1994-2000. No estudo de DEREKY (8), realizado em uma escola para surdos, a etiologia gentica representou a terceira causa mais comum de deficincia auditiva, com 31(23,8%) crianas afetadas, atrs apenas de convulso febril com 35(26,9%) e causa desconhecida com 34(26,1%) crianas. Constatou-se no presente estudo que a etiologia gentica/desconhecida, representada em 33,33% dos casos no grupo peditrico, foi a causa mais expressiva de deficincia auditiva, confirmando a importncia de ambas etiologias nesse grupo.

As principais causas perinatais responsabilizadas pela deficincia auditiva incluem a anxia, a prematuridade, a eritroblastose fetal e o kernicterus (4). De acordo com STREPPEL et al. (15), o acmulo de causas perinatais a razo da maioria das etiologias adquiridas de deficincia auditiva nas crianas alems. Segundo esses autores, o avano da neonatologia trouxe a diminuio da mortalidade perinatal e o aumento das complicaes perinatais, como a perda auditiva adquirida.

Em nosso estudo, as causas perinatais representaram a segunda causa mais comum de surdez no grupo peditrico e esse progresso da pediatria uma possvel explicao para esses achados. A anlise estatstica mostrou que no h diferena significativa entre a frequncia das causas genticas/desconhecidas e as perinatais no grupo peditrico. J no grupo adulto, as causas genticas e perinatais foram infrequentes, demonstrando a importncia de outras etiologias nessa faixa etria, como a presbiacusia, a PAIR, a otosclerose e a OMC.

A presbiacusia, perda auditiva devido idade, apontada como a principal causa de deficincia auditiva em idosos na literatura internacional, com uma incidncia de cerca de 30% na populao com mais de 65 anos de idade (16). De acordo com VERAS e MATTOS (12), que realizaram uma reviso da literatura sobre esse tema, a presbiacusia vem sendo considerada a causa mais comum de deficincia auditiva em pessoas idosas no Brasil, implicando numa dificuldade de compreenso durante a comunicao verbal. Em nosso trabalho, a presbiacusia foi a principal causa de perda auditiva no grupo adulto, mostrando concordncia com as referncias citadas. Comprovou-se estatisticamente que a presbiacusia a etiologia mais frequente no grupo adulto.

A perda auditiva induzida pelo rudo (PAIR) a principal causa de surdez e perda auditiva nos Estados Unidos. Embora o envelhecimento e a gentica sejam os principais fatores de risco, a perda auditiva temporria ou permanente est se tornando cada vez mais comum entre adultos jovens e crianas, sobretudo com o aumento da exposio a aparelhos de msica portteis (17). Dessa forma, devem ser educados e orientados a evitar o uso desses equipamentos. Em nosso estudo, no foi encontrado nenhum caso de PAIR no grupo peditrico, enquanto que no grupo adulto a PAIR foi responsvel por 5,63% das causas de perda auditiva.

Otosclerose uma das mais frequentes causas de perda auditiva no indivduo adulto (18). mais frequente no sexo feminino, na proporo de 2:1, podendo apresentar piora dos sintomas durante a gravidez (18,19). Sua incidncia mais comum entre 20 e 40 anos, sendo infrequente em crianas e adultos com mais de 50 anos (18,20). Em nossa pesquisa, a incidncia de otosclerose foi mais frequente nas mulheres, na proporo de 2:1, com 41,6% dos pacientes na faixa etria dos 20 aos 50 anos, sendo ausente antes dos 35 anos. possvel que a maior parte dos casos aps os 50 anos seja em parte justificada pelas indicaes de protetizao auditiva na otospongiose e pelo tempo de espera para marcao da consulta, j que o HU referncia estadual do Programa de Sade Auditiva. Uma das principais indicaes para o uso de prteses auditivas na otosclerose naqueles pacientes que no podem submeter-se ao tratamento cirrgico, sendo que a maioria desses so idosos. Tambm nos idosos, mais frequente a otosclerose associada ao acometimento neurossensorial, onde a cirurgia no modifica tal perda, sendo a indicao de prtese auditiva mais comum.

No estudo de FORTES et al. (5), a etiologia infecciosa representou aproximadamente 70% dos casos de deficincia auditiva na faixa etria inferior a 40 anos, diminuindo com o avano da idade, mas ainda representando 31% dos casos na populao acima de 60 anos, sendo a grande maioria dos casos de otite mdia crnica (79%) e secretora (18%) e apenas 1,2% dos casos otite mdia aguda. Abdel-Hamid et al. (10), em uma pesquisa com 4000 egpcios para estimar a prevalncia e as causas de perda auditiva no Egito, constataram que 16,02% (641) dos participantes apresentavam perda auditiva e as 3 causas mais comuns foram: otite mdia com efuso (30,7%), presbiacusia (22,7%) e otite mdia crnica supurativa (13,2%).

Em nossa pesquisa, a OMC, que foi includa no subgrupo sequela de otite mdia no grupo peditrico, ocorreu em 3 pacientes desse grupo e em 19 (5,94%) pacientes do grupo adulto, representando a terceira causa identificvel mais frequente de perda auditiva nesse ltimo grupo. possvel que esses casos de OMC em nosso trabalho, proporcionalmente menor do que nos estudos citados, tenha ocorrido por vrias razes, entre elas o fato de analisarmos apenas pacientes com indicao de protetizao auditiva. Isso permite que as etiologias cujo tratamento fundamenta-se principalmente no uso de aparelhos de amplificao sonora individual, como a presbiacusia, sobressaam-se em relao a causas em que o tratamento clnico e cirrgico sejam eficazes em grande nmero de pacientes, como nos casos de otite mdia crnica, incluindo a otite mdia com efuso.

Infeces adquiridas so outras importantes causas de perda auditiva. Entre as infeces adquiridas, a meningite , sem dvida, a principal e apontada como a etiologia ps-natal mais relevante de disacusia neurossensorial (6,15). Nos estudos de CECATTO (6) e BUTUGAN (21), foram avaliados pacientes com idades variando de 3 a 30 anos e no primeiro ano de vida respectivamente, e a incidncia de deficincia auditiva por meningite foi de 8,4% em ambos trabalhos. Foram atendidos nesse estudo 3 casos de meningite no grupo peditrico, representando, juntamente com a otite mdia crnica, a causa ps-natal mais comum de dficit auditivo nessa faixa etria.

Segundo NBREGA et al. (7), a rubola congnita ainda uma das principais etiologias de perda auditiva em nosso meio. CECATTO et al. (6) descreveram que a rubola congnita a principal causa pr-natal de perda auditiva pelos seus efeitos teratognicos e demonstrou que a rubola congnita correspondeu a 31 (23,6%) dos casos e foi a causa identificvel mais comum de deficincia auditiva. NBREGA et al. (7) constataram, durante o perodo de 1990-1994, que a rubola congnita foi a segunda causa mais comum de perda auditiva em crianas e adolescentes, sendo precedida apenas pela etiologia desconhecida.

No estudo de DEREKY (8), que avaliou 130 estudantes surdos com idades variando de 5 a 16 anos em uma escola na Turquia, no houve nenhum caso de rubola materna como causa de surdez. Similarmente, no houve sndrome da rubola congnita em outros 6 estudos na Turquia. Como nesse pas ainda no foi adotado um programa de imunizao contra a rubola, a imunidade natural contra a rubola alta. De acordo com STREPPEL et al. (15), a reduo dos casos de rubola congnita detectados na Alemanha parece ser devido ao sucesso da vacinao.

Em nosso estudo, a rubola congnita representou, no grupo peditrico, a causa menos comum de deficincia auditiva juntamente com o uso de ototxicos, mostrando a discordncia com estudos nacionais, mas de acordo com os estudos turco e alemo. Nos estudos realizados por NBREGA (7) e CECATTO (6), os pacientes foram avaliados nos anos de 1990-2000 e no ano de 2001, respectivamente. As aes de vacinao de 2001-2002 do Ministrio da Sade do Brasil, sendo direcionadas, de maneira geral, s mulheres de 12 a 39 anos levaram a reduo da incidncia da rubola. Entretanto, essa cobertura vacinal no foi homognea, acumulando suscetveis e contribuindo para os surtos de 2006 e 2007 (22).

Esses surtos no atingiram grandes repercusses em Santa Catarina, que apresentou 92 casos confirmados de rubola nos anos de 2006 e 2007, em comparao com outros estados, a exemplo do Rio Grande do Sul, que teve 2866 casos nesse mesmo perodo (23,24). Com o objetivo de interromper a circulao do vrus da rubola no Brasil, o Ministrio da Sade promoveu a campanha vacinal de 2008 para homens e mulheres, direcionada a faixa etria de 20-39 anos, que ficou definida como populao suscetvel (22). A tendncia que em anos subsequentes haja uma queda significativa dos casos de rubola no pas e, consequentemente, de sndrome da rubola congnita.

Em relao ototoxicidade na infncia, so os recm-nascidos com infeces graves no berrio de terapia intensiva que recebem antibiticos aminoglicosdeos. Vrios autores tm publicado porcentagens variveis de casos de ototoxicoses em crianas, decorrentes do uso de vrios antibiticos aminoglicosdeos. Outros autores relatam ausncia de ototoxicose em crianas que receberam essas drogas (3). Em nosso levantamento, foram atendidos 3 (5,88%) casos de perda auditiva no grupo peditrico, tendo como etiologia provvel o uso de ototxicos, sendo que em 2 crianas empregou-se a gentamicina.



Figura 3. Etiologia provvel no grupo peditrico (n=51).
* Intervalo de Confiana de 95%.




Figura 4. Etiologia provvel no grupo adulto (n=320).
* Intervalo de Confiana de 95%.




CONCLUSO

A maioria dos pacientes do grupo peditrico encaminhados para atendimento no Hospital Universitrio da UFSC, do Programa de Sade Auditiva do Estado de Santa Catarina, so do sexo masculino, com idade mdia de 7,7 anos, com perda auditiva neurossensorial, de graus leve e profundo, com durao da perda igual ou maior do que 1 ano e sem doenas associadas. As etiologias genticas/desconhecidas e as causas perinatais representaram mais de 60% de todas as causas desse grupo. A maior parte dos pacientes do grupo adulto encaminhados para atendimento so do sexo feminino, com idade mdia de 61 anos, com perda auditiva neurossensorial, de graus moderado e moderado-severo, com durao da perda igual ou maior do que 5 anos, sendo a hipertenso arterial sistmica a doena associada mais frequente. A presbiacusia foi a etiologia mais comum no grupo adulto.

Comparando os dois grupos houve maior prevalncia da perda auditiva do tipo misto no grupo adulto. Quanto ao grau, ocorreu maior prevalncia de perdas de graus moderado e moderado-severo no grupo adulto e profundo, no grupo peditrico. As principais etiologias identificveis foram distintas nos 2 grupos.


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1 Mdico (a) Graduado (a) pela Universidade Federal de Santa Catarina.
2 Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutor em Otorrinolaringologia pela Universidade de So Paulo.
3 Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina.
4 Mdico Otorrinolaringologista. Ps-graduando do Departamento de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de So Paulo.
5 Mdico Epidemiologista - Professor do Programa de Ps-graduao em Cincias Mdicas CCS/HU/UFSC. Doutor em Epidemiologia pela Universidade de Londres - Reino Unido.

Instituio: Universidade Federal de Santa Catarina. Florianpolis / SC - Brasil. Endereo para correspondncia: Oscar Cardoso Dimatos - Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos, 1010, Apto 601 - Centro - Florianpolis / SC - Brasil - CEP: 88015-700 - Telefone: (+55 48) 3225-2002 / (+55 48) 9914-2002 - E-mail: zicodimatos@yahoo.com.br

Artigo recebido em 21 de Outubro de 2010. Artigo aprovado em 13 de Novembro de 2010.
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